Rubens Fernandes Junior foi criado para seguir os passos do pai e do avô e se tornar ferroviário, mas ele foi mais longe. Abraçou o jornalismo – em vez de exercer a engenharia –, tornou-se diretor do curso de comunicação e marketing da FAAP e um importante colecionador e crítico de fotografia do Brasil

No filme grego Um olhar a cada dia (1995), de Theo Angelopoulos, um cineasta busca um antigo filme perdido, o primeiro rodado na região dos Bálcãs. Ao finalmente encontrar uma cópia em uma pequena cidade destruída pela guerra, ele elogia a importância do trabalho do homem que conseguiu preservá-la. E o personagem responde, modestamente: “Sou apenas um colecionador de olhares evanescidos”.

Rubens Fernandes Junior tem muitos títulos em sua carreira: diretor do curso de Comunicação e Marketing da FAAP, um importante pesquisador, colecionador e crítico de fotografia do Brasil, ex-curador de fotos da Pinacoteca e do Masp, organizador de diversos livros e exposições sobre o tema, além de professor, jornalista, engenheiro elétrico e doutor em semiótica. Mas, na hora de escolher uma definição para si, ele recorre ao filme de Angelopoulos: colecionador de olhares desaparecidos.

Rubens com a mulher Paula, o filho Pedro e a filha Marília, em 1983 (Arquivo Pessoal)

Em sua odisseia particular contra o esquecimento, Rubens coletou ao longo da vida milhares de cartões-postais e fotografias antigas, a maioria feita por artistas desconhecidos. Muitas já foram vistas em premiados livros e exposições organizados por ele. Outras aguardam o momento de sair do anonimato em álbuns meticulosamente organizados e guardados no apartamento onde mora, na região da avenida Paulista, e em outro endereço da cidade.

Trabalho de porta aberta. Coloquei um vidro enorme para as pessoas verem que estou presente. Não existe isso de “Rubens não está, Rubens não pode atender”. Atendo aluno, pai, mãe, professor. Não tem drama que a gente não tente resolver

Nascido em Rio Claro, interior de São Paulo, Rubens foi criado para seguir os passos do pai e do avô e se tornar ferroviário. Chegou a se formar em Engenharia Elétrica na FEI, mas decidiu cursar também Jornalismo na FAAP. Tornou-se professor de Comunicação e dividiu seu tempo entre a vida acadêmica, a paixão pela fotografia, a mulher e os dois filhos. Dos 65 anos de sua vida, 43 foram passados na FAAP – primeiro como aluno, depois como monitor, professor, chefe de departamento, vice-diretor e, desde 1994, diretor da FACOM-FAAP. Rubens afirma que a direção do curso de Comunicação e Marketing é “transparente e provocativa”. “Você não pode se encastelar, ficar distante das questões da instituição. Por isso, eu dou aulas na graduação até hoje, para ver de perto os problemas do dia a dia, para sentir o que eu chamo de chão de fábrica”, diz.

Como foi sua infância em Rio Claro?
Meu pai e meu avô trabalharam 35 anos na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que atendia a burguesia cafeeira. Fui criado para ser também um ferroviário. Estudei em uma escola alemã, no Ginásio Koelle. Foi importantíssima para a minha formação. Todos os alunos eram obrigados a aprender línguas, fazer um esporte, tocar um instrumento. Eu fiz natação e violão. Um dos filhos do dono do Koelle montou um laboratório de fotografia na escola, o que ajudou a despertar meu interesse por esse universo. Eu morava a 300 metros da escola, passava o dia lá e dormia em casa. Passei nove anos lá. E, depois, fui para um colégio do estado, onde fiz o científico [atual ensino médio] para prestar Engenharia.

Você tem duas formações muito distintas: Engenharia Elétrica e Jornalismo. A primeira foi para agradar os pais?
Foi uma imposição familiar. Mas naquele momento eu também queria fazer. Meu avô chegou a chefe de seção, meu pai foi mestre-geral das oficinas. E eu tinha que ser o engenheiro ferroviário da família. Mas, quando chegou meu momento, a ferrovia já estava acabada. E havia outras coisas que me encantavam. Eu tinha um tio chamado Henrique Verona Cristófani, que era fotógrafo, cineasta e arquiteto, trabalhava com o [arquiteto de origem ucraniana Gregori] Warchavchik. Quando ia para Rio Claro, ele projetava seus filmes, exibia suas fotos. Foi um dos meus gurus. Além disso, eu frequentei muito o Cineclube Ferroviário, onde aconteceu minha formação de cinéfilo. E, quando fui para o colégio estadual, em 1966, meu interesse pelas questões políticas aumentou, a gente fazia teatro, organizava shows. Essas coisas foram ampliando meu repertório. Quando me formei, fui para Curitiba com um amigo morar na Casa do Estudante Universitário. Prestei Arquitetura e fiquei entre os excedentes. Queria lutar por uma vaga, mas meus pais acharam que Curitiba era muito longe. Então, vim para São Paulo fazer cursinho e entrei para Engenharia na FEI.

E como surgiu o jornalismo na sua vida?
A gente cirvulava nos centros acadêmicos da FEI, Poli, Mauá, eu participei de jornais de várias faculdades. E aí, para ajudar a pagar a faculdade, comecei a trabalhar na revista Médico Moderno, onde fazia clipping e escrevia matérias de cultura. Depois fui para o Estadão como revisor. Mas aí surgiu a lei da obrigatoriedade do diploma, e eu tive que me desligar. Como eu já estava contaminado por esse universo mais politizado, fui fazer Jornalismo na FAAP, em 1973.

Marcos Vilas Boas

Como seus pais reagiram?
Meu pai, meu avô, minha mãe ficaram muito abalados. No terceiro ano de Engenharia, tive que dizer ao meu pai que iria sair do curso. Foi muito difícil. Meu pai sugeria veladamente que eu não tinha competência para enfrentar um curso difícil como o de Engenharia. Mas na FAAP eu encontrei o professor Isaac Epstein, que é meu grande mestre – e que havia se formado em Engenharia. Ele me recomendou terminar a FEI. Tenho o diploma, mas nunca exerci. Depois o próprio Epstein me convidou para dar aulas na FACOM, na disciplina que hoje se chama Teorias da Comunicação – e que leciono até hoje.

Quando assumi a diretoria da FAAP, decidi continuar dando aula de Teorias da Comunicação na graduação. Eu preciso sentir o que eu chamo de chão de fábrica. Não queria ficar encastelado num lugar, longe de tudo que acontece na instituição

Você está na FAAP ininterruptamente desde 1973, quando era aluno?
Fiquei apenas três semestres fora depois de me formar. Mas me tornei professor da FAAP em 1978 e não parei mais. Acabei replicando o modelo do Epstein, de transformar em professores ex-alunos que se interessam pela vida acadêmica. Essa ideia colaborou para a criação do projeto de Jovens Professores da FAAP. Hoje, temos de 15 a 20 professores na FACOM que começaram assim. Se o Epstein confiou em mim aos 25 anos de idade, tenho que acreditar no potencial desses jovens, apostar em sua evolução. Eles ajudam a contaminar o grupo de professores com novas ideias.

Qual é a cara de sua gestão à frente da FACOM?
A direção é transparente e provocativa. Quando assumi a diretoria da FAAP, decidi continuar dando aula de Teorias da Comunicação na graduação. Eu preciso sentir o que eu chamo de chão de fábrica. Não queria ficar encastelado num lugar, longe de tudo que acontece na instituição. Eu sei se a lâmpada está queimada, se o projetor falhou, se a internet caiu. E trabalho de porta aberta. Coloquei um vidro enorme para as pessoas verem que estou presente. Não existe isso de “Rubens não está, Rubens não pode atender”. Atendo aluno, pai, mãe, professor. Não tem drama que a gente não tente resolver. Logo que assumi, a turma de Cinema tinha a Laís Bodanzky [diretora de Bicho de sete cabeças] e outros alunos brilhantes. O departamento só contava com duas câmeras antigas. Houve uma demanda dos alunos, e a gente comprou uma Super 16 mm maravilhosa. A pressão dos alunos fez com que eu conquistasse um equipamento melhor para eles. Eu filtro a pressão, mas a demanda é sempre levada em conta. Sou um mediador. E esse trabalho de mediação tem que ser bem feito, para ser reconhecido pelos alunos, pelos professores e pela instituição.

E onde fica a parte da provocação?
Eu dou muita linha para que alunos e coordenadores experimentem coisas novas. Comunicação é testar canal. Na última Semana de Comunicação, pedi para exibir cinco filmes nórdicos, experimentais, que eu havia visto no Festival de Finos Filmes Curtos, do [ex-aluno] Felipe Poroger. A gente projetou os filmes, e eu abri a discussão dizendo que eu gostaria que os alunos de cinema experimentassem mais, que os filmes de graduação estavam muito quadrados. Aí tomei pau dos alunos, né? Saí minimizado, mas feliz, porque o recado foi dado. O espaço da universidade é o da experimentação. O erro pode ser interessante. Mesmo assim, a escola de cinema vai bem. Nos últimos três anos, os filmes de alunos ganharam 74 prêmios de cinema no Brasil e no exterior. É muita coisa. É uma referência.

Nesses 21 anos à frente da FACOM, o perfil dos alunos mudou muito?
Há uma tendência generalizada de dizer que o aluno piorou. Sim e não. O aluno hoje chega menos formado do que antes. Mas, se o professor tiver entusiasmo, se estimular intelectualmente, o aluno vai evoluir. É a história daquela frase que virou senso comum sobre a educação: temos uma sala de aula do século 19, um professor de século 20 e um aluno do século 21. Não dá para entrar em sintonia com o aluno usando as mesmas ferramentas, as mesmas piadas, de 20 anos atrás. Muita gente reclama dos dispositivos eletrônicos. Mas, se os alunos vão usar de qualquer jeito, então vamos fazê-los usar a favor do curso. Cada professor tem que ter um artifício para abrir a cabeça do aluno.

Houve o momento de conciliação com seus pais? Eles admitiram que você trilhou o caminho certo, mesmo não se tornando ferroviário?
Sim. Nos últimos anos de vida do meu pai, ele me falou inúmeras vezes: “Quem diria que essa volta que você deu ia te levar tão longe…”. Quando ele via uma matéria na Veja ou no Jornal Nacional sobre meu trabalho ele ficava orgulhoso, os amigos comentavam. Hoje eu tenho alunos que começaram a fazer um curso e lá pelo quarto, quinto semestre foram fazer uma segunda faculdade. Metade dos professores do nosso grupo de coordenadores cursou duas faculdades. O [vice-diretor da FACOM Luiz Felipe] Pondé, por exemplo, fez Medicina e Filosofia. Eu fui um dos caras que lutaram para que o aluno de um curso pudesse fazer disciplinas de qualquer outro curso dentro da FAAP. Dois anos atrás eu estava tomando café, e um professor todo engravatado se aproximou. “Você é o Rubens? Quero te parabenizar. Dou aula de Direito Penal, e os melhores alunos que tenho são do curso de Cinema.” Eram dois alunos que iam fazer um TCC sobre um crime e queriam ter a terminologia adequada para o roteiro. Quando a gente ia imaginar isso? São conquistas que a gente teve, colaborações que demos. Hoje essa formação múltipla, que foi tão importante na minha trajetória, é um diferencial da FAAP.

A escola de cinema vai bem. Nos últimos três anos, os filmes de alunos ganharam 74 prêmios de cinema no Brasil e no exterior. É muita coisa. É uma referência

Como você concilia a atividade acadêmica com a de curador, pesquisador e colecionador de fotos?
Há mais de 30 anos eu me interesso por tudo que gira em torno desse universo e criei o hábito de colecionar aquilo que encontro nos meus passeios pelas feirinhas de antiguidade de São Paulo, nas minhas viagens pelo Brasil e mundo afora. Eu costumo dizer que a história da fotografia é um imenso iceberg. A gente conhece só a pontinha, os artistas consagrados que o mainstream adotou. Mas eu tenho muito interesse também pelo trabalho de fotógrafos anônimos, venho me dedicando nos últimos anos a trazer à tona essa produção gigantesca, que está fadada ao esquecimento. É por isso que eu digo, citando o filme Um olhar a cada dia: sou um colecionador de olhares desaparecidos.

Marcos Vilas Boas

SEM SAIR DO TRILHO

Rubens Fernandes Junior não se tornou ferroviário, como seus pais desejavam, mas nunca se distanciou desse universo. Além de fotografias, ele coleciona memorabilia ferroviária. Portas, mesas, bancos, lanternas, maçaricos e bandeiras que pertenceram à Companhia Paulista de Estradas de Ferro, onde trabalharam seu pai e avô, estão espalhados pelo apartamento onde mora, na região da avenida Paulista. Os objetos foram arrematados em leilão por um conhecido da família, recomprados por Rubens e reformados por artesãos indicados por seu pai. “Sou apaixonado por esse mundo. Sempre viajo de trem pela Europa e, quando possível, aqui no Brasil também”, conta. “É uma conexão com minha história pessoal, com minha memória da infância. Tem uma coisa nostálgica, mas também muito potente. Isso me reenergiza.”

ÁLBUM DE FAMÍLIA

Imagem de Evandro Teixeira, que flagra a perseguição de policiais a estudantes no Rio de Janeiro de 1968 (Divulgação)

Ao longo da carreira de Rubens Fernandes Junior como crítico e curador, vários fotógrafos consagrados encomendaram textos de sua autoria. Em vez de dinheiro, Rubens, quase sempre, ganhava em troca uma fotografia para sua coleção pessoal. O “escambo” de palavras por imagem deu origem à exposição e ao livro Percursos e afetos. As fotos foram escolhidas menos por sua qualidade artística e mais por questões afetivas – e, de certa forma, ajudam a refazer a trajetória pessoal de Rubens. Uma foto do alemão Theodor Preising mostrando a São Paulo de 1940 traz um anúncio da marca de cigarros Yolanda, nome da mãe de Rubens. Outra, de Hildegard Rosenthal, registra um bar da Estação da Luz onde a família de Rubens tomava café da manhã em viagens entre o interior e o litoral. Já uma clássica imagem de Evandro Teixeira, que flagra a perseguição de policiais a estudantes no Rio de Janeiro de 1968, remete ao envolvimento de Rubens com centros acadêmicos que resistiram à ditadura.

VIVA O EFÊMERO

O interesse de Rubens pela fotografia não se resume à fotografia em si. Em suas expedições de pesquisador e colecionador, ele recolhe todo material que encontra ligado a esse universo: de folhetos dos estúdios a notas fiscais. Esses impressos foram reunidos no livro Papeis efêmeros da fotografia, que ganhou o Prêmio Funarte Marc Ferrez de 2014, um dos mais importantes do país. Seu objetivo foi dar visibilidade e relevância aos anônimos que fizeram a parte mais caudalosa e menos reconhecida da história da fotografia.