Convidada para ser observadora internacional da eleição nos EUA, Fernanda Magnotta relata aqui como foi a experiência de ver de perto a vitória de Donald Trump e uma nação em tremendo conflito

Logo após a apuração dos votos nos Estados Unidos, Fernanda Magnotta ligou para um de seus amigos que trabalharam na campanha de Hillary Clinton. “Ela está bem, mas estamos tentando não deixá-la sozinha. Foi uma campanha muito dura”, ouviu a professora, em um momento também histórico para ela. Coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP, ela teve a chance de vivenciar de perto a eleição americana – e seus bastidores – , com um acesso amplo e incomparável. Essa oportunidade única não foi um golpe de sorte do destino. Pelo contrário. Fernanda estuda sociedade e política externa dos Estados Unidos desde a sua graduação, na própria FAAP, em 2009 – seu mestrado rendeu um livro, As ideias importam: O excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência, e sua pesquisa se estendeu no doutorado. Assim que se formou, foi convidada para fazer parte do grupo de Jovens Professores da Fundação, e em 2013 se tornou coordenadora do curso de R.I. Seu currículo notável lhe rendeu um convite feito pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, em parceria com o Institute of International Education e a Universidade de Akron, em Ohio, para integrar a equipe batizada de Observadores Internacionais, que acompanharia os bastidores da fase decisiva da eleição presidenciável por cinco semanas – Fernanda foi uma entre quatro brasileiros selecionados.

Dos Estados Unidos, ela deu diversas entrevistas para veículos como a rádio CBN e a Band TV, além de escrever artigos para o portal UOL e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão. “A campanha foi lamentável do ponto de vista moral e estratégico dos dois lados”, analisa Fernanda. “Trump, em geral, tende a ser mais agressivo porque ele não se atém a nenhum roteiro. Mas as duas campanhas tinham momentos de muito baixo nível: sempre de desqualificação do adversário e nunca de construção da própria plataforma.” Aqui ela relembra os momentos mais marcantes vividos nas coxias do processo eleitoral.


11/10/2016

A CHEGADA

“No dia em que cheguei, fui visitar os dois comitês, que fi cavam na mesma rua. O da Hillary era todo decorado, com muita gente trabalhando, pessoas entrando o tempo todo e pedindo materiais de campanha. Já o do Trump estava vazio. Tinha um volume gigantesco de material de campanha, que estava estocado, e apenas uma pessoa trabalhando. A gente foi buscando desconstruir o eleitor estereotipado do Trump e o único cara no comitê era o clichê: branco, classe média alta, introspectivo e desconfiado. Pedi pra gravar um depoimento, mas ele disse que não podia gravar nada sem autorização dos superiores – isso sempre se repetia nos comitês do Trump, mas não nos da Hillary. Quando estava saindo, perguntei:
– Você se considera republicano?
– Nascido e criado, ele disse.
– Você vai votar no Trump pelo candidato ou pelo partido?, indaguei. Ele riu e perguntou: ‘Você não vai me gravar, né? Vou votar no Trump porque nunca abandonaria meu partido’.
– Mas você gosta dele? Acha que tem boas ideias?
Ele apenas balançou a cabeça negativamente.”

Fernanda Magnotta no comitê Democrata, em Akron, Ohio

22/10/2016
COMÍCIO DO TRUMP

“Foi um negócio surreal. O lugar lotado, 20 ou 30 mil pessoas. Trump não perdeu tempo e inflamou o público. Ele falava: ‘Quem vai pagar pelo muro?’. E todos gritavam: ‘O México!’. Os gritos da plateia alternavam entre ‘prendam Hillary!’ e ‘construa o muro!’. Havia também muitos cartazes cor-de-rosa com dizeres ‘mulheres por Trump’. O culto à personalidade dele era assustador. O pior eram os materiais de campanha que não eram oficiais, mas estavam sendo vendidos pela militância na frente do evento. Vários bottons com os escritos: Hillary sucks, but not like Monica [Lewinsky]. Bem misóginos. Perguntei pra muita gente por que ela deveria ser presa. Ninguém sabia responder. No fi nal, estava conversando com alguns militantes e disse que era do Brasil. Todos ficaram meio surpresos, mas faziam referências positivas, elogiavam as Olimpíadas, diziam que o país era lindo. Aí completavam: ‘Não temos nada contra imigrantes dentro da lei. Você fala inglês, por exemplo, não tem problema nenhum. Mas a gente não pode aceitar que venham para o nosso país sem falar nossa língua, que cometam crimes…’. Sempre ficava claro: pessoas reconhecidas como iguais não eram o problema, difícil mesmo era lidar com o ‘outro’.”

29/10/2016
KNOCKING DOORS NA PERIFERIA DE CLEVELAND

“Participei de uma campanha com os democratas na periferia da cidade de Cleveland. Era uma região muito pobre e com uma maioria absoluta de população negra. Nunca tinha experimentado nada parecido com aquela versão de Estados Unidos: eram bairros inteiros de casas abandonadas – janelas quebradas, casas sem porta, paredes caindo, lixo acumulado. Estavam ocupadas por famílias desabrigadas que formaram verdadeiros cortiços, em que cinco ou seis famílias vivem em situações muito precárias. Foi avassalador escutar o que achavam daquilo tudo. Todos sabiam que a eleição era entre Hillary e Trump, mas, tirando isso, era um público totalmente marginalizado do processo político. Não sabiam quais eram os outros cargos na disputa. Em várias casas, os democratas chegavam falando do seu candidato ao senado, Ted Strickland, que foi governador de Ohio recentemente, e ninguém sabia quem ele era. ‘Não quero saber de senador e nem sei se vou votar pra presidente. Quero saber quem é o candidato a promotor ou xerife. Porque o que interessa é a realidade imediata. Esses caras estão muito longe da minha realidade’, era o que diziam.”

1/11/2016
JESSE JACKSON

“Participei de uma reunião fechada no comitê do partido democrata, em Cleveland, que contou com a presença de Jesse Jackson, pastor e ativista político que era aliado de Martin Luther King Jr. Falamos por quase duas horas sobre Luther King e os bastidores da militância nos anos 60. Foi uma experiência incrível e inesperada. Sou admiradora do Martin Luther King e fiquei muito feliz de encontrar com Jackson, um dos mais importantes líderes do movimento pelos direitos civis. Com a equipe de campanha de Clinton, falou sobre pobreza, racismo e conquista de direitos. Cerca de 25 pessoas estavam na sala. Ao tratar do poder do voto, ele olhou para o público jovem presente e disse: ‘Se você é um millennial, nunca teve que protestar para ir à escola’. Na sequência emendou: ‘Nós fomos escravos por mais tempo do que temos sido livres’ e ‘Não adianta ser feliz e não praticar a justiça’. Jesse Jackson tem uma força incrível… É uma figura muito carismática.”

A professora e o ativista político reverendo Jesse Jackson

7/11/2016
A NOITE ANTERIOR À ELEIÇÃO

“Geralmente, os presidenciáveis fazem o último comício em lugares considerados chave para a eleição, lugares em que precisam de um fôlego extra. Hillary foi para a Filadélfia, na Pensilvânia, e Trump decidiu ir ao Michigan, numa cidade chamada Grand Rapids. O meu melhor amigo americano é dessa cidade e liguei pra ele: ‘O que está acontecendo com Trump? Por que ele foi pra sua cidade?’. Ele respondeu: ‘Não faz o menor sentido, é o interior do interior do Michigan e o estado é tradicionalmente democrata. É a prova máxima de que ele é inexperiente e não sabe o que está fazendo’. As pessoas ligadas à campanha democrata tinham a mesma opinião e falavam dessa decisão com certo sarcasmo. Analisando projeções de votação junto aos especialistas, verificamos que, em nenhum cenário, nem mesmo no pior, com Hillary perdendo todos os swing states (estados historicamente indecisos entre democratas e republicanos) ainda em aberto, ela sairia derrotada. Trump apenas venceria se conquistasse todos os estados vermelhos (republicanos), todos os indecisos e ainda roubasse algum estado azul (democrata), o que parecia improvável. No dia seguinte, quando ele ganhou Michigan, todo mundo fez uma exame de consciência: ‘Nossa, talvez ele estivesse com uma pesquisa muito mais apurada e vendo ali uma possibilidade que ninguém mais enxergou’.”

Mesários conferem documentos na eleição

Sinalização de zona eleitoral na cidade de Akron


8/11/2016

NOITE DA ELEIÇÃO

“Passamos a madrugada acompanhando a apuração na Universidade de Akron. Era um grupo que tinha eleitores dos dois partidos. Queríamos ter uma dimensão mais real de como o resultado iria despertar sentimentos nas pessoas. Os democratas estavam superconfi antes no começo e naquele clima de ‘já ganhou’, alguns vestindo camisetas com a frase ‘Madam President’. Os republicanos estavam mais calados. Isso foi se invertendo. Os democratas saíram tristonhos, chorando e visivelmente abalados. Os republicanos com uma euforia contida. Teve gente gritando, comemorando, se abraçando, mas era minoria. Durante meu tempo lá, a maioria das pessoas com quem conversei apresentava um certo constrangimento ao dizer que ia votar em Trump. As justificativas eram variadas: por afinidade partidária, por um revezamento entre os dois partidos no poder… Não gosto do Trump e acho ele uma aberração que o sistema político americano produziu. Acho que será um péssimo presidente. Mas aprendi durante esse período que o voto nele não é irracional. As pessoas tendem a construir essa narrativa de que ele é um maluco com um monte de desvairado raivoso votando nele. Tem isso também, mas o voto não é irracional. O voto tem raízes e formas muito claras de ser explicadas.”

DE CARA COM AS AUTORIDADES

FERNANDA TEVE CONTATO COM O PRIMEIRO ESCALÃO DA POLÍTICA NORTE-AMERICANA. AQUI ELA REVELA SUAS IMPRESSÕES

OBAMA, O PRESIDENTE COOL_ carismático e muito articulado, Obama lida bem com o improviso e tem
uma capacidade de conexão impressionante com o público, particularmente entre os jovens.

BIDEN, O UNCLE JOE_ simpático e sem filtros, otimista e idealista, o político self-made, que chegou à Casa Branca sem pertencer à elite econômica dos Estados Unidos.

HILLARY, A CANDIDATA ROBÓTICA_ muito experiente e preparada, muito séria e confiante, mas relativamente fria e inexpressiva.

TRUMP, O POPULISTA_ bom comunicador, de fala simples e acessível, mas superficial e vaidoso, com viés autoritário.