Filósofo, escritor e colunista, Luiz Felipe Pondé está há quase 20 anos na FAAP. Nesta entrevista, ele fala de sua formação, da família, de educação em tempos velozes – e do esporte que mais gosta de praticar: a polêmica

Luiz Felipe Pondé se orgulha de contar: desde de 2008, quando estreou sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, nunca houve uma segunda-feira em que os leitores não tivessem um texto seu à mão para ler. E, muitas vezes, para odiar. São célebres suas brigas com leitores furiosos dos mais variados  grupos, de feministas a ecologistas, de ateus a comunistas – gente que ele adora provocar semanalmente, sem trégua.

No clube judaico Hebraica, em São Paulo, aos 27 anos

Pondé é do contra. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo e com passagens por universidades como a Sorbonne, em Paris (onde fez parte do doutorado em História da Filosofia Contemporânea), e a de Tel Aviv, em Israel (para o pós-doutorado em Epistemologia), ele se gaba de não se encaixar em nenhuma corrente específica de pensamento. Muito pelo contrário. “Não acredito que exista uma teoria que dê conta da realidade”, diz ele nesta entrevista, realizada em seu escritório no curso de Comunicação da FAAP, onde trabalha desde 1996.

 

Luiz Felipe Pondé, com sua filha no colo, no Guarujá, litoral sul de São Paulo

Nascido em Recife há 56 anos, criado em Salvador, onde chegou a cursar Medicina até o quinto ano – e desistir ao vislumbrar que a vida seria “muito chata” com aquela profissão –, Pondé mora em São Paulo desde os anos 80 com a mulher, a psicanalista paulistana de origem israelense Danit Falbel Pondé. Os dois são pais do médico oncologista Noam, 32 anos, e de Dafna, 23, estudante de Rádio e Televisão na FAAP. Autor de vários livros, entre eles o Guia politicamente incorreto da filosofia (2012), é apaixonado por Dostoiévski, Freud, Camus, Darwin e Nelson Rodrigues, de quem é uma espécie de herdeiro intelectual. “O Nelson percebeu lá nos anos 60 toda essa baboseira que estava começando a acontecer no mundo. E o mundo está com um nível mental de 10 anos de idade, né?”, dispara ele, rindo, no melhor estilo Pondé.

Dar aula me mantém em contato com essa moçada e me faz perceber melhor como o mundo anda

O verbete Luiz Felipe Pondé na Wikipedia descreve um “filósofo, escritor e ensaísta brasileiro de origem judaica e matriz conservadora”. É uma boa definição?
Sim. Matriz conservadora, em política, sim. Alguém que é liberal em costumes, em moral, e conservador em política – que acredita em propriedade privada intocável, democracia liberal constitucional, liberdade de imprensa. Ser conservador em política é achar que você deve mexer no mínimo possível, para não criar mais problema do que já tem.

Qual sua origem? O que seus pais faziam?
Sou pernambucano, cabra da peste. Meu pai era médico. Foi capitão médico da Aeronáutica, era do grupo do Miguel Arraes, comunista. Chegou a ser preso em 1964 em um hospital psiquiátrico. Eu tinha 5 anos, lembro de uma certa confusão, de um carro pegando a gente no meio da noite, minha mãe nervosa. Depois, botaram ele para fora e ele se mudou para Salvador. Minha mãe foi funcionária do Ministério da Saúde muitos anos. O pai dela era médico sanitarista e ela trabalhava com medicina, mas como funcionária de carreira.

Você fez Medicina também. Era inescapável?
Não, meu pai era um cara democrático, como se fala hoje quando se quer elogiar uma pessoa [risos]. Eu queria fazer Biologia, ser cientista, trabalhar com genética. Aí, em um teste vocacional, uma psicóloga falou: “Ah, que desperdício… olha a sua família”. E eu fui para a Medicina. Fiz até o quinto ano, na Federal da Bahia.

Sou cético com a ideia de que o mundo esteja mudando muito. Existe uma camada que muda, tem aparatos de tecnologia. Mas quando ponho esses meninos falando sobre amor, essas coisas, não vejo diferença

E por que desistiu quase no fim?
Eu gostava do curso, mas quando projetava minha vida no futuro, em plantão, hospital, consultório, achava que a vida ia ser chata. No meio do curso parei e fui morar em um kibutz um ano. Quando voltei, ainda continuei na Medicina. Até que decidi sair, fui fazer teatro, estudei Psicanálise. Aí, mudei para São Paulo e fiz Filosofia na USP.

Sua família seguia as tradições judaicas?
Nada, minha relação com o judaísmo foi antes de tudo uma relação com Israel. Um interesse pela formação do Estado, todo aquele conflito. E a vontade de ter essa experiência do kibutz, uma vida experimental. Conheci minha mulher lá. Voltamos juntos e fomos morar em Salvador, por quatro anos. Depois, São Paulo.

Foi um bom aluno ao longo da vida?
A vida inteira eu era o aluno que prestava atenção e não tinha que estudar muito. Na Filosofia, não: fui cdf, estudava. Era claro para mim que eu estava em formação, queria me apropriar daquele repertório. E o curso foi maravilhoso.

E você planejava ser professor?
Na história da minha vida, nunca pensei muito no que iria acontecer depois. Faço o que eu gosto, depois vejo o que acontece. No terceiro ano de Medicina comecei a dar aulas de inglês, porque meu filho nasceu, tinha que ganhar a vida. Gostei. Com a Filosofia, também queria dar aula. Mas eu lia muito o Paulo Francis na Folha – isso era final dos anos 80 – e pensava: quero escrever na Folha. Eu tinha tesão por pensar as coisas e para mim era claro que não poderia ser só na academia. Fui construindo a ideia de que eu deveria ter uma coluna, fazer o trabalho do intelectual público.

Sua primeira coluna na Folha, qual foi?
“Quem tem medo do macaco.” Sobre Darwinismo, uma paixão que eu tenho. Meu filho, que é médico – não escapou da maldição –, diz que eu continuo pensando como médico. Porque nas ciências humanas as pessoas acham que o mundo cabe nas ideias que elas têm, mas eu continuo pensando de forma muito concreta, muito antimetafísica. Não acredito que exista uma teoria que dê conta da realidade. Você tem que juntar umas 150 ideias, é uma coisa que vai aos poucos. Não acredito que a gente entenda o que se passa no mundo de fato.

Seu tom nas colunas é pessimista, provocador. Você criou um personagem ali?
Quando você trabalha na mídia, vira um personagem, quer queira ou não. Mas não é um falso self, como se diria em psicanálise. Não vai contra o que eu sou. De 2008 até hoje não teve nenhuma segunda-feira em que eu não tivesse publicado essa coluna. Porque adoro, me divirto, falo o que eu penso. Quando o Otávio [Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo] fez a proposta, ele disse: “Pondé, eu quero você na Folha para quebrar o coro dos contentes”. E essa é a função de um colunista.

 

Provocação: trabalhando em sua biblioteca, com camisa da União Soviética

Essas polêmicas vão parar em sala de aula?
Algumas sim. Hoje em dia sei muito bem que, quando entro na sala, estamos entrando eu e o personagem da mídia. Os meninos já me conhecem, isso tem um impacto. Estar na mídia tem uma força. Tem pessoas que pedem para tirar foto comigo e eu sou capaz de apostar que elas não têm noção do que eu falo.

E como é a vida de professor?
Dou aula de Filosofia, de Comunicação e Religião e de Comportamento Contemporâneo, para disciplinas que estão no miolo da graduação, terceiro e quarto anos da faculdade. Alunos de 19, 20 anos. Eu adoro. Dar aula me mantém em contato com essa moçada e me faz perceber melhor como o mundo anda.

 

Pondé durante o bar mitzvah de seu filho Noam, em 1996, na França

Com a mulher, Danit, em 2006

Nesses seus quase 20 anos de FAAP, esse aluno mudou muito?
Não tanto. Sou muito cético com a ideia de que o mundo esteja mudando muito – olha a matriz conservadora. Existe uma camada que muda, tem aparatos de tecnologia, velocidade da informação, acesso. Mas quando ponho esses meninos falando sobre namoro, amor, essas coisas, não vejo diferença. Continuo discutindo Shakespeare e Santo Agostinho com eles, continuo discutindo questões clássicas, e continua tendo resultado.

Fala-se muito que esta é uma geração sem compromisso, que não quer fazer uma mesma coisa por muito tempo. Isso aparece?
Sim, é uma geração com expectativa de feedbacks rápidos. No trabalho, se o chefe não dá retorno logo, eles ficam irritados. A geração y teve melhor medicina, aprendeu inglês, comeu melhor e tem pais que acham lindo tudo o que eles fazem. Então, há uma expectativa de retorno e reconhecimento rápido. Mas com o aluno de Comunicação da FAAP é fácil de lidar. É educado, não trata mal professor. Não acontece isso do “tô pagando”, aluno sendo grosseiro.

“Na história da minha vida, nunca pensei muito no que iria acontecer depois. Faço o que eu gosto, depois vejo o que acontece”

Você tem dois filhos. É um pai democrático, como foi o seu?
Eu gostei muito de ser pai. Sempre fui presente, envolvido, tanto quanto a mãe. Dar remédio, trocar roupa, levar para escola, ir à reunião de pais e mestres. Quando vejo agora esse debate sobre homens participando, envolvidos, acho tão antigo. Todo pai que quis se envolver com o filho se envolveu. Aí vêm esses manifestos, pelo direito de pai ficar com filho, pelo direito de homem ter medo… acho muito engraçado. O mundo hoje é muito ridículo.