Edilamar Galvão foi criada em meio a adversidades, mas conseguiu superar os desafios que a vida lhe impôs. É pós-doutora e Professora da FAAP há quase 20 anos. à frente da coordenação do curso de Jornalismo, ela fala sobre a volta do curso à grade e a importância da profissão nos tempos atuais.

A história da jornalista Edilamar Galvão é daquelas que renderia um roteiro de filme. Nascida no interior paulista, em São José do Rio Preto, filha de um eletricista e uma dona de casa, aos 6 meses se mudou com os pais e a irmã para o Paraná, onde morou em várias cidades, indo aos 7 para São Paulo, aos 8 para Araguari (MG) e aos 11 para Andra- dina (SP). De lá, partiu com a família para o interior do Amazonas, onde teve que aprender a lidar com a segregação social. Estudava na mesma escola dos filhos dos engenheiros da construtora para a qual seu pai trabalhava, mas não podia frequentar o mesmo clube. Na contramão do que se esperava de uma menina que até então só tinha passado pelo ensino público, Dila, como é chamada, era uma das melhores alunas de Balbina, município que foi sua casa até os 15. “Estudar foi o que fez diferença na minha vida”, diz.

Habituada a mudanças, aos 18 viajou, dessa vez sozinha, para São Carlos, onde fez cursinho e ficou entre os sete primeiros na lista do Jornalismo da Unesp, em Bauru, época em que se envolveu na política estudantil e dirigiu o Centro Acadêmico da faculdade. Aos 24, passou no mestrado em Comunicação e Semiótica, onde fez também doutorado, e fixou residência em São Paulo. Sem planejar, quatro anos depois iniciou a carreira como docente até receber de Luiz Felipe Pondé um convite para ser professora da FAAP.

Em 1978, lembrança de 1ª série na escola em Perus, na periferia de São Paulo.

Quase duas décadas se passaram até, em 2018, Edilamar assumir a coordenadoria do curso de Jornalismo. “Ocupar esse lugar é importante para as alunas. Percebo que há meninas que me têm como uma referência. A representatividade importa. Os jovens formulam seus desejos a partir do que é colocado para eles como possibilidade”, diz a professora, que em 2017 criou o Labjor, projeto extracurricular que serve de labora- tório para os alunos apurarem e produzirem reportagens. “O jornalismo tem que ir para as ruas, estar no meio das pessoas.” Sob sua responsabilidade, também estiveram eventos importantes, como o encontro entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o médico Drauzio Varella e a cientista política Ilona Szabó, que debateram a descriminalização das drogas.

Em 2017, no lançamento do livro de Ilona Szabó, Drogas – As histórias que não te contaram, antecedido pelo debate com João Gabriel de Lima, atual editor-executivo do Estadão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Ilona Szabó, o médico Dráuzio Varella, e Rubens Fernandes Junior, diretor dos cursos da área de Comunicação da FAAP

Ela também mediou discussões realizadas em parceria com veículos de comunicação, como o Debates e Provocações Época/FAAP e o Ciclo FAAP/El País, que traziam à tona temas contemporâneos, como fake news e diversidade. Recentemente, ela concluiu um pós-doutorado na USP.

Você cresceu se mudando de cidade. Como era para uma menina levar uma vida itinerante? 
Até os 24 anos, morei em 15 cidades e mais de 30 casas diferentes. Nasci em São José do Rio Preto, mas ainda bebê meu pai colocou a família num ônibus e fomos para o Paraná. Era início da década de 70 e o Brasil investia em infraestrutura. Ele foi pedir emprego na [construtora] Andrade Gutierrez e passou a vida inteira construindo termelétricas, estradas e hidrelétricas. Depois de morar em duas cidades paranaenses, fomos para Perus, em São Paulo, Araguari, em Minas Gerais, voltamos para São Paulo, em Andradina, e, aos 12, fui para Balbina.

Como foi para uma adolescente ir morar no Norte do país? Esse rompimento foi difícil, pela primeira vez me revoltei com a mudança. Eu era diretora de teatro na escola, tinha meu lugar no mundo. Chegamos no meio da Floresta Amazônica, não tinha asfalto, só argila. Lembro que quando chovia, íamos com o pé ensacado para a escola. E morar na vila dos funcionários significava ter seu lugar social demarcado. Havia uma única escola, contratada para atender os filhos dos engenheiros, mas tinha dois clubes e você frequentava os espaços de acordo com seu lugar. Foi a primeira vez que vivi isso com clareza.

De que maneira essa segregação impactava a sua vida? Era horrível. Mas ser uma das melhores alunas da escola era a minha vingança. Tirava as notas mais altas, mas não podia entrar no clube de nível A e B. Ao mesmo tempo, por três anos estudei em uma escola onde nunca estudaria, só tinha estado em escolas públicas. Fui muito exigida e essa experiência me deu noção de muitas coisas no mundo, desenvolvi meu raciocínio lógico e habilidades, e não teria essa oportunidade em outro lugar. Hoje, sou uma militante da educação. Nunca fui uma aluna bem comportada, então, o boletim era meu trunfo em casa. O que fez muita diferença na minha história foi estudar.

O que significava para seus pais ver as filhas tendo acesso à educação? Tudo. Meu pai dizia que o estudo era a única herança que poderia nos dar. Ele não sabia escrever direito. Mas era um pai feminista, mesmo trabalhando num ambiente supermachista. Ele nunca me pediu para casar, nunca me cobrou por eu não ter tido filhos. Minha irmã conta que no dia do casamento dela, ele falou: “Filha, se quiser desistir, papai te apoia”. De maneira intuitiva, ele percebia que o mundo era tão ruim para as mulheres que nos incentivou a estudar. Meu avô não deixou a minha mãe estudar depois da 4a série primária, ela tinha que vender um sabão preto que minha avó fazia com banha de porco. Então, era um sonho que ela não tinha conseguido realizar. A história dela é difícil e bonita ao mesmo tempo. Ela voltou a estudar aos 50 e poucos anos, e se formou em Psicologia aos 62. Hoje, tem 68 e está na segunda pós-graduação.

“Estou completando 20 anos de docência e não tem nada mais difícil do que estar diante de uma sala de aula. Acho mais fácil apresentar um telejornal ao vivo”

Por que você optou pelo Jornalismo? Eu não sabia o que queria fazer. Quem escolhe o Jornalismo tem a ideia de que vai entrar em contato com muitos mundos. Foi o que aconteceu comigo. Embora gostasse de matemática, não queria ser professora. E não passava pela minha cabeça ser professora universitária porque eu não tinha essa referência. Nunca tinha visto uma universidade. A faculdade significava trabalho, e não diletantismo. Peguei a lista de profissões e fui descartando as que não queria.

Na formatura do curso de jornalismo, com seus pais Antônio e Vicentina, em 1993

Qual foi a melhor experiência dos tempos de faculdade? Me envolvi na política estudantil, tinha uma amiga politizada que me levou para esse caminho. Fui diretora do Centro Acadêmico, passei quatro anos viajando São Paulo de carona para os outros campi. Foi um aprendizado.

Quando começou a trabalhar na área? Passei por um jornal em Botucatu, mas, depois de formada, voltei para Manaus e fui dar aulas de português em uma escola pública. Um dia, descobri que a TV Cultura tinha aberto no Amazonas e fui pedir emprego. O diretor se chamava Jefferson Coronel, hoje é meu amigo. Ele só me recebeu na minha quinta tentativa. Entrei na sala e ele falou: “O que deseja?”. “Quero trabalhar aqui”, disse. “Mas você tem experiência com TV?” Respondi que não e ele seguiu: “Como vou te contratar, então?”. Perguntei: “Você nunca começou a trabalhar na sua vida?”. “Me diz a razão pela qual devo te contratar.” Vai soar arrogante, mas falei: “Se precisa de alguém que saiba segurar o microfone, isso aprendo em uma semana. Agora, ensinar a pensar leva mais tempo. Mas isso você não precisa fazer porque pensar eu sei”. Como ele gosta de ser desafiado, pediu para eu voltar no dia seguinte com uma pauta para o programa dele. Falei: “Me contrata por um mês e, se ficar satisfeito, me paga. Se não, vou embora”. Ele topou. Virei repórter, fui apresentadora, diretora, fiz de tudo.

Em 1999, entrevistando crianças na antiga Favela do Gato, em São Paulo, numa reportagem sobre tristeza para a Folhinha

E como aconteceu sua entrada na FAAP? Em 1995, vim para São Paulo fazer mestrado em Comunicação e Semiótica e nunca mais voltei. Cheguei com uma mala pequena e fiquei. Fui acolhida por pessoas que me apresentaram um mundo que não conhecia. Fiquei amiga do Arthur Nestrovski, que virou meu orientador, conheci a Maria Helena Guimarães, dona do Spot. Comecei a escrever para a Folha de S.Paulo. Quando terminei o mestrado, me convidaram para dar aula na Unifieo, faculdade que estava abrindo em Osasco. Eu tinha 28 anos e as portas se abriram para mim. Dois anos depois, em 2001, o Pondé me ligou. Fui à FAAP dar uma aula para ele e me contrataram. Entrei na disciplina de Teoria da Comunicação e, depois, virei professora de Estética. Isso faz 18 anos.

POR LINHAS TORTAS

Desde menina, Edilamar escreve poemas. Há dez anos, criou o Poema Infinito, no Twitter, e passou a publicá-los com 140 toques – depois, 280. Ela chegou a 303 versos e, este mês, vai lançá-los em três caixas-cartão, com projeto do designer e amigo Guto Lacaz. twitter.com/poemainfinito

PRATELEIRA – UMA CAIXA

OS LIVROS FOTAM ALICERCES NA FORMAÇÃO DE EDILAMAR. AQUI, ELA ELEGE CINCO OBRAS QUE MARCARAM SUA VIDA

_Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa_ “Porque ‘o sertão está em toda parte’, ‘o sertão é do tamanho do mundo’ e ‘o sertão é dentro da gente’.”
_O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto_ “Quando a poesia atinge todo o âmago e a espessura do real.”
_As Três Críticas [Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática e Crítica da Faculdade de Julgar], de Kant_ “O raio-X da razão, suas capacidades, seus limites.”
_Exploradores do Abismo, de Enrique Vila-Matas_“Acho que eu gostaria de ter escrito esse livro.”
_Esferas da Insurreição, de Suely Rolnik_ “Um livro recente, urgente, e que nos ensina a reexistir.”

Lá trás, você não tinha o desejo de ser professora. Descobriu o prazer em dar aulas? No começo foi difícil porque achava que estava migrando de carreira. Eu me imaginava jornalista, não professora. Levei isso para meu terapeuta e ele falava: “Mas por que não larga? Você não é o tipo de pessoa que fica fazendo o que não gosta”. Eu dizia: “Só vou largar quando souber que sou ótima nisso”. Tinha uma crise com a docência, mas queria ser boa. E fui vendo que isso dizia muito fundo para mim. Estou completando 20 anos de docência e não tem nada mais difícil do que estar diante de uma sala de aula. Acho mais fácil apresentar um telejornal ao vivo, pois não imagino quem esteja do outro lado da câmera. Em sala, o outro está ali, com a sua psique, seu interesse, desinteresse. Você tem que lidar com a materialidade do outro.

No fim, você seguiu um caminho que remete à sua criação.

Vivi a experiência de ter a vida transformada pela educação e tenho um desejo de justiça social. A educação produz significado na vida das pessoas. Falo para os meus alunos que entre nascer e morrer, temos que arrumar o que fazer. Mas tem que ser algo que faça sentido, que valha a pena existir por essa conexão. Tudo o que conquistei foi a partir deste local. E os livros me ajudaram, fui com muita sede estudar filosofia, psicologia e encontrar sentido, explicação.

Assumir a coordenadoria do curso no ano passado foi um processo natural? Acho que sim. Eu também já tinha dado aulas na pós-graduação em Ribeirão Preto, coordenei o curso de pós em Jornalismo Cultural. Quando o curso de Jornalismo reabriu, em 2015, a professora Mônica Rugai foi a primeira coordenadora e me chamou para coordenar o Labjor. Assumi o ciclo Debates & Provocações Época/FAAP e o Ciclo FAAP/El País, cuja primeira edição, em maio de 2017, foi sobre fake news, quando quase ninguém estava discutindo o assunto por aqui.

O curso de Jornalismo da FAAP foi reinaugurado em 2015. Qual é a importância dessa retomada? A FAAP decidiu reabrir o curso justamente num momento em que a profissão estava sendo desafiada. Ao meu ver, o curso de Jornalismo tem a ver com a identidade da instituição e a FAAP entendeu que era essencial mostrar que o jornalismo é importante na nossa sociedade e para a democracia do país. Por mais que as coisas estivessem difíceis, a FAAP enxergou que essa é uma profissão do agora e do futuro, vivemos no mercado da informação. Com tantos meios de comunicação, como você não vai precisar de jornalista?

“Jornalista não tem que dar voz a ninguém, as pessoas têm a sua voz. Temos que dar os ouvidos. As pessoas precisam de escuta”

Faz alguns anos que a profissão está sendo redesenhada com o surgimento das tecnologias digitais. Como se adaptar às mudanças? As tecnologias digitais acabaram de surgir e parecem ter sido apropriadas, mas o mercado ainda está se profissionalizando. É só olhar para a história. Quando o rádio surgiu, não existia radialista. Quando a TV apareceu, não existiam profissionais formados para isso. Agora, com as tecnologias digitais, em um primeiro momento parece que qualquer um pode ter um canal de comunicação, mas não é todo mundo que pode gerir a informação. Informação dá trabalho e ninguém vai sobreviver de fake news. Canais como Facebook, Google, Twitter precisam de jornalistas. Temos uma capacidade específica de pesquisar o fato, atividade cada vez mais necessária por causa dessa explosão de informação. Tem a questão narrativa, é preciso produzir relevância e sentido para o leitor. E há uma coisa que sempre digo: “Ninguém ocupa um espaço se esse espaço não estiver vazio”.

Onde foi que o jornalismo estagnou? O erro foi o jornalismo ter ficado dentro das paredes. O jornalismo tem que ir para as ruas, estar no meio das pessoas. Acho que a internet veio bagunçar, mas o jornalismo tinha se colocado num lugar confortável de poder. De ter o lugar da fala, escolher o que as pessoas  vão saber por meio de nós. O jornalista deixou escapar o mundo. Então, há uma demanda de escuta da qual não demos conta. Na Folha se dizia: “É preciso desestatizar a pauta”, encontrar outras histórias. Os cineastas e seus documentários começaram a apresentar um mundo que o jornalismo não cobria. Digo para meus alunos: “Jornalista não tem que dar voz a ninguém, as pessoas têm a sua voz”. Temos que dar os ouvidos. As pessoas precisam de escuta, temos que ser cada vez mais sensíveis à demanda de vozes.