Criado há quatro décadas, o Teatro FAAP já recebeu 131 peças e 29 espetáculos de dança, protagonizados pelos maiores nomes das arte cênicas, como Paulo Autran, Raul Cortez, Irene Ravache e Wagner Moura – E deu até espaço a uma piscina colocada em cena. Não por acaso a casa se tornou uma das maiores referências teatrais no País

Na estante do escritório de Claudia Hamra, diretora do Teatro FAAP, espalham-se objetos à primeira vista banais: há dois porta-retratos, um livro, uma caneca… Chegando mais perto, porém, percebe-se que eles são fragmentos de memória de uma longa e nada comum história. Em um porta-retrato, está emoldurado um convite para a peça Cruel, que foi interrompida para que o ator Reynaldo Giannechini se tratasse de um câncer no sistema linfático e retomada oito meses depois com enorme comoção. Em outro, há uma foto de Raul Cortez, ator que se despediu dos palcos no teatro logo ali abaixo daquele escritório, após uma carreira de 50 anos. O livro exposto é, na verdade, um cofrinho disfarçado, presente dado pela produção de Meu Deus!, a quarta montagem protagonizada na FAAP por Irene Ravache, uma das grandes parceiras do teatro. A caneca estampa o nome da peça Sobre homens e ratos, apresentada com sucesso neste ano por um jovem grupo de atores, uma evidência de que o teatro está em constante renovação. Em uma das paredes de sua sala, há ainda um quadro com uma foto do elenco de Hamlet, assinada por todos os integrantes, incluindo Wagner Moura, que comprovou no palco da FAAP que era também um grande ator de teatro.

Neste ano, a história que esses objetos ajudam a contar completa quatro décadas. No dia 22 de setembro de 1976, Miriam Mehler, Carlos Augusto Strazzer e outros atores inauguraram oficialmente o Teatro FAAP em uma montagem de A moratória, peça de Jorge Andrade dirigida por Emílio di Biasi. Nos 40 anos seguintes, foram encenados no seu palco outras 130 peças e 29 espetáculos de dança, protagonizados pelos maiores nomes das artes cênicas do país – Paulo Autran, Antônio Fagundes, Glória Menezes, Irene Ravache, Juca de Oliveira, Marília Pêra, Marco Nanini, Raul Cortez, Fulvio Stefanini, Christiane Torloni, Lilia Cabral, Ana Botafogo, entre milhares de outros. “O Teatro FAAP virou uma referência positiva no meio teatral do Brasil. Os espectadores chegam aqui com a garantia de que vão encontrar espetáculos de qualidade, com produção cuidadosa, em um espaço acolhedor. E as equipes das peças sabem que serão sempre bem recebidas, que terão todas as condições para desenvolver seu trabalho em uma estrutura impecável”, afirma Claudia Hamra, que está à frente do teatro e do Núcleo de Artes Cênicas da FAAP há 18 anos. “As pessoas ligam para cá e perguntam: ‘O que está passando no Teatro FAAP?’. Muitos querem vir mesmo sem saber da programação. É uma prova de que nós conquistamos a confiança do público. E quem atende não é uma máquina, mas a equipe do próprio teatro. É um tratamento íntimo, de quem respeita o público e ama o teatro.”

O ator Wagner Moura, durante ensaio da peça “Hamlet”, com direção de Aderbal Freire Filho, no teatro FAAP, em São Paulo (SP). (Lenise Pinheiro/Folhapress)

Antes que essa história de 40 anos tivesse início, houve uma pequena “pré-estreia” do Teatro FAAP. No porão do prédio 1, Naum Alves de Souza – futuro dramaturgo consagrado, então um jovem estudante de gravura – ensinava noções de teatro a crianças e adolescentes na segunda metade dos anos 60 e por vezes dizia: “Este espaço aqui daria um belo teatro!”. Em 1972, sua profecia se concretizou quando o cineasta e professor Rodolfo Nanni montou ali o Supermercado de som e imagem, um pioneiro espetáculo multimídia que unia música, teatro, cinema e artes plásticas – e que o público acompanhou sentado no chão em almofadas e tapetes.

O Teatro FAAP virou uma referência positiva no meio teatral do Brasil. Os espectadores chegam aqui com a garantia de que vão encontrar espetáculos de qualidade. E as equipes das peças sabem que terão todas as condições para desenvolver seu trabalho em uma estrutura impecável – Claudia Hamra,diretora do Teatro FAAP

Depois desse aperitivo experimental, o porão foi transformado em teatro com um projeto do arquiteto e cenógrafo Aldo Calvo e do engenheiro Igor Sresnevskia e equipamentos de última geração importados da Itália e Inglaterra. As duas colunas estruturais que podem ser vistas até hoje no palco – e que ora são disfarçadas nas peças, ora incorporadas à cenografia – são remanescentes do tempo em que o espaço era apenas o subsolo do prédio 1. Antes da primeira peça, houve uma inauguração informal em 1975 com um concerto do pianista Jacques Klein. E, pouco depois de A moratória, veio um dos marcos da história do teatro: a encenação de Esperando Godot, de Samuel Beckett, em que o diretor Antunes Filho escalou apenas mulheres (Eva Wilma, Lélia Abramo, Lilian Lemmertz) para os papéis originalmente masculinos, em 1977.

Depois de cinco anos fechado, o teatro reabriu as portas totalmente reformado em 1982, sob a direção de Anna Mantovani. Convidada pela nova diretoria da FAAP, a cenógrafa baseou sua gestão em três pilares: a qualidade dos espetáculos, o apuro técnico do espaço e o ensino de teatro – com a implantação do Núcleo de Artes Cênicas, para coordenar os cursos livres. Segundo Anna, esses três fatores foram suficientes para recolocar a FAAP no circuito dos grandes teatros de São Paulo. Em sua gestão de seis anos, foram inauguradas a cafeteria e a atual bilheteria do teatro, e houve grandes sucessos cômicos (como A comédia dos erros e Ubu, do grupo Ornitorrinco) e dramáticos (como Salomé, com Christiane Torloni). “Nessa peça, nós conseguimos colocar uma piscina em cena! Isso mostra que estávamos dispostos a enfrentar e superar todos os desafios trazidos pelas peças. Saí com a sensação de dever cumprido.”

Nalata

Depois de Anna, a direção do teatro foi assumida por Claudia Hamra, que já estava à frente do Núcleo de Artes Cênicas. Com experiência anterior na produção audiovisual (ela fez videoclipes para RPM, Titãs e Ultraje a Rigor nos anos 80) e teatral (a partir do estímulo da atriz Myriam Muniz, sua grande mestra), Claudia consolidou os avanços do Teatro FAAP com uma programação que consegue aliar o sucesso de público ao de crítica (em fenômenos como Mademoiselle Chanel, com Marília Pêra, e Hamlet, com Wagner Moura), uma nova reforma que criou um mezanino (e ampliou a oferta de poltronas para 506 espectadores), uma equipe de nove pessoas totalmente dedicada ao acolhimento do espectador e dos grupos teatrais e um espaço físico conhecido no meio por suas condições impecáveis. “Não há uma tomada que não funciona, um refletor que dá curto-circuito. É um teatro de menina, sempre asseado. Háuma manutenção de casa de boneca”, diz. “As pessoas brincam que há um ‘padrão Claudia Hamra’ de qualidade.”

A julgar por muitos artistas que passaram pelo Teatro FAAP, não é brincadeira. “Na FAAP, a grande diferença é ter, tanto na direção da instituição quanto na do teatro, pessoas que entendem de produção, que respeitam a equipe e o público, que vibram com a peça, que são parceiros mesmo. É uma casa da cultura”, afirma Irene Ravache, que já protagonizou quatro espetáculos ali. “Esse diferencial começa já na chegada ao teatro. As pessoas passam pelas obras de arte do prédio da FAAP e já entram no clima da arte. O público ama o Teatro FAAP. É um espaço que abraça a plateia.” Glória Menezes, que também já atuou em quatro espetáculos ali, concorda com a colega e destaca a proximidade entre palco e plateia como trunfo da casa. “Eu gosto de atuar olhando no rosto do público, essa troca com o espectador é fundamental para o ator. E eu me lembro da estreia de Jornada de um poema (2000), eu tinha um pequeno monólogo de abertura, conseguia ver as pessoas ali na terceira, na quarta fileira, e já senti na hora que aquela peça ia dar certo. O Teatro FAAP me deu sorte, sempre tive sucesso lá.”

Na FAAP, a grande diferença é ter, tanto na direção da instituição quanto na do teatro, pessoas que entendem de produção, que respeitam a equipe e o público, que vibram com a peça, que são parceiros mesmo. É uma casa da cultura – Irene Ravache, atriz

A dramaturga Maria Adelaide Amaral conta que uma de suas melhores lembranças teatrais aconteceu na Fundação. “Na estreia da peça De braços abertos (1984), o público ovacionou a Irene [Ravache] e o Juca [de Oliveira], que eram os protagonistas. E o Paulo Autran, que estava na plateia, me localizou ali no meio, eu estava do lado do José Possi Neto, o diretor. Ele se virou para nós e puxou os aplausos da plateia em nossa direção. Nunca vou esquecer dessa cena”, ela diz. “Eu gosto do Teatro FAAP não só quando a peça é minha. Vou lá sempre como espectadora, é um espaço aconchegante, você chega, estaciona, não tem cambista. E a programação criada pela Claudia é muito criteriosa, vou sem medo de errar.”

Cacá Rosset em Ubu: folias physicas, pataphysicas e musicaes, 1996 (Gal Oppido)

Maria Adelaide também escreveu outro dos grandes sucessos do teatro, Mademoiselle Chanel (2005), dirigida por Jorge Takla. Ele lembra bem do furor causado pela peça, mesmo antes da estreia. “Em três temporadas que somaram mais de 12 meses em cartaz, não houve um único lugar vazio. E sempre havia filas para esperar desistências. Esse sucesso foi possível porque a FAAP foi uma verdadeira parceira na produção. Não é um teatro de aluguel, um business. É um lugar onde todo mundo veste a camisa da peça, do bilheteiro à diretora. E, para um diretor, é uma delícia, porque é um teatro ao mesmo tempo grande e íntimo, majestoso e acolhedor.”