Podemos agora usar tudo o que quisermos, sem possuirmos (quase) nada. Esse é o mantra da economia colaborativa, nova tendência que surgiu na internet, onde a propriedade das coisas cede lugar para o compartilhamento de tudo

As empresas lucram quando compramos mais, a economia gira quando gastamos mais, somos mais quando consumimos mais. Essa lógica aliada ao esgotamento dos recursos naturais vai, pouco a pouco, levando o planeta a um estado de estresse e escassez. Nesse cenário, não bastam novos produtos e serviços mais justos e sustentáveis. Se apenas trocarmos nossos carros movidos a gasolina por carros elétricos, por exemplo, continuaremos agindo da mesma maneira: com excesso. A chave para a mudança de comportamento passa pela internet, em especial pelos aplicativos, que são os grandes catalisadores de um movimento que vem modificando completamente o campo social, ao permitir que as pessoas mantenham o mesmo estilo de vida, sem precisar adquirir mais. Chamado de economia colaborativa ou compartilhada, esse conceito coloca em perspectiva novos padrões de consumo e talvez a esperança de nos redimir de séculos de ostentação, desperdício e destruição. “A economia compartilhada permite que as pessoas deem mais valor à experiência do que à posse e sejam mais sustentáveis, pois utiliza recursos de forma mais inteligente”, diz Leonardo Tristão, diretor-geral no Brasil do Airbnb, empresa que conecta pessoas que desejam alugar seu imóveis a curto prazo – hoje ela é uma das startups mais bem-sucedidas do Vale do Silício, com valor de mercado estimado em US$ 25,5 bilhões.

Não estamos necessariamente interessados em comprar um bem, mas, sim, nos benefícios que ele traz – Rachel Botsman, professora da Universidade de Oxford e autora de O que é meu é seu

No coração dessa nova economia estão empresas e projetos que surgiram a partir de variações do compartilhamento pessoa para pessoa (peer-to-peer), que se popularizou com o Napster, no longínquo ano de 1999. Atualmente, não só músicas podem ser compartilhadas, mas carros, alimentos, serviços, motos, moradia, informação, tecnologia, entre outros bens e conhecimentos.

O que há poucos anos era recebido com reações do tipo “quem é doido de fazer isso?” é encarado cada vez mais com naturalidade. “A primeira motivação que leva as pessoas a procurar os diversos tipos de consumo colaborativo vem de como ganhar ou economizar dinheiro. Mas é a vontade de querer fazer parte e razões de sustentabilidade que as mantêm envolvidas no longo prazo”, diz a australiana Lauren Anderson, diretora de inovação da Collab Consumption (Collcons), organização de consultoria sobre o tema. “Pelo consumo colaborativo, pode- se experimentar uma forma de melhorar a eficiência da sociedade, bem como a criação de mais capital social. É quando começamos a perceber o valor intrínseco das coisas ao nosso redor, e o fato de que o consumo em si não nos faz tão felizes.”

Para essa nova geração que não liga a felicidade ao dinheiro, a posse é um fardo.

A economia do compartilhamento é diferente de capitalismo, ela oferece os serviços mais focados na criatividade, o que muda o consumo – Jeremy Rifkin, autor do livro Sociedade com Custo Marginal Zero

Quanto mais se tem, mais complicada é a vida. “É algo mais relevante que a própria moeda. Mostra que não estamos necessariamente interessados em comprar um bem, mas, sim, nos benefícios que ele traz”, diz a britânica Rachel Botsman, professora da Universidade de Oxford (em 2015, ela criou o primeiro curso de MBA sobre o tema) e autora de O que é meu é seu: A ascensão do consumo colaborativo. “É a substituição da posse pelo uso. Não é preciso mais adquirir, dá para fazer tudo utilizando o que o outro já possui e que fica ocioso a maior parte do tempo”, diz o professor e mestre em Criatividade e Inovação Luiz Alberto de Souza Aranha Machado, economista e vice-diretor do curso de Economia da FAAP. “E a grande sacada é que em vários negócios da economia compartilhada você elimina dois fatores de custo que são repassados para os preços: a estrutura formal de uma empresa e os intermediários. É uma tendência que veio para ficar”, completa.

OUTRO CAPITALISMO

A economia compartilhada tem se provado um movimento abrangente e revolucionário. Investimentos diretos, aquisições, parcerias e até mudança em seu modelo de negócio são algumas formas que grandes empresas têm encontrado para ir ao encontro, e não na contramão, do fenômeno. A Toyota, por exemplo, passou a alugar carros de concessionárias e o Itaú, a patrocinar um programa de compartilhamento de bicicletas. Já a gigante DHL, empresa de logística, viu seu faturamento cair e, para se reerguer, lançou o aplicativo My Ways, que otimiza a chegada de produtos ao destinatário com a participação de pessoas comuns, previamente cadastradas no site, que se interessam por fazer a entrega do produto na casa do cliente que não pode ir ao posto do DHL para retirá-lo. Mas questões como segurança, efeitos sob a economia e sob nosso modo de vida ainda precisam ser melhor compreendidos para dimensionar o fenômeno do compartilhamento.

Em uma das obras mais lidas sobre o tema – Sociedade com custo marginal zero –, o americano Jeremy Rifkin coloca que o capitalismo será ultrapassado pela economia compartilhada até 2050. Ele também faz outras previsões: os lucros das empresas irão diminuir consideravelmente, os direitos de propriedade ficarão cada vez mais enfraquecidos e a economia baseada na escassez dará lugar à economia em abundância. De acordo com o autor, caminhamos para uma sociedade pós-consumo, na qual a propriedade das coisas deixará de interessar. “A economia do compartilhamento tenta pegar algo que já existe, sem colocar mais recursos e reaproveitar. É uma forma diferente de capitalismo, oferece os serviços mais focados na criatividade, o que muda o consumo”, diz ele.

Veridiana Scarpelli

Para fazer essa transição de modelo econômico, social e político, precisamos diversificar e pensar em outras formas de empreendimento. “Por séculos, a economia se organizou em torno dos recursos materiais, como petróleo e ouro, que são finitos. Isso cria uma economia da escassez, baseada em modelos de competição”, diz Lala Deheinzelin, especialista internacional em economia criativa e sustentabilidade. “Porém, os recursos como cultura e experiências são infinitos e renováveis, e podem apresentar uma economia da abundância, baseada em modelos de cooperação. A economia compartilhada é muito útil para qualquer empreendimento e fundamental para a gestão pública porque cabe principalmente ao estado utilizar da melhor maneira seus recursos”, complementa a especialista.

CONECTIVIDADE COLETIVA

Nesse cenário no qual a posse é obsoleta, a tendência é que serão vendidos menos carros, bicicletas e apartamentos, por exemplo. “No modo tradicional, nós produzimos, vendemos e eventualmente nos desfazemos de algo. Nesse novo formato, aquela primeira e única transação dá lugar a muitas outras”, afirma a empreendedora americana Lisa Gansky, autora do livro Mesh – Por que o futuro dos negócios é compartilhar. “As pessoas experimentam esses serviços porque são mais baratos que os tradicionais, mas continuam porque gostam da variedade de escolhas e de se conectar com pessoas.”

É a substituição da posse pelo uso. Não é preciso mais adquirir, dá para fazer tudo utilizando o que o outro já possui e que fica ocioso a maior parte do tempo – Luiz Alberto de Souza Aranha Machado, vice-diretor do curso de Economia da FAAP

A economia do compartilhamento está mudando não só o modo como entendemos oferta e demanda e a nossa relação com os bens materiais, mas também nossas relações pessoais. É como se a tecnologia, que em algum momento nos afastou, agora estivesse nos colocando de volta para um movimento em que nos comportamos como uma vila, porém com laços que acontecem em escala global. A reputação volta a ter uma importância outrora esquecida, os nossos valores mudam e conhecer pessoas no meio desse caminho torna a experiência ainda melhor.

Esse “olho no olho” é o motor desse modelo de transação, o ponto-chave que tornou o conceito de economia colaborativa uma megatendência. A reputação nas redes eleva-se a um novo parâmetro – quanto melhor for a sua, maiores as chances de você fechar negócio. Sua avaliação como cliente será medida pela quantidade de compartilhamentos, comentários e estrelas nos sites e aplicativos. “Quanto melhor for o comportamento de prestadores de serviços e usuários, maior será a chance de essa pessoa ou empresa ser escolhida para realizar uma determinada transação. Funciona como uma espécie de cartão de crédito de confiança e só tende a crescer”, diz o professor Machado. Sob constante avaliação, não é à toa que motoristas agora se vistam melhor e mimem os passageiros, e proprietários mandem mensagens para saber se os hóspedes aprovaram as acomodações.

NEGÓCIO BILIONÁRIO

Algumas pesquisas já tentaram mapear o potencial dessa economia e a expectativa é que os ganhos sejam cada vez maiores. Segundo dados da PWC, uma das maiores prestadoras de serviços profissionais do mundo nas áreas de auditoria e consultoria, a projeção de movimentação global da tendência em 2025 é de US$ 335 bilhões. Já um estudo da consultoria Nielsen mostrou que 70% das pessoas na América Latina estariam dispostas a participar de serviços de compartilhamento, contra 52% na América do Norte. De acordo com a Forbes, a estimativa é que a economia colaborativa gere uma receita anual de US$ 3,5 bilhões para os usuários, valor que deve crescer 25% ao ano. “É possível perceber o movimento mundial da economia compartilhada pelo Airbnb, com dados do Brasil. Aqui, o serviço iniciou operação no início de 2012, quando já registrava mais de 3.500 anúncios na plataforma. Atualmente, temos mais de 50 mil anúncios em todo o país, espalhados em 22 estados e mais de 670 cidades (são mais de 2 milhões de anúncios no mundo todo)”, diz o diretor-geral da empresa no Brasil.

De acordo com a Market Analysis, empresa independente que realiza estudos de mercado e opinião pública desde 1997, um a cada cinco brasileiros já ouviu falar de consumo colaborativo ou compartilhado. Esse percentual aumenta na proporção da renda e da escolaridade e chega a 42% na classe A. Um mapeamento inédito feito pelo Movimento Cidade Colaborativa, o primeiro portal brasileiro dedicado exclusivamente à economia colaborativa, identificou cem projetos de compartilhamento disponíveis na cidade de São Paulo. As ações foram reunidas no Guia São Paulo cidade colaborativa 2015 e organizadas em dez categorias: cultura, mobilidade, consumo, serviços, trabalho e coworking, educação, meio ambiente, alimentação, moradia e ONGs e poder público. Um cruzamento feito entre cada um desses projetos e seus seguidores no Facebook revela que, juntos, eles já são alvo de quase 15 milhões de curtidas.

Veridiana Scarpelli

Mas não só de consumo vive a economia compartilhada. Há diversos serviços na internet e comunidades em redes sociais nas quais troca é palavra bem mais curtida do que compra. O gênero, que conta com uma grande variedade de exemplos internacionais, já tem no Brasil nomes bem populares. O Tem Açúcar?, com pouco mais de 30 mil usuários, talvez seja o maior deles. Criada em junho de 2014, a rede tenta promover a interação entre pessoas do mesmo bairro. “Vivi na Tijuca [bairro do Rio de Janeiro] em um prédio em que as pessoas se ajudavam muito a fazer comida, a cuidar do filho do outro… Eu cresci vendo essa colaboração, mas isso se perdeu”, diz Camila Carvalho, fundadora do site. “Hoje, o Tem Açúcar? ajuda a quebrar o gelo nos bairros. É muito mais eficiente saber o que alguém do seu bairro precisa pela internet do que batendo na porta das pessoas. A rede facilita isso, mas o processo se conclui no cara a cara.”

FUTURO CERTO

O conceito de economia compartilhada não é unanimidade e tem suas controvérsias. A concorrência desleal com as empresas tradicionais, obrigadas a pagar impostos, deu ao novo modelo caracterizações como a “oficialização do bico”, colocado como uma evolução da precarização do trabalho. Taxistas e indústria hoteleira, que tiveram mais prejuízos, são também os que tecem as críticas mais duras.

O professor de Sociologia da Comunicação da FAAP, José Corrêa, diz que há muita literatura contrária e que não há garantias de que toda essa transformação será positiva para a sociedade. Segundo ele, as movimentações verificadas até agora fazem parte do capitalismo, porque continuam tendo por objetivo o lucro. Corrobora com ele o jornalista britânico, editor de economia do Channel 4 da BBC e colunista do jornal The Guardian, Paul Mason, autor de Pós-capitalismo, no qual reflete sobre o fim do capitalismo como o conhecemos. “Eu não vejo Airbnb e Uber como empresas pós-capitalistas. São plataformas monopolistas em busca de lucro. Elas poderiam facilmente ser replicadas como verdadeiros negócios colaborativos, que não visam o lucro, mas você pode apostar que elas estão fazendo o possível para evitar que isso venha a acontecer. Penso que um dia as veremos como o AltaVista (extinta ferramenta de busca) da internet, ou o equivalente a todos esses jardins murados de conteúdo que a AOL/Time Warner tentou construir”, diz ele. Outro ponto importante sobre os serviços ofertados é a regulamentação, visto que eles não seguem normas de segurança, leis de defesa do consumidor e direitos trabalhistas.

Ainda é cedo para saber os reais efeitos que esse tipo de transação pessoa a pessoa provocará na economia mundial, na arrecadação de impostos e outros reflexos. O certo é que o movimento cresce em proporções geométricas. “Governos precisam reconhecer e se preparar para essa nova forma de trabalho que não é nem full-time nem meio período, mas uma nova forma de vida. A internet existe e tudo o que puder se transformar em uma plataforma se transformará”, diz Robin Chase, cofundador da Zipcar, empresa de aluguel de automóveis. “Governos locais e federais precisam oferecer benefícios às pessoas – e não a empregos –, garantindo que o trabalho seja protegido durante essa rápida e disruptiva mudança.”

Veridiana Scarpelli