Aos 36 anos, Renato Valente lidera a Wayra, minifundo de investimentos de um projeto global da Telefônica que aposta, investe e acompanha o desenvolvimento de startups brasileiras ligadas à tecnologia e à inovação

Desde criança eu me lembro de querer montar negócios, transformar minhas ideias em coisas concretas.” É com essa fala que Renato Valente inicia o papo com a reportagem da Revista FAAP. “Não sei te dizer exatamente de 
onde veio isso, mas sempre esteve comigo o desejo de fazer meus próprios negócios. Isso sempre foi muito vivo em mim.”

Renato, hoje Country Manager da Wayra, minifundo de investimentos que faz parte de um programa de Inovação e Empreendedorismo Global, o Telefonica Open Future, é a própria manifestação do universo em que habita. Expressa flexibilidade nas ideias, fala rápido. Pensa muitas coisas ao mesmo tempo, mas consegue manter o olho no olho e uma impressionante clareza no discurso. Cruza dados e informações, enquanto conta sobre sua trajetória e fala dos projetos que já vivenciou, nos quais apostou, botou sua fé, energia e dinheiro. Sua linha de raciocínio é lógica.

“A imagem que eu tenho da FAAP é a de um grande centro de empreendedorismo”, ele diz, lembrando como essa palavra – hoje tão comum – é relativamente nova. “Conheci esse termo em inglês. Lembro que, numa das primeiras vezes que fui fazer entrevista para estágio, eu disse que queria ser entrepreneur. A pessoa fez uma cara de interrogação. Aí eu falei ‘empreendedor’, e tive que explicar o que era. Isso era 2003. Não faz tanto tempo assim!”

Eu queria empreender, e tinha uns amigos com esse mesmo perfil que já estavam na FAAP, foi natural querer estudar lá. Achei que estar em um ambiente com essa pegada poderia me ajudar a conseguir o que eu queria mais rápido – Renato Valente

Renato se formou em Administração na FAAP em 2004. Embora tenha nascido em Brasília, se considera paulistano, já que vive 
em São Paulo desde os 9 anos. Filho de mãe mineira e pai alagoano – nenhum dos dois é empreendedor –, ele conta que sempre houve nele uma inquietude de querer entender como as coisas funcionavam e uma tremenda vontade de fazer as dele, do jeito dele. Estudou toda a vida no mesmo colégio, o Pueri Domus, com um break para um intercâmbio nos Estados Unidos em 98. Aos 17 anos, pediu um dinheiro emprestado para o padrasto, para investir na bolsa. Conta que ele e alguns amigos começaram a ter ideias de montar negócios próprios e decidiram brincar de investir e ver no que dava. “Um empreendedor tem que ter um certo grau de ambição e de inconsequência.” Foi depois que voltou do intercâmbio nos Estados Unidos, que passou a devorar livros de negócios (leia mais na pág. 45). Pegou gosto em ler biografias de grandes empresários, como, por exemplo, a do britânico Richard Branson, fundador da Virgin; ou do empresário Jack Welch, na época CEO da General Eletric, uma espécie de guru na implementação de inovações de gestão. Era esse tipo de assunto que fazia seus olhos brilharem. Aos 16, 17, 18 anos. Até hoje.

Renato na infância, ao lado da mãe e dos bichos de estimação da família

POR ALI EU VOU MAIS RÁPIDO

Renato não lembra ao certo como foi o processo da escolha de estudar na FAAP. “Acho que com 17 anos ninguém tem tanta clareza dessa decisão”, lembra. “Mas como eu queria empreender, e tinha uns amigos com esse mesmo perfil que já estavam na FAAP, foi natural querer estudar lá. Achei que estar em um ambiente com essa pegada poderia me ajudar a conseguir o que eu queria mais rápido.”

Renato conta que logo transferiu seu curso para o período noturno, porque já queria trabalhar. Ele lembra dos seus professores, diante de sua ânsia de, aos 18 anos, já montar o próprio negócio, o aconselharem a procurar estágio em grandes empresas, para pegar experiência. Na época diretor do curso de Administração, o professor Henrique Vailati Neto, hoje diretor do Colégio FAAP, recorda-se de Renato como um aluno extremamente educado, atento. “Quando fazia alguma intervenção, era apropriado e objetivo, desses alunos que deixam uma imagem de distinção”, relata. “Foi meu aluno no 1o e 8o semestres quando, de forma pioneira, a FAAP começou a tratar o tema empreendedorismo e, aos poucos, incorporá-lo aos conteúdos programáticos.”

Me graduei na FAAP no ano em que o Google abre capital na bolsa e que o Mark Zuckerberg funda o Facebook com seus amigos. Nesse período eu olhava para esse movimento e tudo o que eu queria era estar nele

Nessa época, Renato ainda não sabia qual seria seu negócio. Aos poucos, começou a ser mais atraído para assuntos de tecnologia. “Acompanhava esse movimento das startups de tecnologia, aquele dinheiro todo que tinha na internet e depois uma bolha que estoura. Não entendia bem. Mas percebia que tinha algo ali, que era uma mudança comportamental grande. E ficava acompanhando, lendo, antenado.”

Com a esposa Juliana, que está grávida da primeira filha do casal

Em 2003, conseguiu um estágio na IBM. Entrou na área de tecnologia e ali se encontrou. “Me graduei na FAAP no ano em que o Google abre capital na bolsa e que o Mark Zuckerberg funda o Facebook com seus amigos. Para mim, isso foi um alerta: as empresas de internet vão movimentar o mundo. Em 2006, a Amazon se torna um grande serviço de hospedagem e o Google compra o YouTube por mais de US$ 1 bilhão. Em 2007, a Apple lança o iPhone. Nesse período eu olhava para esse movimento e tudo o que eu queria era estar nele.”

UMA CERVEJA!

Renato passou um ano na IBM. Recém-formado, em 2004, decidiu ingressar em um programa de trainee de uma grande companhia aérea, e deixou a IBM. Se decepcionou. Sentiu falta da dinamicidade do universo tecnológico. Ao mesmo tempo, a inquietude de montar seu próprio negócio só crescia. Começou a prestar atenção no surgimento das cervejarias artesanais e botou na cabeça em montar a sua. “Minha família não curtiu, mas eu fiz um businessplan, comecei a pesquisar, pedi demissão da companhia aérea e fui para a Europa.” Fez amizade com um especialista belga, conheceu os fundadores da Baden Baden. E percebeu que o melhor caminho para começar seria a importação. Começou a fornecer cerveja artesanal importada para bares e restaurantes em São Paulo. Estava empenhado, mas sempre de olho em novas possibilidades.

Nesse período, recebeu uma proposta, de sua ex-chefe, para voltar para a IBM numa área de inovação e internet. “Era uma área de vendas de softwares pela internet. Aprendi muito. Mas continuava querendo montar meu negócio, e sabia que não seriam as cervejas artesanais, e sim a tecnologia”, lembra.

Em 2009, com uma reserva de dinheiro da época da IBM, se juntou a dois sócios, um investidor e um programador, para começarem uma plataforma digital. “Era para ser um catalizador de vídeos para os portais de notícias.” Um plano inicial que foi se transformando. Até que o programador propôs que criassem um algoritmo contextual, que entendia frases e sugeria publicidades afins. “Fizemos isso, mas erramos. Porque depois percebemos que o que mais importava era o comportamento do usuário, e não o que ele estava lendo ou escrevendo na internet”, analisa Renato.

“Por exemplo, um dos maiores consumidores de lingerie da internet são homens que assistem e leem sobre futebol. Esse cara compra sutiã e calcinha, e não bola. Demoramos para descobrir isso.” Um ano depois de fundada, a empresa começou a dar sinal verde. “Fomos crescendo graças aos erros, testes e métricas. Avaliávamos, recriávamos e, então, começou a dar certo. Mas perdemos muito dinheiro no primeiro ano, até entendermos o que o mercado queria.”

Junto dos seus sócios na Ocapi, empresa de tecnologia que virou case de sucesso

A Ocapi, então, começa a aparecer no mercado. “Antes que você me pergunte, Ocapi é um mamífero africano que estava em extinção. Uma mistura de girafa com zebra”, explica, e segue, sem dar tempo para intervenção. “Nada a ver, né? Descobrimos que o nome era ruim porque todo dia tínhamos que ficar explicando.”

Em 2010, a Ocapi, mesmo com o nome da zebra-girafa, conquista a Netshoes como cliente. Para a empresa, já um dos principais e-commerces da rede, começam a desenvolver a automatização de produção de banners digitais. Em 2012, com a Ocapi mais robusta, Renato decidiu sair da IBM para se juntar aos sócios no dia a dia. A essa altura, eles já tinham uma equipe de cinco programadores. “Fomos um dos primeiros caras a fazer ‘o banner que te persegue’”, explica. “Bem pioneiros nessa área de retargeting, ou remarketing, nessa cadeia de mídia digital.” Na época ainda não existia mídia no Facebook, e os portais eram muito relevantes. E a Ocapi estava nos principais deles: Uol, Globo, IG, Terra. “Tínhamos um banco de dados gigantesco.”

Em 2014, o dólar explodiu. E todas as ferramentas de tecnologia utilizada pela Ocapi eram de fora, pagas em dólar. E aí a empresa sentiu. Foi quando eles passaram pelo programa de aceleração da Warya, recebendo apoio, mentoria e investimento. E também por um programa do governo chamado Acelera, Brasil, pelo qual receberam dinheiro de investidores-anjo. “Embora a possibilidade 
de seguirmos existisse, esse boom do dólar deu uma desanimada. Tínhamos ofertas para vender a empresa, e acabamos fazendo isso, em 2015”, diz Renato. “O mais bacana foi que fizemos um case. Começamos a empresa do zero, inovamos, crescemos, ganhamos dinheiro e depois passamos pra frente.”

Renato ficou meses tocando todo o processo de transição, sobretudo a interlocução com os maiores clientes, com os headers dos grandes portais. Até que recebeu o convite para fazer parte de um programa do governo, o Startup Brasil. Passou, então, todo o ano de 2015 cuidando de 183 empresas que esse projeto, do Ministério da Ciência e Tecnologia, estava acelerando. “Foi um programa interessante, que deu um sopro no universo das startups brasileiras.”

Até que o então diretor da Wayra, Carlos Pessoa, com quem Renato já tinha tido contato na época em que a Ocapi havia sido acelerada pelo programa da Telefônica, o convidou para que ocupasse seu lugar. “Ele parecia a pessoa ideal para ocupar meu posto”, diz Carlos. “Pela sua experiência bastante diversa no setor privado; como investidor anjo e executivo de startup; e pelo trabalhado em programas do governo. Sem contar a vontade de investir em várias companhias.”

“Essa parte, de estar do outro lado, do lado dos investidores, sempre me interessou”, explica Renato. A Wayra faz parte do programa global Telefonica Open Future, área da empresa que apoia empreendedores em vários estágios, em dez países. Desde iniciativas embrionárias até empresas mais estruturadas e projetos universitários. “Investimos em empresas que têm potencial e musculatura na área de tecnologia. Elas podem ficar um ano aqui, a gente contrata consultores e mentores. E os ajudamos a crescer seus negócios e também a alavancar os negócios deles com a Telefônica”, esclarece Renato. “Investimos em aproximadamente dez startups por ano. Fazemos turmas de empresa aqui dentro, para podermos acompanhar bem de perto. Depois seguimos a maioria delas por mais uns três anos. E o natural é que elas acabem desenvolvendo algum tipo de negócio com áreas de tecnologia da Telefônica, ou Vivo.”

Tem muito empreendedor que é mais ‘pé na porta’, mais impulsivo. O Renato tem uma calma, uma capacidade grande de avaliar um cenário completo antes de tomar alguma decisão – Carlos Pessoa, investidor e ex-manager da wayra

Para ele, um dos principais desafios como Country Manager é dizer não. “Porque muitas grandes empresas querem fazer negócios com a gente, e tem várias startups interessantes, mas é preciso priorizar, planejar, olhar a longo prazo.” Renato procura cultivar e manter um olhar analítico, e a proximidade com os empreendedores. “Meu dia a dia é interessante e com muita liberdade de trabalho”, relata ele, que hoje responde aos executivos de Madri, ao lado de Country Managers de outros nove países.

REDE QUE NUTRE

Esse contato constante com pessoas de diferentes áreas e naturezas profissionais é o que o faz acordar animado. “Algo que eu construí, mais do que fazer dinheiro ou qualquer outra coisa, foram relações. Tenho muitos amigos nesse meio, estou sempre em contato com iniciativas inovadoras e projetos incríveis, e isso me alimenta, me nutre”, conta ele, que espera sua primeira filha e faz questão de preservar a vida com a esposa. “Moramos na Granja Julieta, onde tem mais sossego, natureza, e onde também vive minha família.”
Renato adora conviver com a diversidade, vê o WhatsApp poucas vezes ao dia, responde e-mail somente quando está no trabalho. Desobstrui a overdose de informações e a ansiedade que são parte do seu dia a dia surfando, correndo, viajando e meditando. “Minha vida é agitada, o mercado está muito aquecido e sei que a chave para conseguir um bom desempenho e ter saúde mental é foco”, diz, com a clareza de que esse caminho – o de enxergar e apontar as diversas possibilidades que essas iniciativas tecnológicas têm para contribuir com um mundo melhor – ainda o levará a lugares surpreendentes.

Carlos pessoa, ex-manager da Wayra, conta porque sabia que Renato era a pessoa certa para ocupar o seu lugar

“O Renato é bastante centrado. Um empreendedor que tem uma capacidade analítica muito grande, e bastante ponderado. Tem muito empreendedor que é mais ‘pé na porta’, mais impulsivo. O Renato é centrado e tem uma calma, uma capacidade grande de avaliar um cenário completo antes de tomar alguma decisão. Tem uma visão de negócios muito apurada, já sentiu na pele o que funciona e o que não funciona e hoje pode ajudar os empreendedores, de um lugar muito seguro, a entenderem e a vivenciarem o que é fazer uma startup funcionar do zero.”

Carlos Pessoa, investidor de capital de risco, hoje à frente da Investtec