Em visita à FAAP em 2008, a atriz Liv Ullmann relançou sua autobiografia e contou detalhes de sua carreira e de seu relacionamento com o diretor sueco Ingmar Bergman em uma palestra para alunos, jornalistas e convidados

Faz quase dez anos que Liv Ullmann desembarcou no Brasil pela segunda vez. Depois da primeira passagem pelo país 23 anos atrás, como embaixadora da Unicef – ocasião em que visitou crianças de rua –, a artista norueguesa esteve na FAAP em 2008, para o relançamento de Mutações, seu livro autobiográfico escrito por ela em 1976.

Naquela manhã de 10 de outubro, a atriz, escritora e diretora (nascida no Japão) encontrou o Auditório 1 lotado. Estiveram ali, entre alunos, professores, jornalistas e outros convidados, 350 pessoas. Aos 69 anos à época, Liv falou durante cerca de duas horas sobre a carreira e a relação com o diretor Ingmar Bergman, de quem foi esposa e musa inspiradora. Sua parceria com o diretor sueco resultou em dez filmes, como Persona (1966), onde teve seu primeiro papel de destaque, e Gritos e sussurros (1972).

Cena do filme Gritos e Sussuros, de 1972 (Divulgação)

Antes da palestra, Liv foi agraciada com um café da manhã em uma sala ao lado do auditório. Ali, recorda-se o professor Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing, ela distribuiu simpatia em bate-papos com os convidados. “Liv se divertia contando que tinha pavor do café da manhã porque era o momento em que o Bergman acordava e dizia: ‘Eu tive um sonho’”, conta ele. “A atriz sabia que iria sobrar para ela, porque não seria um sonho comum e iria sofrer para dar vida a ele em algum filme.” Professor de História do Cinema da FACOM, Reinaldo Cardenuto também aproveitou o momento e conseguiu um autógrafo da norueguesa no seu exemplar da década de 70 de Mutações.

“Liv se divertia contando que tinha pavor do café da manhã porque era o momento em que o Bergman acordava e dizia: ‘Eu tive um sonho’. A atriz sabia que iria sobrar para ela, porque não seria um sonho comum e iria sofrer para dar vida a ele em algum filme” — Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing

Responsável pela recepção e mediação da palestra, Reinaldo foi escalado para a tarefa a apenas dois dias do evento. “Tive calafrio”, recorda-se. “Pô, era a Liv Ullmann! É muito impactante estar ao lado daquela grande atriz e mulher de beleza marcante.” Para não fazer feio, releu o livro da artista em meio dia, escreveu uma apresentação e bolou uma estratégia para tentar quebrar o gelo. “Eu sabia que a Liv adorava uma jaqueta marrom que o Bergman usava. Aí fui para a palestra com uma jaqueta marrom também”, diverte-se o professor, que recebeu os cumprimentos da atriz ao final da leitura de seu texto de introdução. Eis um trecho: “As personagens construídas pela Liv atriz e a Liv cineasta possuem tantas riquezas e ambiguidades, são tão humanizadas, que eu arrisco dizer que as mutações anunciadas no livro autobiográfico não dizem respeito apenas à Liv Ullmann, mas à sua capacidade em inquietar e transformar nosso olhar, em inquietar e transformar o olhar do espectador, o meu olhar”.