Fábio Righetto queria ser músico, mas seu caminho se orquestrou em outra direção. Ex-aluno da FAAP, ele estudou design, trabalhou, pesquisou, tudo ao mesmo tempo e numa fervorosa dedicação. Tornou-se professor, empresário e agora está à frente do curso de artes plásticas. “A vida é como a música: uma composição”

Em meados da década de 80, com menos de 20 anos, o paulistano Fábio Righetto se reunia com um grupo de amigos, todos aspirantes a músicos, por pelo menos seis horas diárias. Tocavam um estilo chamado fusion, que mistura jazz com outros gêneros musicais, e partilhavam o sonho de estudar música nos Estados Unidos. “No Brasil, a única opção na época era o curso de música clássica na Unicamp, que não era o estilo que nos interessava”, conta Fábio, hoje com 46 anos.

Mas, antes de tentar a sorte em outro país, ele acabou escolhendo cursar Design de Produto na FAAP, por sugestão de um amigo que lá estudava Engenharia. “Não tinha muita ideia do que era ser um designer, mas achei que tinha a ver comigo quando entendi que  era quem pensava na estética dos objetos. Desde o colégio, adorava as aulas de desenho.” No primeiro ano da faculdade, no entanto, pensou em desistir – ainda que gostasse das aulas, tinha a sensação de que estava postergando o sonho de se tornar músico. E foi uma reviravolta na condição financeira de sua família que o deixou ainda mais distante do exterior. Fábio se viu então obrigado a ajudar nas despesas e, em pouco tempo, conseguiu vagas em empresas renomadas, como a Caloi, a Astra e a Hidroplás, até abrir, em 1996, aos 26 anos, seu próprio negócio.

Em sentido horário, da esq. para dir.: Laura, Fábio Righetto, as filhas e os enteados Lucca, Júlia, Manuela, Clara, Luísa, Nina e Carolina

Voando de planador em Tatuí, em 2015

Na Domus Design, especializada em desenho de produtos, chegou a desenvolver projetos para mais de 150 clientes, e diz estar sempre em busca do “simples que é genial”. Em 2004, por exemplo, quando foi convidado para participar do Un.fold Global Design Challenge, evento que desafiou nove profissionais de diferentes partes do mundo a desenvolver projetos inovadores, Fábio pensou em um banco, confeccionado com papel e cola, que pudesse suportar o peso de uma pessoa de até 90 quilos.

Em busca de aprofundamento teórico, passou a lecionar em 1997 na FAAP e depois se tornou mestre em Design Social pela Universidade Estadual Paulista. Além de professor, Fábio assumiu na Fundação a função de coordenador do curso de Design de Produto entre 2006 e 2011 e, desde agosto de 2015, está à frente da diretoria do curso de Artes Plásticas.

Ainda distante da música – ele não toca mais e chegou até mesmo a vender a guitarra e o violão –, Fábio diz não sentir arrependi- mento algum pela carreira perdida. É a antiga paixão que o ajuda a enxergar as conexões no dia a dia atual. Pensar em todos os departamentos, escolher os professores que irá contratar, analisar o perfil do aluno, administrar uma faculdade, segundo ele, “tudo é música”.

Durante viagem de moto com sua mulher, Laura, em 2015

Como você chegou ao Design?
Foi uma grande ironia. Queria fazer música nos Estados Unidos e achava que minha família iria bancar esse sonho. Enquanto não acontecia, comecei a estudar Design na FAAP, em 1998. Pensei em desistir, mas meu pai pediu para insistir e foi quando houve uma reviravolta na vida profissional dele. Abandonei a música e comecei a trabalhar incansavelmente para me destacar na área.

Montando protótipo de um projeto ao lado do modelador José Maria Burin (à esq.), na empresa Hidroplás

De que maneira?
Durante a faculdade, fiz vários cursos paralelos: de desenho, ilustração, modelagem. Foi o que chamou a atenção no meu teste de estágio na Caloi, em 1990. Eles gostaram tanto do meu currículo que me contrataram como efetivo. Aprendi muito lá, mas fiquei pouco porque o departamento fechou. Então fui atrás de um curso sobre plástico – nos anos de 90, todo mundo dizia que o futuro era o plástico. De novo, por ser o único com esse curso no teste, acabei conseguindo uma vaga na Astra, empresa especializada em processos de transformação do plástico. Depois que me formei, em 1991, procurei um curso de design de veículos, pois desenhar carros era considerado uma das coisas mais difíceis de fazer. Os profissionais que ministravam as aulas passavam os trabalhos e eu refazia sem que me pedissem até atingir a nota máxima. Em pouco tempo, eles começaram a me chamar para trabalhar e, em 1993, acabei sendo contratado  na Hidroplás, em Botucatu, uma empresa que era meu sonho. Fazia peças para carros, helicópteros, iates.

Quero tanto professores exigentes como carinhosos, técnicos e eruditos, com muita experiência, com pouca. Acho que o aluno deve passar por todo tipo de professor, pois é essa heterogeneidade que dá resistência ao organismo

Algum projeto marcou você em especial?
Fiz na Hidroplás um projeto para um furgão que chamava Anjos do Asfalto, com médicos que atendiam acidentes na via Dutra. Resolvi acompanhar pessoalmente para entender como era o atendimento e percebi que várias coisas não funcionavam direito. Por exemplo, embora dissessem que utilizavam a maçaneta para abrir a porta, o encardido na lataria indicava que eles apoiavam a mão em outro local. Isso mostrava que a maçaneta não estava na posição adequada. Vi naquele episódio que não apenas a estética importava, mas principalmente a usabilidade.

Você gostava de ir a campo para investigar, antes de criar?
Achava essencial fazer isso. O procedimento padrão era, na verdade, entrevistar os engenheiros, usuários etc., para ter material e  informação para desenvolver o projeto. Mas, antes de mais nada, eu achava que devia ver a coisa acontecendo, o que fazia toda a diferença na hora de desenvolver minhas ideias. Num projeto de 1994, desenhei uma caixa de cobrador para ônibus. Andando neles, pude perceber que vários cofres estavam estourados por conta de assaltos. Então comecei a pensar em como fazer uma caixa mais segura e resolvi desenhar bocas, como as de um cofrinho, para evitar que o cobrador precisasse abri-la a todo momento. Essa visão mais ampla foi moldando minha forma de enxergar a profissão e abri minha empresa, a Domus Design, baseada nesse conceito.

 

Você imaginava que iria se tornar professor?
Sentia falta de fundamentação no tipo de trabalho que fazia. Me perguntava muito por que as pessoas falavam uma coisa e faziam outra, por que os consumidores gostavam de uma linha e rejeitavam outra. Achei que uma formação acadêmica mais consolidada fosse me ajudar nisso. Então comecei a procurar cursos de pós-graduação. Um antigo professor da FAAP me sugeriu juntar duas coisas: dar aulas e fazer a pós ao mesmo tempo. Assim, em 1996, com 26 anos, comecei a lecionar, paralelamente à minha especialização. Dava aulas à noite, trabalhava durante o dia e estudava aos sábados.

E como foi sua estreia na FAAP como professor?
A convite de Suzana Padovano, que era coordenadora do curso de Design na época, comecei em 1997, dando aulas de ilustração. No começo, lecionava à noite, porque era o horário que não atrapalhava a minha empresa, mas a vida acadêmica acabou se tornando maior que a profissional. Os alunos me faziam perguntas que não sabia responder e percebi que dar aulas era uma renovação constante. Então, para me dedicar mais à carreira acadêmica, acabei transformando todos os funcionários da minha empresa em sócios. Assim a Domus passou a ser uma cooperativa, o que me dá mais flexibilidade para estar na FAAP. Atualmente, mesmo com as funções da diretoria, continuo dando aulas quartas e quintas pela manhã de Iniciação ao Projeto em Design no curso de Moda. Não quero perder esse contato nunca.

Percebi que, na diretoria, o que conta é a visão estratégica e foi isso que me interessou: o desafio de buscar novos caminhos em uma estrutura já consolidada

Assumir a diretoria do curso de Artes Plásticas foi uma surpresa?
Quando recebi o convite, achei que não tinha a ver. Já tinha sido coordenador do curso de Design de Produto e achei a experiência suficiente, pois exigia uma atividade bastante burocrática. Mas logo percebi que, na diretoria, o que conta é a visão estratégica e foi isso que me interessou: o desafio de buscar novos caminhos em uma estrutura já consolidada. A FAAP é notória naquilo que faz, há uma forte  tradição. Agora como você transforma um legado desse tamanho em algo novo dentro de um mercado em modificação? Ninguém tem a resposta, mas aqui há oportunidade para repensar a educação, porque a cultura é a base da faculdade. Que instituição possui um museu dentro do seu espaço? Qual possui uma tradição tão longa no ensino das artes?

Como diretor, que medidas adotou para repensar o futuro dos cursos?
Perguntei a cada um dos coordenadores do curso de Artes Plásticas [que engloba os cursos de Artes Visuais, Design de Produto, Design Gráfico, Moda e Arquitetura e Urbanismo] como viam a sua profissão no futuro. Paralelamente a
essa pesquisa, fizemos uma análise de mercado e montei uma estratégia. Começamos a lançar, há um ano e meio, cursos livres e de extensão, como o de Gestão de Tendências, ministrado por Rodrigo dos Reis, e Tendências de Cor na Arquitetura e no Design de Interiores, com Fernanda Moceri. É uma forma de verificar a aderência do mercado e chamar profissionais reconhecidos em suas áreas para alimentar a nossa visão. É um trabalho que não termina nunca, pois é preciso avaliar constantemente o que deu certo e o que deu errado para pensar nos próximos passos.

Righetto sentado no banco projetado por ele, a convite do Global Design Challenge

Acha que sua formação de músico o ajudou na carreira?
O fusion, tipo de música que eu estudava, trabalha naquilo que é imprevisível. Alguém começa a tocar algo que nenhum outro conhece e todos acompanham. Você passa a ouvir o que cada um está fazendo e percebe padrões que começam a acontecer. Isso me ajuda na vida profissional, sim, pois vejo que tudo está conectado. Para mim, tudo é música.

Em qual sentido?
Você tem a nota e os acordes são uma composição de notas. Além disso, há notas dominantes, secundárias. E, quando começa a estudar,  percebe que nada é simples. Para administrar a faculdade, como na música, é necessário entender o todo para discutir o pontual. O corpo docente molda a relação do grupo com os alunos e essa relação molda, por sua vez, o perfil do aluno que vai para o mercado. Você pode montar um curso excelente, mas o aluno pode sair despreparado para o mercado porque não aguenta a pressão. Se queremos que ele aguente, então precisamos exigir. Por isso quero tanto professores exigentes como carinhosos, técnicos e eruditos, com muita experiência, com pouca. Acho que o aluno deve passar por todo tipo de professor, pois é essa heterogeneidade que dá resistência ao organismo.

Que tipo de professor é você?
Os alunos dizem que reprovo rindo. Tenho uma aula tranquila, batemos papo, damos risada, mas o trabalho precisa estar pronto na data marcada. Tem uma frase que digo que eles sempre repetem: não importa se o pato é macho, eu quero ovo. Em um dos exercícios que passo, cada aluno recebe cinco ovos crus mais um pedaço de papel e precisam criar uma embalagem individual para cada um deles e que os proteja de uma queda de 1 metro de altura. Se todos quebrarem, a nota zera, e os alunos morrem de medo, entram em pânico. Mas quando conseguem fazer, se sentem realizados. Não dá para querer uma vida fácil, o designer trabalha com desafios.

Os alunos dizem que eu reprovo rindo. Tenho uma aula tranquila, batemos papo, damos risada, mas o trabalho precisa estar pronto na data marcada. Tem uma frase que digo que eles sempre repetem: não importa se o pato é macho, eu quero ovo. Não dá para querer uma vida fácil, o designer trabalha com desafios

Pelo que conta, parece que você se apaixonou pelo design, ainda que não tenha sido sua primeira escolha. É isso mesmo?
Acho que tomei decisões com base naquilo que entendi como a melhor opção não só pra mim, mas para minha família também. Se tivesse feito música, talvez gostasse, mas não teria tido oportunidade de influenciar tanta gente. Sempre adorei ver os produtos que desenhava na casa de quem visitava. Comecei a entender que você pode mudar a vida das  pessoas, melhorar o seu dia a dia. Foi uma paixão que acabei criando. E agora, na faculdade, também vejo como uma decisão estratégica influencia tudo. Se montarmos uma composição de professores mais diversa, o aluno terá maior capacidade de lidar com a diversidade, por exemplo. É muito gratificante.

Há algum lugar ao qual ainda almeja chegar?
Aqui na FAAP, quero ver o trabalho estratégico que estou desenvolvendo agora acontecer de verdade, que dê frutos. Que a FAAP vá se adaptando ao movimento do mercado, que está em constante modificação. Não adianta ficar apenas no sonho e no projeto, as ideias têm que nascer no mundo. Na minha empresa, quero que os funcionários que assumiram como sócios cresçam como profissionais e comecem a contratar novos para ensinar o que aprenderam. Meu sonho é ver tudo funcionando, para que eu possa, quem sabe, coordenar à distância.

Como você imagina sua vida no futuro?
Tem um designer alemão, Dieter Rams, que me inspira muito. Tudo que a Apple lança é baseado no trabalho dele. Ele é um designer low profile, mora numa casa bacana, faz bonsai, e quando aparece um projeto legal, se ele estiver a fim e vir como um desafio interessante, pega. É um cara que teve uma trajetória profissional e possui uma visão de vida pessoal de que gosto muito. Adoraria chegar no fim da minha vida e pensar que o que fiz deu frutos, teve continuidade, e que posso sair dessa coisa frenética que é o dia a dia em São Paulo. Quero morar na praia um dia, quem sabe Arraial D’Ajuda, na Bahia. A minha ideia e a da minha esposa, Laura Ferreira [também professora da FAAP, de História da Arte], é comprar um terreno bem grande, construir a nossa casa e outras casinhas para os nossos filhos quando forem nos visitar. O que quero é uma vida simples.