Referência na xilogravura, o artista plástico Fabrício Lopez revista suas raízes para produzir obras cheias de cor

“O ateliê é como um espaço interno: o artista precisa inflamar”, acredita Fabrício Lopez. Tido como um dos mais importantes gravadores brasileiros, ele transformou o predinho de uma antiga fábrica de torrefação de café, em Santos, numa extensão essencial de sua obra: ali não é só onde são produzidas as xilogravuras que alçaram seu nome às galerias e museus internacionais (soma no currículo quase uma centena de exposições dentro e fora do país, além de integrar os acervos da Pinacoteca de São Paulo e do Itamaraty); seu local de trabalho é também inspiração para as imagens que imprime da madeira para o papel.

Em pleno Valongo, bairro central antigo, a luz natural clareia os montes de referências que carrega, sejam os livros acumulados nas paredes, sejam as memórias da adolescência perto do porto da baixada, sejam os cheiros, as vozes, as paisagens que Fabrício acompanha de bike até chegar ao trabalho. “Tirar algumas horas para ficar aqui, sozinho e em silêncio, é a forma como aprendi a decantar as ideias.”

O resultado são imagens em cor vibrante, entre paisagens que problematizam o abandono da região e motivos abstratos que transmitem emoção, sem nunca deixar de lado o viés político. Ele ainda é coordenador do Ensino Fundamental 2, no ateliescola do Instituto Acaia. Aprendeu na prática a ensinar, quando, 15 anos atrás, uma de suas ex- professoras na FAAP, a escultora Elisa Bracher, convidou-o a dar aulas de xilo às crianças de sua ONG.

O projeto filantrópico evoluiu para uma escola, e os alunos de Fabrício viraram artistas renomados – caso de Santidio Pereira, 20, que acaba de voltar de sua primeira individual em Nova York. Um menino que teve aulas com Fabrício desde os 9 anos. A seguir, os itens indispensáveis do artista e professor.

01_OSSOS

“Na residência artística que fiz no Pantanal, saí coletando chifres, restos de bichos. São a representação da natureza, do orgânico.”

02_COLHERES

“São da cozinha da minha mãe. Uso no processo de impressão: esfrego no verso do papel, pra imprimir a tinta da madeira.”

03_ROLO DE IMPRESSÃO

“É com ele que deposito tinta na madeira. Ele tá sempre meio enseba- do, porque não uso solvente mineral, só óleo de cozinha e álcool.”

04_ROUPA DE ATELIÊ

“Fico quatro horas no ateliê, trabalhando intensamente. Então já trago uma roupa própria para os respingos.”

05_PINCEL

“Registro nas chapas em pé, por isso uso este pincel meio matissiano, feito com cabo de bambu”.

06_GOIVAS

 “Comprei há anos com um ferramenteiro ótimo do Embu. Uso nos entalhes da madeira, matriz das impressões. E não empresto.”