Com a criação de uma horta comunitária, arrecadação de itens básicos, palestras e oficinas, ação voluntária do curso de arquitetura e urbanismo da FAAP lança novo olhar sobre a comunidade do Jardim Panorama, na região do Morumbi

Em 2017, um grupo de professores e alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP faz uma visita à comunidade do Jardim Panorama, ao lado do shopping Cidade Jardim, na região do Morumbi, em São Paulo. Habitada por famílias em situação de vulnerabilidade, a favela seria foco de uma ação voluntária, que faz parte da grade curricular e é apoiada pela FAAP Social. Depois de alguns estudos e conversas, a turma identifica uma das principais necessidades do local: melhorar a mobilidade. É que a marginal Pinheiros e o rio, localizados exatamente em frente à comunidade, funcionam como barreiras físicas para quem circula ali, tornando obrigatória uma caminhada de quase 4 quilômetros para alcançar a estação de trem, localizada bem em frente, e que muitos utilizam no dia a dia.

A ideia, então, foi propor aos moradores a construção de uma passarela, que sairia da pracinha localizada na parte de cima do Panorama. “Estávamos certos de que eles iriam gostar”, lembra o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP, e um dos idealizadores da iniciativa, Marcos Costa. Puro engano. O professor conta que quando a proposta foi apresentada, recebeu uma enxurrada de questionamentos. “O que mais ouvimos foi: ‘Obrigada pela ideia, mas em cima da pracinha?!’”, lembra ele. Num lugar carente de espaço, a praça serve como oásis de convivência, um canto em que acontecem festas e outras atividades comunitárias. Ou seja: ninguém gostaria de ver fluxo de gente ali. “O que foi colocado por eles era absolutamente contundente. Para os moradores, aquele é um lugar impregnado de valores e quem está de fora não consegue ter a sensibilidade para identificar. Por isso, digo que o mais relevante dessa experiência foi a possibilidade de ouvir as pessoas. Foi muito enriquecedor para alunos e corpo docente”, explica o professor.

Encontro de moradores da comunidade do Jardim Panorama com alunos de Arquitetura e Urbanismo da FAAP

Na prática, a escuta das demandas resultou em inserir a pracinha no projeto de voluntariado, e uma série de outras ações, iniciadas no primeiro semestre deste ano. Entre elas, palestras para conscientização sobre hábitos de higiene, oficinas de compostagem, de leitura, gincanas e brincadeiras. Uma das atividades mais especiais foi a criação da horta comunitária. “Levamos mudas de tempero, terra, garrafas PET. Criamos um modelinho de plantio, ensinamos a utilidade das ervas e cada criança participante foi acompanhada por um aluno monitor. Elas chegavam interessadas, queriam fazer para levar de presente para casa, sabiam que era algo que seria delas no futuro”, descreve a professora de projeto arquitetônico, Marianna Dal Canton, que participou do mutirão.“Meus filhos chegaram em casa superfelizes com as garrafinhas de mudas nas mãos. Já usei os temperos para fazer carne, macarrão…”, conta a moradora Naiara Ferreira da Silva, 27 anos, e mãe de Lara, 9, Nara, 8, e Pedro, 6, que participaram da oficina. Para ela, além da parte educativa, um dos principais benefícios foi o fato de as crianças poderem interagir com algo diferente do dia a dia delas. A menina Nara adorou a novidade: “Quero fazer de novo e gostaria de aprender a plantar flores”, diz.

O aluno de arquitetura que está lá participando e se envolve em um trabalho para redesenhar a área pode ter uma percepção mais sólida e aprofundada dos cenários da cidade. E assim qualificar ainda mais o que desenvolve na faculdade – Marcos Costa, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo

O aluno do 6o semestre Lucca Iacovino, 21, um dos voluntários, teve a ideia de fazer um ensaio fotográfico no dia. “Cabe às fotografias a missão de dar visibilidade àquelas pessoas, aos seus possíveis anseios, críticas e sonhos. Fui surpreendido pela imagem de uma menina que aparentava cerca de 12 anos. A forma como mirava o seu horizonte particular expunha sua situação social. Penso ser a foto mais interessante do ensaio. Ela ganhou o nome de Campo de visão [foto 3]”, conta ele.

Oficina de criação de uma horta comunitária na comunidade

Para Sandro dos Reis Martins, coordenador de projetos na ONG Associação Mãe Peregrina, parceira da FAAP na iniciativa, e que atua no Jardim Panorama desde 2014, o impacto da ação vai muito além do que se pode enxergar. “A gente poderia ir lá e reformar cinco barracos. Seria um resultado visível. Mas isso foi algo feito em duas horas, um momento no qual as crianças tiveram contato com gente diferente, que sorri, abraça, pega no colo. Quando os voluntários foram embora, perguntavam quando iriam voltar, pediam para virem mais vezes. Então, onde foi o impacto principal? Esse termômetro social pode não ser imediato, mas é algo que a gente vai sentir lá na frente”, avalia.

Nessa história toda, a bem da verdade, todo mundo sai ganhando. A aluna do 6o semestre Graziela Pavoni, 20, que pratica trabalho voluntário desde os 10, destaca a importância de conhecer outras realidades. “A grande maioria dos alunos da FAAP não tem esse contato, então é um aprendizado”, diz. Tanto que ela mesma “saiu do roteiro” e, depois de conhecer as necessidades da comunidade, resolveu organizar junto às amigas uma campanha de arrecadação de itens básicos, como sabonete, xampu, escova de dente e fraldas para doação. “Os alunos se sentiram incomodados, tocados e começaram a buscar caminhos para intervir na realidade que eles tinham dificuldade de aceitar. Uma realidade nem tão distante, porque é próxima aos locais que frequentam, como o clube Paineiras e o shopping Cidade Jardim. Contudo, a maioria deles jamais conheceria o bairro. Então, é uma ampliação da própria paisagem em que vivem”, pondera o professor Marcos.

Gincana com as crianças do Jardim Panorama

Segundo ele, o impacto também acontece do ponto de vista acadêmico, na medida em que se passa a perceber a cidade de outra forma. “O aluno de arquitetura que está lá participando e se envolve em um trabalho para redesenhar a área pode ter uma percepção mais sólida e aprofundada dos cenários da cidade. E assim qualificar ainda mais o que desenvolve na faculdade.” Lucca, por exemplo, ficou impressionado com a forma de organização da comunidade: “O mais interessante foi ver como eles vivem em fraternidade, como uma família. Isso é uma grande pedra no sapato para o urbanismo atual nas grandes cidades, com seus condomínios cercados por grandes muros”. Já Gabriela contou que a experiência reforçou a vontade de direcionar a carreira para a arquitetura social, como a construção de conjuntos habitacionais. “Falta interesse das pessoas nesse tipo de serviço”, comenta.

De forma geral, de acordo com o professor Marcos, a tarefa é multidisciplinar. “No Jardim Panorama há questões para advogados, economistas, cineastas… As ações são abertas e quanto mais forem transbordantes, melhor”, completa ele. Os próximos passos da iniciativa devem ser definidos este mês.

Vale dizer que, ao longo do processo, os limites geográficos entre FAAP e Jardim Panorama também se desfizeram. Além dos alunos que se voluntariaram para participar, pessoas da comunidade, como Naiara, fizeram visitas à faculdade. “É um jeito de despertar a ambição e mostrar que existe um mundo além da favela. Eles ficam fascinados”, conta Sandro, que acompanhou todo o intercâmbio. E se um dia a FAAP chegou ao Jardim Panorama como estrangeira, hoje a história é diferente. A polêmica passarela, acredite, voltou a ser considerada na pauta dos moradores.