Trabalho, demandas familiares, desejos. parece que estamos sendo engolidos pelo tempo – ou pela falta dele. E que a solução é correr cada vez mais para dar conta de tudo. Será? Para escapar desse rolo compressor dos tempos modernos, o primeiro passo é se perguntar: Qual é o seu propósito de vida?

Seja sincero: há quanto tempo você não tem tempo de dar um tempo? Precisamos dele para trabalhar, para ver nossa série favorita, para estudar, para ir à padaria, para conferir a timeline, para ver os amigos e amores, para aproveitar os filhos (ou aproveitar para fazê-los), tempo para ler esta reportagem. A vida moderna – ou seria pós-moderna? – atingiu um ritmo tão acelerado que, por vezes, perdemos até mesmo a capacidade de perceber o tempo passar: nunca antes tivemos tantas demandas e tantas opções para preencher nosso tempo, e tão pouco tempo para ser preenchido. Cada minuto de nosso dia é disputado por uma série de compromissos, responsabilidades e querências. Como qualquer matéria-prima essencial e limitada – afinal, o dia continua tendo apenas 24 horas, apesar do desejo da grande maioria de que ele fosse mais extenso – , o tempo valoriza-se na mesma medida em que rareia, transformando-se em um bem progressivamente mais precioso. “Atualmente recebemos uma quantidade imensa de estímulos a todo momento. Com isso, as pessoas que não possuem clareza sobre seus reais objetivos se perdem em um emaranhado de ocupações despretensiosas, deixando de ter tempo para o que realmente gostariam de valorizar”, diz Sílvia Pahins, coach de empreendedores e consultora de inovação em negócios.

SEM SAIR DO LUGAR

À medida que andamos sem ter a real noção do que de fato queremos, que empilhamos sonhos, expectativas e aspirações profissionais, temos que correr cada vez mais depressa para alcançá-los, para concretizá-los, para tentar chegar a algum lugar. No entanto, por mais que apertemos o passo, continuamos sempre no mesmo ponto, como hamsters correndo numa roda. Esta é exatamente a imagem que o filósofo Hartmut Rosa, professor da Universidade de Jena, na Alemanha, e especialista em sociologia do tempo, utiliza para ilustrar uma característica crucial de nossa época, a responsável por essa sensação tão real de encurtamento do tempo: a aceleração. Quanto mais rápido corremos, mais rápido a roda gira e nos obriga a manter o ritmo. “É preciso correr mais e mais rápido a cada ano, apenas para ficar no mesmo lugar. Nossa lista de afazeres só cresce, precisamos atualizar nosso hardware e nosso software, nossas relações e nossos corpos em períodos cada vez mais curtos. E não fazemos isso como se quiséssemos alcançar uma grande meta, ou realizar uma promessa, mas para não ficarmos para trás.”

As pessoas que não possuem clareza sobre seus reais objetivos se perdem em um emaranhado de ocupações despretensiosas, deixando de ter tempo para o que realmente gostariam de valorizar – Sílvia Pahins, coach de empreendedores e consultora de inovação em negócios

A aceleração é um fenômeno antigo que nasceu junto com o capitalismo e acentuou-se na sociedade moderna, cuja estabilidade é refém da aceleração permanente: o crescimento e a inovação constantes são predicados indispensáveis para a manutenção do status quo econômico. Mas, se a velocidade faz parte inerente dessa engrenagem do nosso tempo, haveria alguma possibilidade de, ao menos, abrandá-la? Ou até mesmo sair dessa roda em que ocupamos o lugar do hamster, quem sabe? Seria possível nos relacionar melhor com o tempo? O gerente sênior de remuneração da Cognizant, Filipe Ducas, 31 anos, acredita que sim – sua própria biografia é a prova. Logo que conseguiu seu primeiro emprego numa grande empresa, como analista de finanças na IBM, passou a acumular horas extras e abandonou os esportes, algo que fazia desde a juventude. “Trabalhava 14 horas por dia ou mais, inclusive nos fins de semana, ou porque precisava ou porque queria. Estava sempre tentando desenvolver uma ideia nova para alavancar a carreira.” Ele passou a dormir mal, comer mal e trabalhar muito. Para evitar o trânsito no horário de rush, Filipe estendia a jornada e não raro terminava o dia no bar. “Percebi que eu estava nesse looping vicioso de entrar mais cedo e sair mais tarde. Varava noites e gerava poucos resultados. Aí caiu a ficha: eu precisava voltar pro esporte, cuidar mais de mim.”

Andrés Sandoval

Naturalmente competitivo, Filipe carecia de um incentivo para voltar a treinar. Por isso inscreveu-se na primeira competição esportiva que apareceu: um campeonato de braço de ferro. Ele aproveitou que estava de férias e treinou duro, foi estrito com os horários e com a alimentação. “É claro que eu fui muito mal na competição, mas só nos dez dias de preparação eu perdi 10 quilos. Percebi que dava e então mergulhei fundo.” Ciente de que só podia controlar seu horário de entrada na empresa, passou a acordar mais cedo e ir para a academia. Gradualmente, Filipe foi ficando mais rigoroso com o controle do próprio tempo: dedicava a hora do almoço para comer e descansar, e logo que terminava sua jornada de 8 horas de trabalho, pegava suas coisas e ia embora. Nada de hora extra, a não ser que fosse absolutamente necessário. “Parei de varar as noites tentando resolver problemas, o que se mostrou muito produtivo. No dia seguinte, depois da academia, eu chegava cheio de vontade, voando, e resolvia as pendências rapidinho. Parecia natural, as ideias vinham porque a cabeça estava fresca.” Ele passou a trabalhar menos horas, mas as horas passaram a ser muito mais produtivas. “Com isso ganhei tempo para ficar com minha esposa, pra viajar e também pra competir.” Hoje Filipe treina de 2 a 3 horas por dia e é o atual campeão sul-americano de luta de braço.

INTENSIDADE MÁXIMA

O excesso de trabalho que acometeu Filipe é uma realidade para muitos. É também uma contradição, pois trabalhamos menos do que as gerações anteriores, de nossos pais e avós, se contabilizarmos estritamente o número de horas: quem cuidava da terra ia para a lida com o raiar do dia e só voltava após o poente, enquanto os operários trabalhavam em turnos intermináveis. Mas por que temos a sensação de que hoje trabalhamos muito mais que nossos ancestrais? “Nosso ritmo de trabalho é incomparavelmente mais intenso que antes. Nossa relação com o trabalho é muito mais excessiva e instrumental. Fazemos muito mais coisas de uma só vez, assumimos mais compromissos. Temos equipamentos que nos permitem resolver as coisas com mais velocidade”, diz Ignace Glorieux, chefe do Departamento de Economia e Ciências Sociais da Universidade de Bruxelas, e presidente do International Association for Time Use Research.

Apesar de parecer ruim, em boa parte das sociedades contemporâneas, estar sempre ocupado é um ótimo sinal, comprova que estamos vivendo em conformidade com nosso momento histórico – o que nos traz um reconfortante sentimento de pertencimento. “É assim que nossa sociedade premia os membros dispostos a acelerar suas vidas. Não ter tempo nos dá status social”, afirma Ignace.

OPÇÕES EM EXCESSO

Esse quadro, porém, não se restringe ao âmbito profissional: a aceleração está avançando vorazmente sobre a vida privada. Hoje temos muitas opções de entretenimento: TV digital, Netfl ix, YouTube, cinema, restaurantes etc. “São tantas coisas que nós não temos tempo para consumir tudo aquilo que desejaríamos consumir, que a sociedade quer que consumamos. O resultado disso é ansiedade e estresse.” A relação contemporânea entre tempo de trabalho e tempo de descanso foi abalada pela aceleração e tornou-se uma contradição em si. “Nós temos que ser puritanos, muito disciplinados e dar duro no trabalho; por outro lado, no tempo livre, temos que gastar dinheiro, temos de ser hedonistas. Essas duas éticas contraditórias são a base da nossa economia”, completa o especialista belga.

Não existe tempo livre, assim como não existe tempo preso. O que existe são nossas escolhas do que fazer com o tempo. Você é livre ou se aprisiona. Tempo você não ganha, você vive – Julio Cesar de Freitas, professor da FAAP

A percepção de Fernando Amed, professor de Filosofia do curso de Comunicação e Marketing da FAAP, vai no mesmo sentido: “O ser humano é um animal insatisfeito, mesmo com uma infinidade de coisas para fazer, ainda assim nos entediamos. É curioso, mas nesse momento aceleramos ainda mais”. Diferente do que pensa Ignace, para Fernando o sistema não é o único culpado: o ritmo alucinante do mundo atual foi uma escolha nossa, e, ainda que ele esteja nos enlouquecendo, não parece que estamos dispostos a pôr o pé no freio tão cedo. “Hoje temos muito mais opções de atividades do que nossos avós. Temos muito mais equipamentos também. Pense no smartphone, ele é útil para falar com as pessoas queridas, também para fazer negócios. Ou seja, ele se ajusta às nossas expectativas, mas pode acabar nos aprisionando.”

Andrés Sandoval

Os mais modernos celulares, assim como boa parte das inovações tecnológicas que moldam nosso modo de vida, nos ajudam a intensificar o tempo, mas para Fernando já é hora de termos mais clareza sobre nossas prioridades: “Se o tempo é o bem mais precioso de nossa era é porque estamos neuróticos. Está tudo bem tomar o tempo como um capital, mas hoje isso se tornou algo patológico. A gente está sempre querendo fazer mais e mais coisas, no trabalho e no lazer”.

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Mas e se rompêssemos a fronteira entre trabalho e lazer, entre o tempo que dedicamos para nossas carreiras e para aquilo que amamos fazer? Se implodíssemos essa barreira, não seria este um golpe fatal na aceleração e na escassez de tempo? Oito anos atrás, Diogo Soares, 34, tentou essa cartada. Formado em Direito, ele era concursado e recebia um excelente salário como assessor de comunicação da Justiça Federal, em Rio Branco, no Acre. Por outro lado, suas responsabilidades o impediam de colocar tempo e dedicação no que realmente ama, a música. “Eu estava dividido entre meu trabalho formal e minha banda, Los Porongas, até que decidimos deixar o Norte e migrar para São Paulo em busca de nosso sonho”, lembra. Ele abandonou uma carreira estável e segura para se aventurar no caminho da arte.

É preciso correr mais e mais rápido a cada ano, apenas para ficar no mesmo lugar. Nossa lista de afazeres só cresce, precisamos atualizar nosso hardware e nosso software, nossas relações e nossos corpos em períodos cada vez mais curtos. E não fazemos isso como se quiséssemos alcançar uma grande meta, ou realizar uma promessa, mas para não ficarmos para trás – Hartmut Rosa, da Universidade de Jena

Sem o aporte do emprego fixo, Diogo passou a viver dos cachês de shows e das trilhas sonoras que produz para publicidade. “O lado bom desta escolha é que me dedico somente ao que me deixa feliz, e tenho tempo para descobrir novas formas de fazer o que amo e me sustentar com isso”, conta. Mas isso tem o seu preço. “A incerteza é permanente, são raros os momentos em que há segurança financeira.” Apesar de trabalhar com o que ama, ele também sente seu tempo encurtar. “Este é um sentimento da nossa era, assim como a solidão. Por outro lado, não dá pra falar em tempo sem falar no espaço que as pessoas dão em suas vidas às coisas que realmente amam.”

FAZENDO ESCOLHAS

Dez anos atrás, o professor Julio Cesar de Freitas, atualmente professor na graduação, pós-graduação e MBA da FAAP e diretor de desenvolvimento da ODICON Compliance Design, deixava pouco espaço em sua vida e em sua agenda para as coisas que amava. Deixava pouco espaço até mesmo para comer e descansar. Certo dia começou a sentir-se mal, vítima de uma dor de cabeça insuportável. Deu entrada no hospital com suspeita de meningite, mas, após cinco dias de muitos exames, foi liberado com o diagnóstico de estresse: “O que precisa é mudar a relação com o trabalho, com suas atividades diárias, e assim ter uma nova relação com o tempo. Precisamos pensar nos usos que damos a ele”.

Se o tempo é o bem mais precioso de nossa era é porque estamos neuróticos. Está tudo bem tomar o tempo como um capital, mas hoje isso se tornou algo patológico. A gente está sempre querendo fazer mais e mais coisas, no trabalho e no lazer – Fernando Amed, professor de Filosofia

Antes do colapso, Julio Cesar costumava usar as pausas no trabalho para adiantar outras atividades profissionais. Já durante o almoço, aproveitava para ler e responder e-mails pelo celular. “Tudo isso mudou: no momento de descanso, eu descanso; na hora do almoço, eu como. É muito fácil fazer esse tipo de coisa e o reflexo positivo na qualidade de vida é imenso. É preciso seguir os sinais que seu corpo te dá, como a fome e o sono.” E não só isso: refletir sobre o que está fazendo – e fazer escolhas. Ele não acredita que seja a escassez de tempo o que está prejudicando nossas vidas, e sim a escassez de disponibilidade, resultado de uma abundância de compromissos que não paramos de assumir, e que consequentemente não para de nos consumir. O avanço das tecnologias digitais – que abriram infinitas possibilidades comunicacionais, operacionais e de entretenimento – e a promessa de maravilhas como a internet só fazem intensificar nosso tempo, e não libertá-lo. Libertá-lo, diz Julio Cesar, é uma tarefa que cabe a cada um de nós. “Não existe tempo livre, assim como não existe tempo preso. O que existe são nossas escolhas do que fazer com o tempo. Você é livre ou se aprisiona. Tempo você não ganha, você vive.”