Muitos se lembram de Bruna Lombardi como atriz, modelo, apresentadora, poeta, roteirista... Mas uma faceta que poucos conhecem da ex-aluna de comunicação da FAAP é seu caráter empreendedor. "Experimentar uma coisa nova é o melhor dos aprendizados"

Quando era aluna do colégio Dante Alighieri e começava a demonstrar talento para as letras, Bruna Lombardi ajudava suas colegas a escrever redações e ganhava em troca um lanche, um refrigerante, um chocolate. Na conversa com a Revista FAAP, em sua bela e espaçosa casa no Morumbi, ela puxa essa memória da infância para mostrar como desde cedo seu lado criativo caminhou junto a seu lado prático: “Sempre fui uma pessoa com os pés no chão e a cabeça nas nuvens”. O grande público conhece Bruna Lombardi como a atriz de sucesso em novelas como Louco amor e Roda de fogo e minisséries como Grande Sertão: Veredas e Memórias de um gigolô. Muita gente se lembra também da Bruna apresentadora, entrevistando celebridades internacionais no programa Gente de expressão, na antiga TV Manchete. E há quem aprecie a Bruna poeta, de livros como No ritmo desta festa, Gaia e O perigo do dragão (que serão relançados este ano pela editora Sextante).

Mas pouca gente conhece a Bruna empreendedora, faceta que a ocupa muito e que divulga pouco. Um exemplo: nos quatro filmes que concebeu através de sua produtora independente Pulsar – incluindo Amor em Sampa, que foi lançado neste ano, com orçamento de R$ 8,5 milhões –, ela não apenas foi uma das protagonistas como também escreveu o roteiro, bateu na porta das empresas para levantar o financiamento, ajudou a coordenar a produção e a cuidar do lançamento.

Ela conjuga o lado artístico com o executivo, e um alimenta o outro. Isso dá a ela uma visão completa do processo, o que é muito raro de encontrar em um profissional – Lylian Brandão, sócia da Rede Felicidade

Modelo, atriz, apresentadora, poeta, escritora, roteirista, produtora… Bruna acaba de acrescentar mais uma atividade a essa extensa lista: conselheira. Tudo começou com alguns pensamentos sobre a busca da felicidade que ela colocou em sua página pessoal no Facebook. Ali ela conta que seu objetivo é “ajudar, encorajar, empoderar, estimular e motivar as pessoas a buscarem autoconhecimento, conexão, força e inspiração para alcançar seus sonhos e desejos”.

Os posts bombaram: em pouco tempo, ela atraiu 2 milhões de seguidores e uma média de 100 mil comentários por semana. “Algumas pessoas escreviam: ‘Essa página está me ajudando a viver, eu estava deprimida e agora me sinto melhor, estou conseguindo sair de casa finalmente’. Era esse tipo de retorno. Eu percebi que havia uma responsabilidade grande no que eu estava fazendo, porque estava lidando com certas fragilidades. Eu tinha que fazer um trabalho consistente e delicado.”

Marcos Vilas Boas

Como no caso das redações da infância, o lado pessoal de Bruna logo se amalgamou ao profissional. E a artista decidiu falar de seu tema preferido no livro O jogo da felicidade – lançado no fim do ano passado, com filas de virar o quarteirão na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – em palestras que dá em empresas como Google e Natura, em média uma vez ao mês, e no portal Rede Felicidade, que ela pretende lançar nos próximos meses e que criou com o objetivo de interagir com seus seguidores, respondendo a questões em vídeo, fazendo entrevistas, amplificando suas mensagens.

INTUIÇÃO E DISCIPLINA

A busca pela felicidade, Bruna diz, sempre foi um norte em sua vida. O que ela fez agora foi tornar pública uma antiga companhia particular. “Eu passei a vida estudando isso em vários campos: física quântica, neurociência, cabala, mitologia, arquétipos. O que estou fazendo é destilar esse conhecimento buscando a síntese, a essência. Chegar à simplicidade é a coisa mais complexa do mundo”, afirma. “Eu sei que felicidade se tornou uma palavra desgastada, usada em anúncios assépticos de um produto qualquer. Mas você não vai encontrá-la consumindo ou tentando ignorar um momento triste. A felicidade que eu busco e propago é um olhar pleno, que inclui o ponto melancólico, é o destino final de qualquer estrada. Quando você começa um curso, um trabalho, um relacionamento ou uma viagem, você entra naquilo com o desejo de ser mais feliz.”

Como empreendedora, a minha primeira pergunta é: como vai ser a qualidade? E a última é: quanto vou ganhar? Não estou sendo ingênua. eu sempre ganhei bem apostando que o universo sabe reconhecer um bom trabalho – Bruna Lombardi

Ela credita o sucesso no Facebook à transparência e autenticidade com que construiu sua vida pública. “A credibilidade não está no que você diz, mas no que você faz a longo prazo.” Em outras palavras: quando Bruna fala sobre felicidade, as pessoas ouvem porque ela desafiou a passagem do tempo e chegou aos 63 anos com a beleza e o brilho intactos. Porque ela construiu uma família sólida e admirada com o marido Carlos Alberto Riccelli (com quem “está ficando” há 38 anos) e o filho Kim, que se tornaram seus principais parceiros artísticos; porque ela fez escolhas profissionais corajosas, longe da zona de conforto; porque podia ostentar tudo isso, mas prefere levar uma vida reservada. “Meu negócio não é aparecer, é fazer um bom trabalho”, afirma. “Como empreendedora, a minha primeira pergunta é: como vai ser a qualidade? E a última é: quanto vou ganhar? Não estou sendo ingênua. Eu sempre ganhei bem apostando que o universo sabe reconhecer um bom trabalho”, diz.

Bruna apresenta a natureza a Kim, com 3 anos, nos bastidores da novela Louco amor, em 1983 (Arquivo Pessoal)

Bruna conta que nos últimos meses tem trabalhado sete dias por semana, dividindo-se entre sua casa e um escritório a poucos metros de distância. O tamanho da equipe que coordena varia de acordo com a fase e o escopo do projeto. “Em um filme, por exemplo, o trabalho começa com três, que viram 30, que viram 300, que indiretamente viram 3 mil.” Ela elenca algumas de suas características como empreendedora: “Sou ‘control freak’ de qualidade, quero levar os projetos até o limite da excelência e gosto de coordenar o processo de ponta a ponta. Eu crio, capto, administro e torno o projeto viável. Sou a artista e, ao mesmo tempo, a porta-voz da artista.”

As pessoas que trabalham de perto com Bruna enaltecem suas qualidades como empreendedora. “Ela exige que cada um dê o melhor de si, mas sempre de forma bem-humorada. Bruna é também muito inovadora, sempre imagina formas novas de conceber e concretizar um projeto. E acho que isso, de estar à frente de seu tempo, ajuda a explicar a jovialidade dela”, afirma Lyliam Brandão, sócia da Rede Felicidade. “Eu era do marketing de uma empresa e só a conhecia como atriz. Mas um dia a Bruna foi lá apresentar um projeto e fiquei muito impressionada. Ela consegue conjugar o lado artístico com o executivo, e um alimenta o outro. Isso dá a ela uma visão completa do processo, o que é muito raro de encontrar em um profissional.”

Ela é transparente, corajosa, inovadora, amorosa, visionária, bem-humorada, organizada, inteligente. Busca excelência em tudo e estimula e espera o mesmo de todos que a cercam – Carlos Alberto Riccelli, diretor e marido de Bruna

Sócia da produtora audiovisual Coração da Selva – que tem no currículo filmes como Praia do Futuro (2014) e Antônia (2006) e co-produziu três longas–metragens com a Pulsar, de Bruna –, Geórgia Costa Araújo diz que a palavra que melhor define a parceira é “inspiradora”. “Ela inspira as pessoas no trabalho, no amor, na arte.” Para Geórgia, os filmes de Bruna não saem do papel por conta da fama da atriz, mas porque ela sempre apresenta projetos “com conceitos fortes, claros e com alto padrão de qualidade, que são rapidamente compreendidos pelos possíveis investidores e possuem narrativas de forte identificação com o público”. A produtora destaca mais uma qualidade: “Bruna é muito intuitiva. No final da nossa primeira reunião, ela me disse: ‘Vamos fazer uma parceria para o resto da vida’. Mas ela consegue aliar essa intuição com muito rigor, disciplina e capacidade gerencial.”

CERTO PELO INCERTO

Nascida em São Paulo com o imponente nome de Bruna Patricia Maria Teresa Romilda Lombardi – filha do fotógrafo e cineasta italiano Ugo Lombardi, que em seu país de origem trabalhou no clássico Paisà (1946), de Roberto Rosselini, e aqui ajudou a criar a companhia cinematográfica Vera Cruz, e da atriz Yvonne Sandner –, conta que foi uma criança que gostava de ler e escrever, “muito ligada à introspecção”. Mas quis o destino que ela se tornasse famosa, fosse exposta ao público, “o que nunca foi meu desejo primordial”. Aos 15 anos, quando estudava no Dante Alighieri, foi descoberta por um olheiro, tornou-se modelo e cedo ganhou independência.

A poeta dá entrevista sobre o livro O perigo do dragão, em 1984 (Arquivo Pessoal)

Na hora de escolher uma faculdade, decidiu cursar Comunicação na FAAP para ficar perto do universo das letras que ela amava. Ela diz também que foi atraída pelo ambiente da FAAP. “Chegar lá e dar de cara com aqueles vitrais era uma experiência estética prazerosa”, lembra. “Até hoje acho bonito, continuo frequentando a faculdade para ir ao teatro, ver as exposições.”

Como empreendedora, ela tem o pacote completo – iniciativa, planejamento, visão de longo prazo, determinação metódica… as ideias nascem com ela, são calculadas e geridas com muita atenção – Kim, diretor e filho de Bruna

Rubens Fernandes Junior, diretor da FACOM, foi calouro de Bruna como aluno de Comunicação e se recorda de que ela já tinha aura de musa na faculdade. “Bruna era conhecida como modelo e garota-propaganda. O Abrão Berman, que era professor de Cinema, soube se aproveitar dessa faceta e a escalou para ser atriz nos filmes experimentais em super-8 que ele fazia. Eu me lembro perfeitamente da Bruna passeando pelo jardim de esculturas do prédio 1 diante da câmera do Abrão.”

Ao se formar em Jornalismo e Propaganda, o lado artístico de Bruna já havia se sobreposto ao de comunicadora: em 1976, lançou No ritmo da festa, seu livro de estreia, com prefácio de Chico Buarque; no ano seguinte, participou de sua primeira novela, Sem lenço, sem documento, de Mário Prata, na Globo; em 1978, conheceu Riccelli nas gravações da novela Aritana, na extinta TV Tupi, e três anos depois nasceu Kim.

Em férias no Egito com Carlos Alberto Riccelli (Arquivo Pessoal)

Quando estava estabelecida como uma das estrelas de maior grandeza da TV brasileira, ela surpreendeu o público ao se afastar das novelas e se mudar com a família para Los Angeles. Ali Bruna voltou a estudar, fazendo cursos na University of California, mesma faculdade onde Kim se formou em Cinema. “Tem gente que acha que ser atriz de sucesso da Globo é mais que suficiente. Mas não a Bruna. Ela nunca se contentou em ser apenas uma mulher bonita. Foi para a meca do cinema para mergulhar fundo e aprender a fazer. Ela arriscou tudo e ganhou. A Bruna mostra que ninguém precisa ser só uma coisa”, afirma a consagrada artista plástica Denise Milan, amiga da atriz há quase três décadas. Das suas muitas experiências como aluna – Dante, FAAP, UCLA –, ela tirou algumas conclusões. A primeira: que o melhor modelo de educação é aquele que sabe valorizar o talento específico de cada aluno, em vez de tentar encaixá-lo em um padrão. Outra: que os problemas do Brasil – incluindo a atual crise política e econômica – nascem da deliberada decisão da elite de não educar o país, para melhor dominá-lo. Por fim: que as escolas e faculdades precisam ensinar o prazer de ler e a beleza de arriscar.

Foi por conta desse último item que ela deixou de lado uma carreira consagrada como atriz na televisão e abraçou o desafio de empreender os próprios projetos. “Troquei o certo pelo incerto, a estabilidade pela aventura. A TV eu já sabia fazer, queria algo que não soubesse. Experimentar uma coisa inédita é o melhor dos aprendizados. Foi uma escolha baseada no coração, não no medo, uma aposta na felicidade.” Palavra de especialista.

NOS TEMPOS DE JORNALISTA

Na comparação com suas outras atividades, o jornalismo ocupou relativamente pouco tempo da carreira de Bruna Lombardi. Mas os nove anos em que esteve à frente do programa Gente de expressão e expressão foram marcantes. Entre 1991 e 1999, primeiro na extinta TV Manchete e depois na Bandeirantes, ela se notabilizou por conseguir entrevistas com grandes estrelas internacionais, como Keith Richards, Dustin Hoffman, Mariah Carey, Robert Plant, Jean-Claude Van Damme, B.B. King e Mel Brooks. Também conversou com brasileiros famosos e anônimos e realizou matérias de comportamento e de turismo. Foi no Gente de expressão ente de expressão, ela diz, que pôde colocar em prática as lições que aprendeu no curso de Comunicação da FAAP. “Fui uma jornalista muito menos interessada no furo de reportagem do que no processo da pessoa. O ser humano é o que me fascina”, afirma. Em uma de suas entrevistas mais famosas e mais tensas, ela foi paquerada, de forma inconveniente, pelo cantor americano Jon Bon Jovi, que disse: “Eu gastaria muito dinheiro para deixar uma garota como você feliz”.

Demonstrando personalidade forte, Bruna respondeu na lata: “Você está brincando? Dinheiro não me faz feliz. Não preciso de dinheiro de homem algum. Eu tenho a minha carreira”.

EM FAMÍLIA

Parte essencial da felicidade, diz Bruna, é cercar-se das pessoas que você ama – algo que ela tem conseguido realizar não apenas na vida pessoal, como também no trabalho. Seu marido, Carlos Alberto Riccelli, e seu filho, Kim, estão entre seus principais parceiros artísticos. No filme Amor em Sampa, por exemplo, ela é roteirista e produtora, eles são diretores, e os três atuam. Abaixo, Riccelli e Kim falam sobre a parceria familiar/profissional.

Celebrando a gravidez de Kim com Riccelli (Arquivo Pessoal)

Quais são as principais características da Bruna como empreendedora?
RICCELLI_
Ela é espontânea, transparente, corajosa, inovadora, amorosa, visionária, generosa, bem-humorada, organizada, inteligente. Busca excelência em tudo e estimula e espera o mesmo de todos que a cercam.

KIM_ Iniciativa, planejamento, visão de longo prazo, determinação metódica. Como empreendedora, ela tem o pacote completo. As ideias nascem com ela, são calculadas e geridas com muita atenção e são executadas até o final. Como as relações pessoais com Bruna afetam a parceria profissional?

RICCELLI_ Existe total cumplicidade e entendimento do que cada um quer, muita discussão, e no fim todos se entendem.
KIM_ Em geral, elas ajudam, pois temos uma sintonia muito forte, uma capacidade quase mediúnica [risos] de captar as ideias um do outro.

Como a Bruna parceira de trabalho se diferencia da Bruna figura pública?
RICCELLI_
Nada. Porque ela é autêntica e transparente sempre. O que ela é em casa ela é em público. Talvez ainda maior e mais impressionante.

KIM_ Acho que a Bruna parceira é um pouco mais brincalhona do que a figura pública. A busca pelo bom humor é o que mais guia o nosso trabalho, a opção de encarar as coisas com leveza.

3 X FELICIDADE

Três projetos recentes de Bruna levam a palavra felicidade na essência – e também no nome

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?_ No filme de 2011, dirigido por Riccelli, Bruna vive uma apresentadora de programa culinário que descobre uma traição de seu marido e decide percorrer o Caminho de Santiago de Compostela em uma viagem de autoconhecimento.

JOGO DA FELICIDADE_ Bruna define o livro de 2015 como um “oráculo moderno”, que pode ser aberto em qualquer capítulo para consultas sobre como transpor os obstáculos no caminho dos nossos sonhos e desejos.

REDE FELICIDADE_ No portal de internet  e em um canal no YouTube, que têm previsão de ir ao ar nos próximos meses, Bruna vai gravar entrevistas, responder questões de seus seguidores em vídeo e divulgar pensamentos sobre temas
como espiritualidade, bem-estar, amor, trabalho e arte.