Talento da nova geração de ensaístas, o premiado arquiteto Francesco Perrotta-Bosch revela, sob o seu olhar, os detalhes da exposição realizada no MAB sobre o notável Auguste Perret, que projetou o primeiro edifício da FAAP – e que custou a ser valorizado

Pequeno não é. Pelo contrário, é monumental. Mas por trás da vegetação densa na esquina da rua Alagoas com a rua Armando Alvares Penteado, a cidade pouco reconhece sua presença e beleza. Já para alunos e professores da FAAP, ele é o edifício do dia a dia, onde ocorrem aulas dos cursos de Artes Plásticas e Comunicação e Marketing, com o teatro no piso inferior, e o Museu de Arte Brasileira ocupando o andar principal e o saguão. Por sua vez, muitos arquitetos paulistanos não valorizam como devem o fato de serem vizinhos de um edifício projetado por Auguste Perret (1874-1954), um dos grandes arquitetos modernos do século 20.

Perret nasceu na Bélgica, sendo filho de pai francês, um construtor exilado político. Foi na Escola de Belas-Artes em Paris que se mostrou um brilhante aluno de arquitetura muito laureado. Porém, curiosamente, nunca se formou: as biografias sobre Perret levam a deduzir que o motivo para isso estava no desejo de construir não estando atrelado aos cânones da Beaux-Arts. Não por acaso, pouquíssimo tempo após a saída da faculdade, Perret projeta o edifício da rua Franklin 25 (1903-1904), em Paris, um prédio habitacional precursor no uso do concreto armado, visto que foi erigido numa época em que o material só era aceito por engenheiros em grandes infraestruturas, como pontes e viadutos.

Com seus irmãos Gustave e Claude, funda a Frères Perret, uma empresa de projetos de arquitetura e construção. Passa a receber a encomenda de importantes edifícios privados e governamentais, como o Théâtre des Champs Elysées (1913), a Igreja de Notre-Dame du Raincy (1922-1923), o Palais d’Iéna (1937), e a grande reconstrução entre 1945 e 1964 da cidade de Le Havre após a Segunda Guerra Mundial. Estes projetos e grande parte de sua obra construída está na França. Não são tantos os outros países que têm um projeto de Perret como o Brasil.

Retrato do arquiteto Perret

Criador e criatura

A documentação desta história perretiana no hemisfério sul foi apresentada entre os dias 18 de abril a 27 de maio de 2018 no MAB com a exposição Abrindo arquivos: o arquiteto Auguste Perret e o projeto para o museu da FAAP, com a curadoria dos professores Maria Cristina Wolff de Carvalho e Francisco Barros. Composta de uma primeira parte que introduzia a obra e a bibliografia acerca de Auguste Perret – pouco conhecida até por arquitetos pesquisadores brasileiros –, a mostra tinha o privilégio de ocupar o mezanino interior do próprio edifício – o objeto principal de análise. Isto é, estabelecia-se uma relação direta entre a documentação original e a vivência do edifício em si.

Na exposição, foram exibidas dezenas de desenhos do desenvolvimento do projeto, recentemente encontrados no campus da FAAP e catalogados na Biblioteca da Diretoria da FAAP, composta de livros e documentos que pertenciam a Armando Alvares Penteado e sua esposa, Annie Alvares Penteado. Como a curadora Maria Cristina atesta: “As ‘obras de arte’ que estamos expondo incluem os desenhos originais”. E completa: “São plantas, cortes e fachadas desenhadas à mão em folhas de mais de um metro de largura e sete décadas de existência. Todas agora restauradas”.

Com publicações de todo o mundo, a vasta bibliografia sobre Perret

Igualmente fundamentais são as cartas que remontam à narrativa da encomenda feita pelo casal Penteado, a interlocução com Auguste Perret e seus arquitetos colaboradores, como o francês Paul Tournon e, em especial, o polonês Antoni Dygat, autor dos primeiros desenhos “para o museu da FAAP”. Como a responsável pelo acervo, Laura Suzana Rodríguez, esclarece: “Na troca de correspondências, há menções diretas de que a primeira versão desenhada por Dygat é proveniente de um desenho do Conde Penteado”. Este esboço nunca foi encontrado, porém as descrições levam a crer que ele tinha expressado uma ideia muito clara de edifício para abrigar a Escola de Artes e o museu e também o local exato onde seria implantado – em suma, foi o ponto de partida da conversa entre os participantes do projeto. Atualmente tais cartas e o memorial descritivo de Perret para o projeto em Higienópolis estão sob a posse da Cité de l’Architecture et du Patrimoine, instituição do governo francês de conservação dos seus arquivos arquitetônicos.

Alguns outros notáveis documentos foram apresentados, como a edição de 1929 do livro Le Musée Moderne, escrito por Auguste Perret e por ele enviado à dona Annie Penteado. Havia também um fac-símile da edição especial que a revista L’Architecture d’Aujourd’hui fez sobre a obra de Perret em 1932. E muitas fotografias dos anos de construção do edifício.

Sobre a repercussão da exposição, a diretora do MAB, Fernanda Celidônio, constatou: “Dentro da FAAP gerou muita curiosidade entre estudantes, professores e funcionários para saber mais da história do edifício em que estudam ou trabalham”. Ela prossegue: “Apresentar outras obras do Perret acaba sendo muito revelador do próprio prédio, contextualizando sua concepção”.

As ideias apresentadas no livro Le Musée Moderne (1929) fundamentam os projetos que Perret fez de museus, inclusive o MAB

Ponto de partida

Não foram poucos os historiadores brasileiros que se referiam a Perret somente pelos anos de 1908 e 1909, período em que Le Corbusier, o mais influente arquiteto moderno, trabalhou em seu escritório e ganhou a expertise do uso do concreto armado, que veio a ser também a matéria mais utilizada e determinante em sua obra.

Mas, diferentemente do purista e abstracionista Corbusier, Auguste Perret mantém elementos clássicos: da monumentalidade dos templos da Grécia Antiga provêm as colunas (porém com um desenho particular para as extremidades superiores, denominadas capitéis), e a simetria da planta e da grandiosa fachada que se organiza em três partes – embasamento, corpo principal e coroamento. Perret incomoda, pois há em sua obra uma conciliação do classicismo – apropriado de maneira depurada – com o emprego de técnicas modernas de construção – o concreto armado. Perret não se encaixa numa estética hegemônica do modernismo, em especial, na compreensão de modernismo pelo viés da arquitetura brasileira.

Uma curiosidade da presença de Perret em São Paulo está no fato de que ele foi precursor no uso do concreto armado na França, mas quando ele projeta no Brasil, na virada dos anos 40 e 50, o material já era comum por aqui, visto em projetos como o Ministério da Saúde e Educação, no Rio, e no conjunto da Pampulha de Oscar Niemeyer, em Belo Horizonte. Há muito ainda a se estudar sobre Perret no Brasil. Esta exposição foi o ponto de partida. Como a própria curadora Maria Cristina Wolff de Carvalho ressaltou: “Estamos começando a desvendar os mistérios da história que trouxe Perret à São Paulo.”

*Francesco Perrotta-Bosch é mestre em Arquitetura, ensaísta e arquiteto. Com “A arquitetura dos intervalos”, foi o vencedor do Prêmio de ensaísmo Serrote, promovido pelo Instituto Moreira Sales, em 2013. Escreveu a dissertação de mestrado “Informes”, na FAU-USP. Atualmente, é curador da Coleção Fabio Penteado. Coordenou a equipe de pesquisa e montagem da Coleção Arquitetura Brasileira da Casa da Arquitectura, em Matosinhos (Portugal), e foi curador assistente do pavilhão brasileiro da Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2016