Há 15 anos na FAAP, Maria Homem se divide entre as aulas de psicologia da comunicação, seu consultório de psicanálise, cursos curtos e palestras. Tudo isso movida por um mesmo impulso: decifrar os mistérios da alma humana – e compartilhar suas descobertas

Maria Homem já era professora antes de saber ler. Com 4 anos de idade, no apartamento do bairro de Perdizes (zona oeste de São Paulo), onde cresceu, ela pegava livros, fingia decifrar as palavras e inventava histórias para os irmãos mais novos. Na adolescência, dava aulas gratuitas de português e matemática para ajudar estudantes que queriam ingressar no tradicional Colégio São Luiz, onde estudava. Quando entrou no curso de Psicologia da USP, continuou com as aulas particulares para alunos do colégio, mas dessa vez para complementar sua renda. Adulta, ela se tornou professora da FAAP – onde está há 15 anos e hoje leciona Psicologia da Comunicação no curso de Comunicação e Marketing – e do núcleo Diversitas da USP. “Dar aulas sempre foi minha praia. Sou professora até debaixo d’água”, afirma.

Fora da esfera acadêmica, Maria Homem é conhecida sobretudo como psicanalista lacaniana. Além do trabalho no consultório – uma bela casa no bairro Siciliano, zona oeste, onde recebeu a Revista FAAP –, ela escreve artigos para jornais e revistas e dá palestras e cursos com frequência. Recentemente, tornou-se uma intelectual pública ainda mais requisitada por conta de uma série de vídeos postados nas redes sociais para divulgar seus  cursos na Casa do Saber. O fim do amor romântico, Busca-se a felicidade, encontra-se a depressão e Individualismo: a vida como Game of Thrones foram algumas das urgentes questões contemporâneas que ela abordou e que tiveram dezenas de milhares de visualizações no YouTube e no Facebook.

Maria Homem no centro da foto, com amigos, em São Paulo: “Uma infância

Apaixonada por cinema e literatura, mãe de um menino de 7 anos, Maria diz que seu impulso segue sendo o mesmo da época em que escolheu sua carreira: decifrar os mistérios da alma humana. Para tanto, ela se formou em Psicologia, fez pós-graduação em psicanálise e estética pela Universidade de Paris VIII e doutorado em teoria literária na Filosofia da USP (sua tese, No limiar do silêncio e da letra: traços de autoria em Clarice Lispector, foi publicada em livro pela Boitempo). “Em qualquer um dos meus trabalhos, seja como professora, psicanalista ou escritora e palestrante, o que me move é muito parecido: entender o impacto da vida, transformar em linguagem e compartilhar essas descobertas. Por isso eu gosto tanto de conversar.” Então conversemos.

Por que você escolheu a psicanálise?
Essa é uma das questões mais difíceis do humano: o que vou fazer da vida, no que vou trabalhar. Parece meio pueril, mas é muito profunda. Para mim, o processo foi doloroso. No primeiro ano do colegial, decidi fazer exatas, pensando em prestar Engenharia. No segundo, mudei para biológicas, querendo estudar Neurologia. Mas aí pintou o desejo de fazer Psicologia. Fiquei com vergonha de mudar de turma mais uma vez, mas prestei o vestibular e entrei. Uma semana antes de começar a faculdade, meu pai morreu repentinamente, de um ataque cardíaco. A missa de sétimo dia foi no dia da primeira aula. Foi devastador, um corte de tragédia na minha vida. O primeiro ano de faculdade foi uma época de grande crise pessoal, que também me fez questionar o curso. Então pensei em fazer Administração, o que agradaria meu pai  [executivo nascido em Portugal], cogitei fazer Direito [profissão da mãe]. Mas decidi seguir na Psicologia até o fim, para depois ir estudar Lacan em Paris e teoria literária na USP.

Com o filho, que tem hoje 7 anos: “A maternidade é corte radical. Dois seres

Hoje você se sente conciliada com essa decisão?
Sim. Hoje, olhando com uma certa distância, o desenho dessa formiguinha não parece tão errático assim. Primeiro, porque a Psicologia, e especificamente Lacan, abre um guarda-chuva conceitual vasto, onde cabem várias concepções do humano. Depois, porque esse meu trajeto sempre bordejou o mesmo núcleo de interrogação: como decifrar o mistério humano pelo canal do simbólico, da linguagem? E, por fim, porque eu acredito no desejo humano: se você deixar pulsar sua verdade, se deixar seu radar identificar os interlocutores certos, você chega aonde deve chegar. Mas é difícil saber disso aos 20 anos, o que causa angústia. Certas coisas da psicologia eu só fui entender quando dei aulas sobre elas, dez anos depois.

Retrato da futura psicanalista: “Para quem ela olha? Ficou perdido no tempo”.

O que angustia seus alunos hoje?
Não é fácil chegar nos alunos, eles são muito armados, não sabem bem quem eles são, o que eles sentem, mas já entendem que o mundo é um lugar perigoso, complexo. Então pensei: vou mexer nisso aí. E propus o seguinte: cada um de vocês vai escolher um tema particular para o trabalho deste semestre, alguma coisa que te instigue, intrigue, e depois vocês vão relacioná-lo com a Comunicação Social. Aí foi incrível, porque eles foram se abrindo. Um propôs um trabalho sobre torcida organizada, outro sobre um livro de ficção científica que lida com realidade virtual, outra sobre Prozac. Isso reforçou em mim a ideia de que a FAAP é um lugar de grande diversidade, maior do que as pessoas de fora podem imaginar, com um grupo de alunos de origens e preocupações muito distintas.

Quando você começou a dar aula, não havia redes sociais. Como a chegada delas amplificou essas questões?
Amplificou muito. Qual é a doença básica da nossa era? A ficção do eu. Você é obrigado a criar um eu para as redes sociais quando você ainda nem sabe quem é. E precisa ser um eu bonito, magro, bem-sucedido, popular. Você já não tem mais a experiência da vida. Você vive um pouquinho, tira uma foto, posta e, se tem muitos likes, aí se sente vivo. Você vai se perdendo de si mesmo. É uma alienação da experiência do sujeito, que se soma a uma lógica capitalista de acumulação. Você vê isso nessa quantificação dos likes. E também vê no Carnaval. O garoto ou a garota que diz que beijou 15 pessoas no bloco. É uma linha de montagem do prazer, um paradigma de acumulação fálico. Parte da formação da subjetividade contemporânea segue uma lógica consumista, sexista e patriarcal, que era do masculino e foi ampliada pro feminino.

Eu acredito no desejo humano: se você deixar pulsar sua verdade, se deixar seu radar identificar os interlocutores certos, você chega aonde deve chegar

A chegada ao mercado de trabalho também assusta?
Sim. O que essas pessoas de 20 anos estão atravessando? O drama de se tornar adulto numa sociedade de mercado perversa, ultracompetitiva e ultraimagética. Qual é o pacto perverso? A empresa é o sujeito, você é o objeto. O sujeito explora o objeto, que trabalha muito e recebe pouco. Então, muitos jovens olham para isso e dizem: “Não consigo achar trabalho”. Ou “não quero trabalhar, porque não me reconheço no mundo corporativo. Vou sair pelo mundo”. Ou “vou criar um coletivo de arte”.

Ou seja, eles têm ferramentas para criar alternativas?
Sim, muitos conseguem. Eu acabo de ler sobre um site chamado Workaway, que promove uma permuta de experiências. Por exemplo, você viaja para outro país, oferece um trabalho voluntário e se hospeda de graça em uma casa. Isso mostra que o humano talvez esteja criando outra prática de vida além da troca mediada pela moeda. Você vai acumular dinheiro para comprar um carro de R$ 200 mil que polui, ajuda a entupir as ruas e, cá entre nós, é cafona? Não, você vai trabalhar menos, ter mais tempo livre, dividir o espaço da casa, dividir o espaço de trabalho. Hoje eu entendo que, quando quis sair da Psicologia diante de uma crise de angústia, fui seduzida por uma narrativa fálica, de ir cursar Administração, entrar no mercado. Se eu fizesse isso, acho que eu estaria ganhando bem e sendo infeliz. Porque essa configuração produz riqueza, mas também custo psíquico.

E os alunos já estão chegando a essa mesma conclusão?
Talvez os jovens não tenham a vivência e a leitura necessárias para entender esse momento de forma ordenada, mas eles têm a intuição de que há um esgotamento nessa narrativa da ultracompetitividade: seja o melhor, tenha sucesso, ganhe muito dinheiro. Esses imperativos clássicos são patologizantes para a subjetividade. As pessoas começam a questionar essa narrativa hegemônica.

Você acha que esse é o papel também do professor na faculdade?
O que a escola pode fazer é te ajudar a pensar o mundo, entender que ele é complexo. O mundo tem enredado as pessoas em redes identitárias muito fechadas. Você é a favor do impeachment ou contra o impeachament. Você é machista ou feminista. É muito raso, e às vezes não faz sentido. Você começa a repetir clichês do grupo que te adotou antes de entender tudo o que está em jogo. Como professor, você pode ajudá-los a ir mais fundo. Eu, por exemplo, dou sempre algum texto do Freud nas minhas aulas, acho que tem que ir para o canônico. E depois eu ouço os alunos dizerem no atendimento: “Tô lendo o Freud e entendi tal coisa da minha vida. Ou entendi tal filme que eu vi, tal verso que eu li”. Nessa hora, o inconsciente vibra e se conecta. E fica mais interessante estar no mundo, porque você alcança outra camada de compreensão dele. Por isso, é maravilhoso ser professor.

Talvez os jovens não tenham a vivência e a leitura necessárias para entender esse momento de forma ordenada, mas eles têm a intuição de que há um esgotamento nessa narrativa da ultracompetitividade: seja o melhor, tenha sucesso, ganhe muito dinheiro

Seus alunos têm demonstrado mais interesse pela psicanálise?
Não só os alunos. A psicanálise tem se popularizado de um modo geral. As pessoas já chegam à clínica dominando um reper- tório básico, já chegam falando em id, ego, superego, complexo de Édipo, inconsciente, narcisismo. Existem autores que inclusive acham que isso vai atrapalhar o processo analítico, que é uma defesa racionalizante. Mas eu acho que a forma de você se apropriar da psicanálise também fala sobre você. Não tem como você não se revelar na psicanálise, mesmo que você crie um falso self. Você se revela pela verdade ou pela falsidade. A psicanálise é uma lupa muito poderosa.

Você tem uma posição crítica sobre certos efeitos das redes sociais. Mas se tornou conhecida no YouTube e Facebook com os vídeos da Cƒsa do Saber. Como você vê a visibilidade que elas trouxeram para você?
Com um certo receio. Claro que é bom ter outros canais para compartilhar minha visão de mundo com as pessoas. Mas sou uma pessoa muito reservada e estou enfrentando uma crise de privacidade. Tenho que repensar minha persona pública. Porque algumas pessoas desequilibradas têm me procurado no Facebook ou me reconhecido na rua. Um quer falar sobre as taras dele, outro me manda 90 mensagens por dia, outra me abordou numa festa e depois descobriu meus contatos todos. Quando você começa a circular nessas redes, você se coloca em um lugar imaginário para o outro onde ele projeta o que ele quer, sem que você tenha controle sobre o processo. E isso me assusta um pouco. Gosto de ter a liberdade de pensar e falar o que eu quiser e quero que a conversa possa reverberar em outras mentes. Gosto dessa troca com outros humanos, mas quero que essa troca seja a mais elaborada, a menos louca possível.

Você é obrigado a criar um eu para as redes sociais quando você ainda nem sabe quem é. E precisa ser um eu bonito, magro, bem-sucedido, popular. Você já não tem mais a experiência da vida. Você vive um pouquinho, tira uma foto, posta e, se tem muitos likes, aí se sente vivo. Você vai se perdendo de si mesmo

As redes sociais estão reforçando uma lógica binária do mundo?
Com certeza. Um tempo atrás, eu escrevi um texto para um jornal, uma ficção baseada no meu trabalho de clínica, sobre a genealogia de um estuprador. Fui xingada de “feminazi”, “comunista” e daí para baixo. As pessoas estão regredindo a um estágio arcaico de pulsão, não estão conseguindo produzir pensamento. Elas têm usado o outro para projetar tudo o que é estranho nelas. O Brasil virou um caso clínico. Temos que fazer uma psicanálise do país para compreender as especificidades dos sintomas. Temos que sentar, conversar e pensar juntos como a gente vai viver em sociedade.