Como estar verdadeiramente pronto para trabalhar em um mundo cada vez mais competitivo?

De cada três crianças que estão começando o ensino fundamental hoje, duas trabalharão, no futuro, em profissões que ainda não existem. A estimativa é do relatório Futuro do Trabalho 2017, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial para mapear tendências e definir políticas. Parece estranho? Pois basta olhar para o passado recente que essa sensação de estranheza logo se dilui. Há dez anos, não se falava em piloto de drones nem em especialistas em mídias sociais, hoje profissões reais. Se o trabalho está mudando tão depressa, e se a universidade, tal como a conhecemos hoje, tem como principal objetivo formar profissionais compatíveis com o mercado de trabalho, existe um problema instalado. O ensino superior tem diante de si um dilema: a universidade pode assistir às mudanças, preparando currículos absolutamente tradicionais e seguindo recomendações de órgãos técnicos até dissolver-se, ou pode tentar compreender a anatomia das transformações da sociedade e antecipar-se a elas, oferecendo a seus alunos uma formação mais adequada aos novos – e também aos futuros – tempos.


A FAAP optou pela segunda abordagem. Ao longo de todo o segundo semestre de 2017, diretores, coordenadores e professores de quatro cursos – Administração, Economia, Direito e Relações Internacionais – trabalharam em conjunto para criar um projeto inovador no cenário educacional brasileiro. Batizado de Global Management, o programa oferece já aos alunos ingressantes no primeiro semestre de 2018 uma especialização que envolve disciplinas adicionais nos cursos integrantes, além de workshops e um leque de atividades para construir nos alunos uma identidade global. Essas disciplinas são fixas e foram escolhidas de modo a compor um mosaico de conhecimentos importantes para o profissional do futuro – como quer que seja esse futuro. Na prática, funcionará assim: um aluno de Administração que optar pelo programa terá que cursar, além das disciplinas de seu curso, outras complementares nos cursos de Direito, Economia e Relações Internacionais. Para oferecer essa certificação a seus alunos, a FAAP realizou uma extensa costura de grades e horários.

MAJORS E MINORS

Fruto da inquietação e dos questionamentos do corpo diretivo da FAAP em relação à educação do futuro, o Global Management é diferente da formação múltipla, já oferecida pela FAAP, em que cada estudante pode cursar até quatro disciplinas em outras cursos de acordo com seus interesses pessoais ou profissionais, sem custos adicionais. “A FAAP sempre teve conectividade entre as cursos, mas era algo que o aluno fazia sem uma certificação objetiva”, diz o diretor do curso de Direito, José Roberto Neves Amorim. “O Global é um programa formal, um avanço interessante e importante que agrega ainda mais valor aos nossos alunos”, acredita. Os estudantes que cursarem o Global receberão, ao final, uma certificação atestando sua qualificação como gestores globais. A participação é optativa, mas a avaliação será feita de modo convencional: só receberá o certificado quem for aprovado em todas as disciplinas do programa. “É uma oportunidade para o aluno, que não pagará mais por isso e terá, aos olhos do mercado, um diferencial em relação aos formandos de outras instituições”, afirma Bruno Alvarez, coordenador do curso de Administração.

Além das disciplinas obrigatórias, o Global realizará seminários a cada três semanas, aproximadamente, palestras de 45 minutos em áreas tão diversas quanto tecnologia, exportações e direito digital, às quais se seguirão debates. Serão cerca de 50 encontros ao longo do curso, contribuindo para fixar os conteúdos das aulas, como um “cimento”. Também será possível cumprir matérias eletivas em outros cursos integrantes do programa. O Global já começa com uma programação de workshops e atividades com o objetivo de aclimatar os estudantes ao espírito do curso. Em um segundo momento, o Blackboard será utilizado para a disseminação de conteúdos direcionados aos que optaram pela formação. No segundo semestre entrarão em campo as disciplinas extras.

Alunos até o quarto semestre (quinto, no caso do Direito, que tem dez semestres) poderão participar, porém haverá uma quantidade limitada de vagas e pré-requisitos, como boas notas. A expectativa da FAAP é de uma adesão entre 30% e 50% dos novos alunos, mas o time à frente do Global está convencido de que todos se beneficiarão. “Haverá uma mistura de gente de vários cursos em muitas aulas, o que tornará as discussões mais ricas”, explica Bruno Alvarez. “Mesmo quem não se inscreveu no programa ganhará em conhecimento e em novas perspectivas.” O Departamento de Internacionalização da FAAP colocará à disposição dos alunos do Global seu extenso leque de parcerias com universidades estrangeiras.

A iniciativa da FAAP inaugura no contexto brasileiro uma organização universitária que se aproxima do sistema de majors e minors, muito comum em universidades dos Estados Unidos e da Europa. Os majors são a área principal de estudo e, na FAAP, corresponderão às graduações em Administração, Economia, Direito ou Relações Internacionais. Os minors são áreas complementares, que acrescentam novas camadas de conhecimento ao campo principal; esse papel caberá às disciplinas do Global Management. “Fiz vários cursos, MBAs e especializações para conseguir colocar em pé meu empreendimento, uma empresa de transporte de cargas especiais”, relembra Gisele Gengo, ex-aluna de Artes Visuais da FAAP que hoje atua como coach certificada pela Sociedade Brasileira de Coaching em diversas multinacionais. “O programa Global oferece justamente as formações de que precisei para me lançar como empreendedora. Acredito que, se o aluno já sair da faculdade com todos esses conhecimentos, vai deslanchar muito mais rápido do que um profissional que teve uma formação mais convencional.”

FRONTEIRAS LÍQUIDAS

O Global Management parte da premissa de que as fronteiras entre as profissões estão se tornando cada vez mais líquidas. Hoje temos engenheiros atuando como administradores, administradores operando mercados financeiros e infinitas outras combinações.” Mais do que isso, as profissões perderam seu caráter de isolamento – se é que o tiveram algum dia – e comunicam-se permanentemente. “O mundo pede um profissional mais completo. Por mais excelente que seja um advogado, ele não vive sozinho no mundo jurídico. Está circundado por outras atividades e precisa dos conhecimentos dos administradores, economistas e internacionalistas”, afirma Amorim. “O profissional que queremos posicionar no mercado terá um pouco de tudo isso.”

O coordenador do curso de Economia, Paulo Dutra Constantin, dá um exemplo concreto desse relacionamento cada vez mais amalgamado. “Imaginemos, como já houve, uma guerra civil em uma nação que é grande produtora de trigo. Se compramos essa commodity daquele país, pode faltar aqui. Um economista atuando como planejador público precisa conhecer os conflitos internacionais para alocar recursos em seu país de modo eficiente, e as disciplinas de Relações Internacionais poderão ajudar na compreensão de cenários de risco. Da mesma forma, precisará conhecer um pouco de legislação e fará bom uso das técnicas de administração de empresa para gestão de informação e logística. No Global, ofereceremos todo esse pacote robusto para nossos alunos”, explica. Rafael Villela, 22 anos, aluno do 7o semestre de Relações Internacionais, sabe bem como é essa realidade. Em 2016, ele trancou a faculdade para fazer um intercâmbio na Business France, agência francesa de fomento comercial cuja meta era atrair para o Brasil empresas da França. “Um de nossos negócios envolvia agricultores do vale do rio São Francisco”, lembra ele. “Precisei de conhecimentos de economia para montar o projeto, de noções de liderança, para me relacionar com os envolvidos, e do direito, para pensar em contratos.” Em 2016, ainda não havia um programa como o Global Management, mas Rafael, de olho na carreira internacional, já vinha cursando disciplinas afins nos cursos que hoje se uniram para compor o programa, aproveitando as possibilidades da formação múltipla. “Tive que me aprofundar, claro, mas as matérias que fiz da Administração e do Direito me deram muitas ferramentas.” Com o Global, esse potencial se amplia consideravelmente.

O mundo pede um profissional mais completo. Por mais excelente que seja um advogado, ele não vive sozinho no mundo jurídico –  José Roberto Neves Amorim, diretor do curso de Direito

E o mercado, estará pronto para esse profissional tão diferenciado? “Acho que o mercado não deveria receber um profissional que não tivesse esse plus”, acredita o headhunter Joseph Teperman, sócio-diretor da Inniti, consultoria de busca de executivos com sede em São Paulo, e ex-aluno da FAAP. “A vida real é essa, multidisciplinar, e exige de todos nós aprendizado constante. Além de levar aos alunos conhecimentos de outras áreas importantes e correlatas, talvez outro mérito do Global seja o de mostrar que é preciso aprender sempre, pois o mundo vai continuar mudando, e cada vez mais depressa.”

REVOLUÇÃO PERMANENTE

Se a vida é multidisciplinar, quanto mais cedo a universidade criar mecanismos para contemplar essa realidade, maior será sua capacidade de formar profissionais adequados a um mundo em permanente revolução. “A educação, por ser uma estrutura mais tradicional, se adaptou pouco às mudanças do mundo e continua oferecendo conhecimentos fechadinhos, superespecíficos e desconectados da prática”, observa a coordenadora do curso de Relações Internacionais, Fernanda Magnotta. O Global Management vai na contramão dessa fragmentação do conhecimento. Parte da premissa de que o aluno vai se especializar, sim, mas isso será orgânico e virá de sua experiência. Para o Global, filosoficamente, a universidade não é o ambiente para fazer do aluno um superespecialista, característica que viria depois, à medida que, já inserido no mercado, pudesse conhecer melhor as possibilidades de seu universo profissional. “Antes de se especializar, queremos que seja um gestor competente e habilidoso, pronto para resolver problemas reais”, explica Fernanda Magnotta. “Quando se pensa em crescimento profissional e em projeção na área em que se escolheu atuar, é importante ter o saber específico, mas também é essencial conhecer outras áreas e saber dialogar com elas”, pondera Saulo Ferreira, gerente de recrutamento da Robert Half, empresa que conta com 325 escritórios em duas dezenas de países. “Minha experiência é que profissionais muito especializados nem sempre conseguem pensar em opções para que determinadas operações se realizem.”

A configuração atual do sistema educacional brasileiro prevê que, com 17 ou 18 anos, os jovens devem fazer uma escolha crucial para suas vidas. Para a maioria deles, porém, optar por uma carreira e entrar em uma faculdade são decisões penosas e, muitas vezes, frustrantes. Nem todos têm maturidade ou conhecimento sobre a profissão desejada para decidir sem hesitação. “Entra-se na faculdade muito jovem”, afirma Melissa Gonçalves, 36, que chegou à FAAP para cursar Arquitetura, apaixonou-se pela possibilidade de empreender, migrou para Administração e terminou o curso no ano passado. “A formação múltipla propicia navegar por outras praias, e o Global vai abrir caminho para tirar mais ainda as dúvidas.”

Talvez outro mérito do Global seja o de mostrar que é preciso aprender sempre, pois o mundo vai continuar mudando, e cada vez mais depressa – Joseph Teperman, headhunter, formado na FAAP

CONTRA ANGÚSTIAS

Um efeito colateral bem-vindo do Global é justamente ajudar os jovens a lidar com a angústia de uma escolha que nem sempre estão preparados para fazer. “Eu gosto de tanta coisa!”, suspira Thais Palanca, 20, aluna do 6o semestre de R.I., que já cursa, em paralelo, várias matérias da Economia, outra área de afinidade em que também pretende se graduar. Thais aplaudiu o novo programa da FAAP. “Com o Global, vai ser mais fácil identificar interesses. É um programa que abre a mente das pessoas para assuntos de que elas podem gostar, mas nem sempre sabem.”

“Nossos alunos já nasceram em um mundo global e têm amplo acesso à tecnologia. Pertencem a uma geração que se agride quando tem que fazer escolhas muito restritivas”, pondera Fernanda Magnotta. “O Global diz a eles que não precisam gostar de um assunto só. Além de preparar um profissional híbrido e múltiplo, ajuda a atenuar angústias e a testar vocações. É o jeito FAAP de entender a educação do futuro para pessoas do presente que estavam habituadas a ser educadas no sistema do passado.”

QUE GESTOR É ESSE?
AS CARACTERÍSTICAS DOS LÍDERES QUE O GLOBAL MANAGEMENT QUER FORMAR

Gestor global é aquele profissional capaz de liderar projetos de abrangência mundial graças a um conjunto de competências importantes e incomuns. “Tem uma visão não apenas de sua área, mas de outras. Enxerga a floresta e utiliza esse conhecimento para ascender na carreira e levar seu negócio aos melhores resultados”, resume Bruno Alvarez, do curso de Administração. “Tem bom conhecimento técnico. Não significa que conheça tudo, mas sabe o suficiente para fazer cada especialista render mais em sua área”, complementa o gerente de recrutamento Saulo Ferreira, da Robert Half. “Por suas habilidades pessoais e comportamentais, consegue que sua equipe entregue os resultados.” Autoconhecimento é outra característica essencial. “É isso que transforma as organizações, as universidades, as empresas”, acredita Joseph Teperman. “Quando algo dá certo, esse líder menciona a sorte de ter um time como o seu; quando dá errado, assume a responsabilidade e olha para dentro de si em busca de explicações.” E, em última instância, será sempre uma pessoa interessante, agradável no convívio porque sempre tem algo enriquecedor a dizer, na opinião de Fernanda Magnotta.

UM PÉ LÁ FORA

O Departamento de Internacionalização da FAAP dispõe de parcerias que estarão à disposição dos alunos do Global Management. “Recomendaremos as melhores possibilidades dentro do espírito do programa”, afirma a diretora do departamento, Lourdes Zilberberg. “Afinal, os cursos internacionais têm um papel importante no desenvolvimento das competências interculturais essenciais para o gestor global.” Entre as escolas indicadas pelo departamento para cursos complementares estão as célebres LUISS (Libera Università Internazionale degli Studi Sociali Guido Carli), em Roma, para estudos de Direito e Economia; a francesa ESSCA (École Supérieure des Sciences Commerciales d’Angers), que, além do campus de Paris, também oferece outro em Budapeste, na Hungria, para especializações na área de Economia; a chinesa UIBE (University of International Business and Economics), com sede em Pequim, para estudantes que, além da área de negócios, tenham interesse em assuntos asiáticos; a Meiji University, no Japão, para alunos com foco em Economia; e a Rotterdam University of Applied Sciences, na Holanda, conhecida por seu curso de criação de startups. “Nelas, é possível fazer cursos de especialização sem custos acadêmicos adicionais.”