A Fundação celebra os dez anos da residência artística FAAP, programa que já trouxe quase 300 artistas plásticos do mundo todo, promovendo intercâmbio profissional em um espaço que une, de forma inspiradora, moradia e trabalho

Da janela dos fundos do quinto andar do Lutetia, edifício projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo na década de 20, na praça do Patriarca, a pintora Roberta Tassinari  vê construções monocromáticas. Na combinação de fachadas e telhados de cores acinzentadas, destaca-se um muro azul.

A artista de 33 anos ­– que está se habituando à vista desde fevereiro, mês em que deixou Florianópolis para passar três meses na Residência Artística FAAP, em São Paulo­ –  percebeu as tonalidades que via da janela migrarem para suas obras. “O inconsciente acaba permeado pelo ambiente”, conta.

A residência faz com que o artista saia do seu cotidiano para um tempo e um espaço especiais, que possibilitam as trocas e a convivialidade – Marcos Moraes, coordenador do curso de artes visuais e da residência artística FAAP

Essa absorção da atmosfera paulistana durante o período da residência – ­que serve ao mesmo tempo como moradia temporária e espaço de criação para artistas vindos de outras partes do Brasil e do exterior­ – está longe de ser um caso isolado. Desde 2006, ano em que o projeto foi oficialmente inaugurado, a vivência no prédio situado no centro da capital já influenciou o trabalho de quase 300 artistas de cerca de 50 países diferentes.

Em 2013, por exemplo, o italiano Marco Maria Zanin, 32 anos, teve a ideia de fotografar São Paulo do alto e passou a registrar imagens do topo de prédios da região central após notar, também, a vista que tinha do seu próprio estúdio, localizado no sétimo andar. “Quis diminuir o ritmo para observar de longe”, diz. “A fotografia que tirei da minha janela ativou esse processo.”

A iugoslava Adrijana Gvozdenovic e o carioca Vijai Patchineelam, que dividem estúdio

O edifício Lutetia, propriedade da Fundação Armando Alvares Penteado, de onde Roberta e Zanin tiraram inspiração para desenvolver novos trabalhos, foi tombado em 1992 pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, Conpresp. O prédio, considerado uma “joia rara” pelo arquiteto Pedro Mendes da Rocha (veja box na pág. ao lado), passou por uma restauração entre 2000 e 2003, que recuperou a fachada, além de áreas comuns de circulação, em um momento em que se pensava na sua utilização como centro cultural. Aos poucos, no entanto, a proposta acabou substituída e o interior do local foi adaptado para receber até dez artistas por vez, no período de dois a cinco meses, em estúdios de 69 a 79 metros quadrados. O edifício também abriga a Livraria e o Museu de Arte Brasileira-Centro, que contará este ano com duas exposições em celebração aos dez anos da Residência – haverá também o lançamento de um livro comemorativo.

O goiano Helô Sanvoy ocupa seu quarto com os trabalhos

O elevador do edifício
Lutetia

Além da localização privilegiada, a Residência Artística FAAP também impressiona pela dimensão. Para Aurore Zachayus, francesa de 27 anos que reside no espaço atualmente e morou em São Paulo entre 2013 e 2014, “uma residência num lugar desse tamanho é um luxo”. “Aqui temos um ateliê à nossa disposição, do qual usufruímos sem ter a pressão de apresentar um trabalho”, a artista acrescenta, com o quarto já ocupado por roupas em processo de confecção.

Entre os primeiros habitantes do endereço, figuram importantes nomes no cenário da arte contemporânea, como a eslovena Marjetica Potrc, que já havia participado na época de duas Bienais de Veneza (1993 e 2003); e Francesco Jodice, napolitano que havia integrado a Mostra Italiana em 2003, além de ter exibido trabalhos na Documenta de Kassel de 2001, na Alemanha.

Marjetica e Jodice vieram ao Brasil, com outros oito artistas (entre eles, a espanhola Lara Almarcegui – leia mais na pág. 37), a convite da 27a Bienal Internacional de São Paulo, sob o título Como viver junto. Por meio de convênio estabelecido entre a Fundação Bienal de São Paulo e a FAAP, eles puderam desenvolver os trabalhos que apresentaram na exposição utilizando-se da Residência Artística. Para Lisette Lagnado, curadora da mostra em 2006, o objetivo era “viver desterrado, mergulhado em outro ritmo de produção, outra cultura e realidade”. “Foi uma parceria fundamental para implantar o programa, pois a Fundação Bienal não tinha nenhuma experiência anterior e a FAAP apoiou o projeto como um todo”, diz Lisette.

O artista carioca Arthur Scovino faz apresentação de seu trabalho no período em que foi residente da FAAP, em 2014

O curador norte-americano Robert Storr, também reitor da Faculdade de Artes da Universidade de Yale, durante visita à Residência Artística em 2010

A mineira Tamar Guimarães, residente em 2010, em encontro realizado na FAAP

Vista do centro de São Paulo a partir das janelas da Residência Artística

A dupla lituana Nomeda & Gediminas Urbonas, que estará na Bienal de São Paulo deste ano, participou de seminários na FAAP no mês de março

O aprendizado daquele ano se desdobrou nas quatro edições seguintes e acontecerá ainda na Bienal deste ano – entre os artistas que o Lutetia deve receber neste semestre, estão o argentino Eduardo Navarro, a britânica Carolina Caycedo e a dupla lituana Nomeda & Gediminas Urbonas. Para o alemão Jochen Volz, curador desta edição, “a Residência FAAP é uma possibilidade de imersão na arte e realidade brasileiras que, para muitos artistas, não seria possível de outra forma”.

Além desse programa – que complementa o processo de seleção da própria Residência, por inscrição individual, no qual o candidato é avaliado de acordo com projeto, currículo, portfólio e carta de recomendação–, a FAAP já recebeu residentes através de acordos firmados com diversas instituições. Entre elas, a Associação Cultural VideoBrasil; o Palais de Tokyo, na França; e a Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal.“A Residência Artística FAAP é a mais consolidada do Brasil. Sua estrutura possibilita ao artista fugir das demandas do dia a dia e refletir sobre sua trajetória”, diz Thereza Farkas, diretora de programação do VideoBrasil.

INSPIRAÇÃO FRANCESA

A implementação do projeto de Residência no edifício Lutetia teve como referência a Cité Internationale des Arts, Fundação Residência na capital parisiense com o qual a FAAP possui convênio desde 1997, e onde ela mantém um estúdio para receber, na França, alunos, ex-alunos e professores da Fundação por seis meses.

A artista japonesa Haruka Kojin, residente em 2008, em workshop com alunos da FAAP, numa parceria entre o MAM São Paulo, a Fundação Japão e a FAAP

Instalação da eslovena Marjetica Potrc, realizada no âmbito do programa de Residência Artística entre Acre e São Paulo, que foi exposta na Bienal de 2006

Vídeo Slippage, em exposição na 39a Anual de Arte da FAAP, do libanês Ali Cherri, que participou da Residência em 2007, por meio da parceria com o VideoBrasil

Obra Sweetness, apresentada pelo africano Meschac Gaba na 27a Bienal de São Paulo após período na Residência Artística FAAP

O objetivo principal da Residência Artística FAAP é possibilitar ao artista que vem a São Paulo o contato com outro contexto de produção, além de permitir a troca de experiências com artistas de diversas nacionalidades. O fotógrafo mineiro João Castilho, 38 anos, lembra que, em 2012,  o grupo do qual fez parte realizava encontros semanais para que cada um dos integrantes apresentasse sua linha de pesquisa. Ele também aproveitou o período para receber em seu espaço curadores da cidade. “Quis passar um tempo em São Paulo para estreitar laços no circuito da arte como um todo”, conta.

A FAAP também incentiva as possibilidades de contato dos residentes com alunos e professores da faculdade – os artistas não precisam apresentar, ao fim do período de residência, a conclusão de um trabalho, mas participam dos Seminários de Investigação Contemporânea I e II, além de open studios, ao abrir, em dias específicos, os estúdios onde estão alojados a interessados em conhecer o trabalho, a pesquisa e as produções. No início de abril, por exemplo, as portas das artistas Aurore e Roberta, citadas acima – como também do goiano Helô Sanvoy, do moçambicano Mário Macilau, da iugoslava Adrijana Gvozdenovic, da brasiliense Janaína Miranda e dos cariocas João Racy e Vijai Patchineelam –, permaneceram abertas aos visitantes, que puderam conferir parte das obras e conversar com cada um dos residentes sobre o processo de trabalho.

 

Imagem da série O caminho que percorri até te encontrar, trabalho desenvolvido pela artista Flávia Junqueira durante residência na Cité des Arts

Workshop do arquiteto japonês Ryue Nishizawa, do escritório SANAA, que esteve em São Paulo em 2008 por meio da parceria entre o MAM São Paulo, a Fundação Japão e a FAAP

O paulistano Henrique César, 29 anos, formado pela Faculdade de Artes Plásticas da FAAP, foi um dos alunos que se beneficiaram dessa relação em 2009, ano em que a Residência Artística recebeu artistas selecionados pelo projeto Pavillon, do Palais de Tokyo. Nos dias em que os estrangeiros permaneceram em São Paulo, ele pôde acompanhá-los, chegando a participar de uma intervenção do italiano Matteo Rubbi no Vale do Anhangabaú, na qual os participantes vestiam roupas confeccionadas pela alemã Isa Griese para representar planetas do sistema solar.

Na ocasião, também teve oportunidade de mostrar seu trabalho ao pesquisador francês Fabien Danese e dele ouviu que deveria explorar mais os acontecimentos da cidade. Nesse período, ele desenvolveu uma instalação sonora no edifício Sampaio Moreira, na rua Líbero Badaró. “Com essas experiências, eu só ia acumulando vontade de participar. Hoje não há como pensar em ser artista visual sem fazer residências”, diz César, que foi para o programa da FAAP na Cité em 2011.

PRODUÇÃO INCESSANTE

No coração de São Paulo, a poucos passos da praça da Sé, do largo São Bento, do Theatro Municipal e dos viadutos do Chá e da Santa Ifigênia, o Lutetia fornece uma vivência no centro da cidade para artistas que o desconhecem. “Conhecer a região a pé foi muito marcante para mim. Jamais imaginei que fosse tão convidativo para andar”, diz Arthur Scovino, 36 anos, artista carioca que participou da Residência por meio da parceria estabelecida com a 31a Bienal de São Paulo. No trabalho que desenvolveu para a mostra, ele utilizou várias peças adquiridas em suas andanças pela cidade, como cachaças, livros e discos usados. Além do projeto para a Bienal, Scovino realizou, a partir do contato com a metrópole, fotografias que exploravam a luz do meio-dia, enfocando sombras formadas pelos corpos e prédios.

O carioca João Paulo Racy, em residência desde fevereiro, utiliza o laboratório fotográfico da FAAP

Como ele, o carioca João Racy, 35 anos, atual residente, desembarcou em São Paulo interessado em desenvolver uma pesquisa sobre a relação entre o corpo humano em meio ao concreto. Desde fevereiro, a proposta inicial acabou se transformando em 14 projetos diferentes, entre colagens realizadas com cobertores de moradores de rua a fotografias de arranha-céus impressas em baixa resolução – ocuparam quase por completo o caderno onde o fotógrafo esboça suas ideias. O artista pretende também fazer um livro-teste com as impressões que realizar no laboratório de fotografia da FAAP. Os residentes têm à disposição toda a estrutura da faculdade, que oferece oficinas de cerâmica, madeira, metal, gravura, joalheria, entre outras atividades. “Ter sido selecionado é como uma carta de recomendação para fazer contatos”, acrescenta Racy, que já pensa em estender sua estadia na cidade. “A residência nos tira da zona de conforto. Durmo e acordo pensando em produzir.” 

O LADO DE LÁ

ALÉM DE RECEBER ARTISTAS ESTRANGEIROS, A FAAP TAMBÉM POSSIBILITA A ALUNOS E PROFESSORES DA FUNDAÇÃO VIVÊNCIA DE SEIS MESES EM PARIS

Conhecido como 1422, número indicativo na porta de entrada do estúdio, o espaço mantido pela FAAP na Cité des Arts serviu como referência para a implantação da Residência Artística FAAP. O convênio, que teve início em 1997, já enviou para a capital parisiense artistas como Dora Longo Bahia, Sandra Cinto, Maurício Ianês, Lia Chaia, Rodolpho Parigi e Thiago Honório.

A paulistana Flávia Junqueira, por exemplo, participou do programa em 2010. Com oportunidade de realizar o caminho inverso em relação aos residentes que vêm de outros países para São Paulo, ela fez pela primeira vez uma residência fora do Brasil. “Aqui tenho noção de todo o leque de mão de obra e materiais que posso utilizar. Quando você vai para um lugar que desconhece, o trabalho responde de outra maneira.”

Ela chegou a Paris imaginando que daria continuidade à produção que já desenvolvia. No início, conseguiu a colaboração de outros artistas para prosseguir com os trabalhos -– no Brasil, Flávia contava com uma equipe para realizar fotografias impressas em grande formato nas quais encenava momentos fantasiosos por meio do acúmulo de objetos.

Lá, percebeu, no entanto, que poderia fotografar suas próprias imagens e saiu munida de uma câmera Polaroid para catalogar os carrosséis de Paris. “Antes só tinha fotos enormes e produzidas. Meu trabalho mudou completamente depois que fiz a Cité, até a paleta de cores que utilizo se tornou mais sóbria”, diz.