Guga Stocco pautou sua carreira no desenvolvimento de negócios digitais. Obecado em achar soluções criativas, fundou a GR1D, plataforma que conecta empresas de ponta com inovações tecnológicas

Se tinha uma coisa que deixava o garoto Guga Stocco preocupado era o que fazer na ocasião de se deparar com um extraterrestre mal-intencionado, desses que chegam para ocupar a Terra e exterminar a raça humana sem piedade. No vestiário da piscina do sítio da família em Igaratá (SP), ele montou um laboratório, com kit de química, tubos de ensaio, espingarda de chumbo,setas, área de munição,diversos planos em papel timbrado da Patrulha Ultra – grupo de uns 40 molequesde um condomínio na rua João Ramalho, em Perdizes, São Paulo.

Guga achava que um mero chumbinho não seria capaz de deter a fúria de um ET. Precisava de veneno para lambuzar os chumbinhos e, aí sim, fazer páreo aos forasteiros de outras galáxias. Lembrou das horríveis aranhas pretas que às vezes desfilavam no gramado do sítio, vestiu uma calça camuflada, facão, luva. Foi à caça. Capturou umas dez aranhas, pôs em uma lata de Nescau e levou ao laboratório. Jogou os bichos no liquidificador, deixou bater com outros ingredientes e, pronto, tinha o veneno fatal para passar nos chumbinhos e dormir tranquilo.

De ascendência italiana por parte de pai, e árabe com português por parte de mãe (ambos de Catanduva, no interior de São Paulo), Guga (ou Guilherme, antes de colar o apelido dado pela avó) tem 45 anos e mais de 20 de experiência na criação de negócios digitais. É CEO da GR1D, uma plataforma de inovação que conecta empresas de diferentes setores e prevê demandas de consumo e comportamentos de sistemas financeiros. “Sempre fui sonhador. Nasci assim. Criava muita história. Curioso, sempre em busca de soluções surpreendentes. A Patrulha Ultra na infância era isso: os menores se juntavam para fazer frente aos mais velhos; inventávamos manual de sobrevivência na selva; armadilhas; tínhamos uma valise com planos mirabolantes”, lembra. “Sou assim até hoje. Me transformei em especialista em inovação por que sempre estou de olho no novo, e me interesso por uma gama bastante variada de assuntos. Leio de tudo.”

Com os vizinhos e o irmão no sítio da família, em Igaratá, no interior de São Paulo

A multidisciplinariedade vem da época que fez Administração na FAAP , na década de 90,e MBA em Gestão do Luxo (2005-2007). “A faculdade sempre incentivou oempreendedorismo.Levavam nossas ideias a sério, acompanhavam tudo de perto; o relacionamento também sempre foi muito importante na FAAP. Ficava amigo dos professores, havia um ambiente excelente para a realização de projetos.” O professor e diretor da área de Administração e Economia Sílvio Passarelli reforça que a lembrança de Guga não é por acaso. “O curso de Administração é eclético por natureza.Pelo fato de ser generalista, oferece uma gama de possibilidades ao egresso. No caso do Guga, no entanto, as coisas se somaram. Além da característica do curso, Guga é um dos profissionais mais criativos que conheci. Daria certo em qualquer profissão”, diz o diretor.E completa: “Conheci Guga no MBA em Gestão do Luxo, jáformado, empreendendo, com aquele brilho no olhar que só as pessoas especiais possuem. A FAAP é uma instituição pluralista que possui grandea feição pelo futuro, principalmente nos seus cursos da área de negócios. Ao conclamar os alunos a estudar o futuro, abrimos uma estrada de interesse pela inovação e pelo empreendedorismo”.

O diretor do Colégio FAAP , Henrique Vailati Neto, na época na direção do curso de Administração e professor, explica que esses conceitos estão nos alicerces da FAAP. “Implantamos a construção de um projeto pedagógico que contemplava a formação de empreendedores no qual a criatividade era um dos fundamentos da arquitetura curricular. Essa orientação nasceu de uma análise estratégicado mercado, e do perfil do nosso aluna ,definido por periódicas pesquisas.” Como bem frisou o professor Sílvio, Guga poderia ter seguido diversos caminhos: esse amplo leque de possibilidades mexeu com o rapaz na hora de escolher qual faculdade iria cursar. “Entrei em conflito. No início, queria ser cientista. Mas meu pai não achava isso
profissão… Até que assisti Wall Street: Poder e cobiça [Oliver Stone, 1987]. Aí, mudei de ideia de novo: queria ir pra a Bolsa de Valores”, lembra. Foi o que bastou para virar a chave. “Comecei a frequentar o pregão, consegui todas as apostilas de engenharia financeira e levei para estudar em casa. Sou bom em marketing pelo espírito criativo, estudei finanças,fui autoditada em computação, mas escolhi administração para não fechar as portas.”

“ISSO AÍ FUNCIONA, HEIN?”

Guga começou atrabalhar ainda adolescente,na loja de tecidos do pai, no centro de São Paulo. O tino administrativo do jovem colegial [do Colégio Rio Branco] ganha espaço para aparecer – e fazer a diferença com inovação. “Meu pai queria que eu trabalhasse. Ia para a escolade manhã; àtarde fazia caratê; e depois ia pra loja dele. Fiz trabalho de office boy, até que me passou para dentro da loja, no atendimento. Falei que a gente poderia tentar automatizar algumas coisas. Compramos computador, impressora laser, cadastrei os 800 clientes da loja e fiz uma mala direta com um desenho de vestido escaneado, convidando a cliente a ir à loja e comprar com desconto”, conta. “Em três semanas, elas começaram a aparecer na loja com a cartinha na mão. Meu pai olhou pra mim e disse: ‘Isso aí funciona,hein?’. Ele se convenceu a automatizar tudo,contratou um cara para instalar uma série de coisas e eu ajudava no que era preciso.”

No trabalho de conclusão do curso de Administração,em 1995,Guga apresentou o tema Como Negociar com a China – para demonstrar o caráter prático da pesquisa,ao término do curso, embarcou para a China com dois amigos para uma viagem de negócios de quatro meses a partir de Xangai.O investimento em uma formação só lida segue em 1996, em Berkley, com o Certificadoem Marketing. “Mas a melhor fase da minha vida foi a FAAP ”, diz ele, comentando como foi rica a oportunidade de transitar numa faculdade com tantos interesses diferentes,o que abriu seus olhos para a relevância da multidisciplinaridade. A partir daí, Guga construiu sua trajetória apoiado em negócios digitais. Das experiências profissionais no final dos anos 90 e começo dos 2000, destaque para a passagem pelo e-commerce do UOL, e por seu primeiro empreendimento, a TeRespondo, tecnologia que colocava os anunciantes nas primeiras menções dos mecanismos de busca – empresa vendida para o Yahoo! em 2005. De 2006 a 2010, ficou na Microsoft, de onde saiu como líder em Desenvolvimento de Negócios e Estratégia.

PALESTRAS DE INOVAÇÃO

A página seguinte seria escrita no Buscapé (2010-2014), onde deu asas a uma habilidade cada vez mais requisitada nos últimos oito anos: palestras sobre inovação. Fala sobretendências, fintechs, inteligência artificial, blockchain. “Preciso me atualizar a toda hora, pois não falo de nada que já passou.” A partir de 2014,a trajetória de Guga encontra mares mais agitados no Banco Original. “Tive um choque com uma área mais tradicional”, resume o executivo, que lá ficou até 2017, como head de Estratégia e Inovação, quando desenvolveu as operações on-line capazes de abrir conta bancária no celular e consultar o saldo pelo Facebook. A permanente ebulição nos pensamentos de Guga também transborda para os conselhos que faz parte – e não são poucos: Banco Carrefour, B3, TOTVS , Domo Invest e Hapvida,além de ser embaixador do SRI International no Brasil e sócio na Koolen & Partners Venture Capital. Ele está sendo chamado cada vez mais para palestrar em bancos de investimentos sobre um futuro próximo – ou nem tão próximo assim. As palavras de Guga ajudam os clientes a definir qual investimento fazer.

Para conseguir administrar tantas frentes, o dia de Guga costuma começar às 7 horas e terminar à meia-noite,sendo que a primeira atividade é ir à academia,rotina que segue pelo menos três vezes por semana. Ao chegar na GR1D (se fala grid; Guga explica que o número 1 no meio da palavra é para dar a ideia de design e tecnologia),na avenida Faria Lima, engata reuniões o dia inteiro, puxando diversos coelhos da cartola em conversas multidisciplinares. A agenda apertada o obriga a marcar reuniões no almoço e no jantar – algumas, invadem o fim de semana.“Quando estava no Banco Original, fiz o primeiro openbank do mundo, integrando as operações bancárias ao Facebook; ai deia agora é fazer isso para qualquer empresa, plugando soluções de diferentes lugares do mundo aqui dentro, desenvolvendo uma metodologia que permite às pessoas criarem projetos sem conhecer tecnologia a fundo”, explica.

“Estamos montando plataformas para demandas desde um banco digital completo até operações de varejo. Voltei agora de palestras no Canadá, e trouxe uma tecnologia que manda uma onda para o seu celular via TV . Só o seu celular ‘ouve’ e sobe uma oferta de camisa para você comprar. Estou negociando para aplicar isso no metrô em São Paulo, que funcionaria de um jeito parecido com o Sem Parar.”

TAMO JUNTO

Guga namora há seis anos com a gaúcha de Bom Princípio, Nahara Backes, 25 anos, estudante de arquitetura e modelo,
com quem pretende viver em breve. Por ora, porém, mora com a mãe, o irmão e o cachorro, em para esta matéria. “Ele é uma das pessoas de melhor coração que conheço”, diz Nahara. “Sempre tenta achar o lado bom em qualquer situação, e tem uma inteligência que permite conversas sobre tudo. A gente se conheceu em um jantar de um amigo. Um tempo depois, quando vi que a relação poderia ser outra, eu que tive que pedir em namoro – sou uma menina do interior: ou você namora, ou namora.”

Guga e Nahara gostam de viajar e de dedicar os fins de semana à prática esportiva: corrida, bicicleta, tênis. A modelo às vezes consegue acompanhá-lo em viagens de negócios: uma reunião de conselho em Fortaleza na segunda-feira pode virar um fim de semana em Canoa Quebrada. O empreendedor aprecia o assunto favorito de Nahara: arquitetura. “Gosto de design também. No exterior, a gente gosta mesmo é de caminhar. Nova York, Barcelona, Veneza… No Carnaval, fomos a Portugal, ficamos em um mosteiro em Évora, pegamos uma bicicleta e saímos pedalando em busca de comidinhas e bons vinhos.” Sobre as andanças no exterior, Nahara revela que Guga não se dá bem com mapas. “Ele sempre se perde. Aqui em São Paulo, não sabe chegar à minha casa; em Miami, não sabe de que lado está o mar.”

O FIM DA PATRULHA ULTRA

Quando falava sobre o próprio futuro, o garoto Guga não pensava duas vezes para dizer o que seria. “Tinha certeza de que seria ninja. Além de judô e caratê, fui fazer quankidô [arte marcial vietnamita] no Alto da Lapa. Adorei o lugar porque tinha uma foto de um cara pulando com duas foices na mão. Nossa, nunca apanhei tanto…”, se diverte. “Vi que precisava me aperfeiçoar, fui na Liberdade, comprei uniforme preto, apetrechos pra subir em árvore, estrelinha… No prédio, a Patrulha Ultra começou a abordar crianças para treinar algemar usando correntes de pendurar samambaia.”

As coisas começaram a mudar quando ganhou um TK 85, aos 12 anos. “Tenho esse computador até hoje!” O fascínio pela tecnologia o afastou da Patrulha Ultra. A gota d´água foi quando conheceu um moleque que tinha um balcão cheio de computador. “Era um geninho da informática. Virou um dos primeiros funcionários do Google… Um belo dia essa cara falou que dava pra ligar um modem em uma linha telefônica pra gente falar com o mundo inteiro. Fomos no quadro do prédio,sorteamos um apartamento,puxamos um fio bem rente à parede e conseguimos conectar! Sabe o barulhinho que fazia quando conectava? Aquele momento para mim foi um divisor de águas. Ali, pirei.Percebi que o mundo era uma loucura, que a parada era infinita.”