Marcus Hadade foi vice-presidente do diretório acadêmico da FAAP, onde cursou Administração, ajudou a fundar a associação dos antigos alunos e transformou uma pequena gráfica da família em uma empresa com filiais em três países e faturamento de r$ 83 milhões

Estava tudo pronto para a chegada da modelo Luiza Brunet. Era 1993 e uma das maiores beldades brasileiras havia topado o convite dos alunos Rafael Possik e Marcus Hadade, respectivamente, presidente e vice-presidente do Diretório Acadêmico do curso de Administração da FAAP. “Na época, o DA ficava em um lugar escondido no pátio e a gente conseguiu trazê-lo para dentro do prédio, para ficar mais próximo dos alunos”, recorda Marcus. “Para criar um fato em torno disso, tivemos a ideia de chamar a Luiza Brunet, que estava envolvida com o curso de Moda da FAAP, para cortar a faixa de inauguração da nova sede. Mas ela precisou cancelar o compromisso em cima da hora por causa de um problema pessoal e ficamos com a moral em baixa.”

Não demorou para Marcus e Rafael darem a volta por cima. Para se desculpar pelo furo, a modelo aceitou a proposta da dupla e percorreu as turmas da Administração para divulgar a abertura da nova sede. “Foi incrível! Imagine a cara dos professores e dos alunos quando a Luiza Brunet pedia licença para entrar na sala. Para completar, ela foi muito simpática e divertida, brincou com todo mundo e chamou muito mais atenção para o DA do que se tivesse vindo na inauguração”, prossegue Marcus. “Episódios assim me ensinaram que na vida a gente precisa ser ousado e acreditar nas próprias ideias.”

O ex-aluno Marcus Hadade, no topo da sede da empresa, no bairro Chácara Santo Antônio, em São Paulo

Hoje Marcus emprega essa mesma filosofia no mundo dos negócios. Aos 43 anos, ele comanda a Arizona ao lado do irmão caçula, Alexandre, 40, também egresso do curso de Administração da FAAP. A empresa começou como uma pequena gráfica familiar, mas graças à ousadia da dupla de sócios tornou-se primeiro uma butique de impressos para então desbravar um território novo no mercado não apenas brasileiro, como mundial. “Atualmente, a gente oferece uma série de serviços para aumentar a eficiência dos processos de marketing e da comunicação multimídia dos clientes, seja em vídeo, internet, impresso, rede social ou e-commerce”, explica Marcus.    

É o caso da Natura. Para a fabricante de cosméticos, a Arizona organizou em um banco de imagens as fotografias já veiculadas pela marca em catálogos e campanhas publicitárias, por exemplo. Quando precisa reutilizar o material em outras ações de divulgação no Brasil e no exterior, como banner, folder ou post em redes sociais, a Natura acessa esse arquivo digital, economizando assim tempo e dinheiro. Entre outras coisas, a Arizona também desenvolveu para a marca um sistema de gerenciamento de cores até então inédito no país. Na época, muitos produtos de maquiagem da empresa eram devolvidos pelos consumidores por conta da diferença entre o tom real do item e aquele registrado no catálogo. “Qualidade de imagem é fundamental para nosso negócio e a Arizona nos ajudou a encontrar um caminho”, diz José Vicente Marino, vice-presidente de marcas e negócios da Natura.

RITO DE PASSAGEM

Com faturamento anual de R$ 83 milhões, a Arizona possui cerca de 300 funcionários espalhados pelos escritórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago e Bogotá. Na cartela de cem clientes divididos entre agências de publicidade e empresas, pontuam marcas como Coca-Cola, Santander e Carrefour. E pensar que o negócio começou por acaso pelas mãos do empresário Abdo Antônio Hadade, pai de Marcus e Alexandre – e da irmã deles, Luciana, 41, também formada em Administração pela FAAP e hoje diretora comercial de um empresa ligada à educação. No início da década de 90 o patriarca resolveu comprar duas máquinas para imprimir os carnês de crediário das empresas da família – no caso, a loja de eletroeletrônicos Cineral e uma administradora de consórcios.

Gosto de trabalhar com uma equipe com diferentes pontos de vista. é mais difícil de administrar, mas os resultados são mais interessantes — Marcus Hadade

A gráfica foi instalada no Tatuapé, onde o clã morava. “Minha família tem uma profunda ligação com o bairro”, diz Marcus. A história começa quando o avô desembarca no Brasil na década de 20, fugindo de uma  guerra civil no país de origem, a Síria. Após passagem pelo interior de São Paulo, veio para a capital e fincou raízes no Tatuapé. Trabalhou de mascate e barbeiro até abrir uma oficina de eletroeletrônicos, que depois se transformaria na loja Cineral. Ao herdar o negócio, seu Abdo mostrou que trazia o espírito empreendedor no DNA: criou uma administradora de consórcios e, com a abertura do mercado brasileiro pelo governo Collor, nos anos 90, passou a importar televisores dos Estados Unidos, que montava na Zona Franca de Manaus.

Rafael Possik e Marcus, então presidente e vice-presidente do Diretório Acadêmico, na FAAP, com a ex-modelo Luiza Brunet, em 1993

A ideia de criar a gráfica parecia acertada, mas a dificuldade de encontrar mão de obra especializada quase fez seu Abdo desistir. Até que a esposa, Jaqueline, resolveu assumir a empreitada. Na ocasião, o caçula, Alexandre, tinha voltado de uma temporada de estudos no exterior e sonhava trabalhar em um banco de investimentos, mas enquanto a vaga não surgia foi ajudar a mãe e se apaixonou pelo negócio. De perfil mais técnico, o rapaz procurou o irmão mais velho para ajudar na área comercial da gráfica. “Fiquei indeciso, porque a Arizona era muito pequena, mas resolvi arriscar.”

Os pais, Abdo Antônio e Jaqueline, e os irmãos, Alexandre e Luciana, reunidos na posse de Marcus (ao centro) como presidente da Confederação Nacional dos Jovens Empresários, em abril de 2003

Marcus era então um dos principais executivos de vendas da Cineral. Na época, já formado e por volta dos 26 anos, rodava o Brasil para negociar os televisores. Essa relação de Marcus com o negócio familiar começou cedo. Na adolescência fazia embrulhos ou serviços de boy para a loja. Com o tempo passou por todos os departamentos. “Essa é a melhor maneira de conhecer uma empresa e saber respeitar o trabalho de todos”, justifica seu Abdo. “Marcus sempre foi muito curioso e aprendeu rápido.” Com a abertura de um segundo endereço, o primogênito assumiu a gerência da nova loja. Aos 19 anos, recém-saído do Exército, ele já tinha garantido a vaga no curso noturno de Administração da FAAP. “Era uma loucura conciliar trabalho e estudo”, lembra. “Mas fazer faculdade foi meu rito de passagem para a vida adulta.”

Ele cumprimentava do faxineiro ao diretor da faculdade sem fazer diferença – Prof. Henrique Vailati Neto

LÍDER POR NATUREZA

Apesar da agenda profissional atribulada, Marcus não passou batido pela FAAP. Além de vice-presidente do DA por duas gestões, organizava as festas da turma, inclusive o baile de formatura. Mais tarde ajudou a fundar a Associação dos Antigos Alunos da FAAP e hoje faz parte do conselho do curso de Administração. “Marcus é um líder nato: tem iniciativa, ética e simpatia”, define o ex-colega Rafael Possik, hoje gestor de informação da FAAP. Não por acaso, quando se juntou ao irmão na Arizona, em 1998, Marcus trouxe para a empresa uma vasta rede de contatos arregimentada desde a época do colégio Agostiniano Mendel, no Tatuapé. “Ele sempre foi extremamente gentil e comunicativo. É daqueles que gostam de falar, mas sabem ouvir”, diz Sergio Herz, outro antigo colega de faculdade e hoje CEO da Livraria Cultura.

Os dois irmãos já haviam transformado a Arizona em uma sofisticada butique de impressos, quando perceberam uma mudança no mercado. Por esse motivo, venderam a gráfica em 2007. “Vimos que nossos clientes não estavam tão interessados em impressão, mas em soluções que pudessem simplificar e tornar mais eficiente o processo antes de o material seguir para a gráfica”, explica Marcus, na sala de reuniões da empresa, localizada em um prédio de quatro andares na Chácara Santo Antônio, na zona sul paulistana. No mesmo ano, Marcus e Alexandre passaram a fazer parte da Endeavor, organização que tem como meta fortalecer a cultura empreendedora do país. São 131 empreendedores Endeavor no Brasil, selecionados a partir do histórico de realização e inovação da empresa. Eles têm acesso a uma rede de 300 mentores, que aconselham e trocam experiências com empresários como Marcus e o irmão.

Qualidade de imagem é fundamental e a Arizona nos ajudou a encontrar um caminho –  José Vicente Marino, vice-presidente de marcas e negócios da Natura

Hoje a Arizona atua em duas frentes. A primeira delas é a produção. Nela, a empresa faz o meio de campo entre o material produzido pela agência de publicidade e os canais de comunicação – como jornais,  revistas, emissoras de rádio e TV, redes sociais e portais da internet. O processo, inteiramente automatizado, inclui, por exemplo, aprovação do anúncio, acabamento e envio do material para os veículos de mídia. “Se a gente fosse uma montadora não cuidaria da parte de projeto e design, mas produziria o veículo e depois entregaria na rede de concessionárias”,  compara Marcus.

Outra frente é a gestão, onde a Arizona desenvolve e disponibiliza tecnologia para empresas. Um dos produtos é uma plataforma digital para gestão de orçamentos e planejamento de marketing utilizada por clientes como o Santander. Nesse caso, o banco orienta e controla um investimento milionário voltado para publicidade, promoção e marca por meio de uma planilha de marketing, que costuma ser alterada uma vez por semana, gerando cerca de 50 diferentes versões por ano. “Nosso sistema guarda todo o acervo e atualiza os dados em tempo real, evitando desencontro de informação dentro da equipe de marketing do cliente”, diz Marcus.

Talvez pelo fato de precisar se desdobrar em três turnos para cumprir prazos exíguos, a Arizona aposta em um clima informal em suas dependências.  Na recepção fica uma mesa de sinuca, os dois sócios dividem a mesa de trabalho com outros dois diretores e alguns setores, como o marketing, estão liberados para home office. “Profissionais felizes são mais produtivos”, acredita Marcus, vestindo calça jeans e camisa social branca. “Gosto de trabalhar com uma equipe com diferentes pontos de vista. É mais difícil de administrar, mas os resultados são mais interessantes.”

Para decifrar a complexidade de gerir pessoas, Marcus investe em cursos de imersão e coaching, além de devorar livros sobre o assunto. “Meu foco é a literatura voltada para o trabalho, mas recentemente li o Nana, nenê [método de educação infantil]”, confessa o empresário, pai de Chloé, 3 anos, e Otto, 1, frutos do casamento com a dermatologista mineira Claudia Savassi. Por causa dos filhos ele diz estar menos workaholic. “Há um ano não trabalho mais aos fins de semana, nem mesmo acesso e-mails no celular”, afirma, para concluir: “Eles me renovaram!”.

O PRAGMÁTICO E O DIPLOMATA
ALEXANDRE HADADE CONTA COMO É SER IRMÃO E SÓCIO DE MARCUS

“Quem vê a relação de respeito que tenho hoje com meu irmão não imagina o quanto brigamos na infância. Era aquela coisa de menino, de disputar a bola de futebol, os brinquedos… Nessas horas meu pai chegava perto, falava para a gente se abraçar e não saía de perto enquanto não fazíamos as pazes. Mas, claro, brincamos bastante juntos. Na época, o prédio onde morávamos no Tatuapé não tinha grade e a gente vivia na rua jogando futebol e andando de bicicleta. Depois mudamos para uma casa e nossa maior diversão era jogar bola dentro do banheiro, enquanto tomava banho. Logo quando vim para a Arizona ajudar minha mãe, percebi que precisava do Marcus aqui. Nós somos muito diferentes. Sou mais introspectivo e pragmático, enquanto o Marcus sempre foi o cara do relacionamento, um diplomata nato. Acho que nossa parceria profissional deu certo porque a gente se complementa e tem muito respeito um pelo outro”.