Numa sociedade que idolatra o sucesso, fracassar é o maior pecado que qualquer indivíduo pode cometer. Essa verdade da vida moderna tem sido amplamente questionada por muitos empreendedores: cada derrota é um degrau a ser superado no caminho para a vitória

“Nunca tentado. Nunca falhado. Não importa. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor.” É no mínimo curioso que essa frase de Samuel Beckett tenha se tornado uma espécie de mantra motivacional para toda sorte de profissionais que querem aprender a enfrentar seus fracassos. A frase do texto intitulado “Pra frente o pior” já foi usada em contextos muito opostos: foi citada por Richard Branson, bilionário empresário britânico fundador do grupo Virgin, e também está tatuada no corpo do tenista suíço Stan Wawrinka.

A ironia é que a literatura de Beckett estava longe de ser motivadora – um fracasso de interpretação. “Só quem conhece Beckett sabe o quanto é ridículo citá-lo como autor de autoajuda”, explica o escritor e professor Ronaldo Bressane. “Ele é o cara mais niilista, pessimista do século 20. Aspirava ao fracasso. Não tem nada a ver com ‘tente outra vez’ ou algo assim. É algo como: ‘esmurre a parede até sangrar porque isso é o máximo que você vai conseguir’. Estamos condenados ao fracasso, esta é nossa condição, portanto, tudo o que podemos fazer é falhar melhor.”

A gente não faz as coisas pra errar, mas o erro ajuda a entender qual o caminho certo. Essa tentativa e erro está dentro de uma metodologia em que você vai cercando as variáveis e as eliminando. Chega uma hora em que sobra a solução possível. Fábio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas

Falhar melhor, falhar rápido, falhar sempre, falhar mais. Pensamentos como esse formam a ideologia que emana da maneira de fazer negócios em constante ebulição no Vale do Silício, na Califórnia. É uma cultura que busca encarar as derrotas e os fracassos como experiências de aprendizado. Esse modelo já recebeu críticas ferozes de colunistas e empreendedores em veículos como a revista Forbes e o site Business Insider, mas já tem seus seguidores no Brasil. “Eu optei por adotar uma postura mais positiva em relação aos fracassos”, conta Fábio Seixas, empresário e analista de sistemas. Sócio-fundador do Camiseteria, ele sofreu revezes em três empresas antes de conseguir emplacar o modelo de negócio de seu site. “É tudo uma questão de construção de conhecimento e experiência”, explica Fábio. “Quando você erra, acaba sendo um aprendizado mais profundo porque você sofre com aquilo. Comecei a tentar mostrar para o meio de empreendedores que frequento que a gente não tem que ter medo do fracasso.”


O fracasso pode não ser exatamente uma bossa nova, mas há quem defenda que é, de fato, muito natural. Em seu livro Adapte-se: Por que todo sucesso começa com um fracasso, o economista britânico Tim Harford faz, entre muitos outros estudos de caso, uma comparação da teoria da evolução de Darwin com o contexto econômico do capitalismo. Segundo ele, assim como no processo de evolução das espécies, o mercado avança por tentativa e erro: algumas empresas ficam no caminho e outras prosperam (umas com mais sucesso e outras menos), como os seres vivos na natureza. Tim acredita que uma abordagem de tentativa e erro organizada metodologicamente é um caminho recomendável. “Uma ideia poderosa é montar um novo projeto como um experimento desde o início: estabeleça uma condição de controle, randomização e todas as possibilidades que gostaria de testar. Assim, você compreende desde o início que algumas abordagens não irão funcionar e pode se planejar para aprender com isso”, explica o economista. “Estudos clínicos randomizados são muito comuns na medicina, mas estão cada vez mais populares na economia. Mas, mesmo que você não use um estudo randomizado formal, pode se beneficiar do conceito: trate qualquer novo projeto como uma experiência de aprendizado e pense sobre o que irá aprender com os sucessos e fracassos ao longo do processo.”

A modernidade vai ser, talvez, a era mais marcada pelo fracasso porque, quando você escolhe sucesso como critério, evidente que o fracasso virá junto com ele. Ninguém pode ter tanto sucesso o tempo todo em relação a tudo. Luiz Felipe Pondé, Vice-Diretor da FACOM

É essa a abordagem que a disciplina do Design aplica para a resolução de problemas. Pelo menos, deveria ser assim, segundo Fábio Righetto, designer e diretor do curso de Artes Plásticas da FAAP. “No design, o fracasso é muito bem-visto”, explica. “A gente não faz as coisas pra errar, mas o erro ajuda a entender qual o caminho certo. Essa tentativa e erro está dentro de uma metodologia em que você vai cercando as variáveis e as eliminando. Chega uma hora em que sobra a solução possível. Se você, de repente, encontra uma solução muito fácil, provavelmente ela é muito óbvia e várias pessoas teriam a mesma ideia. O que contradiz a expectativa de inovação do mercado.” Historicamente, o método é amplamente praticado para descobertas científicas: Santos Dumont testou o 14-bis uma dezena de vezes até voar de forma satisfatória com o aparelho e passar para o protótipo 15; Thomas Edison tentou inúmeras vezes (historiadores não chegam a um consenso se foram centenas, milhares ou dezenas de milhares, porque o próprio Edison usava o exemplo como recurso de propaganda) encontrar o material certo para o filamento de sua lâmpada incandescente; o projeto Apollo só conseguiu fazer o homem pousar na lua no seu quinto voo tripulado. O fracasso é parte intrínseca do método científico, no entanto, ele tem um peso completamente diferente sobre o indivíduo na sociedade moderna.

FALHA NA DIREÇÃO

Em fevereiro deste ano, um vídeo protagonizado pelo CEO do Uber, Travis Kalanick, foi divulgado pela agência de notícias Bloomberg. Na filmagem, após uma corrida num carro da categoria Black, a mais luxuosa, o motorista parceiro da startup começou uma discussão com o empresário: ele acusava Travis de ser responsável pela sua falência financeira. Segundo o motorista, Fawzi Kamel, ele havia perdido US$ 97 mil por causa do Uber. Kamel argumentava que o aumento de exigências de qualidade do automóvel, aumento da comissão cobrada, redução do preço da corrida e crescimento do número de motoristas disponíveis havia tornado impossível o seu sucesso. A reação de Travis foi explosiva: xingou o motorista e disse que este não se responsabilizava pela própria situação. O episódio foi absolutamente constrangedor para a empresa que, posteriormente, publicou uma carta de retratação do seu CEO. Esta situação é um bom caso para pensar na relação do fracasso e do sucesso do indivíduo com o contexto em que está inserido. “Claro que a estrutura de mercado produz experiência de fracasso para muita gente, como produz experiência de sucesso, mas a gente não conhece nenhum outro método de produção de mercadoria que tenha deixado tanta gente feliz, sabe?”, argumenta Luiz Felipe Pondé, doutor em Filosofia e vice-diretor do curso de Comunicação e Marketing da FAAP. “O problema na sociedade de mercado é que produz isso tudo, mas o mundo ficou materialmente mais rico. É claro que tem que se discutir a pobreza no sentido de diminuí-la, mas o mundo sempre foi mais pobre do que é hoje. Não acho que recai apenas no indivíduo, mas acho que recai no indivíduo porque no fundo as pessoas sabem, em alguma medida, que estão entregues a elas mesmas. Os esforços políticos, psicológicos e psicossociais que culpam as instituições e o mercado pelo sofrimento são enormes, mas não há dúvida de que os indivíduos é que amargam a derrota, porque sistemas não amargam derrotas.”

“Ninguém é autor da própria vida.  Nossas vidas são recheadas de acasos, boa e má sorte. Esquecemos disso o tempo todo e, quando as coisas dão errado, pensamos que é culpa do indivíduo” Christopher Hamilton, da King’s College de Londres

Economicamente falando, se a sociedade de mercado é o sistema mais próspero que a humanidade concebeu até hoje, o indivíduo fica à mercê das condições mais ou menos adversas que encontra. Christopher Hamilton, doutor em filosofia e vice-diretor desse departamento na King’s College de Londres, avalia a posição do indivíduo por essa linha de pensamento. “Nós supomos que estamos no controle do nosso destino e falhamos em reconhecer que o que somos é, em grande parte, uma construção do mundo ao nosso redor – o mundo material e das outras pessoas”, explica Hamilton. “A filósofa Hannah Arendt afirma que ninguém é autor da própria vida. No meu ponto de vista, isso é verdade. Ninguém escolhe nascer, nem onde nascer, quem serão seus pais, em que contexto social crescer… Nossas vidas são recheadas de contingências, acasos, boa e má sorte. Esquecemos disso o tempo todo e, quando as coisas dão errado, pensamos que é culpa do indivíduo.”

O SEGREDO DO MEU SUCESSO

Esse mesmo pensamento se aplica também quando as coisas dão certo. Responsabilizar unicamente o indivíduo pelo próprio sucesso torna ainda pior o fracasso do outro. “A modernidade é pautada pela busca de sucesso em todos os níveis: profissional, afetivo, político, físico, saúde”, avalia Pondé. “Então, a modernidade vai ser, talvez, a era mais marcada pelo fracasso porque, quando você escolhe sucesso como critério, evidente que o fracasso virá junto com ele. Ninguém pode ter tanto sucesso o tempo todo em relação a tudo. O que mais caracteriza a modernidade em relação ao fracasso é o fato de que a modernidade é uma cultura do sucesso.”

“Trate qualquer novo projeto como uma experiência de aprendizado e pense sobre o que irá aprender com os sucessos e fracassos” Tim Harford, economista britânico, autor do livro Adapte-se Porque Todo Sucesso Começa Com Um Fracasso

O jornalista inglês, radicado no Canadá, Malcolm Gladwell explorou as razões do sucesso em seu best-seller Fora de série – Outliers: descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não. Malcolm traz diversos estudos de: jogadores de hóquei canadenses, bilionários da tecnologia, advogados judeus de Nova York, pilotos de avião coreanos e até os Beatles. O objetivo é compreender todas as condições que permitiram o sucesso ou o fracasso dessas pessoas. Em seu livro, ele diz: “Tudo o que aprendemos nesse livro nos diz que o sucesso segue uma rota previsível. Os bem-sucedidos não são os mais brilhantes. (…) Também vimos que o êxito não se resume à soma das decisões e dos esforços individuais. Trata-se de uma dádiva. Os vitoriosos são aqueles que receberam oportunidades – e que tiveram força e presença de espírito para agarrá-las”.

Diante desse cenário, como os alunos podem se preparar para um mundo em que o fracasso é inevitável e o sucesso uma construção conjunta do indivíduo e seu contexto social? “No Brasil, acho que o nosso jovem já tem essa visão”, conta Righetto. “Ele não tem vergonha de quebrar, tem vergonha de não tentar.” De acordo com dados da pesquisa GEM de 2015 e 2016, que monitora o empreendedorismo no mundo, o Brasil tem nota de avaliação pelo Banco Mundial de 58 pontos (em uma pontuação máxima de 100) para fazer negócios e uma nota de 64 pontos para começar novos negócios. A pesquisa ainda pergunta para os empreendedores quais os principais obstáculos para um negócio prosperar no país: 49,1% apontam a dificuldade de acesso a recursos financeiros, outros 54,4% também indicam que a legislação e os impostos são barreiras para o desenvolvimento.

Righetto explica o papel que a faculdade pode desempenhar para ajudar o estudante a encontrar o seu próprio caminho e encarar de forma madura seus sucessos e fracassos: “A gente tenta ajustar a expectativa do aluno para eles não acharem que o mercado está de braços abertos”, afirma. “Mas, ao mesmo tempo, mostramos que essa formação profissional está no colo deles. Eles têm que ter cursos, conexões profissionais que ninguém tem. Isso vai individualizar o perfil deles. Quando ele sabe quem é como profissional, sabe em que porta bater ou o que fazer para conseguir seu lugar no mercado.” Entender o tipo de profissional que o graduando quer ser, de acordo com suas possibilidades e interesses, é uma ferramenta importante num mundo competitivo. Ainda assim, mesmo com todo o esforço possível, o fracasso ainda é uma inevitabilidade. O maior sucesso é saber administrar o seu fracasso.