A diminuição da desigualdade social é o que tem movido a carreira – e a vida – do procurador de justiça Mário Luiz Sarrubbo. há anos com esse propósito, ele inspira os alunos da FAAP, e corre maratonas para aliviar corpo e mente

A ascendência italiana fica evidente quando Mário Luiz Sarrubbo, 52 anos, entra na sala. É afável com os colegas que encontra no caminho. Fala alto e com simpatia ao seu interlocutor. Há 26 anos, Sarrubbo dedica sua vida ao Ministério Público de São Paulo. Entrou como promotor e hoje é procurador de Justiça. Na trajetória profissional passou por diversas cidades do estado, Araçatuba, Itaquaquecetuba, Queluz, Mauá, até chegar à capital, onde está desde 1992. Uma de suas maiores realizações foi ser escolhido diretor da Escola do Ministério Público, de 2011 a 2013. “Foi meu melhor momento institucional”, afirma. “Porque aí junto tudo: a paixão pelo Ministério Público e a docência.” Há de se notar que sua locução traz também um tom professoral de quem se dedica à matéria há mais de duas décadas. Cerca de 15 anos dessa prática aconteceram na FAAP, onde ele ensina Direito Penal.

Em 1970, no 1o ano primário do colégio em São Paulo; nesta pág., durante a sessão de fotos, em seu apartamento

Na vida pessoal suas origens estão bem evidentes. É torcedor ardoroso do Palmeiras e se orgulha de ter ido a todas as finais do clube desde 1969 – só não assistiu in loco à derrota no Mundial Interclubes de 1999, no Japão. Tornou-se um apreciador de vinhos: “É uma desgraça, você começa a viajar para conhecer vinhos [risos]. Já fui mais de dez vezes para o Chile, vou uma vez por ano pelo menos”. É um cara muito família, como bom italiano. Casado há 21 anos com Simone, tem dois filhos, Pedro Henrique, 14 anos, e Luis Felipe, 17, e está sempre com os familiares por perto – ele mora, inclusive, a algumas quadras da irmã e dos pais. Um professor que já inspirou muitos alunos a seguir a carreira pública como promotores. Mas que tem um objetivo maior como educador: “Consolidar meus filhos como bons profissionais, bons cidadãos. Quero formar dois homens bons para a sociedade brasileira”.

Em 2013, na Escola Superior do Ministério Público, onde foi diretor de 2011 a 2013

Em 2012, ao cruzar a linha de chegada de sua nona maratona, em Berlim, com o tempo de 3h59

Quais são suas origens?
Nasci em São Paulo. Sou do bairro de Moema, onde moro até hoje. No meu tempo, a gente brincava muito na rua. Tinha time de futebol do bairro, com camisa e tudo. Andava muito de bicicleta também porque sempre morei perto do parque do Ibirapuera. Hoje vou lá quatro vezes por semana no mínimo, para correr.

Que tipos de corrida você faz?
Meia maratona e maratona. Quebrei o tornozelo jogando futebol e tive que fazer uma cirurgia. Comecei a correr para me recuperar e não parei mais. Já corri as maratonas de Blumenau, Porto Alegre e, claro, São Paulo. No exterior, as de Chicago, Paris, a de Berlim duas vezes, Nova York, Washington e estou inscrito este ano para a de Amsterdã. Não quero terminar esse ciclo sem antes correr as de Boston e Londres.

Como isso se relaciona com sua profissão?
A nossa carreira é muito tensa, principalmente para mim – nesses 26 anos, atuei na área criminal. Preciso extravasar em algum lugar. Costumo dizer que a corrida é o meu Prozac. Em vez de tomar o remédio, eu corro [risos].

Hoje, quem tem acesso à justiça? A classe média e a classe alta. O pobre, o miserável, o negro ainda estão longe de serem atendidos pelos canais da justiça. Esse é um grande desafio

Como decidiu estudar direito?
Eu era um aluno mediano na escola, meio folgado, como a grande maioria. Na oitava série, surgiu uma discussão numa aula, em que havia um júri simulado para discutir pena de morte. Fui escalado como promotor para falar a favor. Gostei do negócio.

Sua decisão de seguir direito foi bem-aceita na família?
Causou uma comoção. Meu pai, que é advogado, falava: “Isso é coisa de vagabundo”, achando que eu ia me encostar no escritório dele… [risos]. Ele até me levou para fazer um teste vocacional.  Mas, para seu azar, deu direito mesmo. No Mackenzie, no terceiro ano da faculdade, já tinha em mente que seria promotor de Justiça.

Como foi se tornar promotor?
Consegui aprovação no concurso do Ministério Público em 1989, que era o que eu tanto queria – defender os direitos sociais. Mas, olha, foi um choque muito grande porque aquelas expectativas que você tem, aquele sonho, vão abaixo. É um volume de serviços extraordinário. Mal dá tempo de atender público, conversar, fazer a diferença. Você não vê o resultado das suas ações. Com o tempo isso vai passando.

Você se sente realizado?
Acho que onde me senti realmente promotor e senti que acertei mesmo e me realizei foi em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Era um lugar absolutamente carente e consegui ver o resultado do trabalho. Na área criminal, no patrimônio público: entrei com liminar contra a prefeitura e derrubei o IPTU progressivo. Também a atuação na infância, que foi algo que sempre me tocou bastante, com menores carentes e infratores. Pude conhecer um pouco esse mundo e tentar fazer a diferença. Ali, tive a certeza absoluta de que devia mesmo ser promotor.

A nossa carreira é muito tensa. Preciso extravasar em algum lugar. costumo dizer que a corrida é o meu Prozac. Em vez de tomar o remédio, eu corro

Em seu escritório, Sarrubbo fez um painel que reúne as fotos e medalhas das mais de 30 competições de que participou

Você acha que o Ministério Público avançou nesse período?
Sem dúvida. Eu vi a ditadura. Acho que o Brasil evoluiu muito e o Ministério Público também, claro. Tive absoluta certeza de que a população reconheceu isso, em 2013, quando aquelas manifestações populares de junho aconteceram.

E como foi parar em sala de aula?
Não imaginava ser professor, mas de repente me vi como promotor no tribunal argumentando, falando em público e aí percebi que tinha habilidade. Uma atividade complementa a outra. Em sala de aula, até treino um pouco os argumentos que farei no tribunal.

Que tipo de profissional vocês buscam formar na FAAP?
Quando cheguei aqui, questionei se eu iria dar certo na faculdade, porque o projeto era formar advogados para grandes corporações, que poderiam ser CEOs ou diretores de empresas. E eu fiz concurso público e sou promotor de Justiça… [Risos]

Como você se encaixou?
Acabei rompendo aquele perfil inicial e formando promotores, defensores públicos, juízes. Tenho um exemplo aqui, uma aluna de terceiro ou quarto semestre vira para mim e diz: “Professor, meu sonho é ser promotora, mas não sei se meus pais vão deixar porque é muito perigoso”. Respondi: “Que nada! Deixa que mais para a frente eu converso com eles”. Essa moça, a Roberta Amá Ferrante, virou minha monitora, orientei a carreira dela inteira e hoje ela é promotora. Ela fez sair lágrimas dos meus olhos. Eu era diretor da Escola do Ministério Público e ia receber os novos promotores. No dia que proclamaram o resultado vi a Roberta, minha aluna que concretizou um sonho.

Como você vê o estudante de direito hoje em dia?
Ele não vem mais com o livro do código penal, ele vem com o iPad. O acesso à informação que os alunos têm hoje é muito maior. Por outro lado, o nível de concentração é muito menor.

Como isso mudou seu estilo de lecionar?
Tenho que estar tão conectado como eles, porque a notícia de ontem vai ser perguntada na sala de aula. Esta é a grande arma que nós temos para entreter os alunos: mexer muito com atualidade. Aconteceu o caso do racismo contra o goleiro Aranha. Imediatamente tenho que comentar.

De que forma a tecnologia modificou a atividade do promotor?
Facilitou muito. Vou dar um exemplo: quando se pede uma condenação, precisamos da folha de antecedentes do indivíduo. Isso é importante para a gente chegar a uma sentença justa. Antigamente, nós tínhamos que pedir isso ao juiz, que expedia um ofício, que demorava cinco dias pra chegar e ficava lá numa pilha… Hoje, é um clique.

Como os profissionais estão se adaptando a essa situação?
Ainda perdemos nesse quesito, porque o avanço da tecnologia é, claro, muito maior do que o da legislação. Até porque temos um grande problema aqui no Brasil: o ranço da ditadura. Parece que, no meio jurídico, temos um certo trauma quando há alguma intervenção estatal: uma quebra de um sigilo bancário, um mandado para invadir um domicílio. Isso parece uma violência. Hoje, com a questão do Petrolão, ou mesmo do Mensalão, vem à tona a questão da delação premiada.

Esta é nossa função grosso modo: trabalhar para diminuir a desigualdade

Qual sua opinião sobre isso?
É tão fácil fazer lavagem de dinheiro com a tecnologia de hoje que, se não houver, não vamos pegar ninguém. Alguns vêm e dizem: “Mas a delação premiada não pode acontecer! É imoral!”. Mas, espera, o Estado tem que ter instrumentos para poder combater o crime. Então, há esse paradoxo. As pessoas ainda têm um pouco de receio da ação estatal, com medo de voltar à ditadura, o arbítrio. Isso não existe mais. Nós temos um judiciário sólido. Lento, mas sólido. Para haver um abuso de autoridade precisa passar pelo Ministério Público e pelo Judiciário. Convenhamos, é difícil.

Essas atuações conjuntas da polícia federal com o Ministério Público ganharam muito destaque na mídia. O que você acha disso?
Quando Ministério Público e polícia atuam de mãos dadas, a chance de sucesso é muito maior. Os grandes trabalhos que fiz na instituição foram lado a lado com delegados. Com isso a gente consolida o estado democrático de direito. Então, essa sensação de que hoje só há crime e corrupção é porque antes a gente não sabia. Hoje a gente sabe. Agora, claro, o efeito disso, talvez o meu filho não veja, mas os filhos dele vão ver.

O que é preciso para fazer Justiça?
A resposta é muito simples, complicado é concretizar. A gente precisa de uma Justiça democrática, forte e que conceda ao indivíduo o acesso universal. Hoje, quem tem acesso à Justiça? A classe média e a classe alta. Para esses a Justiça não é um problema via de regra. O pobre, o miserável, o negro ainda estão longe de serem atendidos pelos canais da Justiça. Esse é um grande desafio.

OS MAIORES CASOS DE SARRUBBO

O PROMOTOR DE JUSTIÇA TEVE ATUAÇÃO DETERMINANTE EM DOIS ACIDENTES AÉREOS EM SÃO PAULO

1996_ Queda do Fokker 100 da TAM no Jabaquara_“Um grande choque, né? Fui promotor criminal no Jabaquara por mais de 15 anos, ali na região do aeroporto de Congonhas. A atuação do Ministério Público foi determinante porque acabou praticamente empurrando as companhias aéreas e as seguradoras para as indenizações. Para tentar reparar um pouco do mal dessa grande tragédia.”

1999_ Rebelião na Febem Imigrantes_ “Eu atuava na esfera criminal e nós conseguimos identificar torturadores de menores, processá-los e colocamos até na cadeia alguns dos monitores da Febem que espancavam e torturavam. Nós fizemos um trabalho lá de muito risco. No meio da rebelião nós entrávamos na Febem, era um medo tremendo.”

2007_ Queda do Airbus A320 da TAM_ “Houve uma absolvição agora na Justiça Federal, mas era minha denúncia [contra a TAM, a Anac e a Infraero, por suposto atentado contra a segurança de transportes aéreos]. Não fui eu que acompanhei, até porque depois eu me promovi e passei a diretor da Escola do Ministério Público. Mas vai haver um recurso.”

FAÇA DIREITO

SARRUBO INDICA O QUE É PRECISO PARA ATUAR EM CADA ÁREA

PROMOTOR_ “Tem que ter uma sensibilidade social muito grande. Agora, esqueça o salário. Você vai viver confortavelmente, mas sem se tornar rico. Só os verdadeiramente vocacionados é que resistem [às outras atividades mais rentáveis do Direito] e exercem a função do jeito que tem que ser, com muito engajamento.”

ADVOGADO_ “É preciso se despir um pouco do sentido social, e pensar no interesse do cliente. A função dele é fazer justiça também, mas isso significa dar o amplo direito de defesa ao cliente [seja ele quem for].”

JUIZ_ “Tem que ser um sujeito muito sereno e equilibrado, com um grande senso de justiça. Vou botar no mesmo pacote promotor, juiz, delegado e defensor público: você tem que ser um cara com muito sentido de humanidade, conhecer os princípios da dignidade, os direitos do cidadão. Porque esta é nossa função grosso modo: trabalhar para diminuir a desigualdade.”

ESTRELAS DO TRIBUNAL

OS SERIADOS PREFERIDOS DE SARRUBBO PARA APRECIAR A PROFISSÃO NA FICÇÃO

SUITS_ “Eles são muito estrelas, mas é interessante a dinâmica do direito americano. Se isso retrata a realidade, os juízes de lá são muito arbitrários. Eu decido e acabou!”

EM DETALHES_ Um advogado de um escritório de prestígio contrata um jovem que não tem diploma de advogado, mas que passou nos testes graças a sua memória incrível. Juntos, eles trabalham para resolver casos complicados. Disponível apenas no Netflix no Brasil.

SCANDAL_ “Uma advogada que trabalha fazendo um serviço um pouco sujo em casos emblemáticos que envolvem até o presidente. Séries que envolvem política e direito são meu vício no momento.”

EM DETALHES_  Olivia Pope toca um escritório que só resolve casos difíceis de forma pouco ortodoxa. Além disso, ela é amante do presidente dos Estados Unidos e se envolve em casos que comprometem a segurança nacional. Exibido no canal Sony e disponível no Netflix.