Tiê explica como a trajetória profissional cheia de curvas a ajudou a se encontrar na música

“A gente tem que se adaptar às situações, não ter medo de se reinventar. Só fazendo para saber se funciona ou não”, diz Tiê, que não se arrepende de ter percorrido vários caminhos antes de mergulhar de vez na música e, aos 29 anos, lançar seu primeiro álbum. A paulistana, que se formou em Relações Públicas na FAAP, começou a trabalhar como modelo fotográfica aos 13 anos, atuou na área de produção de shows e teve o próprio negócio, o Café Brechó, em São Paulo.

Há dez anos vivendo de música, a cantora lançou quatro discos de estúdio, abriu uma produtora (a Rosa Flamingo), emplacou dez
singles em trilhas sonoras de novelas e viu suas canções autobiográficas chegarem às rádios e aos ouvidos de muitos brasileiros.
Em setembro, lançou o disco e DVD DIX, que faz um panorama de sua trajetória musical, com sucessos e releituras. “Foi realmente um momento de celebração de tudo que eu passei, conheci e vivi.”

Na entrevista a seguir, Tiê fala sobre a vida antes da fama, os caminhos que a levaram para a música e a importância de se jogar.

Como foi sua experiência como modelo?

Com uns 13 anos, fiz fotos para uma revista e pensei que, de repente, poderia ser uma chance de eu trabalhar. Até os 15, ganhei uma
grana com publicidade, fiz um comercial, que foi dirigido pelo Fernando Meirelles, e que foi premiado em Cannes. Confesso que nunca amei a profissão, me sentia muito insegura, achava um saco ficar horas esperando um teste. Eu era modelo fotográfica da Ford
Models no Brasil e de outra agência no Japão, onde fui morar aos 13 anos. Fiquei seis meses lá, junto com a minha mãe. Isso me fez
despertar para querer trabalhar cedo, ajudá-la com as contas, conhecer o mundo. Eu realmente comecei a trabalhar com 13 anos e não parei mais.

O que fez ao voltar para o Brasil?

Eu fui estudar Relações Públicas na FAAP e tranquei por um ano para morar em Nova York. Lá, trabalhei com produção de shows
e fiz aulas de canto. Comecei a cantar profissionalmente mais tarde, mas seguia trabalhando, viajando e pagando minhas contas desde muito cedo.

E por que você escolheu Relações Públicas?

Porque era um curso bem abrangente e eu não tinha confiança suficiente para fazer faculdade de música. Tive aulas de cinema, filosofia, semiótica, fotografia, teatro, várias coisas legais. Sabe que eu acho que tem bastante a ver com o que eu faço hoje? Aprendi sobre gerenciamento de crises, direito autoral, coisas que estão ligadas à minha carreira na música.

Quando decidiu viver de música?

Eu já cantava em bares e eventos, mas isso não me dava grana ainda. Então, vi um ponto bom, juntei um dinheiro, chamei uma amiga e falei: “Vamos abrir um bar”. No fim, abrimos o Café Brechó [espaço que virou referência no meio artístico e ficava ao lado da MTV, em São Paulo], que tinha café, restaurante, bar e brechó. Eu não queria ficar parada nem depender de ninguém, daí resolvi empreender. Durou um ano até que eu conheci o Toquinho e o Dudu Tsuda [músico da banda Jumbo Elektro], o que foi uma virada na minha vida. Os dois foram almoçar lá, falei que cantava e, pouco tempo depois, fechei o brechó para sair em turnê com os dois.

O Toquinho é como um padrinho musical para você?

Sim, fiquei dois anos e meio cantando com ele, fizemos turnê no Brasil inteiro e na Europa. Até hoje, pelo menos duas vezes por ano, eu faço show com ele. Ele é supercarinhoso, a gente tem uma relação ótima. Foi ele quem me colocou no palco e falou: “Você está pronta, pode cantar”. Aos 29 lancei meu primeiro disco, só com composições minhas.

Pocket show da cantora para encerrar o evento da FAAP Ao Vivo, realizado no campus

Antes você sentia algo como a “síndrome da impostora”, de se sabotar, achar que não era capaz?

Totalmente. Ainda sinto hoje em dia, mas acho que é normal, todo mundo em um momento ruim se sente assim.

Você teve experiências profissionais muito diferentes antes de chegar à música. O que essa “falta de estabilidade” trouxe de aprendizado?

Eu queria ter alguma coisa para dizer, então, foi bom ter esperado. Meu primeiro disco autoral é todo escrito e pensado por mim.
Aprendi que a gente tem que se adaptar às situações, não ter medo de se reinventar. Só fazendo para saber se funciona ou não, se vai
se dar bem, se vai gostar. Tem que ter coragem para abrir portas.

Você tem mais de dez músicas que fizeram parte de trilhas sonoras de novelas. Como isso impactou na sua carreira?

É maravilhoso, acabo ganhando um público novo, que não me escutaria normalmente se não fosse pela novela. Sou superfã, até porque eu venho de uma família que trabalha com TV. Sou neta de Vida Alves [1928-2017], que deu o primeiro beijo da televisão brasileira nos anos 50 e trabalhou anos na TV Tupi.

Você lançou o disco e DVD DIX, que traz um panorama dos seus dez anos de carreira. O que ele representa para você?

Foi o meu primeiro disco gravado ao vivo, uma experiência totalmente diferente. Foi realmente um momento de celebração de tudo
que eu passei, conheci e vivi. Acho que o resultado é bonito. Agora eu vou sair em turnê.

Gravação do DVD Dix, que traz um panorama dos dez anos de carreira da artista e foi lançado em setembro

Você tem duas filhas pequenas, uma de 7 e outra de 10 anos. Como é conciliar as turnês com a maternidade?

Elas vão comigo a muitos shows. Elas já dormiram inúmeras vezes no teatro enquanto eu trabalhava, já invadiram o palco e cantaram comigo, faz parte da rotina. O engraçado é que elas não entendem direito se eu sou famosa ou não, fi cam meio perdidas. Uma vez, uma delas me perguntou: “Mãe, você é famosa como o Justin Bieber?”. E eu falei: “Claro que não [risos]”. Elas gostam quando toca minha música na rádio, quando passa na TV, é divertido.

Quais são os planos para o futuro?

Eu quero cantar muito ainda, viajar, levar a minha música para mais lugares. E quero fazer isso até velhinha, não tenho vontade de desistir de nada disso.