Elisabete França leva para a sala de aula da FAAP o conceito que ela coloca em prática - e que a tornou uma referência mundial: o de uma arquitetura premium para classes mais baixas

Arquitetura de ponta para pessoas de baixa renda. Foi com esse conceito simples – mas, na prática, revolucionário – que a arquiteta curitibana e professora da FAAP Elisabete França se tornou referência, no Brasil e no mundo, de gestora pública no setor de urbanismo. Como superintendente da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) de São Paulo, entre os anos de 2005 e 2012, ela coordenou a contratação de escritórios de arquitetura para realizar 60 projetos de habitação social e urbanização de favelas – desde nomes consagrados como Ruy Ohtake (que fez um conjunto de prédios circulares e coloridos na favela de Heliópolis) até jovens talentos como Marcos Boldarini (que desenhou o Parque Linear Cidade do Céu, à beira da represa Billings).

“O poder público sempre achou que habitação social tinha que ser padronizada e com baixo investimento, aqueles grandes conjuntos de aparência uniforme e materiais baratos. A ideia de chamar arquitetos para criar projetos que atendam a demandas específicas de cada comunidade pode soar como um senso comum, mas foi uma quebra de paradigma. As populações atendidas debatiam com os arquitetos sobre como queriam suas casas, o espaço público, os equipamentos culturais. Há uma diferença enorme entre morar em má arquitetura pública e boa arquitetura pública. O morador se orgulha, se apropria, cuida da casa, do prédio”, conta Elisabete.

São Paulo tem todos os problemas de uma grande cidade, mas também tem as coisas boas, o acesso à cultura, a relação com a diversidade de pessoas, a concentração de inteligência

Seu trabalho à frente da superintendência da Sehab mudou as feições da cidade e virou modelo internacional. Uma mostra sobre os projetos foi destaque na renomada Bienal de Roterdã (Holanda), depois passou com sucesso em Berlim, Milão e Londres. Elisabete recebeu o prêmio João Batista Vilanova Artigas do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), e o projeto de urbanização municipal de favelas ganhou o prestigiado Scroll of Honour Award da ONU-Habitat. Ela conta ainda, com orgulho, que os projetos inspiraram desde uma exposição no MoMA de Nova York sobre habitação para pessoas de baixa renda até modernos prédios residenciais no bairro paulistano da Vila Madalena para a alta renda.

Formada na Universidade Federal do Paraná (UFPR), com mestrado na FAU-USP e doutorado pelo Mackenzie, Elisabete foi curadora do pavilhão brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2002 e consultora de projetos habitacionais em mais de 15 países junto a organizações como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a ONU-Habitat. Hoje, aos 59 anos, ela é diretora de Planejamento e Fomento da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), sócia do escritório de arquitetura Studio2E Ideias Urbanas e professora do núcleo de estudos USP Cidades.

Desde o ano passado, Elisabete empresta sua experiência como gestora para ajudar a formar alunos de Arquitetura e Urbanismo da FAAP. Ela atua como professora de TFG (Trabalho Final de Graduação), no último ano do curso, e acompanha com satisfação o aumento do interesse por sua área de trabalho. “Neste ano há muitos TFGs dedicados a urbanização de favelas, habitações de interesse social, retrofits de prédios abandonados da região central. Existe uma enorme demanda de projetos públicos para a clientela de baixa renda”, afirma. “É um caminho novo que se abre para os arquitetos.”

Como surgiu seu interesse pela arquitetura? Meu avô era mestre de obras em Curitiba. Eu adorava ir para as obras com ele desde criança. Acho que foi aí que começou meu interesse. Quando eu entrei no curso de Arquitetura, em 1975, mulher quase não fazia faculdade. Meu pai, que era professor de inglês, ficou louco. Achava que eu tinha que fazer Letras, como ele. Mas depois ficou superorgulhoso.

Como você foi parar na área pública? O Jaime Lerner, que era um cara que estava muito à frente dos outros nessa questão da arquitetura para a escala humana, foi meu professor na faculdade e se tornou uma grande referência. Meu primeiro trabalho foi no Ippuc (Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba), que ele havia criado. Fiquei meses trabalhando em um projeto de uma rua de lazer em Curitiba, numa época em que ninguém tinha ouvido falar de fechar ruas. Ainda na faculdade, meu grupo ganhou um grande concurso promovido pelo BNH de projetos habitacionais. Então, eu fui me encaminhando para essa atividade com a cidade, com a baixa renda, desde o princípio da carreira.

E como foi sua chegada à FAAP? Fui convidada por Mario Figueiroa [então, coordenador do curso de Arquitetura] para dar aulas de graduação e fui para o TFG [Trabalho Final de Graduação], o último ano do curso, para acompanhar os trabalhos finais. A ideia do TFG é um projeto de um ano que demonstre seu aprendizado em todas as áreas. O aluno escolhe um tema, faz a pesquisa, desenvolve o projeto. A gente orienta para que ele não trabalhe só no lote, para que ele faça uma leitura da cidade, uma conexão com o urbanismo.

Que tal a experiência até aqui? Incrível. Gosto do espírito da FAAP, de poder circular em um mesmo prédio por Artes Plásticas, Moda, Arquitetura, Engenharia, Direito. Alguns alunos do TFG estão criando um Museu da Moda, então eles vão lá no curso de Moda para conversar com os professores. Se a gente souber explorar essas conexões, sobretudo com a Moda e as Artes Plásticas, vai ser muito legal. A FAAP dá essa oportunidade. E isso expande o horizonte dos alunos.

Como o aluno da FAAP se diferencia dos outros estudantes? Os alunos daqui são curiosos, viajam muito e
buscam conhecer a arquitetura de outros lugares. Esse é um diferencial, essa vontade e essa possibilidade de viajar. Além disso, ele é um aluno bem-aceito pelo mercado, porque chega mais preparado. Muitos já estão trabalhando como estagiários em bons escritórios.

Gestão pública na área da habitação é uma paixão que você tenta despertar nos alunos? Você apresenta na faculdade os projetos que coordenou na secretaria? Sim, alguns dos arquitetos contratados para esses projetos já foram dar palestra aos alunos do TFG. Eu coloco o aluno em contato com os escritórios, sugiro visitas às áreas, levo material de referência, brasileiro ou internacional, quando o trabalho do aluno está ligado a esse tema.

Isso está transformando a cabeça dos alunos? Eles estão olhando mais para a coisa pública? Acredito que sim. Eles estão descobrindo que é um caminho profissional. Neste ano, o TFG tem cinco projetos de reurbanização de favelas e três de retrofit na área central de São Paulo: no antigo hotel Cambridge, no edifício Othon e em três predinhos da avenida São João.

Qual é o principal desafio dessa geração? Eles estão chegando ao mercado em um momento muito bom, porque o perfil de entendimento das cidades está mudando. Essa vai ser a geração da escala humana. A minha geração tinha aquela coisa brasileira do modernismo, mais monumental. Antigamente ninguém falava em pedestre, bicicleta, em derrubar o Minhocão. Agora é quase um item obrigatório da agenda política essa cidade que cuida do ambiente, que planta árvores, que controla a poluição, que reocupa o espaço público. E tudo isso vai demandar bons desenhos. Hoje, no poder público, não tem um profi ssional que saiba desenhar praças. Essa geração vai ter tudo isso pela frente. Quem optar por essa área de entender a cidade, de desenhar a cidade, terá boas perspectivas.

Você aprende com seus alunos? Claro, há um intercâmbio de ideias. Eles me trazem projetos que eu não conhecia. São 60 projetos de 60 alunos. Tenho que pesquisar, buscar referências para cada um. Neste ano tem muita gente fazendo projeto de horta urbana. Conheço pouco do assunto, então tenho que correr atrás. Outro TFG interessante neste ano é o de uma aluna com um projeto que prevê a derrubada do Minhocão.

Você concorda com a aluna? Sou da turma que defende a derrubada – e que é muito combatida por isso. É uma mudança de paradigma na cidade: sair do modelo rodoviarista – feito para o carro andar mais rápido – e investir no modelo humano, para as pessoas. Às vezes a mudança precisa de um símbolo forte, como a derrubada de um viaduto. Eles fizeram isso com a Perimetral na praça Mauá, no Rio de Janeiro, e deu muito certo.

Você concorda com o senso comum de que São Paulo está se tornando uma cidade inviável, por causa do trânsito, da poluição, da falta de água e de luz? Acho que precisamos colocar esse debate no seu devido lugar. Somos 11 milhões de habitantes na cidade, 25 milhões na região metropolitana. Não dá para aceitar o discurso da moda de que todo mundo precisa morar do lado do trabalho, de que todo mundo vai andar de bicicleta. Isso não é para todos. Sempre haverá grandes deslocamentos aqui. Então temos que apostar na melhora do sistema de transporte público. Uma coisa é passar uma hora lendo no ônibus, outra é ficar sacudindo no aperto. Temos que melhorar as nossas calçadas, porque há 13 milhões de deslocamentos diários de pedestres para trabalhar. Temos que ter um plano para árvores não caírem, para aterrar os fi os. Essa história de chover e acabar a luz não dá mais. São Paulo tem todos os problemas de uma grande cidade, mas também tem as coisas boas, o acesso à cultura, a relação com a diversidade de pessoas, a concentração da inteligência.

Há uma diferença enorme entre morar em má arquitetura pública e boa arquitetura pública. O morador se orgulha, se apropria, cuida da casa, do prédio

O que você gosta de fazer no tempo livre? De viajar. Vou sempre à Bienal de Veneza. Gosto de conhecer novos projetos de urbanismo pelo mundo. Nova York é uma das minhas cidades preferidas, tem sempre um parque novo abrindo, uma ideia nova de espaço urbano para me inspirar, e que eu acabo trazendo para as aulas. Gosto de comprar livros com meu marido, que trabalha com TI, mas estuda Filosofia. É o nosso hobby. Temos uma boa biblioteca. E também gosto muito de ir a balés e exposições. Esse é outro motivo para gostar de trabalhar na FAAP. Há grandes artistas contemporâneos dando aulas lá. Outro dia encontrei no corredor com a Géorgia Kyriakakis, uma das minhas artistas preferidas. Sou tiete mesmo. Quase pedi para tirar uma selfie com ela.