Todo-poderosa da gigante de pagamentos digitais PayPal no Brasil, Paula Paschoal deslanchou na carreira em duas áreas dominadas por homens, o varejo e a tecnologia

A sensação de navegar pelo Google Images após digitar no campo de busca a sigla CEO (Chief Executive Officer) é bem similar à de folhear um álbum de figurinhas da Copa: há homens, e só homens, por toda parte – salvo poucas exceções: das cem primeiras fotos de CEO que apareceram em minha pesquisa, 11 eram mulheres (sendo três delas retratos fictícios, de bancos de imagens). Nesse álbum, a paulistana Paula Paschoal seria como uma figurinha brilhante. Mas não só a combinação rara dos predicados “mulher” e “executiva de alto escalão” a fez ganhar essa fama e os holofotes, em 2017.

Após sete anos como parte do time comercial do PayPal Brasil, ela foi promovida ao cargo máximo de diretora-geral da companhia no mesmo mês em que voltou de licença-maternidade. E, tão logo assumiu a empreitada, tornou-se voz incisiva e ressonante do empoderamento feminino no ambiente corporativo, sobretudo no setor da tecnologia, no qual os homens ocupam 80% das vagas e ganham 70% a mais para cumprir as mesmas funções que as mulheres. “Hoje percebo que meu engajamento vai muito além da minha experiência pessoal”, diz Paula. “É a função social do meu cargo: só quando fui promovida caiu a ficha da real responsabilidade, algo muito mais relevante – e prazeroso – do que cumprir números e metas: inspirar pessoas, prezar pela diversidade e garantir oportunidades, especialmente para quem não costuma ter.”

Numa manhã quente de dezembro, Paula me recebeu em seu apartamento no Alto de Pinheiros. Foi o primeiro de dois dias em que fui sua sombra, seguindo cada passo de sua rotina de trabalho. Às 8h23 daquela terça-feira, usando rabo de cavalo e pijama lilás, ela atendeu a porta do hall amontoado de caixas de encomendas on-line recém- -chegadas. No colo, Ana, sua caçula de 2 anos e enormes olhos azuis. “Estou atrasada”, me disse, com um sorrisinho de canto, e foi se arrumar. Na sala cheia de referências artsy, das fotografias penduradas na parede à estante de livros organizados por cor, a primogênita Maria, que ainda não tinha completado 4 anos, mas afirmou ter 4 anos, me fez companhia junto de seus brinquedos.

No início dos anos 80, no colo de uma amiga da mãe, com o olhar penetrante que lhe é peculiar

Quando não estão de férias, as meninas vão pra escola com a mãe. Paula acorda às 7 horas e chega às 9 horas no escritório. No caminho, acompanhada do motorista Benedito, vai respondendo e-mails enquanto se familiariza com a agenda de que cuida atentamente – dispensa assistentes. É comum ter calls tarde da noite com clientes que estão em outro fuso, reservar três horas no meio da tarde para jogar tênis ou entupir o cronograma com tantas reuniões que o almoço dura dez minutos, em frente ao computador. “Foi algo em que me concentrei para conquistar: a ponderação de prioridades, e isso inclui as minhas próprias, tanto como diretora como mãe e ser humano em busca de qualidade de vida.”

Descobri que, para lidar com tecnologia, há skills muito mais importantes do que o conhecimento técnico, como a capacidade de direcionamento para resultados

No dia anterior, tinha terminado o expediente num jantar entre executivas, que, assim como ela, alcançaram o topo – caso de Rachel Maia, CEO da Lacoste, e Ana Paula Assis, gerente-geral da IBM América Latina. Sempre que encontra uma brecha nas conversas, Paula fala de alguma dessas mulheres, do quanto são admiráveis e competentes. Hoje, viraram contatos além da carteira profissional; são sua turma. Mas nem sempre foi assim. “Passei muito tempo admirando só ao longe, botava essas mulheres num pedestal inatingível. Sempre fui muito dura comigo mesma”, admite. Terceira filha de um cirurgião e de uma psicopedagoga de Araraquara, Paula cresceu no interior sob rédea curta e cobranças rígidas. Sabia que queria se formar administradora, mas não só isso. Então, escolheu o curso de administração da FAAP – também a porta de entrada para uma nova autonomia, mudando- se para São Paulo, longe da família.

A princípio, a faculdade representou mesmo a exploração de uma faceta nova da menina caxias, o desenvolvimento de um olhar criativo, fora da caixa de certezas com que estava acostumada. Mas também deu as cartas para que pudesse aprimorar sua rigorosa personalidade. No segundo ano do curso, depois de mais uma recuperação, seu pai cravou que quem arcaria com o peso – e o preço – da DP seria ela sozinha. Foi assim que Paula arranjou seu primeiro emprego, como recepcionista do Hotel Transamerica, no bairro de Higienópolis. Conciliando com as aulas os horários inflexíveis de trabalho, entendeu a importância da pontualidade, do trato com o cliente, do esforço para arrematar tudo da melhor forma possível. “Trouxe um senso de comprometimento que carrego até hoje e fez toda a diferença na minha carreira.”

Tão engajada, conquistou facilmente uma vaga no programa de trainee da Câmara Americana de Comércio de São Paulo. Findo o processo de seis meses, assinou um contrato na área operacional, onde ficou por mais quase dois anos. Foi aí que abriu dois precedentes em sua carreira: primeiro, foi roubada da Câmara por um dos clientes de sua cartela, a Advanced Micro Devices (AMD); além disso, passou a se destacar no setor tecnológico, estreando numa das maiores fabricantes do mundo. “Na prática, não entendo nada de tecnologia”, afirma Paula. “Descobri que, para lidar com o assunto, há skills muito mais importantes do que o conhecimento técnico, como a capacidade de direcionamento para resultados.” Não por acaso, ela enuncia a reflexão enquanto saímos do PayPal, pouco depois das cinco, rumo a sua aula de ioga. A grande aliada de Paula para buscar resultados e engajar a equipe no mesmo propósito foi a (tentativa por) serenidade. Suavizar foi – e ainda é – o grande desafio pessoal que enfrentou como CEO e a diretriz que comprovou sua capacidade para assumir a bronca.

Em julho de 2018, com o marido e as duas filhas, de férias na Bahia

“Hoje você vai enganar um pouquinho a mente, tentar se livrar de tanto processo mental acumulado”, sussurra a instrutora de ioga. No ambiente defumado por incenso e ecoando melodia indiana, ela se estende por cerca de uma hora em alongamentos que aparentemente tira de letra. Curva sem muito esforço o 1,75 metro até o chão, equilibra-se sem cair. A dificuldade é outra: fechar os olhos e se acalmar. Os movimentos de Paula são rápidos, sempre alertas – do mesmo modo como a vi agir no ambiente de trabalho. No fim da aula, estou baqueada de tanto relaxamento por tabela. Já Paula se recompõe na mesma velocidade com que colocou a roupa de ginástica ao chegar lá: exatos 5 minutos.

Dura na queda

“Sua firmeza foi o que deixou claro pra mim que ela era perfeita para o cargo. Sou filho de uma arquiteta que passou a vida toda lidando com pedreiros e engenheiros machistas sem se abalar. Reconheci na Paula essa postura determinada, assertiva. Uma autossegurança, apesar da pouca idade, que me impressionou”, diz Jerome Pays, gestor na antiga FNAC (que mantinha 12 lojas em sete estados do país) e ex-chefe de Paula. Em 2007, depois de uma reunião em que Jerome representava a varejista, e ela, aos 25 anos, cumpria a posição de fornecedora, como marketing da AMD, ele lhe ofereceu o desafio para construir o e-commerce da empresa. E, mais uma vez, Paula atravessou o outro lado do balcão. “Rapidamente ela se tornou meu braço-direito. O site brasileiro vendia mais que o on-line de Portugal, Suíça, Itália e Espanha juntos; e a Paula era responsável por dois terços desse faturamento”, conta Jerome.

A Paula é resiliente. Me lembro de ouvi-la repetir: ‘Meta não se discute, cumpre-se’- Mario Mello, ex-chefe de Paula no Paypal

Na Fnac, onde ficou até ser contratada pelo PayPal, em agosto de 2010, Paula passou três anos e quatro meses e encarou a maior crise profissional do currículo: por um erro no sistema, na madrugada de uma quarta-feira, todos os produtos do portfólio do site, entre televisões, notebooks, eletrônicos de última geração, custaram, por alguns minutos, R$ 9,90. “O Jerome estava viajando e tive de lidar com tudo. Não teve jeito: fui obrigada a manter a calma”, diz. “Inclusive, foi a situação que mais me ensinou.” O causo virou case de atendimento, já que a Fnac rapidamente admitiu sua falha ao público e criou um procedimento para resolução dos danos; mérito de Paula.

Em 2000, no seu primeiro emprego, como recepcionista de hotel

“A Paula é resiliente. Me lembro de ouvi-la repetir: ‘Meta não se discute, se cumpre’”, conta Mario Mello, ex-chefe e responsável por sua contratação no PayPal. “Ela tinha tantos predicados profissionais positivos, capacidade de persuasão, excelente retórica, garra, ambição, que é claro que aquilo tudo fazia sombra no seu lado pessoal. Lembro que, quando ela me contou que estava grávida, parecia um soldado abandonando a trincheira.” Paula lembra da conversa até hoje. “Comuniquei: ‘É melhor você sentar. Estou com um problema’”, relembra ela. “Depois que contei que estava grávida, ele respondeu: ‘E agora conta o problema, então’.”

Para Mario Mello, gravidez no mundo corporativo funciona como alguns meses de MBA na faixa. E foi exatamente assim para Paula. “Foi aí que abracei de vez a postura de ser mais humana no trabalho. Voltei pra lá, quatro meses depois, com outra maturidade emocional.” Tanto que, menos de um ano depois, Paula engravidou de novo. “Se, antes das duas filhas, eu era mais maleável que ela, hoje, a Paula me superou”, afirma Mario, que, paralelamente à gestação, foi incumbido de prepará-la para assumir o seu cargo. Em 2017, ela se tornou oficialmente diretora-geral da multinacional.

Equilíbrio íntimo

Durante esses dois dias em que passamos juntas, Paula mal ficou em frente ao computador. Ela não tem uma sala, mas uma estação de trabalho como todos os outros funcionários do PayPal – à exceção de que sobre sua mesa pairava naqueles dias um saquinho de jujubas; e, na cadeira, amontoavam-se algumas de suas paixões: bolsas de grife – uma Goyard, uma Bottega Veneta e uma Saint Laurent.

Entrevista à GloboNews, no Dia Internacional da Mulher

Resolve tudo pelo celular e é nele que também dá escape às pressões que vêm de dentro: seja uma pausa para jogar Candy Crush ou zapear o feed do Instagram, que ela adora, seja o pequeno prazer de arquivar todas as mais de mil conversas de WhatsApp, tão logo ela tenha respondido. Paula gosta de ir ao Morumbi quando tem jogo do São Paulo, mas é no tênis que se tornou imbatível: ela e uma amiga já foram campeãs do torneio de duplas do Clube Pinheiros.

Em questão de amizade, aliás, Paula é próxima de todos os ex-chefes, com quem busca conselhos sempre que pode. Com o marido, o empreendedor do mercado financeiro Luiz Guilherme, com quem subiu ao altar pouco mais de seis anos atrás, divide as funções igualmente em casa: “Se a Ana acorda duas vezes à noite, ele vai em uma, eu vou na outra”, conta.

Se a vida fosse mesmo um álbum de figurinhas, o de Paula já estaria completo.

Durante participação em congresso