Aos 38 anos, o ex-aluno de relações internacionais Fabio Rua já rodou o mundo – viajou por mais de 40 países – e passou por cinco grandes empresas, da Vale à IBM, onde ocupa hoje um dos principais cargos executivos para a América Latina. “O que mais quero é mostrar como essa carreira fascinante vai muito além da diplomocia e de viagens”

A mala preta de rodinhas parece fazer parte do figurino. Foi puxando a bagagem pela mão, metido em ternos elegantes, que Fabio Rua compareceu às duas entrevistas marcadas com a reportagem da Revista FAAP, realizadas em São Paulo. O cargo comprido estampado no cartão de visita – Diretor de Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios da IBM América Latina – dá só uma pista do verdadeiro nó que costuma ser a sua agenda. Morador de Brasília, onde vive com a mulher e os dois filhos pequenos desde o início de 2016, o paulistano tem compromissos semanais com as diversas equipes que chefia, espalhadas entre o México e o Chile. Praticamente não há rotina de escritório, já que o cargo é baseado no corpo a corpo com entidades e políticos que elaboram as regulamentações do setor de tecnologia.

Fabio com a mulher Gabriela e os filhos Bento (no colo) e Theo

Não raro, Fabio enfrenta um voo noturno, acorda em outro país, emenda várias reuniões e volta para casa na mesma noite, para tomar café em família na manhã seguinte. Ele classifica tal rotina como “maluca”, mas admite que não saberia viver de outro modo – era exatamente isso o que esperava ao se matricular na primeira turma de Relações Internacionais do curso de Economia da FAAP, em 1998. Pique, ele tira da paixão pelo que faz. “Sempre adorei política internacional. Era o primeiro caderno do jornal que lia, ainda adolescente, quando cogitava ser diplomata. Mas logo descobri que, no Itamaraty, teria de esperar muito até meu trabalho ter relevância. E eu tinha pressa, por isso escolhi o setor privado.”

A maioria dos alunos ainda enxerga a diplomacia como único caminho possível. E muitos pensam que basta dominar várias línguas e gostar de viajar para ser bem-sucedido, um dos enganos mais comuns – Fabio Rua

Optar por uma carreira tão nova, diz Fabio, tem prós e contras – se sobram oportunidades, falta conhecimento até mesmo nas empresas  que precisam de profissionais com essa qualificação. “Durante a faculdade, me inscrevia nos programas de estágio e não encontrava a opção de Relações Internacionais nos formulários. Sempre era enquadrado em ‘outros’. Foi ali que decidi me dedicar a difundir a profissão.” A cruzada começou antes mesmo da formatura, quando participou, em 1998, da funda- ção da Federação Nacional dos Estudantes de Relações Internacionais (Feneri), entidade que incentiva o intercâmbio acadêmico e estimula pesquisas e projetos na área. Depois, já com o canudo na mão e trabalhando na área, passou a dar palestras em faculdades, nas quais explica que a função de um profissional de R.I. não se limita a defender os interesses da empresa – muitas vezes, também é seu papel representar todo o setor junto aos governos, inclusive no exterior. “A maioria dos alunos ainda enxerga a diplomacia como único caminho possível. E muitos pensam que basta dominar várias línguas e gostar de viajar para ser bem-sucedido, um dos enganos mais comuns”, diz Fabio.

Na sede da Organização Mundial de Comércio, em Genebra, onde concluiu a pós-graduação

Com Fernando Henrique Cardoso, o maior exemplo na política para Fabio

A lista de habilidades fundamentais, ele  avisa, vai muito além de ter rodinhas nos pés. Entre as missões de um profissional de R.I. estão conquistar a simpatia de governantes dos poderes Legislativo e Executivo nas três esferas (municipal, estadual e federal), seduzir lideranças estrangeiras para causas das mais diversas naturezas e convencer empresas que concorrem entre si a se unirem em prol de um interesse coletivo – tudo isso com base em conhecimento sólido sobre leis. Haja carisma e jogo de cintura. “Lido com pessoas que têm outras motivações, vêm de outras culturas e seguem outro senso de urgência. O que conta, nesses momentos, é ter capacidade negociadora, empatia e inteligência emocional.”

TALENTO E SUOR
Fabio Rua acredita que ninguém traz tantas competências de fábrica – ex-aluno de duas escolas de classe média alta em São Paulo, a Morumbi e a Pueri Domus, ele confessa que, na infância e na adolescência, passava longe da figura de líder carismático. Tampouco se destacava nas notas. “Nunca me conformei em estudar coisas que não me interessavam. Nas disciplinas de exatas, não tirava mais do que 6. Para que saber por que a lâmpada acende? Só queria que ela funcionasse.” Quando chegou a hora do vestibular, sobravam dúvidas. Direito parecia a escolha mais natural, mesma profissão do avô Waldir Ribeiro de Lima, que considera seu grande conselheiro. Foi aprovado, mas não chegou a cursar. “Era outra carreira que me parecia demorada para se consolidar”, justifica. A segunda opção, Relações Internacionais, causou um certo estranhamento em família. Os pais, um arquiteto e uma psicóloga, não faziam ideia do que se tratava. “Até meu pai, que sempre conversou longamente comigo sobre qualquer assunto internacional, fez um único comentário: ‘Que chique!’. Ou seja, nem ele sabia qual seria minha profissão.”

A escolha pelo curso, no entanto, não poderia ter sido mais acertada – Fabio diz que sua relação com os estudos até mudou. “Gostei tanto do curso que, finalmente, me tornei um ótimo aluno. A FAAP tem um perfil pragmático, uma relação forte com o mercado de trabalho que eu sempre busquei. Traz com frequência profissionais de grandes empresas para falar do mercado e colocar a gente em contato com o mundo real.” Findo o curso, ele continuou investindo na formação – fez pós-graduação em Diplomacia Econômica e mestrado em Gestão de Negócios Internacionais. “Nas palestras que dou, digo aos estudantes que o profissional de Relações Internacionais é um especialista em generalidades. Mas o mercado exige especializações. É preciso se aprofundar em alguma área.”

Fabio trouxe maturidade para o curso, ajudou a mostrar aos demais alunos o potencial da profissão. Foi um exemplo inspirador para os colegas e, não por acaso, teve uma carreira meteórica – Luiz Alberto Machado, vice-diretor do curso de Economia

MÃO NA MASSA
Estudante brasileiro precisa entrar precocemente no mercado de trabalho, sob o risco de ficar para trás na disputa por uma vaga. Com isso em mente, Fabio candidatou-se a dois programas de estágio logo no início do curso, ainda no segundo semestre – um deles em um banco privado, o outro na Câmara Americana de Comércio (Amcham). Aprovado em ambos, escolheu o segundo. “Apostei que, na Câmara, meu trabalho teria maior visibilidade e eu receberia uma formação mais diversificada. Estava certo”, diz. Lá, sua função era apresentar a Câmara de Comércio às empresas e mostrar como ela atua, com o objetivo de conquistar associados. “Fiz contatos importantes que foram fundamentais para meu futuro.”

O vice-diretor do curso de Economia da FAAP, Luiz Alberto Machado, lembra como aquele aluno precoce se diferenciava dos demais. “Desde o começo do curso, ele levava a profissão a sério, numa fase em que muitos ainda não querem grandes compromissos. Foi logo para a ação, adquiriu experiência e fez conquistas importantes”, diz o professor. “Com isso tudo, Fabio trouxe maturidade para o curso, ajudou a mostrar aos demais alunos o potencial da profissão. Foi um exemplo inspirador para os colegas e, não por acaso, teve uma carreira meteórica”, afirma.

Ao fim do estágio, que durou 18 meses, o aprendiz estava contratado. Presidente da Amcham na época, o empresário Sérgio Haberfeld, 73, não economiza elogios ao ex-pupilo. “Foi meu braço direito por um bom tempo e tocamos juntos projetos importantes, como o da Área de Livre Comércio das Américas. O Fabio já demonstrava ter muito equilíbrio e facilidade para trabalhar em equipe, apesar da pouca idade”, diz Haberfeld. Nos anos seguintes, choveram oportunidades. Em 2005, depois de seis anos na Amcham, Fabio mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu, aos 27 anos, o cargo de Gerente de Relações Internacionais da Vale, que acabara de ser criado. “A empresa era recém-privatizada e iniciava o processo de internacionalização naquela época. Fui o funcionário número 001 do departamento.” À medida em que os geólogos da Vale avançavam sobre territórios exóticos como Mongólia, Vietnã, Moçambique, An- gola e Nova Caledônia, em busca de recursos naturais, ia entrando em cena para apaziguar os ânimos das populações locais, que geralmente encaravam as operações de mineração como uma ameaça ao meio ambiente, e estabelecer relações sólidas com os governantes – tudo à base de muito diálogo.

Comecei como estagiária e, desde o início, ele adotou um estilo de gestão informal, moderno, que dá liberdade a todos para que tomem iniciativas e exerçam suas funções. Isso alimenta o ambiente criativo, nos faz trabalhar até mais – Luana Von Atzingen, da equipe de R.I da IBM

Para o professor Machado, Fabio já era, então, um fenômeno precoce. “Certa vez, voltando de Dubai, o encontrei no aeroporto. Ele vinha da Mongólia, onde havia feito uma análise de risco para a Vale. Imagina fazer um trabalho de tamanha responsabilidade antes dos 30 anos.” Uma dessas experiências rendeu sua tese de mestrado. “Aproveitei um dos casos, ocorrido durante a exploração de uma mina de potássio em Piura, no norte do Peru, para desenvolver uma metodologia de gestão de temas críticos e relacionamentos institucionais”, diz Fabio. “Cheguei no país sem conhecer ninguém, com a incumbência de estabelecer o relacionamento entre profissionais da empresa e a cidade. Era sempre um grande desafio fazer com que a comunidade local não se sentisse ameaçada e aceitasse a equipe estrangeira.”

Foram quatro anos de Vale, seguidos de nove meses de Embraer e mais três anos de GE, até o convite para assumir a Diretoria de Relações Governamentais da IBM Brasil, há três anos. Tudo isso sem ter que correr atrás do emprego – ele sempre recebeu o convite das empresas. “Curiosamente, todas chegaram até mim através da rede de contatos que construí desde o primeiro emprego. Nunca passei por processos de seleção ou headhunting.” Na multinacional americana, verdadeiro gigante do setor de tecnologia, Fabio já liderou projetos de envergadura. Um dos maiores, ainda em curso, é o Brasil País Digital, que tem como alvo o PL 5276/16 – o Projeto de Lei, atualmente em tramitação no Congresso Nacional, cria regras para coleta, armazenamento, processamento e divulgação de dados pessoais na internet. Há um ano, a IBM colocou uma campanha no ar, veiculada simultaneamente em um site, um canal no YouTube e redes sociais, como Facebook e Snapchat, para atrair a participação popular e, dessa forma, sensibilizar os congressistas para os pleitos das empresas do setor. “Os parlamentares tendem a restringir o uso livre de dados, alegando que estariam protegendo a população. Mas queremos mostrar às pessoas que essas restrições só impediriam o desenvolvimento de negócios que dependem de grande volume de dados – e alguns trariam avanços ao país. Seria um grande impacto negativo na rotina dos brasileiros.”

A promoção para o cargo que cobre toda a América Latina chegou em maio último, justamente quando Fabio e a mulher, a relações públicas Gabriela Callil Rua, 34, descobriram que seriam pais de novo. E de gêmeos – Flora e Luca devem nascer em fevereiro de 2017, para se juntar a Theo, 4, e Bento, 2. Ver o time de filhos dobrar de uma hora para a outra, diz Gabriela, não chega a assustar. “Não sei como, mas o Fabio consegue ser muito presente. Mesmo com todas as viagens, ele costuma chegar em casa bem cedo para jantar com a gente, às 18h30; lê para os meninos antes que eles durmam e participou ativamente de todas as consultas durante as gestações.” Fabio garante que não faz milagre – o segredo, diz, é saber dizer não. “Quando o Theo nasceu, aumentar a produtividade virou minha obsessão. Não me chame para uma reunião se o assunto pode ser resolvido por e-mail ou pelo WhatsApp.”

Na opinião de Lariana Von Atzingen, 22, integrante do time de R.I. da IBM há quatro anos, a cartilha de Fabio funciona porque vai além do uso inteligente do tempo – tem a ver com sua capacidade de confiar nos comandados. “Comecei como estagiária e, desde o início, ele adotou um estilo de gestão informal, moderno, que dá liberdade a todos para que tomem iniciativas e exerçam suas funções. Isso alimenta o ambiente criativo, nos faz trabalhar até mais.”

Desacelerar, porém, está longe de seus pla- nos. Sem precisar quando, ele entrega que tornar-se professor é um sonho antigo que ainda pretende realizar. “Embora o setor acadêmico me veja como alguém voltado para o business, acho que minha inquietação pode contribuir para que eu seja um bom professor”, arrisca. O sonho não é só dele. “É meu também”, en- trega o professor Machado. Dos 400 alunos matriculados hoje no curso de Economia, 300 são de R.I. – um terreno e tanto para um profissional tão apaixonado pelo que faz. “Valorizamos muito quem tem um pé no mundo real”, garante Machado. “Só falta o Fabio voltar para São Paulo.”

AOS ASPIRANTES A INTERNACIONALISTAS

CONSELHOS DE FABIO A JOVENS ESTUDANTES

1_ Fale muito bem o inglês: “‘se virar’ não é suficiente. Dominar outras línguas até pode ser um diferencial competitivo. Mas, se não for possível, foque no inglês, ainda a língua universal no mundo dos negócios”.

2_ Compartilhe conhecimento: “na revolução digital e colaborativa pela qual passamos, o que vale é disseminar informações. O que fazemos com aquilo que sabemos define quem nós somos”.

3_ Fale de forma clara e direta, sem exibir erudição: “no século 19, só era considerado culto quem citasse provérbios em latim. Hoje não – o que vale é adequar a mensagem ao seu interlocutor, preocupe-se apenas em se comunicar”.

4_ Não fuja da matemática e da economia: “elas são fundamentais para compreender estudos e planilhas. Uma ótima maneira para isso é não fugir das aulas na escola e na faculdade, elas serão suficientes.”

5_Não se forme sem ter concluído ao menos um estágio: “ao contrário dos Estados Unidos e dos países europeus, que valorizam quem se dedica exclusivamente à rotina acadêmica, estudantes que entram precocemente no mercado de trabalho têm uma grande vantagem competitiva no Brasil”.

6_Cuidado com o que posta nas redes sociais: “elas podem manchar sua reputação em um segundo”.

BÚSSOLA 

LIVROS OBRIGATÓRIOS PARA ENTENDER O MUNDO, SEGUNDO FABIO

White House years e Years of upheaval, ambos de Henry A. Kissinger (ed. Simon & Schuster)_ “Ex-secretário de Estado americano, o autor admite que o país menosprezou a importância da Guerra do Vietnã e mostra como isso influenciou sua política externa desde então.”

Era dos extremos – O breve século XX e Globalização, democracia e terrorismo, de Erick Hobsbawm (ed. Companhia das Letras)_ “Os dois livros fazem uma radiografia do século passado sob os olhos de um marxista.”

As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias, de Jean-Jacques Chevallier (ed. Agir)_ “É um importante resumo das obras mais relevantes publicadas ao longo de quatro séculos.”

Churchill, de Lord Roy Jenkins (ed. Nova Fronteira)_“O ex-primeiro ministro do Reino Unido durante a II Guerra Mundial ainda é a maior referência de política internacional.”

Escolhas difíceis, de Hillary Clinton (ed. Globo Livros)_ “Ela narra os desafios que enfrentou para pacificar o mundo e impor os ideais americanos no período em que foi Secretária de Estado.”