Ateliês profissionais, professores inseridos no mercado, aulas das mais diversas. Tudo isso faz do curso de design de moda um passaporte múltiplo para o aluno que sonha com o mundo fashion

“Não existiria Saint Laurent sem Pierre Bergé.” A frase da jornalista, empresária e consultora Gloria Kalil, dita durante entrevista à Revista FAAP, é um alerta sobre o universo da moda hoje. O que seria, afinal, do estilista francês não fosse seu companheiro e sócio, responsável por fazer girar os números da maison Saint Laurent?

Foi-se o tempo que um senso apurado de estilo e um jeito para desenho eram sinônimos de um profissional consagrado. Agora é preciso uma conjuntura de características para fazer a coisa funcionar – e isso inclui uma boa formação acadêmica, com a visão de que o mundo fashion vai muito além dos croquis. E isso a FAAP mais que garante aos seus alunos de Design de Moda. “O diferencial deste curso é justamente a proposta de não valorizar só o estilista. O que a moda precisa é de administradores, modelistas; mão de obra específica e gente que saiba analisar o mercado”, aponta Gloria Kalil.

A história da FAAP com o universo da moda é antiga. Pioneira em oferecer cursos livres nesta área – o primeiro foi nos anos 80 –, a Fundação sempre esteve envolvida com o tema. Em 1994, por exemplo, o estilista francês Pierre Cardin desembarcou nos corredores da faculdade para dar uma aula sobre sua marca e conferir a abertura de uma exposição sobre seu trabalho. Assim foi com Oscar de la Renta, Christian Lacroix e outros tantos. Até hoje, a instituição é conhecida por sediar mostras com profissionais renomados desta área.

Ao criar as próprias joias, os alunos participam de todas as etapas do processo

Em 2001, foi montada a graduação em Design de Moda como parte da Faculdade de Artes Plásticas. Inicialmente, começou com um curso sequencial de dois anos. Em 2008, depois do reconhecimento do MEC, a FAAP passou a oferecer a graduação completa, com quatro anos de duração. O curso, que surgiu em 2001 com cerca de 15 vagas por ano, hoje oferece 160. Desde o início, o DNA do curso sempre esteve muito claro: ir além da matriz padrão que costumava marcar os estudos de moda no país e estar sempre em dia com as exigências de um mercado que não para de mudar. Para tal, quatro aulas diferenciadas foram incluídas desde o começo no currículo tradicional: figurino, visual merchandising, design de joias e calçados.

Foi justamente essa premissa que atraiu Paola Behisnelian, 18 anos, aluna do quarto semestre. Apesar de seus pais trabalharem no mercado de calçados, a paulistana não sentia vontade de abraçar a criação. “Acho difícil escolher um foco. Por isso, quero usar meu tempo na FAAP para explorar todas as possibilidades da área, como figurino, stylist e até fotografia de moda. Aqui vou descobrir qual é o meu caminho”, comenta Paola.

Uma das etapas desenvolvidas na aula de modelagem

VIDA REAL

Como enxergar a moda daqui a cinco, dez anos? Como a FAAP irá acompanhar esse caminho? Essas questões estão sempre em pauta entre o corpo docente do curso. Na busca pelo frescor, a Fundação soma pontos ao ter professores inseridos no mercado de trabalho. “Em diversos momentos, eles usam exemplos de suas experiências pessoais, o que nos permite ter uma noção muito sólida do mercado”, avalia a aluna do sexto semestre Gabriela Lotaif, 19 anos. Menos glamour, mais vida real.

Fernanda Binotti, professora de modelagem, ensina a criar a roupa direto no corpo da aluna

Responsável pelas aulas de figurino, Cris Rose é um bom exemplo disso. Coordenadora de figurino na área de teledramaturgia do SBT, ela está sempre de olho em estágios para colocar os alunos em contato com a prática. Foi através dela que a ex-aluna Natalia Zincone, 29 anos, acabou achando o seu caminho. Mineira de Poços de Caldas, Natalia escolheu a FAAP justamente por ser uma das poucas instituições com figurino na matriz. “Sempre me interessei pelo contexto por trás da roupa, a construção de um personagem”, ela explica.

O primeiro trabalho da ex-aluna, ainda durante o curso, foi como assistente de Cris em uma peça de teatro. Depois disso, nunca mais parou: fez mais teatro e publicidade até que um dia tomou coragem e mostrou seu currículo a uma figurinista durante uma visita ao Projac, estúdio da Globo no Rio de Janeiro. Deu tão certo que ela já passou pela equipe de programas como The Voice, Big Brother, Dupla identidade e I love Paraisópolis. Para Natália, aquele papo de que a prática nada tem a ver com a teoria é coisa do passado. “A aula da Cris era muito realista. Aprendi em sala de aula muito do que vim a fazer no trabalho”, relembra.

Por conta da diversidade – já pensou que figurino também pode incluir games e até Carnaval? –, a matéria está entre as favoritas dos alunos. “A FAAP tem alguns facilitadores nessa área, como o próprio teatro e os estúdios de cinema”, diz Cris. É comum, por exemplo, que alunos do curso de Rádio e TV e de Cinema procurem Cris atrás de estudantes interessados em fazer o figurino de seus filmes rodados no campus.

Alunas durante aula com as máquinas de costura

A estrutura da FAAP sempre foi apontada pelos alunos – e pelo mercado – como um grande diferencial da instituição. No curso de Design de Moda, por exemplo, na aula de modelagem, professora e duas técnicas especializadas no assunto acompanham os alunos o dia todo. Na sala de moulage [técnica de modelagem tridimensional em que a roupa é criada diretamente no manequim] cada um dos estudantes tem um boneco-modelo próprio para fazer suas experimentações. Já na oficina destinada às joias, existem mesinhas individuais para todos os participantes, equipadas com todo o aparato necessário e até fundição. Joalheira profissional, a professora de Design de Joia e Projeto em Calçados Camila Rossi conta que os ateliês possuem instrumentos que ela nunca teve que comprar para dar vida às suas próprias criações. “São espaços totalmente reais. Neles é possível criar um objeto do começo ao fim”, explica. A faculdade conta ainda com um setor dedicado à estamparia dentro da oficina de gravura e estúdios de fotografia, onde os alunos têm a oportunidade de criar capas de revistas e editoriais. “O curso da FAAP forma profissionais com uma visão multidisciplinar”, diz o estilista Carlos Miele, que já teve estagiários da instituição em sua equipe.

Para complementar, os estudantes podem buscar ações extracurriculares organizadas pela faculdade, como o concurso FAAP Moda e os cursos de curta duração do Núcleo de Cultura, onde dá para estudar temas como consultoria de imagem, design e sustentabilidade, e tendências. A modalidade ainda tem parcerias com instituições internacionais, caso da School of Arts, na Inglaterra, e da Florence University of the Arts, na Itália, que promovem desde cursos de férias até intercâmbios semestrais. Tudo para reafirmar o objetivo do curso – que acaba de conquistar cinco estrelas no Guia do estudante –, que é tirar o aluno da zona de conforto e do pensamento tradicional e prepará-lo para o mercado. Assim, daqui para a frente, ele poderá criar algo genuíno e autoral, coisa cada vez mais rara no universo da moda.

Reinaldo Lourenço, que tem suas criações em mais de 100 multimarcas do país “A FAAP tem um corpo docente muito competente, capaz de proporcionar conhecimento teórico e prático. As ações de incentivo, como o FAAP Moda, também são grandes oportunidades. O aluno sai pronto para o mercado.”
Eduardo Toldi, estilista da Egrey, com duas lojas próprias em São Paulo “A faculdade tem iniciativas incríveis, como o FAAP moda, que tem um formato muito próximo do real. Não é toda instituição que consegue dar suporte financeiro e diretrizes para os alunos.”
Lino Villaventura, estilista paraense de alta-costura “Explorar as várias possibilidades proporciona um nível de conhecimento facilmente aproveitado em qualquer profissão, porque moda não e só roupa. Moda é conceito e criação, é conhecimento sociocultural.”

SAIBA COMO NASCEU O FAAP MODA, CONCURSO QUE JÁ REVELOU GRANDES TALENTOS

Renata Paternostro e Marianna dal Canton, fundadoras do concurso FAAP Moda

Marianna dal Canton, 32 anos, sempre se interessou pelo universo da criação. Quando ainda estudava Arquitetura na FAAP, ela conheceu Renata Paternostro, 31, aluna do curso de Moda. Juntas, as duas criaram um concurso que já virou referência no mercado, o FAAP Moda – em novembro acontece a 12a edição do evento. “A faculdade nos incentivou a mostrar nosso lado empreendedor e, tempos depois, investiu nele”, conta Marianna. Todo ano, seis alunos, de qualquer semestre do curso, são escolhidos para desenvolver e apresentar uma minicoleção. Passados quatro meses, há um desfile e um júri, formado por profissionais  da área (como os estilistas Gloria Coelho, Oskar Metsavaht e Lino Villaventura), que escolhe os três vencedores. A estilista Fernanda Yamamoto, hoje um nome consagrado no mercado, venceu as primeiras edições do concurso, em 2004 e 2005.

A ideia é fazer com que os estudantes mergulhem a fundo no processo que envolve a criação de um desfi le e de uma coleção. Do stylist ao diretor de trilha sonora, passando pela modelista e pelo maquiador: tudo segue padrões profissionais. O prêmio inclui um curso fora do Brasil e gadgets, mas vai além. “O que mais vale é esse período de quatro meses desenvolvendo algo que será apresentado para nomes influentes do mercado”, explica Marianna.

Além de chamar a atenção da mídia especializada, o desfile serve como um portfólio, que pode ser usado para buscar novos passos na carreira. A história de Douglas Harris, ex-aluno e vencedor do concurso em 2009, serve de exemplo. Quando entrou na faculdade, o estilista de 30 anos já tinha um bem-sucedido ateliê de desenvolvimento de produto para outras marcas. Ao vencer o concurso e ver o interesse por seu trabalho autoral crescer, decidiu que era hora de escrever sua própria história. “A FAAP me impulsionou e me deu segurança para empreender com meu próprio nome.” Hoje, a Douglas Harris, focada em multimarcas, está em 380 pontos de vendas no Brasil e no exterior – além da tela da Globo. As roupas criadas por Douglas já vestiram Gloria Pires em Babilônia e Letícia Spiller em I love Paraisópolis.