Formada em Economia e Moda, Giuliana Romanno está à frente da marca que leva seu nome. Nos principais e-commerces de luxo do país, tem no currículo parcerias com varejistas de peso e clientes fiéis

Quando está desenhando uma de suas cobiçadas peças ou atendendo alguma cliente – com horário marcado, já que ela faz questão de acompanhar de perto a prova de vestidos de ocasiões especiais –, a atenção de Giuliana Romanno é toda voltada para isso. Não importa se tocar telefone, chegar um e-mail ou aparecer outro compromisso: nesses momentos, o foco é todo para o que ela está fazendo. Foi assim no dia em que recebeu a Revista FAAP em sua loja, nos Jardins: interrompeu por poucos minutos a conversa com uma cliente para cumprimentar a equipe e justificar seu atraso: “Já estamos terminando a prova do vestido de noiva dela”. A espera valeu a pena. Na hora do papo, totalmente concentrada à nova atividade, Giuliana já deu uma palinha da razão de ser uma das estilistas brasileiras mais celebradas da geração atual: é confiante, simpática, cheia de referências e disposta a mergulhar fundo em tudo que se propõe a fazer.

Sua história na moda começou há dez anos, depois de uma virada na vida profissional. Formada em Economia pela FAAP em 1998, começou a carreira no mercado financeiro, nos bancos Multiplique e Lloyds Bank, onde foi estagiária e trader – trabalhando na mesa de operações –, e, depois, na seguradora Prudential, uma das maiores dos Estados Unidos, onde atuou por quase oito anos como consultora financeira. “Escolhi economia porque, na época, queria trabalhar na área internacional do mercado financeiro. Além disso, todos os estagiários do Multiplique eram alunos da FAAP, então poderia trabalhar só com meus colegas.”

Blazers e casacos – como estes da coleção de verão 2016 – são as peças favoritas de Giuliana

Com a sócia e amiga, Fabiana Delfim

A veia para a moda, no entanto, já estava lá. E rendia até broncas do presidente da Prudential por não seguir à risca as regras do “look banco”. “Eu ia bem-arrumada, de tailleur, mas colocava uns broches imensos, mais coloridos, e nem sempre eles levavam numa boa”, ri. O gosto pelas superproduções e roupas estilosas veio das avós, que sempre foram vaidosas. “Adorava me produzir com todas as joias, lenços e acessórios delas. Quando tinha 5 anos, pegava todas as roupas delas e vestia o meu irmão de 2 anos, coitado!”, lembra. A decisão de não continuar trabalhando na área financeira não trouxe o menor arrependimento. “Se não tivesse estudado Economia, não saberia a importância de ter capital de giro, um bom sistema operacional ou como negociar com os fornecedores”, explica. “O que aprendi na FAAP foi fundamental para o meu sucesso.”

CROQUI

Quando finalmente resolveu encarar o desafio de ter o próprio negócio – em uma área totalmente diferente –, o foco e a capacidade para ser multitarefa mostraram seu valor.  “Quando conheci a Giuliana, ela era também uma atleta de alta performance: fazia parte da seleção brasileira de polo aquático, treinava quase todos os dias e nunca deixava de cumprir uma única obrigação”, lembra o professor Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP. “A guinada na carreira pegou todos de surpresa, mas empreender é algo muito incentivado aqui dentro. E, sendo alguém tão motivado quanto ela, sabia que ia dar certo”, elogia. No entanto, essa mudança não foi surpresa nenhuma para Giuliana. A seguradora já não a satisfazia, então ela largou o mercado financeiro e, durante um ano e meio, trabalhou ao lado da curadora de moda Helena Montanarini para experimentar o novo universo. Era a metade do ano 2000 quando Giuliana, aos 28 anos, se matriculou no Sequencial de Moda da FAAP, curso de dois anos que prioriza a parte prática. “Minha parte preferida no curso eram os ateliês e as oficinas, onde eu podia colocar a mão na massa. Não tem coisa melhor do que aprender na prática. E a FAAP é o lugar perfeito para isso”, diz ela.

Foi natural, então, inaugurar sua marca nesse mesmo estilo: com ateliê de portas fechadas, poucos funcionários – só uma costureira e um modelista – e respeitando o tempo que cada peça precisava para ser feita, sem pressa e sem pretensão de crescer rápido demais. “A qualidade da roupa, da modelagem e do acabamento demanda tempo e cuidado”, explica Giuliana. Camila Yahn, crítica de moda e editora-chefe do FFW (portal que nasceu em 2005 como site oficial do São Paulo Fashion Week e, desde 2009, tornou-se independente e se firmou como um dos mais importantes do segmento no Brasil), concorda e vê esse como um dos pontos fortes da estilista. “Giuliana entendeu desde o começo que existia uma lacuna na moda brasileira: fazer roupas de qualidade, sofisticadas e modernas, que as mulheres teriam vontade de usar amanhã, qualquer dia, não apenas em uma ocasião especial.”

Giuliana trabalhando no ateliê da marca, onde ela mesma põe a mão na massa

É esta, talvez, a marca registrada de Giuliana Romanno: mostrar peças de alfaiataria, vestidos, camisetas e até bodies e sutiãs pensados para serem únicos, sem deixarem de ser básicos. Pode parecer uma combinação impossível, mas essa linguagem que ela sempre colocou em suas criações é o DNA que levou a marca a evoluir – e que é também parte de sua personalidade. “Giuliana é meticulosa e obsessiva. Suas roupas são muito sintonizadas com a mulher contemporânea e ela criou uma assinatura. Você bate o olho e sabe que é Giuliana Romanno – isso é essencial para um estilista”, diz Silvia Rogar, redatora-chefe da Vogue Brasil. Os recortes mais modernos vieram das piscinas e do polo aquático, que ela praticava aos 20 anos, e foram aplicados em peças clássicas, como blazers e saias-lápis, presentes desde o começo da carreira nos bancos.

PIVÔ

Com tantos diferenciais, o nome de Giuliana Romanno começou a aparecer cada vez mais nas conversas entre amigas-clientes, que recomendavam uma visita ao ateliê para dar um up no guarda-roupa. Uma delas, Fabiana Delfim, filha do ex-ministro e embaixador Delfim Netto e também formada em Economia pela FAAP, acabou se tornando sua sócia em 2007, o que permitiu que a marca expandisse com a qualidade desejada. “Sempre achei a Giu talentosa, criativa e habilidosa.”

Com a parceira certa para se dedicar cada vez mais à parte criativa, a marca começou a ficar conhecida e bem cotada no mercado fashion. Até que, em 2014, o ritmo acelerou o suficiente para a marca explodir em vendas e exposição: convidada para participar da São Paulo Fashion Week, Giuliana desfilou seus modelos já conhecidos pelas entendidas de moda e conquistou um público muito maior. “O SPFW tem um alcance gigante, que extrapola o mercado nacional, e tudo isso reverbera em vendas. Depois do primeiro desfile, comecei a dobrar o faturamento a cada coleção”, revela Giuliana, que também tem suas peças à venda na Farfetch, e-commerce de luxo que reúne grifes do mundo inteiro. Para atender a essa demanda, precisou aumentar o time. Hoje, comanda mais de 20 funcionários e tem cerca de cem colaboradores externos, que atuam como terceiros na produção das peças. “Na primeira coleção, fiz 200 peças. Hoje, faço cerca de 8 mil a cada coleção”, conta Giuliana, que vende vestidos de festa a partir de R$ 2 mil, em média.

Foi nesse mesmo ano que outro ponto importantíssimo catapultou a marca: a coleção-cápsula criada para a C&A, com bodies, camisetas, vestidos e até lingeries. Foi sucesso absoluto, com boa parte das peças esgotada nos primeiros dias depois do lançamento. “Foi impressionante o retorno e a visibilidade que isso me deu”, lembra. Giuliana sabe, aliás, trabalhar muito bem suas parcerias. Além de gigantes como a C&A, ela tem na carteira de parceiros as joalheiras Carol Bassi e Vera Cortez e a designer de sapatos Dani Cury – donas de marcas bem menores de tamanho, mas gigantes em qualidade e reconhecimento. “O olhar atento da Giu, sempre jovem e aberto a novas ideias, torna o trabalho com ela um momento agradável. É incrível ver sua dedicação e como ela entra de cabeça em um processo criativo”, elogia Carol Bassi.

SÓ SE FOR AGORA

Ligada nas tendências do mercado, Giuliana decidiu que, em 2016, apresentaria suas criações fora da semana de moda paulistana. Sentiu que era momento de mudar o formato de um jeito mais radical. “Resolvi no meu último desfile, em agosto, que logo depois do SPFW tudo já estaria à venda na loja”, explica, sobre o desfile de verão 2017.  Essa tendência – conhecida como see now, buy now – adotada por Giuliana, uma das pioneiras a fazer isso no Brasil, agora está com força total dentro e fora do país. “A mulher de hoje quer ver nas araras a mesma coisa que viu no Instagram. Ninguém mais está disposto a esperar seis meses para comprar o que viu na passarela. Tem que ser na velocidade do like.”

Giuliana é meticulosa e obsessiva. Suas roupas são muito sintonizadas com a mulher contemporânea e ela criou uma assinatura. Você bate o olho e sabe que é Giuliana Romanno – isso é essencial para um estilista – Silvia Rogar, redatora-chefe da Vogue Brasil

O perfil no Instagram da marca Giuliana Romanno, por sinal, é a síntese perfeita do DNA forte e coerente que a estilista conseguiu construir. As imagens são interligadas, parecendo uma grande campanha que nunca para de ser fotografada. E é um sucesso entre clientes e seguidores – são mais de 38 mil. Apesar de a marca acompanhar o ritmo frenético da internet, a estilista jura que sua relação com os smartphones é um pouco mais tranquila. “Cuido do conceito e tenho uma equipe de marketing que atualiza isso para mim. Tenho minha conta pessoal no Instagram também, mas posto só de vez em quando. Nem WhatsApp eu consigo responder na hora”, explica. Ela confessa que o agito de São Paulo, hoje, faz parte só da vida profissional. “Meu lugar preferido é a Bahia, o único em que eu consigo me desligar de verdade.” Quando não consegue fugir para lá, pratica ioga e meditação para manter a criatividade fluindo. Afinal, para ela, perder o foco nunca é uma opção.

AMIGAS, AMIGAS, NEGÓCIOS NADA À PARTE

A AMIZADE DA FAAP ACABOU NUMA FELIZ SOCIEDADE

Em 2007, na hora de pagar uma de suas compras no ateliê de Giuliana, Fabiana Delfim, formada em Economia pela FAAP e amiga da estilista, brincou: “O dia que você precisar de uma sócia, me avisa!”. Giuliana, no entanto, não levou tão na brincadeira e se mostrou interessada. Alguns almoços e cafés depois, estava formada a parceria entre as duas, que têm a trajetória muito semelhante. “Trabalhei a vida inteira em mercado financeiro, mas senti vontade de desacelerar”, conta Fabiana, hoje responsável pela parte administrativa, financeira e parte do marketing da marca Giuliana Romanno. “A FAAP ensina a gente, desde o primeiro semestre, a pensar como dono do negócio, e como sempre tive uma sinergia boa com a Giu, achei que seria a parceria perfeita”, lembra Fabiana. “Eu estava certa! Formamos uma ótima dupla.”