À frente da Coordenação dos Cursos de Artes Visuais e das Residências Artísticas da FAAP, Marcos Moraes se vê como um provocador capaz de instigar seus alunos a defender suas próprias ideias

Marcos Moraes entra pela porta que dá acesso à Coordenação dos cursos de Artes Visuais equilibrando o copo e o refrigerante entre as mãos ao mesmo tempo em que se desculpa pelos ínfimos 15 minutos de atraso. “Achei que seria breve, mas da próxima terei que sair disfarçado”, ele brinca, em razão da quantidade de pessoas que o pararam antes de retornar à sua sala. O excesso de solicitações se explica pela quantidade de atribuições que o professor paulista acumula dentro da Instituição. Além de ministrar disciplinas como História da Arte na graduação e na pós, ele coordena a Residência Artística FAAP, que já trouxe a São Paulo artistas de mais de 50 países, a Cité des Arts, programa por meio do qual alunos e ex-alunos da FAAP passam por uma experiência de seis meses em Paris, e os próprios cursos de Artes Visuais, bacharelado e licenciatura.

O dia a dia atarefado que começa por volta das 6 da manhã e não termina antes das 3 da madrugada não é novidade na vida do docente. Aos 17 anos, ele conciliava o trabalho como escrevente com a Faculdade de Direito da USP. Por seu fascínio em conhecer o mundo, chegou a cogitar seguir carreira diplomática, mas acabou de novo, quase dez anos após ter se formado, dentro de uma sala de aula – dessa vez, entre os alunos de Artes Cênicas na ECA. “De certa forma, tudo fazia sentido, já que no teatro também há essa dimensão da viagem, pois um dia você é uma criança de Thornton Wilder em 1930 e, no outro, um velho do Pirandello vivendo na Sicília.”

O professor e coordenador Marcos Moraes, em sua casa, em São Paulo

Do tempo em que fazia Direito, Marcos Moraes diz não se lembrar muito, embora tenha sido aprovado no exame da OAB e agora veja sua formação relacionada ao fato de ser frequentemente acusado como a pessoa que tem sempre a última palavra. “Pode ser um vício de quem passou cinco anos nas Arcadas, aprendendo tudo”, ri. Ele havia prometido que jamais se tornaria professor, mas quando foi convidado para dar aulas na FAAP – e depois para assumir a coordenação do curso –, no entanto, não conseguiu dizer não. Aos 62,
com um currículo extenso e diversificado, que abarca um doutorado em Arquitetura e atividades que vão de ator de teatro a técnico de museu, Marcos Moraes se classifica como o que Oswald de Andrade chamaria de “homem sem profissão”. “Mas quando me perguntam, digo que sou professor”, ele acrescenta rapidamente.

Você começou sua formação na Faculdade de Direito. Como foi essa escolha? Foi uma escolha exclusivamente minha, porque venho de uma família na qual todas as pessoas eram ligadas à educação: pai, mãe, tios, tias, praticamente todos eram professores. Quando fiz vestibular, nos anos 70, as possibilidades não eram tantas e, como eu trabalhava no cartório de títulos e documentos desde os 15 anos, o envolvimento com essa atividade me direcionou – naquela época, a gente começava a trabalhar cedo, para criar responsabilidades e também ajudar em casa. Além disso, eu pensava em viajar e achei que iria seguir a carreira diplomática, então me pareceu lógico fazer Direito.

O que se lembra desse período? Eu trabalhava até as 18h30 e entrava na faculdade às 19h, não tinha tempo de muita coisa. Me reunia aos fins de semana para estudar e era muito tímido. Por isso, resolvi fazer um curso de desinibição e criatividade com uma amiga no Teatro Escola Macunaíma. Foi quando comecei a ter uma ligação maior com teatro.

Foi aí que decidiu prestar Artes Cênicas? Não, nunca havia passado pela minha cabeça fazer teatro. Fazia o curso aos sábados e via todos os espetáculos que estavam em cartaz na cidade, absolutamente tudo, mas pensava mais em escrever críticas, o que muita gente oriunda da São Francisco fazia. Por isso decidi prestar Filosofia, pois achava que poderia estudar estética dentro da área de filosofia e assim ter uma embasamento maior para trabalhar com teoria e crítica. Uma das primeiras aulas que tive lá foi com a Marilena Chaui e fiquei embasbacado. Às vezes ia fazer prova e saía sem entregar nada. Não tinha coragem, aquela mulher era tão incrível e pensava que ela não poderia ler as bobagens que eu escrevia.

Marcos no Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha, em 1999

E como você migrou de Filosofia para Cênicas? Eu continuei cursando depois que passei na ECA. Fazia umas duas disciplinas a cada semestre, mas as obrigatórias mesmo acabei não concluindo. Optei por Filosofia para fazer alguma coisa relacionada à estética, mas lá não andava muito e foi quando cheguei à conclusão de que deveria tentar algo na área de artes. Quando contei minha decisão, as pessoas acharam que tinha enlouquecido, alguns amigos inclusive chegaram a conversar com a minha família para saber se eu estava com algum problema. Nas Cênicas, todo mundo tinha alguma experiência – tinha 27 anos e era o mais velho de uma turma de 20 alunos. No fim, acabei me tornando bacharel em interpretação: tenho registro profissional no Ministério do Trabalho como ator, fiz dois filmes, teatro, locução. Nas primeiras experiências, tinha certeza de que iria esquecer todo o texto; transpirava a ponto de ensopar a roupa, desmanchar a maquiagem. Lembro de um espetáculo que se chamava Happy End, um dos primeiros textos de Brecht, com direção de Augusto Francisco, que encenamos em 1986, no Tusp. Eu fazia o papel de um gângster que se disfarça de mulher para poder fazer parte de um bando. Usava salto alto, meia arrastão, foi superdifícil, mas consegui fazer.

E quando as artes visuais se tornaram presentes? Eu convivia com os alunos de Artes Plásticas, o contato começou ali, mas era uma ligação tênue. Nesse período, no entanto, apareceu um concurso na Secretaria de Cultura para o cargo de técnico de museus e fui trabalhar primeiro no Museu do Presépio e depois no Museu de Arte Sacra. Quando prestei o concurso público, havia entendido que era uma vaga para trabalhar na própria Secretaria de Cultura. Naquela época, ninguém sabia exatamente o que era técnico de museu – ninguém falava em curadoria. Foi lá que, digamos, comecei a estabelecer essas relações interartes e ampliar minhas perspectivas. Depois surgiu uma vaga para trabalhar no Museu de Arte Contemporânea da USP e me tornei a pessoa responsável pelas exposições do acervo. Assim que cheguei, em 1987, fui encarregado de preparar um gallery talk sobre a escultura Formas únicas de continuidade no espaço, do Umberto Boccioni, e fiquei torcendo para que ninguém aparecesse – de futurismo italiano tinha ouvido falar em umas duas aulas de História da Arte, por isso tive de estudar muito. A partir daí, comecei a ter contato mais direto com arte em um dos momentos de maior aprendizado que tive na vida. Não havia internet e eu passava o tempo estudando, lendo, consultando a biblioteca, catálogos e fichas. Conhecer o acervo era também abrir as gavetas e ficar totalmente deslumbrado. Eu podia mexer em desenhos do Di Cavalcanti, gravuras de Picasso. Algo que nunca havia pensado antes. Foi também a época que comecei a viajar pro exterior.

Sua primeira viagem foi para qual destino? Fui para Nova York. Lembro que cheguei e, no primeiro dia, desci em uma estação de metrô e acabei dentro do MoMa. Foi a primeira vez que vi Matisse e, logo depois, me organizei para voltar à cidade para ver uma mostra dedicada a ele. As pessoas acham que é uma loucura, mas passei a viajar só para ver exposições – nos últimos anos devo ter visto umas quatro mostras do Cy Twombly. No ano passado, também fui para Itália, Grécia e Alemanha. Em 14 dias, vi tudo que as pessoas não veem às vezes em uma semana. Viajar comigo não é fácil, porque começo às 8 horas e paro às 22, vejo todas as exposições, museus, salas, tudo. E brinco também que as viagens têm a ver com o meu interesse pela residência artística e o processo da produção em deslocamento.

Em 2010, de cima de um balão, sobrevoando o rio Nilo, o Vale dos Reis e com vista para o Templo de Hatshepsut

Quando você chegou à FAAP? Era final de 1993 e recebi um telefonema da professora Anna Mantovani, que havia assumido a direção da Faculdade de Artes Plásticas. Ela estava deixando algumas aulas de História da Arte e tinha me indicado para substituí-la. Quando soube o que era, disse “não” na hora. Sabia que para ser professor não havia como escapar da dificuldade do trabalho. E, na época das Cênicas, cheguei a dar aula de Educação Artística numa escola pública e foi uma das experiências mais difíceis que tive na vida. Mas, com a insistência, acabei finalmente vindo. Algum dia tenho que aprender a falar “não” de verdade.

Como foi esse início? Tive a mesma sensação que tive durante o talk sobre o Boccioni em 1987. Os alunos eram difíceis. Hoje tenho certeza de que não estava preparado. Não sei se pessoas se esforçavam tanto para preparar as aulas como eu, talvez pela minha inexperiência. Criei um sistema de fichas, até hoje tenho o arquivo e não conseguiria nem ler de tanto que escrevia.

Estamos contribuindo para a formação de um artista contemporâneo, e para ser contemporâneo é preciso saber o passado, viver o presente e fazer alguma coisa para o futuro

Desde 2000, você também assumiu a coordenação dos cursos de Artes Visuais. Como concilia todas essas atividades? Não consigo desvencilhar uma coisa da outra. Quando penso na Residência Artística FAAP, na Cité des Arts ou em uma exposição, estou pensando como isso pode se articular junto à vida dos alunos. Quem vai para a Cité, por exemplo, ao voltar pode trazer sua contribuição e chamar a atenção para o fato de que o processo de formação não se encerra no curso. Para mim está tudo muito entrelaçado, a coordenação do bacharelado, da licenciatura, a Anual de Arte da FAAP, as residências: tudo de alguma maneira também alimenta as aulas. Difícil entrar numa sala para ensinar História da Arte e não falar da sua relação com o cotidiano, a política e o que há de ideológico na posição de um artista.

No palco: Marcos Moraes em cena no espetáculo Relações familiares, dirigido por José Eduardo Vendramini, em 1984

E de que forma o momento político atual entra em sala de aula? Acredito que ao tratar das condições de produção, ao falar de censura em diferentes momentos, mesmo que isso não esteja explicitamente relacionado ao que está acontecendo agora, essas relações são feitas a todo momento. Por outro lado, não ministro só aulas de História da Arte, mas também uma disciplina que se chama Seminários de Investigação Contemporânea, na qual artistas da Residência Artística FAAP vêm se apresentar e aí não há como escapar do que está acontecendo no mundo: um artista de Cuba fala da situação no seu país, um artista trans apresenta sua perspectiva do que é ser trans. Não é sobre trazer posicionamentos ideológicos, mas sobre levar essas discussões para o contexto da sala de aula, afinal, estamos contribuindo para a formação de um artista contemporâneo, e para ser contemporâneo é preciso saber o passado, viver o presente e fazer alguma coisa para o futuro.

O que se espera de um aluno formado na FAAP? Queremos contribuir para que o aluno tenha condições de desenvolver um projeto autônomo e seja capaz de se desenvolver a partir do que há de informação, refletir sobre o momento que vive e produzir olhando criticamente para o tempo no qual ele está inserido. E para isso é preciso não só autonomia, mas também informação, referência, leitura, técnica e, principalmente, experiência de vida. Também procuramos pensar na diversidade que nós temos, pois além dos alunos que buscam desenvolver uma pesquisa pessoal e atuar como artistas, há quem venha para a FAAP com o interesse de trabalhar como professor ou então no mercado de trabalho, em galerias, por exemplo. Uma das condições de um curso de Artes Visuais hoje é dar conta das múltiplas possibilidades de formação.

Quando sua relação com o ofício de professor mudou? Não sei dizer, mas hoje me fascina a ideia de provocar os alunos e de ver os olhos deles brilharem. Não brilham porque eu estou falando, não é isso: é a sensação de dar uma aula de vanguarda russa e perceber como eles não acreditam que não tinham visto isso antes. Acho que a dificuldade no início foi muito por insegurança, mas a partir do momento que fui me dando conta de que, por mais que não tivesse todas as informações, que não pudesse responder tudo, eu tinha condições de trazer alguma coisa nova, apontar algum caminho interessante, então fui me entendendo como alguém que pode ser parte de um processo maior de formação de olhares. Encontrei uma maneira de ser uma espécie de provocador, acho que me vejo mais assim. E a provocação significa deixar a pessoa em condição de se preparar e trazer argumentos para defender suas próprias ideias.

Você se imagina hoje sem dar aulas? Dificilmente. Ensinar é uma via de mão dupla, uma forma de estar sempre aprendendo e de estar vivo.

Obra Fairy tales, de Ai Wei Wei, exposta na mostra Documenta 12, na Alemanha. Logo após a abertura, teve uma forte chuva e ela desmorounou, ficando desse jeito

Por aí

Por Marcos Moraes

Eventos e lugares para viajar através da arte

“Paris contemporânea”, França_ Além dos roteiros habituais, é possível olhar para a cidade sob a óptica da investigação contemporânea. O Palais de Tokyo e seus projetos com inter-relações de linguagens, por exemplo, tal como seu programa de residência artística, Pavillon. Outros projetos de pesquisa das manifestações contemporâneas estão em espaços e plataformas artísticas como o F.R.A.C. Le Plateau, ou o centro de criação Le 104, além daqueles que exploram as relações entre linguagens modernas e contemporâneas, como o Jeu de Paume, MAC/ Val, e a Gaité Lyrique. Fica impossível também não mencionar, entre outras, as intervenções no espaço urbano da cidade, como Les deux Plateaux, de Daniel Buren (no Palais Royal), e Le Bel Costumé, de Jean Dubuffet (nas Tuileries).

“Mostra Documenta”, Alemanha_ É uma das mais antigas, tradicionais e relevantes mostras internacionais de arte. Seu destaque é, a cada cinco anos, reunir as mais relevantes investigações sobre as práticas artísticas contemporâneas. Em distintos espaços da cidade de Kassel, cada projeto instala uma nova proposta artística. Acrescente-se a isso que a cada duas edições é realizado, paralelamente, o projeto Skulptur, em Münster, no qual novos trabalhos são instalados no território urbano, sendo que muitos deles acabam sendo incorporados definitivamente. Assim, um museu a céu aberto vai se entranhando na cidade.

“Museu Hermitage”, Rússia_ A amplitude e a suntuosidade sem semelhanças, a relevância de sua coleção, inclusive com as incorporações das grandes coleções privadas do modernismo, fazem do museu Hermitage, em São Petersburgo, um lugar absolutamente singular. Suas quase 500 salas foram especialmente planejadas para receber a vida do Palácio Imperial – somente após a Revolução de Outubro de 1917 que o espaço é declarado museu, como o conhecemos hoje. Perder-se pelas salas de malaquita e lápis-lazúli, enveredar-se pelos corredores de pintura francesa de Fragonard a Matisse, e encontrar uma obra de Tarsila do Amaral, em meio aos expressionistas alemães, como Lehmbruck, é algo fascinante.

Filmes que se destacam pela visualidade

Morte em Veneza, de Luchino Visconti_ Talvez tenha sido meu primeiro contato com o sublime. Vi o filme ainda adolescente e todo aquele universo me impregnou e até hoje faz com que seja impossível esquecer a magia inebriante da Veneza sob a óptica de Visconti. A primeira improvisação que fiz no curso de Artes Cênicas estava absolutamente contaminada e contagiada por aquela atmosfera que até hoje resiste e foi aprofundada depois do contato com as aquarelas de Turner.

2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick_ A chegada do homem à Lua é um fator relevante para pensar o filme que nos transporta para uma realidade incomparável. A transformação, como que um grito de liberdade, poderia ser o indício de possibilidades e, após o milenar salto tecnológico com que o longa continua sua sequência inicial, ele parecia mostrar novas perspectivas para quem sonhava em poder alçar lugares “nunca dantes navegados”. O espaço era a possibilidade infinita de se lançar para a vida do adolescente sem maiores perspectivas na São Paulo de 1970!