Criado entre bordados e máquinas de costura, João Braga soube unir suas duas paixões – a moda e a sala de aula – em um mesmo ofício. Na FAAP desde os anos 90, o professor de história da moda fala sobre o desafio de manter os alunos interessados em um universo movido pela constante mudança

João Braga pode ser considerado um sujeito excêntrico e, literalmente, à moda antiga. Há uma televisão em um canto de seu apartamento, mas que segue desligada há 16 anos. Computador ele não tem, assim como e-mail ou celular. Para ouvir os recados deixados em seu telefone fixo, segue pela cidade atrás de um orelhão – quem aí se lembra deles? Aos 55 anos, já publicou 11 livros, incluindo o best-seller História da moda – Uma narrativa (Editora Anhembi Morumbi, 2004), todos escritos e revisados à mão. “De perto ninguém é normal. Eu não gosto de máquinas e acho que elas também não gostam de mim”, diverte-se o professor de História da Moda da FAAP e um dos principais estudiosos do tema no país.

Por outro lado, João coleciona objetos que, para muitos, estão se tornando obsoletos. Seu apartamento guarda, por exemplo, as fitas cassete com todas as mensagens deixadas em sua secretária eletrônica. Só livros são cerca de 25 mil, divididos em nove categorias – foi preciso um segundo imóvel para acomodá-los. “Minha casa é um minimuseu”, conta o leitor compulsivo. Obcecado por feiras de antiguidade, ele também acumula jarras, crucifixos, pratos de parede, em sua maioria do estilo vitoriano do século 19. E, até hoje, é ele quem faz suas camisas nada minimalistas que já viraram referência nos corredores da FAAP – são mais de 400 modelos, todos bordados com suas iniciais.

Caçula de uma família cercada por mulheres, João cresceu admirando as avós, a mãe, as tias e as duas irmãs usarem o bordado e a costura como profissão. Nascido na pequena Paraíba do Sul, no interior do Rio, ele se mudou para Juiz de Fora disposto a estudar Educação Artística em uma época em que os cursos de Moda ainda não eram realidade. E, diante da primeira oportunidade, seguiu para São Paulo para trabalhar em um atacadista de tecidos.

Deco Cury

Mais do que confirmar seu encantamento pelo universo da moda, a oportunidade abriu portas para outras duas paixões de João: estudar e lecionar. Prova disso é seu currículo recheado: o professor é pós-graduado em História da Indumentária e da Moda pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mestre em História da Ciência pela PUC-SP, especialista em História da Moda pela ESMOD de Paris e em História da Arte pela FAAP. “Cheguei a dar aula em cinco escolas ao mesmo tempo. Por três vezes, fui parar no hospital por desgaste vocal. Quando sobra qualquer tempinho, vou fazer um curso, assistir palestras, sou doido por informação. Considero-me um eterno aprendiz.”

Ver um aluno se tornar um profissional que deu certo é gratificante. O professor não é o dono da verdade, mas tem mais vivência que o aluno. Se o estudante tem o interesse em assimilar, é porque você acendeu uma centelha. Isso é muito bacana

Seu interesse pela moda ainda criança foi natural?
Não tinha como ser diferente. Com minhas duas avós costureiras, minha mãe, tias e irmãs, bordadeiras, eu sempre gostei dos afazeres artísticos e manuais. Prestei Arquitetura e ainda bem que não passei – teria odiado a parte de cálculo. Fui estudar Desenho e Plástica e Educação Artística, na Universidade Federal de Juiz de Fora, e o curioso é que sempre direcionava meus trabalhos práticos para a moda. Queria fazer minhas apresentações em tecido e o professor não deixava. Pintava camisetas à mão. Certo dia um amigo me falou sobre uma vaga de trabalho na Ragueb Chohfi, um dos maiores atacadistas de tecido da América Latina. Eles queriam montar um ateliê de estamparia em São Paulo. Vim de mala e cuia e fiquei 12 anos na empresa. E foi aí que comecei a desenhar camisas.

Você chegou a vender camisas?
No começo era só para mim, mas elas fizeram tanto sucesso que acabaram virando uma forma de me ajudar. Eu criava e, quando ia para a minha cidade, deixava os tecidos e desenhos com a minha mãe e irmãs para serem confeccionadas. Mas, quando percebi, estava fazendo alterações só para agradar os clientes e perdendo a identidade do meu trabalho. Hoje, crio só para mim. Se alguém quiser, aviso que vai ser do meu jeito. Se gostou, ótimo, caso contrário, não é obrigado a ficar com a camisa [risos].

E como surgiu a ideia de ser professor?
Meu padrinho era reitor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), então já convivia com o meio acadêmico. Antes da faculdade eu ensinava inglês e, durante minha formação, fui monitor de História da Arte e Desenho Técnico. Sempre gostei de dar aula. No início dos anos 90, fiz um curso de História da Moda com a professora Serafina do Amaral [na época, uma das maiores especialistas no assunto do país e pesquisadora de prataria do Palácio dos Bandeirantes, em SP]. Fiquei tão encantado que comecei a seguir seus passos, no Senac, na Casa FAAP Moda [que oferecia cursos livres nos anos 90]… Onde ela ia dar aulas eu corria atrás. Acabei virando uma espécie de assistente da Serafina e, quando ela não podia dar alguma aula, me chamava para substituí-la. Por causa dela acabei virando professor de História da Moda.

E como ingressou na graduação da FAAP?
Quando o curso sequencial de Moda [espécie de curso técnico] foi montado, em 2000, um professor me convidou para dar aula de História da Moda. Foi aí que entrei oficialmente para o corpo de professores da instituição, mas estou aqui desde 1990, nos cursos livres que aconteciam na Casa FAAP Moda. Hoje, além da graduação, dou aulas variadas, como História da Joalheria e História da Arte, nos cursos livres.

Você quer criar moda para ser diferente. Se aquilo é assimilado e vira moda, torna-se democrático, coletivo. Aí você não quer mais usar – todo mundo está usando. Se aceita, essa subjetividade passa a ser estilo de uma época

O que mudou na área ao longo dos anos?
A moda tornou-se profissão no Brasil. No início, quem trabalhava com isso era um químico que conhecia cor; um arquiteto ou designer que conhecia forma e volume. O ensino de moda no Brasil teve início, de fato, quando Marie Rucki, diretora do Studio Berçot, em Paris, veio para cá pela primeira vez, em 1978. Depois, os cursos livres passaram a acontecer. E a FAAP, sempre antenada aos novos tempos, introduziu o curso de Moda, primeiro sequencial e depois superior, em 2008. Hoje, o Brasil é o país no mundo que mais tem curso superior de moda – são em torno de 180. Obviamente você tem que se adaptar aos tempos pela questão da própria concorrência, pela atualização, porque moda é uma coisa muito mutante. Hoje você está na moda, amanhã, não mais. A realidade desse mercado é a mudança constante.

Esse é o principal desafio de ensinar Moda?
Um deles. A mudança não acontece só para quem consome moda. Hoje é um tecido, fibra natural, amanhã é fibra sintética. A moda tem essa característica de negar o que está em vigência para lançar algo como novo. As escolas precisam estar de olho nisso. São mudanças mensais, quase que diárias. Há marcas que lançam 54 coleções por ano! Imagine quanta coisa muda nos quatro anos em que o aluno está na faculdade. É preciso estar atento ao que hoje funciona como incipiente porque isso há de vingar como realidade. A FAAP cumpre um papel muito significativo no que diz respeito à contemporaneidade.

No lançamento do livro Reflexões sobre a moda (volume IV), em 2006 (Arquivo Pessoal)

Como a FAAP exerce este papel diante dessas mudanças tão velozes?
Ela conscientiza o aluno da tríade passado, presente, futuro, e o orienta sobre o leque de possibilidades para ser um profissional. Acima de tudo, incentiva o aluno a criar. Promove belíssimas exposições, mas não só de moda, de arte também. Investe no material didático e no maquinário, e consegue seguir o ar dos tempos quando se trata da questão tecnológica. Além de palestras, a FAAP ainda promove inúmeros cursos livres e de extensão na área de Moda e tem um teatro incrível, onde o estudante entra em contato com áreas como figurino. Outro projeto importante é o concurso FAAP Moda, que se tornou uma referência no mercado. Ele foi feito para estimular os alunos a criarem com todo o apoio da instituição, de empresas e de profissionais do mercado. Não é à toa que a FAAP tem alunos do Brasil inteiro.

O que mais o atrai no papel de professor?
A responsabilidade de educar. Os jovens estão muito aéreos, só querem o imediato, principalmente por causa das tecnologias. Para eles, o mundo funciona na palma da mão, e não é assim. Eu digo: “Gente, vocês levaram nove meses para nascer, tudo tem seu tempo”. Ainda mais na minha aula, que trata da história. Eles não entendem que uma das características contemporâneas do processo criativo é revisitar o passado. Então, ver um aluno se tornar um profissional que deu certo é gratificante. O professor é aquele que professa, que fala pela sua experiência. Não é o dono da verdade, mas tem mais vivência que o aluno. Se o estudante tem o interesse em assimilar, é porque você acendeu uma centelha. Isso é muito bacana.

E você se diz um professor “GLS”….
Isso mesmo: giz, lousa e saliva. Não deixo os alunos usarem celular, sou ortodoxo. Vivo dizendo: “Pegue o papel e copie, é assim que se aprende”. A falta de educação com celular me incomoda muito. Acho essa exposição desnecessária. Você sempre almoçou! Precisa fotografar seu prato e botar na rede?

Como você enxerga o futuro da moda nacional?
A moda, como um todo, está passando por uma turbulência. Acho importante estudar o passado para compreender o presente e, até mesmo, planejar o futuro, seja como expressão cultural, releitura ou ressignificação. As modas autorais ou locais, mas de caráter universal, são um caminho. Daí aponto um paradoxo: você quer criar moda para ser diferente. Se aquilo é assimilado e vira moda, torna-se democrático, coletivo. Aí você não quer mais usar – todo mundo está usando. Se aceita, essa subjetividade passa a ser estilo de uma época. Quem legitima a moda é o grande público.

Moda virou sinônimo de lifestyle?
Você deixa seu carro para consertar e tem uma barbearia bacana ao lado do mecânico, né? É uma realidade contemporânea. Hoje, vende-se o lifestyle para, sequencialmente, vender o produto. A Havaianas, a Osklen e a Farm são marcas que fazem isso muito bem. Lifestyle hoje é fundamental. Essa história de eu não gostar de eletrônicos, por exemplo, virou o lifestyle do João. Já ouvi profissionais de marketing dizerem: ‘“João, agora nem que você queira poderá comprar um celular”.

Você é vaidoso?
Já fui mais. Um dia a idade chega e os valores mudam, mas não abro mão de uma sensibilização estética. O prazer que eu tenho em ver uma coisa bela é, ao mesmo tempo, tão satisfatório e insaciável que não me canso. A beleza é mal-entendida. Ela é aquilo que te aproxima do plano divino. Você fica tão embevecido com o que vê que seu estado de espírito se eleva. Desse verdadeiro sentido da beleza eu não abro mão.