O imediatismo da internet e das redes sociais nos lançou em um universo onde pontos de vista são constantemente formulados, expostos e publicados numa velocidade perigosa, o que esta era, na qual a opinião impera, pode trazer de útil para o indivíduo e a sociedade?

É possível que ao comentar o Oscar pela Rede Globo, Glória Pires tenha criado um dos mais necessários mantras para nossos tempos de excesso (de informação, de opinião, de agressividade e de polarização): “Não sou capaz de opinar”. Foi-se o tempo em que a opinião era emitida após um longo exame dos fatos, contextos, das causas e dos efeitos. Foi-se embora a máxima de Platão, que enxergava na opinião uma virtude autônoma capaz de lançar luz sobre a ignorância e relativizar dogmas religiosos e científicos.

É certo que a liberdade de opinião e de pensamento vêm numa crescente que acompanha a ampliação de direitos civis e políticos, e também o desenvolvimento tecnológico da mídia. Não vemos, no entanto, a responsabilidade, a tolerância e a empatia acompanhando a mesma curva ascendente. Com a emergência da internet e das redes sociais, a sensação é que entramos numa “era da opinião”, em que pontos de vista precisam ser constantemente formulados, expostos e publicados em uma velocidade perigosa. De acordo com Gabriela Corbisier Tessitore, professora do curso de Comunicação e Marketing da FAAP, é importante que se analise este momento de maneira dialética: “A era da opinião pode ser pensada como a era da tagarelice por alguns menos otimistas. Eu tento pensar o que ela traz de bom e de ruim ao mesmo tempo. Se por um lado a internet promoveu uma democratização do acesso ao conhecimento e à informação, por outro ela formou esse tipo de comportamento, em que todo mundo é clamado a ter sua opinião e em que existe um contágio emocional muito grande”.

A velocidade frenética imposta pela internet, segundo Gabriela, acaba por destituir pensamentos e opiniões de sua densidade. As pessoas nem sequer têm tempo de ler as notícias e já são clamadas a formar um ponto de vista e a defendê-lo. “Soma-se a isso o fato de a internet tirar das pessoas parte do senso de responsabilidade. Como não estou frente a frente, sou capaz de falar coisas muito mais grosseiras. É como um duplo da pessoa, como nosso eu lírico, mas nesse caso seria nosso eu violento”, completa a professora. Outro elemento de combustão que ajuda a alastrar o incêndio de violências simbólicas e intolerância nas redes sociais é o narcisismo, que, de acordo com Gabriela, tem uma definição diferente do senso comum: “O narcísico contemporâneo não é aquele que se ama muito, mas sim aquele que tem uma baixa autoestima enorme e precisa neuroticamente do reconhecimento e do olhar do outro. Por isso as pessoas falam tanto e ouvem tão pouco, é um nível de carência neurótico”.

Um estudo de 2013, realizado pelo Centro de Pesquisa em Comunidades Online e Sistemas de E-Learning do Parlamento Europeu, na Bélgica, corrobora a percepção da professora. Os pesquisadores focaram-se no comportamento dos “trolls” – pessoas que provocam e incentivam hostilidades na rede – e concluíram que eles têm características muito parecidas com pessoas que sofrem de transtornos de personalidade antissocial, cuja essência é a baixa autoconfiança.

AS VERSÕES DA VERDADE

Trolls e haters – estes um degrau acima na escala do ódio – são personagens novos que o mundo ultraconectado fez nascer.

Em geral, seus ataques são desferidos por indivíduos isolados e, provavelmente, rancorosos, mas não são raros os casos de ataques coordenados que visam denegrir alguém ou alguma instituição. O Observatório Proxi, com a ajuda do Instituto de Direitos Humanos da Catalunha e da organização espanhola United Explanations, acompanhou os comentários nos três maiores portais da Espanha: El País, 20minutos e El Mundo. Eles selecionaram um único e polêmico tema: 400 notícias sobre imigração e população roma (conhecida como cigana). Segundo o estudo, 60% das intervenções possuíam discurso intolerante.

O problema ganha contornos ainda mais preocupantes quando percebemos que a distância entre a violência simbólica e a física é facilmente transponível. O blogueiro do UOL e ativista dos direitos humanos Leonardo Sakamoto lida com ataques dessas redes de ódio desde 1999, quando começou a publicar reportagens e artigos denunciando trabalho escravo: “Ano passado recebi ameaças de morte, já cuspiram na minha cara na rua, fui agredido fisicamente, já fui xingado em locais públicos, como mercado, restaurante, aeroportos, e claro, fui alvo de campanhas de difamação”.

Se por um lado a internet promoveu uma democratização do acesso ao conhecimento e à informação, por outro ela formou esse tipo de comportamento, em que todo mundo é clamado a ter sua opinião – Gabriele Corbisier Tessitore, professora de Comunicação e Marketing

Apesar de notar uma escalada da intolerância a partir da explosão das redes sociais, Sakamoto acredita que o ódio não é um fato novo na história do Brasil. Para ele, o papel da internet restringe-se a conectar grupos que estavam isolados, catalisar seus procedimentos de ação e dar a eles a sensação de empoderamento. “Assim a internet garante o megafone para a difusão e a viralização desse discurso de ódio, mas o ódio sempre esteve lá, ele apenas sai do armário com a internet.

O sentimento é uma das argamassas da fundação do nosso país: o Brasil foi construído na exploração, escravização e humilhação de um grupo por outro. Infelizmente não fomos capazes de desconstruir isso ainda.”

O perfil das opiniões difundidas na rede está bastante ligado à forma como consumimos informação nos dias de hoje. Antes da internet, explica Sakamoto, as pessoas compravam pacotes fechados de interpretação do mundo – jornais, revistas, telejornais e radiojornais – que, apesar de serem verticais e lineares, tinham o mérito de colocar seus leitores em contato com informações diversas, as quais muitos deles consideram desimportantes, e assim informá-los lateralmente. “Hoje, com a internet, a comunicação é mais horizontal, você segue numa espécie de arquipélago de vozes dissonantes. O que por um lado é muito bom e muito mais democrático, porque você tem acesso a diversas fontes, mas por outro lado é terrível, porque o que vemos são pessoas se conectando apenas ao que lhes agrada e limando o restante das informações, o restante dos pontos de vista.”

A internet e as redes sociais deram o poder de mídia ao cidadão. Isso é uma revolução, isso é uma disrupção. De quebra, democratizou-se e expandiu-se de forma oceânica o acesso à informação – Caio Túlio Costa, doutor em Comunicação

O vice-diretor do curso de Comunicação da FAAP e filósofo Luiz Felipe Pondé tem uma percepção similar. “Normalmente o leitor de jornal físico passa mais tempo lendo e se concentra mais. Há menos distrações. A ferramenta eletrônica é mais efêmera, então há uma tendência a procurar hardnews no eletrônico e buscar textos analíticos no meio físico. Talvez isso mude um dia, mas na ferramenta eletrônica você é ainda mais escravo das manchetes e isso acaba gerando um ruído.” Contudo, Pondé não acredita que este caráter excessivo e histérico das opiniões deva ser creditado na conta da internet. “Vivemos num contrato histérico de sociedade que todo mundo quer ter prazer o tempo todo e não consegue. Alguns acharam que o mundo iria mudar, que com a internet você iria conversar sobre Schopenhauer com alguém da África, mas hoje você fala com alguém da África sobre o tênis Nike, quando muito.”

Para Pondé, a histeria e a tagarelice, mencionada anteriormente pela professora Gabriela Corbisier Tessitore, é uma característica da própria democracia, que conclama seus cidadãos a emitir opinião. A função da internet é repercutir e amplificar esse clamor, mesmo que as opiniões sejam odiosas. “Da mesma forma, o ódio não foi inventado agora, sempre existiu. É uma experiência humana como o amor e o ciúme. Hoje em dia todo mundo se acha bonzinho e pensa que o ódio veio de Marte. A internet torna o ódio seguro, porque não tem um retorno físico contra quem agride. Ela é uma bela cultura de bactérias para as pessoas colocarem suas raivas sem arcar com nada.”

NOVAS VOZES

Uma frase do escritor Umberto Eco reverberou alto em 2015: “A internet deu voz a uma legião de imbecis”. Pode ser verdade, mas ela também deu voz a uma legião de gente talentosa e bem-intencionada. Ao menos essa é a percepção do doutor em comunicação e entusiasta da rede Caio Túlio Costa: “A internet em primeiro lugar, e as redes sociais em seguida, deu o poder de mídia ao cidadão. Isso é uma revolução, isso é uma disrupção. De quebra, democratizou-se e expandiu-se de forma oceânica o acesso à informação. Isso reforça as liberdades, mesmo quando essa liberdade é usada para disseminar boatos e conteúdos odiosos, infelizmente. No fundo, a internet amplifica o que as pessoas falam entre si e agora podem publicar o que pensam”. Caio Túlio vê com bons olhos a emergência de novas vozes capazes de romper com velhos dogmas midiáticos, e admira a forma espontânea com que nascem. Para ele, o fácil acesso à tecnologia explica o surgimento de indivíduos, empresas e instituições com poder de mídia.

Quem tem voz tem poder. Antes, pra ter voz você tinha que ter grana. Agora, quem tem visibilidade tem poder. A relação mudou – Bia Granja, uma das criadoras do Youpix

Essas novas vozes estão, de fato, chacoalhando o mundo midiático. De acordo com uma pesquisa de 2015 da revista Variety, feita entre adolescentes norte-americanos de 13 a 18 anos, oito das dez pessoas que mais os influenciam são youtubers ou blogueiros. No Brasil o quadro é similar, conforme atestou pesquisa do Meio&Mensagem, Google e Provokers com jovens entre 14 e 17 anos: dos dez mais influentes, cinco são youtubers. Referência quando se fala em cultura de internet no Brasil, Bia Granja não vê nenhuma surpresa nos números da pesquisa. Ela é uma das criadoras do Youpix, que nasceu em 2006 como uma revista impressa que abordava temas de cultura geral da internet e, aos poucos, foi migrando definitivamente para o on-line e focando-se mais em negócios, até se tornar uma plataforma que discute os rumos da indústria de criadores – ou creators – que surgiu com a rede. “O coração do comportamento dessa geração que nasceu conectada é a internet. Eles se sentem participantes, e não meros expectadores, existe uma relação simbiótica e identitária com essas novas vozes, algo muito profundo.”

A internet torna o ódio seguro, porque não tem um retorno físico contra quem agride. Ela é uma bela cultura de bactérias para as pessoas colocarem suas raivas sem arcar com nada – Luiz Felipe Pondé, filósofo e vice-diretor do curso de Comunicação e Marketing

Para Bia, um dos pontos-chave é que youtubers e blogueiros possuem dois elementos que há muito se perderam na grande mídia tradicional: a autenticidade e a espontaneidade, que permitem a eles abordar temas variados de um ponto de vista muito pessoal, alçando-os a porta-vozes dessa geração que vê cada vez menos TV. Esta geração aprendeu a buscar informação, dialogar e debater mediada por um computador ou celular. “O que se percebe agora é que essas novas vozes estão aparecendo no programa da Fátima Bernardes ou sendo capa de revistas”, completa.

Mesmo a mídia tradicional sendo ainda a validadora dessas novas vozes, principalmente para o mercado, para Bia a internet horizontalizou o direito à voz, que antes estava associado ao poder financeiro: “É preciso dinheiro para ter um canal de TV ou um programa de rádio. Agora tente lembrar do Orkut: não importava se você era milionário ou pobre, sua página na rede social seria igual, com as mesmas ferramentas e funcionalidades. Quem tem voz tem poder. Antes, pra ter voz você tinha que ter grana. Agora, quem tem visibilidade tem poder. A relação mudou”.