Para valorizar ainda mais seu patrimônio artístico, a partir deste semestre o MAB passa a exibir mostras permanentes do seu acervo, hoje com 2.850 obras de 581 artistas, como Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Flávio de Carvalho e Di Cavalcanti

Poucas instituições de ensino no mundo podem se orgulhar de ter um cartão de visita tão monumental quanto o Museu de Arte Brasileira. Depois de passar pela portaria principal da FAAP, o aluno ou o visitante irá encontrar à sua esquerda um jardim de esculturas com obras de grande porte – e importância ainda maior – de Bruno Giorgi e Nicolas Vlavianos. Ao subir a escadaria e passar pela porta, ele será inundado pela luz que atravessa dois impressionantes painéis de vitrais. Um deles, na parede oposta à entrada, conta com 58 projetos assinados por Lasar Segall, Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Tomie Ohtake e outros – que formam um conjunto inigualável no país. O outro, no teto, tem a autoria de Cláudia Andujar, artista suíça naturalizada brasileira. Ao caminhar pelo saguão, ele passará ainda por reproduções de esculturas do Aleijadinho e por majestosos elementos arquitetônicos do Barroco mineiro e baiano, e pela escultura Repouso, de Brecheret. Dali, ele poderá se dirigir a duas amplas salas que recebem, em exposições temporárias, grandes destaques da arte brasileira e mundial.

O vitral da claraboia do saguão do prédio 1 foi projetado pela artista Cláudia Andujar e realizado pela Casa Conrado. Instalado em 1959-60, ele remete à Floresta Amazônica. Na parede atrás da escadaria, Cláudia ainda pintou, sobre os vidros amarelos, cipós pretos em direção ao chão. A artista conta que na época não conhecia a Amazônia e fez o projeto como a imaginava

E esse é realmente apenas o cartão de visita. Porque, apesar da grandiosidade do edifício que abriga o museu, o maior tesouro do MAB é seu acervo – que conta com 2.850 obras de 581 artistas brasileiros ou estrangeiros radicados no Brasil, incluindo, além dos citados acima, Di Cavalcanti, Ismael Neri, Oswaldo Goeldi, Flávio de Carvalho, Lygia Clark, Arcangelo Ianelli, entre outros mestres. “É o acervo mais representativo da arte brasileira do século 20 em São Paulo”, afirma o cubano José Luis Hernández Alfonso, curador do MAB, radicado no Brasil há 25 anos. Naturalmente, apenas uma parte minoritária das obras pode ser mostrada ao público que visita o museu, nas exposições temporárias, enquanto a maioria delas fica guardada nas reservas técnicas. Para dar mais destaque a seu acervo, o MAB tomou uma decisão fundamental, a ser implementada no primeiro semestre de 2016: dedicar um dos espaços de exposição, a Sala Annie Alvares Penteado, apenas ao acervo, em caráter definitivo. O outro espaço, o Salão Cultural, continuará abrigando exposições com obras de terceiros, recortes específicos do acervo do MAB e a Anual de Arte dos alunos da FAAP. “Foi uma forma de valorizar ainda mais o patrimônio artístico do MAB”, diz José Luis.

SUCESSO DE PÚBLICO E CRÍTICA
Depois de 54 anos de funcionamento, a decisão histórica de reservar uma sala para sua coleção revela que o museu não está disposto a se acomodar. Em paralelo à valorização do acervo, o MAB tem se destacado por exposições que conjugam a qualidade curatorial à capacidade de atrair e entreter o público, por um setor educativo que oferece visitas educativas capazes de aprofundar a relação dos espectadores com as obras, pela aquisição constante e criteriosa de novas obras e pela conservação e restauro exemplares de seu acervo.

“Não sei se você reparou, mas de uns tempos para cá ir a um museu é um programa. Não é mais aquela coisa aborrecida”, afirma Maria Izabel Branco Ribeiro, diretora do MAB. “O museu não é mais uma catedral, algo sagrado e velho. É uma parte viva da cidade”, complementa José Luis. Em uma tendência compartilhada com outros museus de São Paulo, o MAB apostou em exposições imersivas, de forte caráter cenográfico, que oferecem ao visitante a chance de “mergulhar” em uma obra ou em um tema e conseguem atrair famílias inteiras para um programa cultural. Em 2014, o público do MAB foi de 170 mil pessoas – sendo 17 mil delas em visitas educativas –, alavancado por mostras “blockbuster” como Pérolas (com joias reunidas pelo Qatar Museums) e In Your Face (com fotos de Mario Testino). Antes delas, houve outras de grande sucesso com obras de arte internacionais e temas de interesse geral, como Napoleão, A Arte Contemporânea e Herança dos Czares – Obras do Museu do Kremlin de Moscou e A Arte Egípcia no Tempo dos Faraós, que teve recorde de visitação em 2001, com mais de 364 mil visitantes. Mas a atração do público não acontece em detrimento da qualidade da programação – como provam os diversos prêmios da crítica conquistados pelo MAB.

CONSERVAR E RESTAURAR
O sucesso de público e crítica é fruto de uma equipe enxuta, entrosada e experiente: a diretora Maria Izabel e o curador José Luis têm 21 anos de casa, a conservadora Maria Cristina Ribeiro dos Santos está no museu há 16, e Tatiana Bo, coordenadora do Setor Educativo, está prestes a completar cinco.
Além de adquirir e expor obras e montar exposições, uma das missões fundamentais de qualquer museu é conservar e restaurar sua coleção – um trabalho silencioso, feito nos bastidores e, portanto, invisível aos olhos do público. A responsável por essa tarefa no MAB é a conservadora Maria Cristina Ribeiro dos Santos, biomédica e química que complementou sua formação com uma especialização em restauro no Museu de Arte Moderna e com o curso de Artes Plásticas na FAAP. Ela cuida das quatro reservas técnicas do MAB, onde as obras são guardadas nas condições ideais. Quando uma delas precisa de restauração, o trabalho é ainda mais complexo e demorado – como no caso de Primeiros Tempos, um pequeno óleo de Arcangelo Ianelli datado de 1947, que levou um ano para ser restaurado. “Foi uma trabalho ao mesmo tempo de força e delicadeza”, define Maria Cristina.

A conservadora responde por outras duas tarefas essenciais: garantir que as obras adquiridas cheguem em boas condições à coleção e, por outro lado, que as obras do acervo viajem com segurança para outras instituições. Como ressalta José Luis, obras do acervo têm circulado pelo estado de São Paulo (além da sede na rua Alagoas, há MABs no centro da capital, em um edifício histórico projetado por Ramos de Azevedo, e nos campi de Ribeirão Preto e São José dos Campos), pelo Brasil (com mais de 30 exposições realizadas nos últimos anos em Brasília) e pelo mundo (Alemanha, Itália, Espanha, México, entre outros países). Para o curador, “a sede do MAB é um cartão de visitas para quem vem à FAAP, e nosso acervo é um cartão-postal da FAAP para o mundo”.

MARIA IZABEL BRANCO RIBEIRO, DIRETORA

Está no MAB desde 1994.

“A FAAP surgiu com o objetivo de promover a cultura e a educação. O MAB põe em marcha várias dessas propostas.”

NO COMANDO

TRÊS PERGUNTAS PARA A MULHER QUE ESTÁ À FRENTE DO MUSEU HÁ DUAS DÉCADAS

Em 1994, Maria Izabel Branco Ribeiro – ex-aluna e professora das Artes Plásticas da FAAP que já havia 
trabalhado na Fundação Bienal, nos Museus de Arte Moderna e no de Arte Contemporânea da USP – foi convidada para dirigir o MAB. “Eu me comprometi a ficar por três meses, até encontrar alguém com o perfil que a instituição buscava.” Aqueles meses se transformaram em 21 anos – tempo em que ajudou a firmar a reputação e dar visibilidade ao museu com uma programação variada, criativa e reconhecida em diversos prêmios. Hoje, Maria Izabel divide a direção do MAB com o trabalho de professora de História da Arte na FAAP, tanto na graduação quanto na pós. Graças a esse duplo papel, ela pode falar com total propriedade sobre as relações entre o MAB e os alunos – que formam o primeiro público do museu.

A exposição Barroco no Brasil, que marcou a abertura do Museu de Arte Brasileira, em 1961

O foco na educação está na origem do MAB. Como isso se reflete no dia a dia?
As funções dos museus compreendem aquisição, conservação, pesquisa, exposição do patrimônio material e imaterial, voltados para a educação e também para o lazer. A FAAP surgiu com o objetivo de promover a arte, a cultura e a educação. O MAB põe em marcha várias dessas propostas.

Quais critérios determinam a escolha das exposições?
O museu procura ter um conjunto de exposições variado, que atenda diversos interesses. E também ampliar o público frequentador. Sem dúvida seguimos critérios e o primeiro item a ser observado é a qualidade do projeto, seu interesse para a comunidade interna e seu significado para a vida cultural da cidade. Além do seu acervo, o MAB apresenta exposições que abordam diversas linguagens artísticas e temas de design, fotografia, moda e arquitetura.

Houve alguma exposição que você gostaria de ter trazido e não conseguiu?
Há mostras maravilhosas que gostaríamos de trazer de outros museus e há temas fascinantes que nossa equipe tem grande interesse em desenvolver e transformar em exposição. Mas precisamos nos manter na realidade. Exposições são eventos complexos e de responsabilidade. Envolvem ações prévias por anos, planejamento cuidadoso, especialistas e custo alto.

JOSÉ LUIS HERNÁNDEZ ALFONSO, CURADOR

Está no MAB desde 1994.

“A coleção do MAB permite contar a história da arte brasileira no século 20 como nenhum museu em São Paulo.”

NA ESSÊNCIA

O CURADOR JOSÉ LUIS HERNÁNDEZ ALFONSO DESTACA CINCO OBRAS E ARTISTAS ESSENCIAIS DO ACERVO DO MAB

1_ Nuvens presas (1983)
“Nicolas Vlavianos, artista de origem grega e professor da FAAP, é o mais significativo escultor em atividade no Brasil. Suas nuvens de aço são leves e pesadas ao mesmo tempo, uma obra racional que não deixa de passar emoção.”

2_ Retrato de Ivone Levi (1951)
“Nós temos a coleção mais representativa de Flávio de Carvalho entre os museus brasileiros, e sua série de 12 retratos a óleo está entre os pontos altos de sua obra. Ele consegue retratar a fisionomia, e também o universo interior dos personagens.”

3_ Homem brasileiro (1938)
“De Ernesto De Fiori, artista italiano radicado no Brasil, temos esta escultura de bronze, um óleo e um estudo. Ele tem muito de Expressionismo, com esculturas de modelado mais áspero e forte carga psicológica, e pinturas com um sentido de movimento que individualiza sua obra.”

4_ Casas (1958)
“Temos uma boa coleção de Arcângelo Ianelli, que mostra muito didaticamente sua transição da figuração para o abstrato. Gosto de sua obra mais geométrica, em que ele trabalha a mudança de tonalidades de forma muito preciosista.”

5_ Del Relieve de la Mar (1989-1990)
“De arte contemporânea, destaco Maria Tereza Louro, que foi aluna e professora da FAAP. Ela trabalha muito com paisagens, mas de forma minimalista, com muito preto e cinza, mostrando clara influência
da arte japonesa.”

MARIA CRISTINA RIBEIRO DOS SANTOS, CONSERVADORA

Está no MAB desde 1999.

“O acervo é vivo. Está sempre crescendo, viajando, se transformando. Nosso desafio é fazer com que as obras perdurem.”

SELEÇÃO DE OURO

AS EXPOSIÇÕES DO MAB QUE CONQUISTARAM PRÊMIOS

1_ Memórias reveladas e Tékhne, 2010
A primeira mostra contou a história do ensino das artes na FAAP, a segunda mapeou cinco décadas de relação entre arte e tecnologia. Prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).

2_ Vertigem, 2009
A exposição da dupla Osgemeos, pioneiros do grafite no Brasil, reuniu obras inéditas em São Paulo e outras feitas para o espaço do MAB. Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

3_ Papiers à la Mode, 2008
A belga Isabelle de Borchgrave e a designer canadense Rita Brown mostraram trajes e acessórios feitos em papel, em tamanho natural. Prêmio da APCA.

4_ Programação de 2006, como um todo
Entre as mostras que se destacaram no ano, estava Deuses gregos, com 200 peças de arte greco-romana da coleção do Museu Pergamon, de Berlim. Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade.

5_ James Ensor. O visionário em preto e branco, 2005
A mostra reuniu 131 obras, de gravuras a água-fortes, realizadas no final do século 19 pelo pintor e gravador belga, precursor do expressionismo. Prêmio da APCA.

TATIANA BO, COORDENADORA DO SETOR EDUCATIVO

Está no MAB desde 2011.

“Nós trabalhamos para enriquecer a relação do público com a obra. Queremos que cada visita seja significativa.”

SEJA BEM-VINDO
Fundação organiza visita e transporte para alunos de escolas públicas

Como parte do programa de Responsabilidade Social da FAAP, que prevê inclusão cultural, a Fundação garante o acesso gratuito e atendimento a alunos e professores de escolas públicas, em visitas educativas pelo Setor Educativo do MAB – além do transporte gratuito para estudantes de baixa renda.

Para cada exposição, o setor prepara uma visita educativa específica. “Queremos que as pessoas se sintam estimuladas a voltar ao MAB”, diz a coordenadora Tatiana Bo.

Andrea Sendulsky, coordenadora do FAAP Social, diz que os alunos das escolas públicas, municipais ou estaduais, respondem por cerca de metade das visitas educativas. Mas esse serviço atende também várias ONGs e professores – que são preparados para integrar a ida ao museu às atividades escolares.