Quando João Doria Jr era garoto, sua família passou por dificuldades e ele teve que ajudar no sustento de casa, longe do pai exilado. De lá para cá, desenvolveu uma rede de relacionamentos fabulosa e um império de marketing. Tudo graças à sua maior habilidade: atrair as personalidades mais influentes do país

No retrato em branco e preto, ele está ao lado de Tom Jobim. Em outra foto, colorida, abraça a cantora Claudia Leitte. Em uma terceira, parece ouvir atentamente o ator Christopher Lambert, astro da série Highlander, sucesso nos anos 1980. Em outra, ainda, está sorrindo para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. As paredes da ampla sala de reuniões do Grupo Doria, no 11º andar de um endereço nobre em São Paulo, atestam a principal habilidade de seu ocupante: os relacionamentos. Formado em Comunicação pela FAAP, com especialização em Jornalismo, João Doria Jr., 58, está há 20 anos à frente do programa de entrevistas Show Business, exibido aos sábados na Rede Bandeirantes. Por sua bancada já passaram cerca de 4.800 entrevistados de todos os matizes políticos e setores da vida sociocultural brasileira, e outros tantos virão, agora que começou a apresentar outro programa, Face a face, também de entrevistas, na mesma emissora.

Mas a televisão é só o aspecto mais visível do seu sucesso. Ele é presidente do Grupo Doria, de comunicação e marketing, fundado por ele em 1992 e formado por seis empresas, entre elas o Lide (Grupo de Líderes Empresariais), responsável por fóruns e seminários que reúnem os mais destacados líderes empresariais do país. Para se ter uma ideia do alcance de sua rede de relacionamentos, em abril do ano passado, já com a atual crise brasileira mostrando suas garras, Doria reuniu cinco ex-presidentes de países latino-americanos na ilha baiana de Comandatuba. Os ex-chefes de Estado – entre os quais Luis Alberto Lacalle, que governou o Uruguai entre 1990 e 1995, Vicente Fox, presidente do México entre 2000 e 2006 – e Fernando Henrique Cardoso estavam lá para debater o papel dos líderes no desenvolvimento econômico e social na América Latina. O Lide, criado há 14 anos, reúne 1.700 empresas, que respondem por 52% do PIB privado brasileiro, segundo a assessoria do grupo. Recentemente, promoveu um almoço-debate para 586 empresários com o juiz Sérgio Moro, de Curitiba, responsável pelas ações da Operação Lava-Jato. Afinal, como João Doria Jr. consegue unir tantos nomes importantes do cenário brasileiro em seus eventos? “Pelas boas causas”, responde ele. “Eu gosto de aproximar as pessoas, e nossos encontros agregam personalidades com pensamentos distintos sem fechar o diálogo. Lá elas confraternizam e encontram terreno fértil para o debate de causas importantes para o Brasil.”

O sucesso do joão não se deve à sorte nem a coincidências: são muitas horas de trabalho – Julio Serson, diretor-presidente do Grupo Serson

Que fique claro: novamente, é de relacionamentos que se trata, e nesse quesito Doria parece insuperável. “Quando ele está conversando com você, parece que tem todo o tempo do mundo”, observa o amigo e ex-sócio Luiz Lara, publicitário, chairman do grupo Lew’Lara/TBWA. Lara e Doria conheceram-se na adolescência, no Colégio Rio Branco, onde estudavam, e mantêm laços estreitos até hoje. “Em seus eventos, João entrega três valores que as pessoas sempre procuram: acolhimento, pertencimento e reconhecimento. Lá tem vida inteligente, boa conversa com pares, oportunidade de se atualizar sobre a situação de outros segmentos e de fazer network. Além disso, todos sabem que o concorrente estará lá, e ninguém quer ficar de fora.” Entre as lideranças que atrai para seus eventos, muitos amigos da época de FAAP, entre eles o executivo Paulo Nigro, atual presidente do laboratório farmacêutico Aché, e a atriz e cineasta Bruna Lombardi. “A FAAP foi muito importante na minha trajetória”, afirma Doria. “Sempre fui muito atento e respeitei profundamente os professores – tanto que, antes mesmo de eu terminar o curso, o então diretor do curso de Comunicação me convidou a dar aulas no ano seguinte.” João aceitou e, com pouco mais de 20 anos, tornou-se professor de Técnicas de Mercadologia.

MUITO CEDO

Os percursos pessoal e profissional de João Doria Jr. são marcados pela precocidade. Até os 6 anos, teve uma vida confortável. Seu pai, João Doria, publicitário festejado e visionário, elegera-se deputado federal pelo Partido Democrata Cristão; vivia com a mulher, Maria Sylvia, e os dois filhos, João Jr. e Raul, em um casarão no bairro do Pacaembu. Cassado logo após o golpe de 1964, exilou-se com a família em Paris. “Dois anos depois acabou o dinheiro”, conta João Doria Jr. “Meu pai estava banido do Brasil por dez anos, mas minha mãe, meu irmão e eu tivemos que voltar e lutar para sobreviver sem ele.” Com medo dos riscos políticos, poucos amigos do passado dispuseram-se a ajudar a família empobrecida e recém-chegada do exílio. Maria Sylvia e os filhos instalaram-se em um pequeno apartamento. “Minha mãe, que tinha sido preparada apenas para ser dona de casa e ter filhos, foi trabalhar. Empenhou as poucas joias que haviam sobrado e montou uma fábrica de cueiros [tecido de flanela usado para enrolar recém-nascidos] numa garagem alugada. Foi assim que nos sustentamos por muitos anos”, lembra João.

Em seus eventos, joão entrega três valores que as pessoas sempre procuram: acolhimento, pertencimento e reconhecimento – Luiz Lara, publicitário

Foram tempos difíceis, de luz cortada e pouca comida à mesa. Os filhos trocaram o Colégio Rio Branco pela escola pública. João começou a trabalhar aos 13 anos para ajudar no orçamento doméstico. Seu primeiro emprego foi na agência Standard, Ogilvy. Lá, encaixava slides no carrossel de projeção para apresentações, emendava filmes de comerciais de TV e organizava o arquivo. “Eu precisava do emprego, e sentia uma grande alegria”, conta.

Arquivo Pessoal

A volta do pai do exílio, em 1974, coincidiu com a morte da mãe, aos 36 anos, vítima de uma pneumonia não diagnosticada a tempo. “Eles eram apaixonados e tinham ficado oito anos separados, apenas trocando cartas e fotos. Quando finalmente se reencontraram, passaram apenas três meses e minha mãe faleceu. Foi muito sofrimento, mas isso me moldou e me ensinou a perseverança.” Graças aos contatos do pai, falecido em 2000, ingressou na TV Tupi e rapidamente tornou-se diretor de Comunicação. Da Tupi transferiu-se para a Rede Bandeirantes. A essa altura, já estudava Comunicação na FAAP, bancando o próprio curso. Formou-se e acumulou o trabalho na emissora com a carreira de professor na faculdade.

Mas a experiência acadêmica foi breve. Dois anos depois, Doria deixou a FAAP para, a convite do então prefeito de São Paulo, Mario Covas, assumir a Secretaria de Turismo da cidade, a hoje extinta Paulistur. Tinha 26 anos. “Sempre me impressionou a forma segura e firme com que o João se relacionava com autoridades, mesmo sendo tão jovem”, conta o empresário Julio Serson, diretor-presidente do Grupo Serson, que administra a rede de hotéis Vila Rica. “João sempre teve ojeriza ao fumo, e, de forma gentil, vivia pedindo ao prefeito Covas para apagar o cigarro.”

João Dória Jr. e Pelé (Arquivo Pessoal)

Doria tinha, também, um fôlego imenso para inovar. “Criou eventos como a Praça Doce e a Rua do Choro, oficializou as ruas de lazer na cidade e lançou o Passaporte São Paulo, um programa muito inteligente para ocupar a rede hoteleira da cidade nos fins de semana oferecendo descontos em hospedagem, atrações e restaurantes”, recorda Luiz Lara, que assessorou João Doria Jr. no setor de marketing da Paulistur. A boa gestão à frente do turismo de São Paulo rendeu a Doria um convite para assumir a presidência da Embratur Empresa Brasileira de Turismo), no governo do presidente José Sarney. Tinha então 29 anos. “Deixei o cargo em 1988 com muita vontade de me lançar na iniciativa privada depois de ter sido um bom gestor público”, afirma ele.

JORNADAS DE 18 HORAS

A vida empresarial começou com uma agência de promoções e publicidade, a DLS, iniciais dos três sócios – o próprio Doria, Luiz Lara e Stalimir Vieira. “Tínhamos dois clientes e uma casa na avenida Rebouças. Foi tudo muito rápido, e cá estou”, resume ele. Hoje, o Grupo Doria promove cerca de 180 eventos por ano, que vão desde almoços e seminários até o célebre fórum de três dias na Ilha de Comandatuba, considerado “o maior encontro empresarial do Brasil”. Exigente e minucioso, Doria faz a última vistoria em todos os eventos organizados por sua equipe – até hoje. “Se tiver alguma coisa fora do lugar, ele vê. Mais do que isso: corrige pessoalmente. Não manda ninguém fazer”, conta Maria Fernanda Lima, coordenadora de produção e ex-integrante do programa O aprendiz 8, que Doria apresentou por dois anos na TV Record.

João tem esta capacidade: faz a gente se sentir melhor do que realmente é – Sônia Hess, presidente do Lide Mulher

Para dar conta de tantos eventos, o empresário cumpre jornadas de 18 horas diárias. Sua capacidade de trabalho é lendária entre os amigos. “Ele deixa recado no celular dizendo que podemos retornar a ligação até meia-noite”, diverte-se Luiz Lara. “O sucesso do João não se deve à sorte nem a coincidências: são muitas horas de trabalho”, observa Julio Serson. Não raro, chega à sede do grupo às 7 e meia da manhã e apaga as luzes à 1 da madrugada. Dorme pouco e reconhece que tem um “déficit familiar” – convive menos do que gostaria com a mulher, Bia, artista plástica, e com os filhos, João Doria Neto, o Johnny, 21 anos, Felipe, 15, e Carolina, 13. “O João dedica muitas horas ao trabalho, mas eu me acostumei com essa rotina”, diz Bia, que o conheceu na época da Embratur e se encantou com “a inteligência e a incrível capacidade de realização” de Doria. “Apesar de termos pouco tempo juntos, conseguimos fazer com que seja proveitoso”, afirma. Este ano, o tal déficit familiar deve diminuir em relação a Johnny, que inicia o oitavo semestre de Administração na FAAP – o primogênito está assumindo o setor de mídias digitais no grupo. Folga, mesmo, só para jogar futebol e para as orações e a meditação. “A oração para o coração, e a meditação para a mente.”

AS LEIS DO SUCESSO, POR JOÃO DORIA

Kiko Ferrite

1_ Acredite no seu projeto. Se você não tem confiança no que pretende, como espera que outros acreditem?

2_ Tenha foco e determinação para escolher seu caminho, e não se afaste dele. Não tente abraçar o mundo: escolha a área em que você pode ser o melhor ou estar entre os melhores.

3_ Cultive a disciplina. Você até pode ter sucesso sem ser disciplinado, mas corre o risco de perdê-lo mais adiante por falta de autocontrole.

4_ Seja um bom observador das circunstâncias. Entenda-as para saber a hora de recuar ou de avançar; de se posicionar ou se calar.

5_ Pratique a perseverança. Toda pessoa vitoriosa é perseverante. Não se deixe abater pelo que não deu certo. Levante a cabeça e prossiga.

6_ Seja humilde. Quem não tem humildade para aprender com o outro será sempre um falso líder, um falso vencedor.