um dos empresários mais bem-sucedidos do país, facundo guerra fala sobre fracasso, sucesso, instabilidade e futuro

Hoje um dos mais bem-sucedidos empresários do país, Facundo Guerra começou a empreender por acaso. Sua breve carreira
como executivo nas multinacionais Tetra Pak, American Express e Aol terminaria aos 30 anos, quando foi demitido da gigante
norte-americana de tecnologia. “Nunca pensei em empreender. Decidi montar meu primeiro negócio para ter o que falar nas entrevistas de emprego. Pelo menos me achariam corajoso”, lembra. Da garagem sem luz e sem som nasceu o Vegas, boate que se tornou referência do Baixo Augusta e que colocou Facundo de vez no ramo da noite paulistana. “Depois do Vegas, aconteceram mais de 15 outros negócios”, diz ele, 15 anos depois.

Na extensa lista de espaços que abriu na cidade, dos quais muitos nem existem mais, estão as casas noturnas Lions, Yatch, Cine Joia e Blue Note, e bares como Pan Am, Riviera e Arcos, um dos seus empreendimentos mais recentes, que fica no subsolo do Theatro Municipal. Montar lugares com a cara de São Paulo foi o jeito que o argentino, nascido em Córdoba, encontrou de criar a sua identidade como paulistano. “Ser argentino aqui na década de 80 não foi das coisas mais confortáveis do mundo. Cresci no bairro de Santa Cecília, sempre nessa busca por tentar me reconhecer como brasileiro e paulistano.”

Formado em Engenharia de Alimentos e Jornalismo, e com mestrado e doutorado em ciências políticas, Facundo diz que ter estudado os três grandes campos do saber foi fundamental para criar um olhar multidimensional sobre as coisas. “Hoje em dia, com a inteligência artificial, os ultraespecialistas vão se tornar obsoletos. Precisamos compreender as diferentes perspectivas de tudo”, afirma.

Durante a sua entrevista no evento Revista FAAP Ao Vivo, num formato de sorteio de perguntas, Facundo relembrou os tempos em que estudou no Colégio FAAP, falou sobre a sua relação com a cidade de São Paulo e respondeu questões enviadas pelos alunos sobre empreendedorismo, instabilidade e a vontade de um dia ser professor.

Vendo de fora, parece que você não tem dificuldade em criar e matar projetos. Você lida bem com a instabilidade?

A estabilidade é uma ilusão. O mundo está sempre se transformando, o nosso corpo está mudando, as relações estão mudando… Você
esperar que as coisas continuem da mesma maneira, num delta de tempo superior a algumas semanas e meses, é ilusório. É que,
agora, as nossas incertezas em relação ao futuro estão ficando cada vez mais imateriais. Por exemplo: eu estudei no Colégio FAAP no 3º ano do Ensino Médio. Naquela época, eu tinha medo da guerra nuclear, de o mundo acabar numa grande bola de fogo com o céu ficando lilás. Mas o medo era tangível. A gente sabia que a destruição estava num botão vermelho, que poderia ser acionado por um louco maníaco. O poder era concentrado num rosto. Hoje não. A minha insegurança atual vem do algoritmo, vem da inteligência artificial, da bioengenharia. Das coisas que eu não entendo. A minha insegurança é como a inteligência artificial vai mudar as nossas relações. A gente tem de se encontrar de alguma maneira, em real life. O contato humano é uma necessidade que a gente tem como espécie.

Como é a sua relação com a cidade?

São Paulo sempre foi meu território. Meu avô e minha mãe eram vendedores ambulantes– ela vendia empanada e, ele, bala de coco. E eu os acompanhava. São Paulo sempre careceu de identidade. Era a cidade do capital, do carro, shopping center, o túmulo do samba… Todas essas identidades nocivas, que não são agregadoras. E eu não me encaixava. E aí não tem jeito, porque São Paulo é uma cidade de paisagem humana. Os humanos mais incríveis do país estão aqui e eles se encontram em lugares. Então, foi no Riviera, no Mirante, no Cine Joia, no Cine Ipiranga e em todos esses espaços que eu abri que a identidade, para me reconhecer como paulistano, se formou.

E por que a escolha por espaços históricos na hora de empreender?

Por razões egoístas e nada altruístas. Primeiro, porque o patrimônio histórico já tem uma moldura narrativa, eu sei de onde partir, eu não estou saindo da folha em branco – porque a folha em branco assusta, mas a tradução, nem tanto. Isso facilita meu trabalho. E a segunda – e aí é mais uma vez uma razão egoica – é o fato de eu ter crescido como um menino argentino que não deixavam ser brasileiro.

Como manter os negócios atuais?

Eles precisam responder, politicamente, ao espírito do tempo. Caso contrário, começam a ficar obsoletos. São Paulo é uma cidade muito voltada pra dentro – diferentemente do Rio, que tem suas paisagens e campos afetivos muito bem determinados (o Cristo Redentor, por exemplo, nunca vai mudar de lugar). Aqui, não, os lugares das décadas de 50, 60 e 70, onde aconteceram as produções culturais e intelectuais da cidade, não existem mais, desapareceram. E isso faz com que a gente se pergunte: “O que vai acontecer com esses pequenos palcos de hoje daqui a algum tempo?”, “o que vai ser um bar no futuro?”.

Sempre teve vontade de empreender?

Na verdade, nunca quis ser empreendedor, porque quando era adolescente nem existia essa palavra. Montar o seu próprio negócio,
inclusive, era sinônimo de derrota. Acontece que hoje o empreendedorismo, diante das falências das relações formais de trabalho,
passou a ser o lugar onde quem está desempregado se refugia, porque ele te empresta uma identidade, te conforta. Você começa a se apropriar de uma gramática – startup, pensar fora da caixa, disruptivo, inovação – que te empresta certa dignidade. Todo mundo em São Paulo, que está fora do mercado formal, é um empreendedor, tem um projeto. Eu mesmo estou tocando nove projetos nesse momento, dos quais apenas um ou dois podem se concretizar.

O que a experiência de montar o Vegas mudou em você?

Transformou a minha vida. Não foi intencional. Foi uma tentativa de desespero. Eu já tinha gastado 60% do meu FGTS num negócio que não tinha dado certo e o restinho que sobrou investi no Vegas, que quando abriu não tinha nem som, nem luz, nem ar condicionado. Ou seja, não era uma boate. Era uma garagem pintada. Mas ali foi a primeira vez que tive controle sobre alguma coisa. Até então, quando você está na corporação, você não tem controle de nada.

Parece justamente o contrário: no empreendedorismo você tem de lidar com coisas que não pode controlar e na corporação tem uma trilha estável a cumprir.

A corporação é uma corte do Luís XV, no século 16. É muita aparência, muita energia gasta na manutenção da estrutura. Enquanto
o empreendedor tem de se transformar numa pessoa responsável por cada ato. Controlar cada escolha. Cada decisão é matar ou morrer. E você viver com fome, metaforicamente falando, no limite da sua energia, lutando pela sua sobrevivência dia a dia, é uma experiência existencial muito transformadora. Por isso que respeito muito as pessoas que não têm o privilégio que eu tenho. Elas constroem uma resiliência que nós, da elite, nunca teremos. Eu, de alguma maneira, já estive perto disso. Aquele limite em que você atrasou três meses de aluguel, chegou a notificação do despejo, você tem 100 reais para comer na semana… Passei por essa situação específica recentemente.

Mesmo?

Mesmo. Eu tenho cara de ser o Tio Patinhas, as pessoas pensam que eu nado na grana. Mas, não. Eu sempre brinquei de pirâmide,
pegava o lucro de um e investia no outro. Montei quatro negócios ao mesmo tempo em 2018. Isso me levou à queda que me referi.
Mas ser empreendedor é isso também. É preciso ter austeridade, saber que estabilidade não existe. É uma mentira. A gente vive sempre com medo do amanhã. Por exemplo, agora, o Arcos, que é o bar que eu montei embaixo do Theatro Municipal, é meu segundo empreendimento mais bem-sucedido, depois do Vegas. Eu demorei 15 anos para montá-lo. E eu tenho medo de perder o furor. Não consigo aproveitar o sucesso, porque tenho medo de perdê-lo.

Estar nessa corda bamba é o que te alimenta e faz gostar do que faz?

Olha, isso é muito legal quando você tem 20, 30 anos. Com 40, já começa a ficar um pouco cansativo. Eu tenho uma filha de 7 anos. Não tenho mais direito de ser vida louca. Tenho de olhar para ela e pensar: “Será que você vai herdar minhas dívidas? Vai herdar as
consequências das minhas loucuras e do fato de eu ter sido um cara inconsequente, de não ter pensado em dinheiro?”. Mas, ao mesmo tempo, não quero ser rico, nunca vou querer. Preciso de um pouco de fome, senão emburreço.

Você é viciado em criar novos negócios?

Infelizmente, acho que sou. Você fica viciado no rush de ter sucesso, de ser reconhecido, de ser visto como bem-sucedido, de estar aqui hoje contando sobre a minha trajetória. Tem muito a ver com vaidade. Nunca consegui tirar muito dinheiro, mas tirava recompensa pessoal. Um negócio pode ser um veículo para você se expressar. E o que todo mundo espera quando se expressa? Viver, transcender a morte. Essa é a questão que está dentro de qualquer artista: sobreviver à sua vulnerabilidade, à sua fragilidade. Quando você monta um palco, e vida e morte acontecem ali, é uma forma de você construir um legado.

Você já deu aulas. Tem vontade de voltar a ser professor?

Não fui professor formalmente. Quando estava fazendo mestrado, me juntei a outros alunos para dar aulas para jovens que não podiam pagar por um cursinho. Eu ensinava física e redação. Foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. A profissão mais urgente é a do professor, a que tem o poder de tocar a vida de alguém.

O que daria na sua primeira aula?

Não acho que tem de dar nada. Tem de estimular a fluidez do conhecimento, da troca, fazer as pessoas pensarem por conta própria, discutir, ouvir, entender. Temos de ensinar os humanos a serem mais humanos. A compartilharem as dores, a terem empatia e se colocarem no lugar do outro. O conhecimento específico já é commodity. A capacidade de articulação de conhecimentos específicos, ela, sim, tem de ser ensinada. Quando a gente fala de criatividade e inovação, é nesse sentido de ser capaz de articular múltiplas frentes do saber e aplicá-las a um problema da sociedade. E eu não vejo quase ninguém fazendo isso.