Vivemos uma transformação no universo das corporações, que dá espaço a um novo modelo, agora mais feminino. Veja como as mulheres que chegaram a cargos de comando estão reinventando as relações de trabalho

Em pleno 2016 os números ainda espelham as contradições do mundo do trabalho para as mulheres. De acordo com o Censo de 2010, elas representam 58% dos universitários (na FAAP chegam a 60%) e estão à frente de 37% das famílias no Brasil. Entretanto, correspondem a apenas 2% dos presidentes das 250 maiores empresas do país, segundo levantamento de 2013 da consultoria Bain & Company. Tem mais: mesmo em altos cargos executivos, elas continuam ganhando 25% menos que os homens. Isso faz com que o Brasil ocupe a terceira posição no ranking de países que menos promovem mulheres a cargos de direção, como mostra o estudo Women in Business 2015, realizado pela consultoria Grant Thorton, atrás do Japão (66%) e da Alemanha (59%). Ou seja: aqui, 57% das empresas não possuem mulheres em cargos de liderança, como gerentes e diretoras.

Nesse cenário não deixa de ser curioso ouvir a percepção de Salim Ismail, canadense nascido na Índia e atualmente um dos maiores pensadores sobre o futuro das organizações. “O mundo foi assentado em estruturas de controle exercido de cima para baixo. Estou falando de religiões, das corporações, dos militares. Eu penso em todos como um arquétipo de orientação masculina, muito bem estruturados, perfeitos para gerenciar escassez”, disse recentemente à revista Trip. Entretanto, o autor do best-seller Organizações Exponenciais (HSM Editora) e CEO da Singularity University (misto de centro de estudos e incubadora de negócios que funciona dentro do Nasa Research Center, na Califórnia, que tem como meta formar e inspirar líderes) defende que a tecnologia, com sistemas mais colaborativos e sem hierarquia, vem construindo um arquétipo de orientação feminina graças a elementos como a internet e a bitcoin (moeda virtual). “E o que estamos vendo nada mais é do que uma mudança do arquétipo, do masculino para o feminino, em termos de como mover o mundo.”

A constatação de Salim desperta algumas questões. Se sob sua ótica há uma mudança em curso do paradigma masculino para o feminino no mundo do trabalho, qual é o papel da mulher nesse contexto? As mulheres serão mais valorizadas profissionalmente? Existe um jeito feminino de trabalhar, de exercer o poder? Elas querem exercer algum tipo de poder? As mulheres estão, de fato, mudando o mercado de trabalho? “Historicamente coube à mulher o papel de ser resiliente, ouvir, acolher, conciliar, cuidar. Isso é uma questão cultural e limitadora, pois cria estereótipos em relação ao masculino e ao feminino”, observa Jorgete Lemos, diretora de diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos. “De qualquer forma, essas características identificadas ao feminino vão ser mais apreciadas à medida que as empresas forem se humanizando, mas o mercado é ainda muito machista.”

Na opinião da psicanalista Maria Lucia Homem, professora da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP, o discurso corporativo já deveria estar mais humanizado. “No século 21 vivemos uma transformação global que coloca em xeque o paradigma patriarcal, mas parece que a maioria das empresas ainda não se moveu em direção a essa mudança”, constata. Com ela concorda Marina Nogueira Martins e Silva, diretora executiva do grupo Mulheres do Brasil, organização não governamental que reúne 1.400 executivas do país. “Vejo que hoje muita gente não está mais disposta a dedicar boa parte do seu tempo ao trabalho”, aponta. “Mas isso não é uma questão apenas feminina: homens e, principalmente, jovens de ambos os sexos da chamada geração Millenium [ou geração Y, nascida entre os anos 80 e 90] não se interessam por esse esquema de produção, porque atualmente o trabalho precisa fazer sentido na vida das pessoas.”

GERAÇÃO M

A empresária Gisella Gonçalves, 50 anos, não faz parte da geração Y, mas foi em busca de sentido que ela resolveu dar uma guinada na vida profissional. Em 2006, aos 40 anos, deixou o cargo de diretora comercial para o Brasil e a América Latina da Titan Steel Corporation, multinacional norte-americana exportadora de aço, para se dedicar a uma paixão da adolescência: a música. “Vivia em um ambiente de trabalho competitivo, com rotina estressante e sem espaço para criatividade”, recorda. Após lançar um CD como cantora, montou, com um amigo, a empresa Borandá, misto de selo fonográfico e produtora cultural com faturamento anual de R$ 1,2 milhão e foco na música independente instrumental.

A mudança profissional provocou uma reviravolta no estilo de vida de Gisella. “Quando larguei a carreira de executiva com ótimo salário, percentual de participação nos lucros anuais da empresa e viagens internacionais frequentes, minha família e alguns amigos acharam que eu tinha pirado”, conta. “Meu padrão de vida mudou: vendi o carro e passei a andar de transporte coletivo. Mas não abro mão do bem-estar que tenho hoje.” A empresária sabe que foi mais fácil tomar a decisão pelo fato de ser solteira e sem filhos. “Ninguém depende de mim”, diz. “Mas não dá para trocar qualidade de vida por uma suposta estabilidade profissional e financeira, que, no fundo, é ilusória e cobra um preço alto. Tenho amigos no mundo corporativo que vivem à base de ansiolítico para dar conta da rotina estressante.”

Gisela Gonçalves, largou a carreira de executiva e abriu uma produtora (Marcos Vilas Boas)

Gisella começou a trabalhar em empresas do setor siderúrgico aos 20 anos, no final da década de 80. “Acho que agora a mulher está questionando mais o esquema de trabalho dentro das empresas”, atesta. Na opinião de Deb Xavier, criadora do Jogo de damas, site voltado para mulheres empreendedoras, tal inquietação tem muito a ver com uma questão geracional. “As mulheres da geração Y são as primeiras com mães que majoritariamente trabalharam”, observa. “Elas não enxergam o mercado de trabalho como um bicho de sete cabeças e, portanto, o questionam mais.” É o que também pensa a economista e pesquisadora da questão de gênero Itali Pedroni Collini, que define a atual leva feminina como “geração M”. “As mulheres de hoje não fazem questão de se adequar porque sabem do seu potencial, porque estudaram, planejaram e desejaram um estilo de vida diferente do de suas mães e não precisam da sociedade, ou do ambiente de trabalho, dando aprovação para seus passos”, acredita.

Vejo que hoje muita gente não está mais disposta a dedicar boa parte do seu tempo ao trabalho. Mas isso não é uma questão apenas feminina: homens e, principalmente, jovens de ambos os sexos da chamada geração Y não se interessam por esse esquema de produção, porque atualmente o trabalho precisa fazer sentido na vida das pessoas – Marina Nogueira Martins e Silva, diretora executiva da ONG Mulheres do Brasil

A consequência disso, segundo Itali, é o crescente número de mulheres empreendedoras. Um estudo divulgado no ano passado pela Serasa Experian aponta que 43% dos negócios no Brasil são comandados por mulheres. É o caso da agência de conteúdo Contente, criada pela publicitária Luiza Voll e pela jornalista Daniela Arrais em 2009. “Eu trabalhava em agência de publicidade e a Dani, em jornal. Fazíamos os trabalhos da Contente em paralelo, na hora do almoço, à noite ou nos fins de semana”, recorda Luiza. “Era uma loucura!” Há quatro anos resolveram se dedicar exclusivamente à própria empresa, onde desenvolvem projetos como o Instamission, canal dentro do Instagram em que cerca de 56 mil seguidores participam de missões tageando as próprias fotos a partir de temas sugeridos pela dupla. Entre as 297 missões realizadas, 150 delas foram patrocinadas por marcas como Havaianas e Samsung. “Acho que até hoje muita gente da minha família não entende o que eu faço profissionalmente”, brinca Daniela.

Para Luiza, empreender um negócio possibilitou conectar vida pessoal e profi ssional. “A gente ama o que faz e pensa na Contente o tempo todo”, afirma. “Não precisamos virar a chave e esquecer as convicções pessoais para ir trabalhar”, diz. Nem tudo é mar de rosas, contudo. “A responsabilidade do negócio dar certo está 100% nas nossas mãos, nos momentos de indecisão não dá para pedir ajuda para o chefe e não temos carteira assinada”, analisa.

Luiza Voli (Marcos Vilas Boas)

TETO DE VIDRO

Não é de hoje que as brasileiras estão no mercado de trabalho. “Nos anos 70 as mulheres de classe média romperam com funções ligadas ao universo do cuidar, como professora primária ou enfermeira, para entrar nas universidades e empresas”, explica a socióloga Ariana Monteiro, coordenadora da pesquisa A Mulher Brasileira e as Novas Dinâmicas Sociais na agência de tendências Box 1824. “Mas não podemos esquecer que temos mulheres trabalhando informalmente desde o final do século 19, como empregadas domésticas e quituteiras.”

As mulheres de hoje não fazem questão de se adequar porque sabem do seu potencial, porque estudaram, planejaram e desejaram um estilo de vida diferente do de suas mães e não precisam da sociedade ou do ambiente de trabalho dando aprovação para seus passos – Itali Pedroni Collini, economista e pesquisadora da questão de gênero

Entre os anos 70 e 90, as brasileiras trataram de abrir caminho dentro das empresas. A executiva Patrícia Molino, sócia da consultoria KPMG Auditores Independentes, começou a trabalhar no mundo corporativo no início da década de 90 e lembra que na época costumava ver as colegas de trabalho com gravata de crochê. “A mulher fez um pacto complicado para entrar no mercado de trabalho: ela se masculinizou e disse ao marido que continuaria cuidando das crianças, criando assim a dupla jornada”, analisa. “Estamos em um momento de renegociar esse pacto.”

Renegociar o pacto não significa abrir mão das conquistas. Segundo um estudo sobre a liderança feminina realizado em 2015 pela KPMG, 64% das profissionais desejam ser líderes no futuro. No entanto, 67% delas afirmam que ainda precisam de apoio para crescerem dentro das empresas em que trabalham. Para mudar esse cenário, Patrícia Molino defende investir em iniciativas como programas de mentoria capazes de promover o desenvolvimento e o crescimento das profissionais dentro das organizações. A própria KPMG desenvolve o KPMG’s Network of Women (Know), grupo formado pelas próprias funcionárias para discutir o papel da mulher nas corporações e que promove ações de mentoring com executivos mais experientes, entre outras atividades.

Entretanto, o caminho continua árduo: um estudo da consultoria Grant Thorton mostra que o Brasil apresenta uma média geral de 19% de cargos do alto escalão ocupados por mulheres, índice abaixo da média global, de 24%. “É difícil explicar por que as mulheres não conseguem ultrapassar o teto de vidro e chegar ao topo das corporações”, diz Vanessa Martines Cepellos, professora do curso de Administração da FAAP, cuja tese de doutorado abordou o envelhecimento das executivas nas corporações. Com base no que pesquisou e no que ouviu das 58 mulheres que entrevistou durante a elaboração de sua tese, ela acredita que há uma resistência velada dentro das empresas. “As mulheres precisam superar os obstáculos de uma cultura enraizada, em que os líderes do sexo masculino tendem a promover executivos com o perfil semelhante ao seu. Além disso, muitas mulheres subestimam muito a própria capacidade, acham que não estão preparadas para assumir cargos mais altos.”

PODER COMPARTILHADO

A publicitária Daniella Giavina-Bianchi era diretora de estratégia e não duvidou da própria capacidade ao ser convidada em 2013 para assumir o escritório brasileiro da Interbrand, consultoria de marcas com sede na Inglaterra, e ainda encontrou uma maneira para tornar sua vida de executiva mais harmoniosa. “Ao receber o convite questionei se queria sacrificar minha vida pessoal pelo trabalho”, conta. Ao conversar com Humberto Almeida, outro diretor da Interbrand, resolveu propor à empresa uma gestão compartilhada. “No lugar de um CEO criamos uma dupla de diretores executivos com perfi s complementares: Beto vem da criação, enquanto eu sou da estratégia”, diz Daniella.

No século 21 vivemos uma transformação global que coloca em xeque o paradigma patriarcal, mas parece que a maioria das empresas ainda não se moveu em direção a essa mudança – Maria Lucia Homem, psicanalista e professora da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP

À frente de uma equipe de 50 pessoas, a executiva diz não ter dúvidas sobre a escolha. “Tomei essa decisão não por medo de não dar conta da função sozinha, mas em nome da minha qualidade de vida: hoje posso sair de férias mais sossegada sabendo que Beto está aqui e vice-versa”, conta Daniella, mãe de Antônio, 11, e Pedro, 5. “É um modelo iniciado no escritório brasileiro que funcionou. Hoje, a empresa está testando em outras unidades do mundo.”

Daniella Bianchi (Marcos Vilas Boas)

Foi também em nome da qualidade de vida que a pedagoga Rachel Carneiro de Sousa conseguiu renegociar sua rotina no trabalho. Há um ano e meio ela é consultora de responsabilidade social de uma empresa do setor sucroalcooleiro com 11 unidades pelo país, o que implicava várias viagens Brasil afora. Após uma delas, resolveu pedir demissão para ficar mais perto da fi lha Milena, 2 anos. A empresa fez então uma nova proposta para não perdê-la: hoje Rachel trabalha 20 horas por semana em esquema de home office, sem necessidade de viajar, e com carteira assinada. Alguns projetos que exigiam acompanhamento constante foram terceirizados. Em contrapartida o salário caiu 50%. “Foi um acordo bom para todos, não queria que parecesse um favor”, diz. “Espero que isso possa inspirar outras empresas.”

Rachel Sousa, renegociou sua rotina de trabalho (Marcos Vilas Boas)

MÃE AT WORK

Revisar a carreira após a chegada dos filhos é tema recorrente quando se fala sobre mulher e trabalho. Quando engravidou de Eva, hoje com 6 anos, a jornalista Cinthia Dalpino era o braço direito da apresentadora Ana Maria Braga. “Adorava meu trabalho e era workaholic”, conta. Após a licença-maternidade Cinthia passou a levar o bebê e uma babá para o escritório, onde a chefe montou um berçário especialmente para a criança. “Podia amamentar e trocar fralda durante o expediente”, diz. “Mas Eva cresceu, precisou ir para a escola e passei a questionar o tempo que ficava longe dela.”

Há três anos Cinthia optou por uma rotina de trabalho mais fluida: é ghostwriter e já produziu 17 livros por encomenda, além de escrever o blog Mãe at Work com dicas sobre maternidade e carreira. Trabalha em casa ou em cafés no período da manhã, quando as duas filhas estão na escola (ela também é mãe de Aurora, 3 anos) e também à noite, quando as crianças dormem. “Eu me reinventei e me sinto realizada, mas o mercado de trabalho ainda precisa olhar com mais carinho para as mães”, defende.

A mulher fez um pacto complicado para entrar no mercado de trabalho: ela se masculinizou e disse ao marido que continuaria cuidando das crianças, criando assim a dupla jornada.estamos em um momento de renegociar esse pacto” – Patrícia Molino, sócia da consultoria KPMG

Talvez essa realidade comece a mudar com a chegada de novos números. Recentemente um estudo do Peterson Institute for International Economics apontou que o desempenho das empresas melhora quanto maior é a proporção de mulheres em posições de liderança. Ou seja, empresas com pelo menos 30% de presença feminina em cargos executivos têm lucro 15% maior do que aquelas cuja presença é menor. Afinal, como diz o ditado, os números não mentem jamais.

REDE FEMININA

Conheça alguns sites que podem ajudar as mulheres no mundo do trabalho

JOGO DE DAMAS (www.jogodedamas.me)
O projeto comandado pela gaúcha Deb Xavier, embaixadora brasileira do Dia Global do Empreendedorismo Feminino, engloba site, eventos, workshops e programa de mentoria para mulheres empreendedoras.

LEAN IN (www.leanin.org)
Organização não governamental voltada ao crescimento profi ssional das mulheres criada por Sheryl Sandberg, vice-presidente global do Facebook e autora do livro Faça acontecer – Mulheres, trabalho e a vontade de liderar (Companhia das Letras).

MATERNATIVA (www.maternativa.com.br)
Na plataforma criada pelas amigas Camila Conti e Ana Laura Castro, em 2015, cerca de 8 mil mães empreendedoras divulgam seus produtos e serviços gratuitamente, além de compartilhar informações sobre práticas de negócios.

MÃE AT WORK (www.maeatwork.com.br)
Com foco em carreira e maternidade, a jornalista Cinthia Dalpino compartilha as próprias experiências, além de trazer novos modelos de trabalho e políticas de empresas voltadas para a mãe que trabalha.