Laico, acadêmico e tecnológico, o mindfulness conseguiu traduzir para a lógica ocidental os segredos da meditação. A técnica virou tendência entre empresários e, de quebra, ainda impacta positivamente nos resultados financeiros

Controlar a própria mente parece tão impossível quanto poderoso. Os mistérios envolvendo as profundezas do cérebro humano passam por quase todas as dimensões de nossa existência: física, emocional e espiritual. Por séculos, a ideia de fechar os olhos, controlar a respiração e tentar investigar silenciosamente os cantos obscuros da mente – ou seja, meditar – foi atrelada a misticismos, filosofia e religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo.

Apesar dos estereótipos e preconceitos que sempre rondaram a prática, não é de hoje que o Ocidente se interessa pela meditação e seus efeitos. Uma técnica em especial conseguiu conectar com eficácia a sabedoria milenar do outro lado do mundo ao lifestyle ocidental: o mindfulness. Criada em 1979 pelo norte-americano Jon Kabat-Zinn, a prática surgiu no Centro Médico da Universidade do Massachusetts como um tratamento alternativo para dor e trouxe caráter científico e acadêmico para a meditação, se afastando das interpretações espirituais.

Hoje, passa a ser cada vez mais frequente ver a meditação sendo abordada em estudos científicos, campo em que deixou de ser vista como mito. “Nos últimos cinco anos, essas pesquisas ganharam uma nova dimensão, muito mais séria. Há 15 anos, quando comecei a estudar o tema no Hospital das Clínicas de São Paulo, a meditação era vista como esotérica. Hoje, temos muito mais credibilidade”, diz Rodrigo Yacubian Fernandes, médico membro do Núcleo de Cuidados Integrativos do hospital Sírio Libanês.

Há 15 anos, quando comecei a estudar o tema no Hospital das Clínicas de São Paulo, a meditação era vista coma esotérica. Hoje, temos muito mais credibilidade – Rodrigo Yacubian Fernandes, médico membro do núcleo de cuidados integrativos do Sírio Libanês

“Para um ocidental, é muito importante a comprovação científica. Hoje já existem mais de 5 mil estudos publicados sobre mindfulness, provando que as consequências da técnica não são só comportamentais, são também fisiológicas e cerebrais”, explica Moira Malzoni, professora de mindfulness filiada à Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e fundadora do programa Moved by Mindfulness, em que dá aulas da técnica em São Paulo.

O curso usa a meditação como base para exercitar a capacidade de fixar a mente no momento presente, ampliando a perspectiva da realidade e desenvolvendo o chamado estado de atenção plena. Sem divindades, sem mestres, sem gurus. O mindfulness provou que mergulhar nas dimensões mais profundas da meditação, como a espiritual, não é o único caminho para explorar suas vantagens.

O turbilhão

Cristiana Boyadjian Anjos é CEO da Leilão VIP, plataforma on-line de leilão de imóveis, e comanda 80 funcionários. “Na minha sala, entram pessoas o dia inteiro me fazendo perguntas, querendo soluções para problemas. Antes, acontecia de alguém falar comigo e eu nem olhar para a pessoa, continuar lendo um e-mail, achando que estava conseguindo fazer tudo ao mesmo tempo. Mas não estava. E isso mudou demais”, conta. A transformação se deu há cerca de três anos, quando Cristiana encontrou caminhos para treinar sua mente.

“A comprovação científica do mindfulness me atraiu muito. Percebi rapidamente os benefícios. Fui aprendendo a me observar. Quando fico nervosa e sinto que perdi o controle das minhas emoções, consigo me acalmar, limpar aquele turbilhão. Hoje, tenho mais empatia”, explica. E alguns dos motivos dessa mudança já foram desvendados pelas pesquisas: as técnicas de meditação estimulam o sistema nervoso autônomo parassimpático, que traz sensações de relaxamento e tranquilidade, em contraponto ao sistema simpático, que ativa o mecanismo conhecido como luta e fuga, que, apesar de ser importante para nossa sobrevivência, acaba aumentando o nível de estresse em situações rotineiras.

A comprovação científica do mindfulness me atraiu muito. Percebi rapidamente os benefícios. Fui aprendendo a me observar. Quando fico nervosa e sinto que perdi o controle das minhas emoções, consigo me acalmar. Hoje, tenho mais empatia – Cristiana Boyadjian Anjos, CEO da Leilão VIP

As propriedades do mindfulness têm um encaixe muito grande com o universo corporativo. Trabalhar exige, para além dos conhecimentos técnicos, diversas habilidades emocionais e de autoconhecimento que podem ser alcançadas por meio da técnica. “De três anos para cá, a busca por programas de mindfulness para empresas aumentou significativamente. É um trabalho muito efetivo porque, com o treino, a pessoa consegue parar de pensar compulsivamente. Esse é o maior vício de todo mundo. Quando você pensa muito, encobre questões emocionais e entra em um looping que te impede de ser racional. Ser racional é conhecer seus sentimentos e optar pelos que vão te ajudar no que você está buscando. Isso não tem a ver com pensar o tempo inteiro”, diz Eduardo Farah, fundador da Invok, consultoria que oferece treinamentos de mindfulness para empresas e já trabalhou com marcas como Renner, Twitter e SulAmérica Seguros.

Autogentileza

Em 2016, o gestor Pedro Somma era diretor de operações da 99, empresa que conecta motoristas e passageiros, quando percebeu que não estava mais conseguindo controlar sua ansiedade. Era o auge da briga entre motoristas da Uber e taxistas e ele se sentia despreparado para lidar com o estresse e a angústia que emanavam do trabalho. “Resolvi buscar meditações e conheci primeiro a transcendental, que é muito baseada em repetições de mantras. Eu achava repetitivo e exaustivo, tive bastante dificuldade de me adaptar a esse modelo. Tudo me irritava. Um tempo depois, já em 2017, fiz um curso de mindfulness. Os exercícios de percepção e de contato com o corpo me trouxeram uma noção de autogentileza que fez com que eu conseguisse não me cobrar tanto.” Hoje, Pedro está envolvido no desenvolvimento de uma nova startup de mobilidade e lida com as incertezas de um um negócio embrionário. “O mindfulness é uma ferramenta importante para que eu consiga reduzir a pressão. Percebo com mais clareza o que é de fato urgente e assim trabalho melhor”, conta.

Aprofundar o contato de lideranças empresariais com o mindfulness é o objetivo da coach de desenvolvimento humano Renata Rocha. Ex-aluna do curso de Direito da FAAP, desde 2014 ela promove viagens aos Estados Unidos viagens em que coloca empresários em contato direto com exemplos de negócios que se beneficiam da técnica. Os roteiros passam por lugares icônicos no assunto, como o escritório do Google, empresa referência no uso de mindfulness, e as salas do MIT (Massachusetts Institute of Technology), onde o próprio Jon Kabat- Zinn já recebeu o grupo. “Foi comprovado que a cada US$ 1 investido em programas de mindfulness em empresas, retornam US$ 4. As pessoas produzem mais, ficam mais focadas e mais motivadas”, explica Renata.

Imagina juntos

Em 2016, Manuella Curti, diretora-geral do Grupo Europa, fabricante de purificadores de água, implementou na empresa um programa de mindfulness voltado para os distribuidores de seus produtos. “Quando avalio os indicadores de performance dos 25 parceiros que participaram, vejo que pelo menos 50% deles tiveram aumento de produtividade. E em 100% dos casos a relação entre distribuidor e fábrica melhorou demais. Existia um ambiente muito competitivo e predatório entre os distribuidores. E o que eu queria era gerar um sentimento de cooperação e colaboração. Não é uma coisa simples, mas esse treinamento contribuiu radicalmente”, avalia.

Lidar com a subjetividade do outro é um dos maiores desafios de uma empresa. Somos todos cheios de medos, inseguranças e vaidades e nem sempre temos consciência disso. A situação é ainda mais delicada quando o sucesso do negócio depende do contato direto com o público consumidor. Marcela Monteiro trabalha há quatros anos atendendo os clientes da Padoca do Maní, padaria do premiado restaurante Maní, em São Paulo, e sentia na pele a dificuldade de lidar diariamente com o entra e sai de pessoas dos mais diferentes perfis. “É estressante porque existem clientes que me tratam mal e eu ficava péssima quando pegava essa energia ruim para mim”, lembra. A relação dela com o trabalho foi revolucionada exatamente pelo contato com um dos clientes da padoca.

Ex-aluno do curso de cinema da FAAP, Marcelo Maia mora na vizinhança e quase todos os dias senta ali para um café. Ao lado de Moira Malzoni, ele é fundador do programa Moved by Mindfulness e tem a meditação como um dos pilares de sua saúde emocional. Conversando com funcionárias da Padoca, como Marcela, ele sacou que existia ali um enorme potencial de transformação por meio da técnica. De forma voluntária, conduziu algumas meditações guiadas e ensinou os preceitos do mindfulness para as atendentes da padaria. “Ele fez vários exercícios de atenção plena que me ajudaram muito. Com respiração e concentração, consegui aprender a não transformar um problema pequeno em gigantesco”, conta Marcela.

A história chegou rapidamente aos ouvidos de Giovana Baggio, sócia da rede Maní. “Ela me convidou para levar a técnica para os outros negócios dela, os restaurantes Maní e Manioca. Há seis meses, começamos a fazer encontros semanais com os funcionários e os resultados têm sido muito legais”, conta Marcelo. “A cozinha é um ambiente estressante, de muita correria, então esse tipo de treinamento ajuda muito. Com duas semanas de prática, já deu para perceber a diferença clara no foco das pessoas”, conta Giovana, que emprega 200 colaboradores.

O contato com Marcelo despertou em Giovana a sacada de que o mindfulness poderia ser funcional dentro de seu ambiente de trabalho, mas, antes disso, ela já tinha entendido que a meditação e a atenção plena eram úteis em sua rotina. “Medito todo dia pela manhã, cerca de 20 minutos. Mas sempre tive dificuldade, sou muito acelerada. Encontrei um caminho com o aplicativo Headspace, que acho genial.”

Medito todo dia pela manhã, cerca de 20 minutos. Mas sempre tive dificuldade, sou muito acelerada. Encontrei um caminho com o aplicativo Headspace, que acho genial – Giovana Baggio, sócia da rede Maní

A integração entre tecnologia e meditação é um dos trunfos do sucesso do mindfulness no Ocidente e, consequentemente, em ambientes corporativos. O aplicativo Headspace, o preferido de Giovana, é um fenômeno mundial e já foi baixado por mais de 16 milhões de usuários. A ideia de meditar por meio de um smartphone não poderia ser mais conectada à filosofia mindfulness. Fundado pelo ex-monge budista inglês Andy Puddicombe e distante de qualquer interpretação religiosa, o app se vende como uma “academia da mente” e explicita que meditar pode, sim, ser parte da rotina de qualquer pessoa, e não só da de monges budistas.

O Headspace fatura 50 milhões de dólares ao ano e é avaliado em 250 milhões de dólares. O boom do mindfulness já gerou dezenas de outros aplicativos semelhantes, todos voltados para versões ocidentalizadas da meditação [box na pág. ao lado]. A ideia de hackear a mente em busca de melhores performances alimenta uma indústria “Medito todo dia pela manhã, cerca de 20 minutos. Mas sempre tive dificuldade, sou muito acelerada. Encontrei um caminho com o aplicativo Headspace, que acho genial” Giovana baggio, sócia da rede maní bastante lucrativa. No livro “Roubando o fogo: a ciência por trás dos super-humanos”, o premiado autor americano Steven Kotler calcula que a tendência movimente 4 trilhões de dólares, distribuídos nas áreas farmacêutica, tecnológica, biológica e psicológica.

No Vale do Silício, o berço das principais empresas de tecnologia do planeta, na Califórnia, já é raro encontrar escritórios que não ofereçam caminhos para que seus funcionários expandam um tanto a consciência em busca de melhores resultados. O CEO do Twitter, Jack Dorsey, e o co-fundador do Google, Sergey Brin, são dois conhecidos meditadores e disseminadores da prática.

Agora que as empresas – e a ciência – recomendam a experiência, parece que, finalmente, os ocidentais estão meditando mais. Aumentar os lucros, a performance ou a qualidade das relações interpessoais no trabalho podem ser as motivações principais para a disseminação do mindfulness em ambientes corporativos, mas estão longe de ser as únicas consequências. Aproximar-se de você mesmo pode ser muito mais revolucionário do que parece à primeira vista.