Diante das transformações do setor no Brasil, a diretora Laís Bodanzky, o produtor Caio Gullane e a atriz e roteirista Martha Nowill, todos formados em cinema na faap, têm uma visão otimista sobre os rumos do audiovisual no país

Quando a atriz Martha Nowill terminou o curso de Cinema da FAAP, a perspectiva não era muito animadora, com o mercado de trabalho restrito e poucos papeis femininos disponíveis. “Às mulheres, cabiam a função de namorada, melhor amiga ou ex-mulher dos protagonistas. Era um desespero”, conta. Ela entendeu, então, que precisava ir atrás de seus personagens e das histórias que queria contar. Hoje, Martha assina o roteiro de dois longas-metragens: Vermelho russo e Dorina: Olhar para o mundo. “Agora, tudo mudou, temos mais oportunidades de atuação. Além disso, ter propriedade sobre uma obra é uma sensação muito boa”, diz Martha durante o evento Revista FAAP Ao Vivo. A roteirista, ao lado da diretora Laís Bodanzky, de Caio Gullane, sócio da produtora Gullane Filmes, e da cineasta Marina Person, que mediou o debate, discutiu o futuro do audiovisual no Brasil.

Parte das mudanças sentidas na última década está relacionada à criação da lei da TV paga, em 2011, a qual fez emissoras destinarem um tempo mínimo de suas programações a conteúdos nacionais. Naquele mesmo ano, a Netflix chegou ao Brasil e a HBO passava a produzir séries por aqui. Caio lembra que foi procurado pelo canal para fazer Alice, série protagonizada por Andréia Horta, porque os executivos queriam uma equipe com experiência em cinema para fazer televisão – na época, a Gullane já tinha longas como Bicho de sete cabeças e O ano em que meus pais saíram de férias na bagagem. “O tempo inteiro entendemos que era importante diversificar, por isso continuamos crescendo. Sempre fizemos filmes mais autorais, depois internacionalizamos o trabalho, passamos a frequentar festivais de cinema e estamos vendo os frutos”, diz Caio. Mais tarde, viram a importância de ampliar o repertório: entre 2012 e 2015, produziram, então, a trilogia Até que a sorte nos separe, com Leandro Hassum. “O mercado passou a nos enxergar de outra maneira, pois também podíamos fazer um tipo de filme com boa bilheteria.” Para 2020, está prevista a estreia da série Boca a boca, de Esmir Filho, mais uma produção da Gullane para a Netflix.

“O Brasil é muito estratégico para esses players porque eles têm espaço para crescer aqui”, afirma Caio. “O futuro depende de como vamos nos moldar. Para nós, a diferença é que eles pagam 100% da produção, enquanto os nossos filmes são feitos com verba de incentivo. E o fomento tem que continuar, é preciso dialogar, defender a identidade brasileira.”

Negócio lucrativo

A cineasta Marina Person, diretora de Califórnia, enfatiza que o audiovisual não é apenas fundamental pelo valor cultural. “Um país sem cinema, literatura, música, teatro é um país sem identidade. Mas, mais do que isso, o audiovisual é uma indústria limpa, que emprega e se sustenta economicamente. O PIB gerado é maior que o das indústrias farmacêuticas, de papel e celulose”, explica. Segundo dados da Ancine, a Agência Nacional do Cinema, a produção audiovisual brasileira cresce cerca de 9% ao ano e a indústria do cinema movimenta R$ 44 bilhões por ano, gerando em torno de R$ 25 bilhões ao PIB.

Atualmente, existem mais de 50 serviços de video on demand (VoD) operando no país e estima-se que o setor cresça cerca de 20% em 2020. Há 25 anos acompanhando todas essas mudanças, a diretora Laís Bodanzky concorda que o interesse dos players, como Amazon e Disney, entre outros, está relacionado ao nosso talento técnico e artístico. “A plataforma do streaming é maravilhosa e veio para ficar, mas não acho que faça com que o cinema desapareça”, diz. O que é preciso, segundo ela, é garantir que a produção independente ocupe lugar nessa nova plataforma. “Não podemos virar somente prestadores de serviço e consumidores das produções estrangeiras. Temos que continuar contando as nossas histórias. E só com políticas públicas conseguimos garantir essa reserva de mercado e os direitos sobre as obras”, diz Laís, reforçando a importância de órgãos como a Ancine. Desde o início do ano ocupando a cadeira de presidente da SpCine, Laís Bodanzky conta que, recentemente, lançaram políticas afirmativas para garantir diversidade nos conteúdos.

“Temos feito ações pontuais para valorizar a mulher no audiovisual. Lançamos um programa de bolsas de produção executiva em Los Angeles para mulheres negras curta-metragistas. Ficamos surpresos com as dez inscrições, pois as vagas exigiam dominar o inglês, ter dois curtas exibidos em festivais”, conta. “Nunca vivemos um ciclo do audiovisual brasileiro tão rico e com tanta diversidade quanto este. O audiovisual tinha um olhar elitista e isso mudou com o boom de novos roteiristas de outra realidade social. Além disso, a tecnologia democratizou o discurso.” Para o coordenador do curso de Cinema da FAAP, Humberto Neiva, o mercado segue forte e propício para o aluno que está saindo da faculdade. “Geramos empregos, economia, divisas com outros países. Há um leque gigante de possibilidades: internet, conteúdo para celular, comercial, cinema, novela, minissérie, documentário, animação, ficção. Tem muita demanda de conteúdo”, diz. “O futuro do mercado é essa junção, temos que estudar uma maneira que seja boa para todos.” A seguir, a trajetória de três ex-alunos que vêm deixando marcas na história do cinema no Brasil.

Um país sem cinema, literatura, música, teatro é um país sem identidade. Mas, mais do que isso, o audiovisual é uma indústria limpa, que emprega e se sustenta economicamente. O PIB gerado é maior que o das indústrias farmacêuticas, de papel e celulose

Marina Person, Cineasta

Caio Gullane

 

Caio Gullane, ele começaria na Itália, no final da Segunda Guerra. Na cena inicial, seu pai, o italiano Adolfo, poliglota com formação em Teologia, se prepara para vir ao Brasil. Aqui chegando, se ordena padre, mas, quando conhece Imaculada, pede dispensa da batina para viver um grande amor. Desse romance, nasce Fabiano, o primogênito, Caio e Danilo.

O roteiro muda com a separação de Adolfo e Imaculada, mas um acontecimento altera por completo o destino dessa história. Caio tinha 11 anos quando um ataque cardíaco ulminante fez seu pai nunca mais acordar. O garoto estava sozinho em casa com ele. Ao levantar e chamar pelo pai, o silêncio se fez. Da noite para o dia, o padrão de vida da família mudou. Saíram de um prédio nobre para viver em um apartamento menor, e os três filhos foram estudar no colégio onde a mãe trabalhava como coordenadora pedagógica. “A cumplicidade que existe entre mim e o Fabiano [ele tinha 13 anos à época] vem não só de berço, mas também das dificuldades que superamos. Criamos uma relação de muita irmandade.”

Caio frequentou a terapia durante alguns anos, mas foi nas artes que encontrou seu lugar de conforto: entrou para um grupo de teatro e, dos 16 aos 21 anos, trabalhou em eventos, fez telegramas animados e foi palhaço de circo. Era com essa grana que bancava o curso de Cinema na FAAP. “Enquanto a maioria dos jovens ainda estava se encontrando, eu e o Fabiano já começamos a trabalhar nos curtas de quem se formava, como os do [cineasta] Beto Brant”, diz.

GULLANE FILMES

Caio entendeu, na prática, que a carreira de produtor era menos concorrida do que a de diretor. “Ninguém falava em empreender e muita gente nos incentivava a ir por esse caminho”, conta. Em 1996, então, fundaram a Gullane Filmes, em que hoje ele cuida da
supervisão artística – Fabiano administra a parte comercial. “Acompanhamos todos os roteiros, filmagens, elenco, a atuação, a montagem. Isso nos deu um background enorme para escolher nossos projetos.”

São mais de 25 séries e 45 filmes produzidos, entre eles Bicho de sete cabeças (Laís Bodanzky, 2001), O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006), Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015) e Como nossos pais (Laís Bodanzky, 2017). Recentemente, trouxeram do Festival Internacional de Veneza o prêmio de melhor documentário por Babenco – Alguém tem que ouvir o coração dizer: parou, dirigido por Bárbara Paz, sobre os últimos anos do cineasta Hector Babenco.

Ano que vem, Caio, 46 anos, espera dirigir seu primeiro longa, uma ficção. Sem dar detalhes, adianta que a história aborda o tema da paternidade e as novas famílias. “Esperei um projeto que tivesse a ver comigo e é sobre esse assunto que quero falar agora”, diz ele sobre o filme que inclui os atores Lázaro Ramos e Taís Araújo. O assunto está latente em sua vida desde a chegada de Vicente, 4 anos, seu filho caçula com a artista plástica Paula Bleier, 47, ex-aluna da FAAP, também mãe de Sofia, 18, e Julia, 21. “Hoje, sou outro pai. A paternidade agora é totalmente diferente.”

Outro plano é morar na ecovila que vai construir com 20 amigos de infância, em um terreno que compraram coletivamente a 200 quilômetros de São Paulo. “Não tenho que ficar ralando para ser tudo meu, comprar meu próprio sítio, ter a minha cachoeira e a minha sauna e depois ter que ficar insistindo para um amigo ir lá comigo”, explica ele. “Mas vai demorar para me aposentar, porque ainda tenho um tesão enorme e muito gás para trabalhar como produtor e cineasta”, finaliza.

Martha Nowill

 

Em uma das cenas de Vermelho russo, filme roteirizado e protagonizado por Martha Nowill, sua personagem homônima se vê questionada por um diretor de cinema: “O que você quer como atriz?”, ele pergunta. No longa, uma mistura de documentário e ficção, rodado em Moscou em 2014 e lançado no Brasil em 2017, ela responde: “Quero ser amada”. “E continuo querendo”, diz Martha, em seu apartamento no bairro de Higienópolis. “Aquela resposta era muito verdadeira. Pode parecer clichê, mas, além do sucesso, desejo sempre fazer um trabalho melhor do que o outro”, revela. “Quero me superar, me reinventar. Estarei sempre trabalhando para
ser uma atriz melhor ou diferente.”

Por Vermelho russo, que conta a história de duas atrizes brasileiras que viajam para Moscou para estudar o método Stanislavski de interpretação, Martha levou o troféu de melhor roteiro no Festival do Rio de 2016. “Não imaginava esse prêmio, porque o filme é cheio de improvisação. Tivemos que reescrevê-lo durante as filmagens. Mas foi muito trabalhoso, então é um reconhecimento importante”, relembra. O filme, dirigido por Charly Braun, teve origem em um diário que Martha escreveu para a revista Piauí sobre os mais de 30 dias que passou em Moscou com a atriz e amiga Maria Manoella estudando na Academia Russa de Arte Teatral.

O hábito de colocar as palavras no papel começou ainda na infância e se intensificou nos seus 20 e tantos anos, quando já era formada em teatro pelo Célia Helena. Nos períodos em que não apareciam projetos, escrevia. “Cheguei a ficar um ano sem trabalhar e precisava levar a minha criatividade para algum lugar.”

Assim teve origem mais um de seus roteiros, dessa vez para o documentário Dorina: Olhar para o mundo (2016), dirigido por Lina Chamie, sobre sua avó, que ficou cega aos 17 anos e foi pioneira no trabalho de inclusão da população deficiente visual no Brasil. “Aos
30 anos, percebi que a minha geração não a conhecia, e decidi fazer esse filme. Ela estava com 90 anos e ainda na ativa. Queria que o legado dela fosse reavivado”, diz.

Nascida em São Paulo, Martha é filha de um médico e de uma advogada. “Minha mãe me influenciou muito, cultural e intelectualmente. Me dava livros, mostrava filmes, me levava ao teatro. Já meu pai era responsável pela parte espiritual, me falava sobre energia. Tinha um equilíbrio ali.”

REPERTÓRIO

Aos 39 anos, estreou recentemente Domingo, longa de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, e agora está envolta nas gravações de Todas as
mulheres do mundo, série da Globo baseada em textos do dramaturgo Domingos de Oliveira. Martha lembra que descobriu o filme homônimo, de 1966, durante o curso de Cinema da FAAP. “Fiquei chocada com a modernidade do filme, a afetividade dos personagens e com a liberdade com que falavam das coisas. É muito louco estar fazendo essa série agora”, conta. “Nessa época, frequentava as salas de cinema quatro vezes por semana. Saía da faculdade e ia para o [antigo] Espaço Unibanco. Ganhei muito repertório”, relembra. “A FAAP também me deu a prática. Fiz direção de fotografia, de arte, montagem, produção, assistência de direção.”

Começando a escrever seu próximo roteiro, ela não descarta a ideia de dirigir, quem sabe um documentário, gênero que adora. “Gosto muito de ouvir as pessoas, de entrar na vida delas, é uma coisa que me interessa. Estou aqui respondendo às suas perguntas, mas estou louca para saber da sua vida.”

Laís Bodanzky

 

Faz exatos 25 anos que Laís Bodanzky começou a deixar sua marca na história do cinema nacional. Em 1994, a então estudante de
Cinema da FAAP produziu seu primeiro curta-metragem, Cartão vermelho, sobre uma jovem que convive com uma turma  de meninos e passa a descobrir sua sexualidade. Premiado em festivais no Brasil e no exterior, o filme marcou sua estreia na direção, e foi seu primeiro trabalho ao lado dos produtores Caio e Fabiano, da Gullane Filmes, contemporâneos de vida acadêmica que se tornariam amigos e importantes parceiros profissionais. “Lembro que não tínhamos dinheiro para fazer Cartão vermelho e disse para o Caio: ‘Não vou ficar inventando muito, vou pensar simples’. E ele falou: ‘De jeito nenhum, você vai pensar no seu filme do jeito que quer. Não se preocupe com os custos, damos um jeito de fazer’.” Achei aquilo incrível. Eles deixam o artista ser livre, criativo, e são assim até hoje”, conta.

Laís já dirigia vídeos institucionais na época da faculdade, período em que o cinema vivia um hiato. “Só estava ali quem realmente queria e isso foi importante porque encontrei meus pares”, relembra. “Um bom curso te introduz no mercado e a FAAP me deu isso.” Da parceria com os irmãos Gullane, nasceram longas de sucesso, como Bicho de sete cabeças (2001), As melhores coisas do mundo (2010) e Como nossos pais (2017), este último vencedor de mais de 20 prêmios, entre eles, o de melhor filme e direção no Festival de Gramado. “Antes de fazer um longa, sempre me pergunto: ‘Eu sobrevivo sem contar essa história?’. Sou guiada por essa necessidade”, diz. E assim foi quando estava envolvida com a produção de Bicho de sete cabeças, protagonizado por Rodrigo Santoro. “Fiquei tão tocada com o tema da luta antimanicomial que decidi fazer esse filme. Não era um período fácil, o audiovisual não era reconhecido, ninguém queria se associar àquele drama”, relembra. “Ter a certeza das histórias que você quer contar é muito importante e tem a ver
com suas visões de mundo, com o que te sensibiliza.”

Uma dessas histórias virou roteiro de seu terceiro longa-metragem, Chega de saudade, de 2008, que se passa dentro de um salão de baile da terceira idade. Laís levou para o filme um hábito seu, de frequentar essas casas para dançar e, muitas vezes, apenas tomar uma cerveja e observar. “Foi um processo muito rico. Enxergava ali uma maneira de envelhecer. Os salões da terceira idade são pura libido. Era uma sensação de alívio ter essa consciência e queria falar sobre isso”, relembra. No set de gravação, Laís se vê sempre muito concentrada. “Minha filha diz que sou muito séria no set. Como sei que vou fazer poucos filmes na vida, levo muito a sério mesmo. A sensação que tenho é a de que não dá para errar. Vivo de forma visceral, não vou ter outra chance de rodar aquele plano e ele pode fazer falta na montagem”, explica. “Lembro que gravamos a última cena e falamos: ‘Valeu’, todos aplaudiram, se abraçaram. E, quando olho para o lado, já tinham começado a destruir as colunas cenográficas que montamos no salão. Falei: ‘Gente, calma!’. Foi muito violento. A gente realmente tinha que entregar a locação, haveria um casamento no dia seguinte, mas eu precisava de mais tempo para digerir.”

CINEMA EM CASA

Quando fazia um curso de teatro com Antunes Filho, Laís entendeu que seu melhor papel era na direção. “Ele trabalha com o ator-autor, que faz de tudo: a dramaturgia, a sonoplastia, a cenografia, o figurino. Na hora que me coloquei nessa posição, percebi
que tinha prazer na concepção do espetáculo, do projeto como um todo”, conta. O desejo de ser atriz se manifestou logo na infância, nas apresentações que fazia em casa, para os pais, a professora de história da arte Lena e o cineasta Jorge Bodanzky. Filha única, cresceu convivendo com gente do cinema e formadores de opinião. Uma lembrança que mantém viva é a projeção de Iracema, uma transamazônica (1975), na sala de casa, época em que o filme era censurado pela ditadura. “Eu não tinha noção do que estava acontecendo, mas percebia que estava sendo projetado um filme na parede. Lembro do som que saía do projetor, muita gente falando. Hoje, consigo colocar no contexto histórico.”

No momento, Laís, 50 anos recém-completados, está editando o material bruto de Pedro, seu primeiro filme de época, protagonizado e coproduzido por Cauã Reymond, que a procurou para contar a história de Dom Pedro I. “É meu primeiro longa rodado fora do Brasil e é completamente diferente de tudo que já fiz. Ao mesmo tempo, acho que estou ali. Fazer um filme de época é brincar com o túnel do tempo e trazer vida a um passado.” Olhando para o presente e o futuro do cinema, no início do ano a diretora paulistana aceitou o convite do Secretário Municipal de Cultura, Alê Youssef, para se tornar a diretora-presidente da Spcine. “Tem sido uma experiência interessante e que faz amadurecer. O audiovisual não se faz sem política pública, é preciso ter essa consciência. Deixar o mercado andar por conta própria não funciona”, acredita. “Quando recebi a proposta, vi que apenas 15% das mulheres no mundo ocupam o cargo de CEO de empresas. Contribuir para aumentar essa porcentagem foi um dos motivos que me fez aceitar o desafio”, conclui.