Desde que pisou em uma sala de aula para ensinar, 50 anos atrás, ele não saiu mais. Henrique Vailati Neto, diretor do Colégio FAAP, conta como conduz os estudantes com base em criatividade e gentileza

Não há quem tenha passado pelo curso de Administração da FAAP e não se lembre dele. Seja em sala de aula ou fora, dificilmente um aluno não teve contato com esse professor, cuja característica que mais impressiona é a entrega ao que faz. Henrique Vailati Neto, esse homem de 66 anos e 1,65 metro, formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração, soma mais de cinco décadas de experiência – boa parte delas dedicadas quase que exclusivamente ao curso de Administração.

Primeiro como professor de Sociologia e Ciência Política, depois como vice-diretor, e também como diretor por 16 anos, o professor Henrique implantou um ritmo inovador de permanente revisão curricular. Promoveu parcerias com empresas, levando as discussões do mercado para as salas de aula e desenvolveu programas de orientação de projetos. Ministrou ainda a disciplina de Política na pós-graduação em Gerente de Cidade. Tudo para tornar a formação superior no curso de Administração da FAAP mais avançada. Não por acaso, recebeu oito notas A em todas as avaliações do MEC por excelência acadêmica, enquanto foi diretor do curso de Administração, de 1996 a 2010.

Paralelamente, ao perceber as fragilidades dos alunos que chegavam à faculdade, em sua maioria sem o desenvolvimento de habilidades voltadas ao empreendedorismo e à liderança criativa, o professor Henrique propôs e implantou, no mesmo campus da universidade, o Colégio FAAP de ensino médio, onde atuou simultaneamente à vice-diretoria da Administração entre 1988 a 1995, só deixando o trabalho com os alunos secundaristas para assumir a direção da faculdade. Até que, em 2010, quando a mantenedora quis atualizar o colégio, ele foi escalado como diretor. “Eu havia criado essa escola”, pontua.

ENTUSIASTA
As qualificações certas para um gestor escolar estavam todas lá. Mas Henrique tinha um ponto mais forte. Sabe aquele sujeito que nasceu para ser professor? Em 5 minutos de conversa, ouvindo como se refere aos “meninos do colégio”, dá para sentir a paixão que ele tem pela profissão que escolheu. “Sabia que seria professor desde os 13 anos, quando ganhei um concurso de perguntas sobre o Egito e comecei a dar aulas sobre o tema para colegas da escola”, lembra. Aos 16, já ensinava adultos no antigo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). Seu pai, o advogado Henrique Vailati Filho, deu aulas por muitos anos nos colégios paulistanos São Bento e Santa Cruz, do qual foi um dos fundadores. “Ele era formado em Direito, mas o que o encantava era mesmo a sala de aula. Sua paixão pelo ensino me contagiou”, comenta.

Cinco décadas depois, contagiante é o seu entusiasmo pelo universo adolescente. É com essa faixa etária, dos 15 aos 20 anos, que Henrique mais gosta de lidar. “Esses meninos são diretos, não têm o cinismo do adulto”, explica.

Não é de hoje que a educação da molecada mais nova faz parte de sua vida. No início dos anos 70, Henrique já dava aulas de História para as turmas do ensino fundamental do Colégio São Bento, onde estudou. Manteve esse trabalho por décadas. Por um longo período começava o dia cedo, ao falar para a garotada sobre temas como a Revolução Francesa. E terminava tarde da noite, provocando debates de Ciência Política entre os formandos do curso de Administração da FAAP.

O educador na sala de casa, onde ficam seus livros preferidos, fotos da família e souvenirs trazidos das suas viagens

Foi no Colégio São Bento que Henrique conheceu sua esposa, Maria Auxiliadora, a primeira mulher contratada para dar aulas na instituição dos monges beneditinos, em 1971. Juntos eles criaram quatro filhos. Dois deles, gêmeos de 39 anos, tornaramse historiador e administrador. A filha do meio, hoje com 37, é publicitária. E o caçula, de 36, veterinário. Também avô de quatro netos, Henrique constata: “O perfil do estudante mudou muito. Hoje eles têm acesso a tudo. É preciso verdade e carinho para encantá-los”. Na entrevista que você lê a seguir, o educador fala sobre a importância de uma formação mais focada em criatividade para essa geração nativa digital.

Há 50 anos na educação, como você vê os jovens hoje?
Há um fenômeno interessante nessa faixa socioeconômica com a qual trabalhamos, a quase inexistência de ambição. Meninos que não pensam em mudar o mundo. São imediatistas: só querem ser felizes, com o mínimo de esforço. Por isso que esses projetos chineses ou coreanos para classe alta, que pressupõem desbravar mercados com a faca no dente, não dão certo. Além disso, percebo uma grande carência afetiva. Sinto uma juventude fechada em cavernas eletrônicas, que só se comunica por mensagens. Eu brinco com eles: “Por que me mandam mensagens? Não gostam do meu perfume? Eu tenho mau hálito?” [risos].

O uso de tecnologia em sala de aula ajuda no diálogo com essa geração?
Os nativos digitais têm encantamento zero por tecnologia. Para eles, não é mais um fetiche. É apenas instrumento. A tecnologia é mais encantadora para nós, velhos, que vemos um menino de 3 anos meter o dedo no iPad e achamos incrível. Nós temos lousas inteligentes [sensíveis ao toque e com navegação na internet] em todas as salas, mas, se o professor não souber dosar o uso, vira um inferno. Não tenho dúvida de que um bom contador de histórias faz qualquer um sair do celular. Mesclar os recursos com o encantamento pela ciência que se ensina é a solução mágica. Não quero saber se o aluno viu tudo de História. Importa é que ele entenda a lógica e goste. Esse é o desafio da educação hoje.

 

Com o pai e também professor, no Colégio São Bento, durante sua formatura no ensino médio, nos anos 60

O que o levou à decisão de trocar a diretoria de uma faculdade pela de um colégio?
Eu criei esse colégio na FAAP. Na época, há 26 anos, eu era vice-diretor do curso de Administração e lá sentíamos a carência de um perfil de aluno que os ditos “bons colégios” não nos mandavam. A saída era formar nosso aluno em um colégio próprio, com um projeto diferenciado. Em 2010, quando a mantenedora quis repaginar o colégio, eu assumi a diretoria feliz. Minha grande paixão é adolescente.
É uma época quando eles amam ou odeiam, sem o cinismo do adulto.

Um bom contador de histórias faz qualquer um sair do celular. Mesclar os recursos com o encantamento pela ciência que se ensina é a solução mágica

Por que os alunos estão chegando à faculdade despreparados?
Aquilo que se chama de “ensino puxado” é pouco criativo em grande parte das escolas. O aluno chega à universidade sem capacidade de inovar e empreender. E o nosso público, de classe média alta e alta, é de sucessores de empresas familiares, mas grande parte não quer suceder o pai. Quer empreender. Para isso tem de ter uma formação mais criativa. Precisávamos preparar esse tipo de aluno. Mas foi uma ousadia: não era comum misturar meninos secundaristas com universitários.

Que vantagens essa mistura rendeu?
Uma coisa fabulosa: o intercâmbio com a graduação. Nosso aluno do colégio vive a cultura da universidade. Trabalhamos em período integral, porque, além dos conteúdos regulares, eles têm disciplinas como Criatividade, Empreendedorismo e Inovação, além de cursos extras dados pelos professores dos cursos da FAAP. Essa integração é muito rica para a orientação vocacional.

 

O diretor Henrique Vailati com os alunos do Colégio FAAP

E como fica a preparação para o vestibular?
Eu fico envergonhado ao ver os manuais de conteúdo dos vestibulares. Não tem como estudar tudo aquilo e as escolas ficam reféns dessa ditadura. As famílias acham que determinado colégio é melhor porque o filho já viu isso ou aquilo. Ter visto não significa ter tomado encanto e aprendido. Aprender envolve sentimento. Os órfãos da Matemática ou da História que a gente encontra nas universidades são casos típicos dessa violência escolar.

Isso tem a ver com a postura do professor?
Muito a ver. Quantos professores a gente conhece que encantam seus alunos? E hoje ainda temos de enfrentar um cancro como o Enem. O professor tem de correr atrás do conteúdo e ainda ser engraçado, como esses professores de cursinho, que é outra doença do ensino. Para mim, ele tem é que ser doce e encantar. Só pelo afeto é que se consegue atrair essa geração, que, além de muito carente, tem uma dificuldade de concentração que os pais não percebem. Quando um pai diz que o filho é multitarefa, capaz de ter 13 links abertos no computador e falar no celular e ver um filme ao mesmo tempo, ele esquece de um detalhe que me assusta: quando esse menino chega à universidade, ele terá dificuldade de concentração.

 

Henrique (ao centro), enquanto diretor do curso de Administração, durante discurso em evento realizado em 2009

Com tantos estímulos, como se ganha a atenção desse adolescente?
O que eu mais falo hoje para os nossos professores é: “Não esqueça que esses meninos têm carência de afeto. Na falta de afeto, você perde a autoridade”. Porque autoridade é uma qualidade que nos é concedida, como uma superioridade que o outro reconhece. O poder da caneta vermelha sempre me assustou. Eu lido com aluno que tem psicólogo, psicopedagogo, psiquiatra, babá, chofer e, lá no fundo da escala, tem pai e mãe. Já pensou que, nessa faixa socioeconômica, todo o pessoal que cuida da criança é terceirizado? Isso muda a noção de autoridade.

Não foi sempre assim?
Antes havia uma hierarquia mais sólida, inclusive com respeito às figuras paternas. A noção de autoridade para essa nova geração é vaga.

Onde estão os pais?
Em um limbo de arrependimento, culpados pelo tempo que não têm para os filhos. Se você não tem tempo para o filho porque precisa trabalhar, e todos precisamos, preste atenção na única coisa que de fato educa: o exemplo. O pior é a pessoa que fala no celular à mesa de jantar, joga lixo na rua, suborna ou é subornável, mas quer que o filho faça diferente. E as novas modalidades de família trouxeram desafios para a escola. Temos de conversar com o namorado da mãe, a nova mulher do pai e, nesse cenário, se não houver bom senso, não se preserva nada de bom para a educação. É com isso que a gente lida diariamente. O mais bonito é ver que, no fim, tudo dá certo. Na formatura sempre choro. Olho um por um, lembro como chegaram e vejo como estão saindo: são conquistas tão palpáveis que por uma delas já valeria ter vivido.

 

O professor, no apartamento em que mora há 12 anos, no Campo Belo, bairro onde cresceu e vive até hoje

Você listou que essa geração sofre de falta de ambição e de concentração, além de carência afetiva. Como consegue educar esse jovem?
Muitos pais nos perguntam como a gente consegue. Eu respondo que, se o medo criou Deus, a esperança criou a educação. Se você não tem esperança nesses meninos, não consegue fazer nada. Apesar de tudo, essa geração tem uma consciência que a minha não tinha: uma atitude cidadã, ecológica e de maior solidariedade. Existem casos de embate porque adolescente é hormônio, mas o nível de revolta é menor.

Qual é a maior reclamação dos adolescentes?
Eles ficam mais chocados é com a incoerência: quem exige deles uma coisa e faz outra. Já vi muitas vezes o menino chegar atrasado e reclamar que ninguém o acorda no horário da escola. A gente pergunta onde estão os pais. Eles respondem: “Em Roland Garros”. Os pais podem viajar, mas não podem parar um minuto e telefonar para o filho para lembrá-lo da hora de levantar ou de tomar o remédio? Ele vai saber que tem alguém que se preocupa com ele, mesmo sem receber um salário para isso. Poucos pais fazem isso. Depois se surpreendem quando resolvem cobrar e o menino reage mal. Na escola, o princípio é o mesmo.

Se o medo criou Deus, a esperança criou a educação. Se você não tem esperança nesses meninos, não consegue fazer nada

 

O educador e sua mulher, Maria Auxiliadora, no final da década de 80. Juntos, eles tiveram quatro filhos

Henrique com seus colegas da FAAP, ao lado de Bill Clinton, durante visita do ex-presidente dos EUA à instituição

O professor (à esq.) com o ex-presidente norte-americano George H. W. Bush, que deu uma aula magna na FAAP em maio de 1993

Mesmo com a sua experiência, você já teve crises sobre a educação dos próprios filhos?
O tempo todo, mas parto sempre da mesma questão: “O que de melhor eu posso dar para um filho?”. A segurança de que vou estar sempre ao lado. E, quando não estiver mais, a referência do que fiz. Por exemplo: minha mãe, Rosa Valletta Vailati, lúcida aos 98 anos, é minha referência de solidez e estoicismo, tendo visto e superado a morte de todos os seus contemporâneos. Ela tem a capacidade de renascer com cada criança
como se fosse ela mesma.

TRÊS FUNDAMENTOS DE UM BOM PROFESSOR

• SENSIBILIDADE

• CORDIALIDADE

• BOM HUMOR

“Todo o resto é acessório. Se um professor não tem paixão pelos alunos, não passa de um showman.
É um egocêntrico que quer aparecer.”

TRÊS ASPECTOS ADOLESCENTES

• ALEGRIA

• SINCERIDADE

• VITALIDADE

“Perto deles, tudo é vida. E, como são muito sensíveis, é só observar o que eles olham, o que ouvem, o que os toca. Você não envelhece dentro de um colégio.”

UM EXEMPLO

“Dom Bernardo Botelho Nunes, monge beneditino que foi meu professor e colega no Colégio São Bento. Era a encarnação da gentileza, para mim a maior qualidade que há. Se uma instituição de ensino não parte do princípio da gentileza, não é educação.”

UM MÉRITO

“A minha grande conquista é ter feito da diretoria um lugar onde não se pune. Escuto o problema e questiono o aluno: o que você acha que eu devo fazer? Ponho o menino em xeque.”

SIGA OS PASSOS
OS FEITOS DO PROFESSOR NAS ÚLTIMAS CINCO DÉCADAS

Formação

1968 a 1971 cursou História na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

1980 a 1985 fez Pedagogia na Uninove.

2003 a 2005 – fez mestrado em Administração na PUC-SP.

Histórico profissional

1971 a 1976 foi professor na Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista.

1972 a 2002 lecionou História no Colégio São Bento, onde também estudou e conheceu a esposa, a alfabetizadora Maria Auxiliadora, primeira mulher contratada para dar aulas na instituição.

1974 a 2010 foi professor das cadeiras de Sociologia e Ciência Política do curso de Administração da FAAP.

1988 percebendo a necessidade de aprimorar a formação dos alunos que chegavam à faculdade, ele propôs e implantou no mesmo campus da universidade o Colégio FAAP de ensino médio.

1988 a 1995 paralelamente ao projeto do colégio, ocupou os cargos de chefe do departamento de Ciências Humanas e de vice-diretor do curso de Administração da FAAP.

1996 a 2010 assumiu a direção do curso de Administração da FAAP. Durante este período, recebeu oito notas A por excelência acadêmica em todas as avaliações do MEC.

2010 a 2015 para ajudar na atualização do colégio FAAP ele foi nomeado diretor, cargo que ocupa até hoje.