Da Bahia a Moçambique, a designer formada pela FAAP e articuladora social Paula Dib já coordenou mais de 40 projetos pelo Brasil e pelo mundo. Sua missão: Elaborar possibilidades de desenvolvimento criativo por onde passa

Em suas longas viagens pelo Brasil e pelo mundo, Paula Dib faz questão de carregar na bagagem os livros do poeta Manoel de Barros. “Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens”, escreveu o célebre autor mato-grossense. Pois é nessa mesma direção que Paula foca o olhar. À frente da Trans.forma Design, há 13 anos ela se propõe a resgatar a cultura de diferentes regiões para alinhar habilidades locais a oportunidades de mercado. Com singular criatividade, a designer já contribuiu para o desenvolvimento econômico de dezenas de comunidades, em parceria com instituições privadas e do terceiro setor.

Formada em Desenho Industrial pela FAAP em 2000, a paulistana de 38 anos coleciona diversos prêmios por sua abordagem socioambiental e tem sido convidada a dar palestras em várias universidades estrangeiras sobre o papel transformador do design. Não raro, ela defende com entusiasmo a salvaguarda dos saberes dos artesãos e da originalidade brasileira. “Caso contrário, a gente vira uma pasta global”, justifica.

Logo percebi que paula tinha facilidade para se adaptar a novas condições. ela veio ao mundo para brilhar, se fazendo e fazendo pelo outro – Kimi Nii, ceramista japonesa

O interesse pelas diferenças ela carrega desde a infância, de certo modo por força do destino. Filha de um engenheiro civil e de uma psicóloga, Paula nasceu sem o antebraço esquerdo. Para que pudesse descobrir um jeito próprio de fazer as coisas, seus pais optaram por matricular a filha em uma escola antroposófica, de formação humanista. Na Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo, logo cedo ela aprendeu técnicas de jardinagem, marcenaria, tricô, escultura em pedra e xilogravura. “Do mais básico ao mais complexo, eu precisava achar meu caminho”, afirma. Como efeito, Paula não apenas se conectou com as artes manuais, mas também conquistou autonomia e uma maneira especial de lidar com os desafios. “Aprendi a encarar os ‘problemas’ não como um fim, mas como uma oportunidade de encontrar novos caminhos.”

BOLSA DE VALORES

A educação que recebeu, ela conta, foi a base de muitas escolhas em direção à liberdade. Quando completou 18 anos, em 1995, seu pai sugeriu que ela fizesse uma viagem antes de ir para a faculdade, e Paula voou a Queensland, nordeste da Austrália, para estudar inglês. Por coincidência, seu professor de inglês tinha um contato no governo australiano e obteve uma autorização para que ela participasse de uma missão como assistente de desenvolvimento local em Darwin, litoral norte da Austrália. Ao lado da equipe, ela passou pela experiência inusitada de ensinar uma comunidade aborígene a lidar com o lixo. Mas encontrou uma contradição. “O governo australiano costumava ofertar bens e produtos industrializados como forma de igualar e dar oportunidades. Mas não há nada que faça uma cultura migrar para outra, é uma questão de valores”, afirma.“Como eles não sabiam dirigir, uma Toyota Hilux havia se transformado em um galinheiro, batida numa árvore, com as quatro portas abertas”, conta.

Victor Affaro

De volta a São Paulo, poucos meses antes de prestar vestibular, ela abriu uma revista sobre profissões e encontrou: Desenho Industrial. “Entendi que o arquiteto constrói a casa e o desenhista industrial, tudo o que tem dentro. Gostei da parte criativa nesse processo, além da relação dos objetos com as pessoas.” Em 1997, Paula entrou na FAAP. Já no primeiro ano, passou a fazer monitoria na ilha de edição de vídeo, com direito a bolsa de estudo, e curtiu a vida acadêmica em tempo integral. “Eu participava de todas as oficinas oferecidas pelo currículo – vídeo, marcenaria, metal, cerâmica. Tenho o maior amor por todos os funcionários, que sempre me acolheram bem”, lembra.

DESIGN INDEPENDENTE

Naquele período, a inquieta aluna começou a se questionar sobre a reverência predominante ao design escandinavo e italiano. “Eu achava difícil encontrar sentido fazendo peças que seriam quase o design europeu. Comecei a me incomodar com essa coisa da ‘minha cadeira’, ‘sua cadeira’”, afirma. Reforçou essa visão ao conhecer a produção manual da ceramista japonesa Kimi Nii, radicada no Brasil, durante a Semana do Design FAAP. Após o encontro, Paula trabalhou no ateliê de Kimi durante cinco anos. “Com a cerâmica eu conseguia ver o tempo de todos os processos, desde amassar o barro até a queima. Era muito mais humano e real.” A ceramista japonesa divide suas memórias sobre a ex-assistente: “Logo percebi que Paula tinha facilidade para se adaptar a novas condições. Na modelagem e no desenho seu traço era orgânico. Ela veio ao mundo para brilhar, se fazendo e fazendo pelo outro”.

CAÇADORA DE AVENTURAS

Além de uma busca incessante por novas experiências, Paula parece ter aptidão natural para o improviso. Em 2002, dois anos depois de formada, a designer viajou com uma amiga à Europa, a passeio. Mas, durante uma travessia de barco pela Grécia, conheceu uma turma de estrangeiros de diferentes países e achou que poderia ir um pouco mais longe do que o previsto, para conhecer novos lugares. Quando a amiga acordou, ela avisou: “Não vou seguir viagem com você. Vou ficar na Grécia com este grupo”. A amiga voltou ao Brasil, Paula visitou seis ilhas gregas e, de lá, foi para Barcelona. “Muitos amigos estavam morando na Europa, por isso eu podia ficar em vários países”, afirma. Logo, a viagem de três meses se transformou em um ano e meio de estrada.

Aprendi a encarar os ‘problemas’ não como um fim, mas como uma oportunidade de encontrar novos caminhos – Paula Dib

Pensando em como poderia bancar a estadia em Barcelona, Paula foi até o estúdio de Javier Mariscal, designer criador do Cobi, mascote das Olimpíadas de Barcelona em 1992. Bateu na porta e mandou: “Oi, tudo bom? Sou do Brasil, estou viajando e gostaria de ficar mais tempo aqui na cidade. Sou formada em Desenho Industrial e estou à procura de trabalho. Posso ajudar em alguma coisa?”. No Estudio Mariscal, Paula realizou pesquisas para os projetos de arquitetura e design do Gran Hotel Domine Bilbao e do Museu da Ciência de Barcelona.

Dali em diante, ela provou de tudo um pouco. Na Alemanha, fez um hotsite para um banco antroposófico, por indicação de um amigo brasileiro que morava lá. Para estender sua passagem pela cidade de Witten, colou cartazes em postes, onde anunciava seus talentos: “Posso cuidar de crianças, posso cuidar do seu jardim, posso fazer desenhos”. Um dia, pegou-se com um sorriso de felicidade enquanto cuidava da roseira de uma senhora. Já em Londres, trabalhou como designer gráfica e hostess de restaurante.

SENTIDO DAS COISAS

No retorno para casa, em 2003, a paulistana foi assistir a um ciclo de palestras com artesãos, designers e antropólogos no Museu A Casa, a convite da amiga Renata Mellão, proprietária do espaço. Ali, entendeu o cenário do artesanato no Brasil. “Foi um divisor de águas para mim. Somei aquelas conexões com minhas experiências anteriores e encontrei um sentido.” Depois de desenvolver produtos na Associação Comunitária Monte Azul, na periferia paulistana, ela viajou à Helvécia, no sul da Bahia, para coordenar um projeto de desenvolvimento local pelo Instituto Supereco, em parceria com a empresa Suzano Papel e Celulose, que possui uma fábrica na região. Na ocasião, a designer notou que as mulheres gostavam de fazer crochê, mas, como não havia linha suficiente, elas desmanchavam as peças para fazer novamente. Por outro lado, sobravam lascas de eucalipto da produção industrial por toda parte. “E se fizermos crochê com essas lascas?”, ela propôs. O resultado virou uma fina (e rentável) coleção de cachepôs, fruteiras e luminárias.

Paula representa uma forma necessária de fazer design, comprometida com a melhoria da qualidade de vida e com o saber fazer do nosso povo – Adélia Borges, curadora

Intitulado Comunidade Produtiva, esse projeto chamou a atenção da curadora Adélia Borges, que lecionava História do Design na FAAP. Em um encontro com a ex-aluna, ela sugeriu que Paula se inscrevesse no International Young Design Entrepreneur of the Year, promovido pelo British Council. A princípio, Paula hesitou. “Ah, Adélia, estou tão distante do mundo do design”, disse. “Imagina, o que você está fazendo é absolutamente design, vale levar como experiência”, a professora garantiu. Em 2006, Paula ganhou o primeiro lugar, em Londres, pois o júri considerou que ela estava levando o design para novos rumos. Adélia Borges comenta o episódio com orgulho: “Isso não apenas trouxe um enorme impulso para uma carreira já promissora, como também deu visibilidade internacional a várias iniciativas no mesmo sentido que vinham ocorrendo no Brasil e no mundo. Paula representava naquele momento – e ainda representa – uma forma necessária de fazer design, comprometida com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e com o saber fazer do nosso povo”.

A SANDÁLIA DE LAMPIÃO

Na esteira do prêmio, diversas instituições ficaram interessadas no conceito de desenvolvimento local com olhar criativo. E lá foi Paula palestrar na Suécia, Holanda, Venezuela, Itália e em Hong Kong. Na paralela, ela continuou o trabalho na Bahia e implementou a proposta em outras comunidades pelo Brasil e pelo mundo. Em 2010, morou quatro meses na África para trabalhar com a Fundação Aga Khan em Moçambique, onde mapeou a produção de artesanato local e coordenou uma oficina de design para educadores, utilizando matérias-primas locais. Juntos, criaram miniaturas de animais com sabugo de milho e carrinhos com bambu.

Recentemente, em parceria com a documentarista Adriana Yañes, Paula codirigiu o documentário A sandália de Lampião, ao lado do marido, o escritor Antonio Lino, com quem teve Pedro, há um ano e dez meses. O curta-metragem, que participou do Festival É Tudo Verdade e pode ser visto no site do projeto (asandaliadelampiao.com.br), narra a história do mestre artesão Espedito Seleiro e da tradição do couro no Cariri, no Ceará.

Passada a pausa no trabalho para curtir a maternidade, sua intenção agora é retomar as parcerias. Nesse sentido, Paula busca empresas que sejam flexíveis para deixar o barco fluir, conforme o tempo de produção artesanal. “Quando a gente entende que existe um percurso até chegar no resultado, e que esse trajeto pode ser variável, os processos se tornam muito mais ricos e verdadeiros”, garante a designer.

DESIGN NA PRÁTICA
Conheça alguns projetos que Paula Dib plantou pelo Brasil

Victor Affaro

1_ ICONOGRAFIA SENSÍVEL
Em 2010, Paula foi convidada a participar de um projeto no Guarujá, litoral sul de São Paulo, coordenado pela designer Renata Mendes, da Associação Mundaréu. Ali, percebeu que as artesãs buscavam referências para seus trabalhos em revistas padronizadas de artesanato, culinária e tricô. Na busca por uma conexão com as formas, paletas de cores e texturas da cidade litorânea, as designers produziram um extenso registro fotográfico de detalhes da natureza, das pessoas e da arquitetura local. Essa documentação resultou no catálogo Iconografia sensível, que foi distribuído para cinco comunidades.

2_ IDENTIDADE CAIÇARA
Os artesãos da região da Jureia, no litoral de São Paulo, têm o costume de trabalhar com a caixeta, madeira nativa da Mata Atlântica extraída por manejo florestal. Antes, eles produziam peças decorativas a partir de moldes e desenhos prontos, como peixes e flores que, na realidade, não pertenciam ao ecossistema local. Em 2012, as designers Paula Dib e Renata Mendes se encontraram com os artesãos, a convite do Instituto Elos. Com inspiração na fauna e flora da Jureia, o grupo passou a criar rentáveis utensílios domésticos, artigos de decoração e brinquedos de identidade caiçara.

3_ CABOCLO
No sertão do Cariri, no Ceará, a tradição do couro é secular. Antigamente, quase tudo era feito a partir da pele curtida do gado: camas, malas, roupas, chapéus, sapatos. No entanto, com a expansão industrial, os sapateiros começaram a abrir mão do capricho para poder competir e produzir em série. De 2011 a 2013, Paula apoiou a empresa Caboclo, que exportava sapatos de couro para a Europa, e conseguiu devolver o tempo de produção aos artesãos. Em vez de agressivos tratamentos químicos, agora utilizam um método isento de cromo para o curtimento do couro. O solado reaproveita pneus usados. Hoje, a Caboclo vende esses produtos em países como Finlândia, Japão, Alemanha e Espanha.