Em um momento histórico, com a indicação de um desenho brasileiro ao Oscar, a FAAP lança bacharelado em animação para formar profissionais para diversas plataformas e em várias especialidades

O timing foi perfeito. A FAAP havia acabado de criar, com sucesso, suas primeiras turmas do curso de Animação, em dezembro do ano passado. Mas os pais dos alunos estavam apreensivos com o futuro profissional de seus filhos. Será que eles vão encontrar um emprego? Será que eles vão conseguir ser remunerados por seu talento? Essas eram algumas das perguntas que eles faziam à coordenação do curso de Comunicação e Marketing. E então, no dia 14 de janeiro, veio a notícia: O menino e o mundo concorre ao Oscar de melhor animação – o mais vistoso reconhecimento dado a um desenho brasileiro na história. “Foi um argumento definitivo. Os pais perceberam que seus filhos estavam entrando no momento certo em uma área com grandes perspectivas”, afirma Eliseu Lopes Filho, coordenador do curso de Animação. “Não poderia haver conjunção astrológica melhor”, brinca.

A criação do curso de Animação é uma luta de dez anos da FAAP. O Ministério da Educação respondeu às primeiras demandas da faculdade recomendando um curso técnico ou sequencial de dois anos. Mas a Fundação insistiu em um bacharelado de quatro anos. “Nós não queríamos só produzir mão de obra. Queremos formar artistas, pensadores, escritores e também técnicos, em um curso abrangente e aprofundado”, afirma Eliseu. Em dezembro passado, finalmente, o curso foi autorizado e se tornou triplamente pioneiro: primeiro bacharelado em Animação do estado de São Paulo, primeiro de uma faculdade privada no Brasil, primeiro aprovado pelo MEC (os dois outros bacharelados na área são oferecidos por universidades federais – em Belo Horizonte e Pelotas – que não precisam da autorização do ministério).

Para Eliseu, a demanda pelo curso tem tudo a ver com o bom momento da animação brasileira – que vai muito além da indicação de O menino e o mundo ao Oscar. Passa pelo crescimento do Festival Anima Mundi (que exibiu 108 desenhos brasileiros em 2016); pelo sucesso de Carlos Saldanha (Era do gelo, Rio) em Hollywood; por três premiações seguidas (Uma história de amor e fúria, O menino e o mundo e o curta Guida) no festival francês de Annecy, o mais importante da área; e pelas 30 séries infantis desenvolvidas recentemente para a TV, algumas com repercussão internacional, como Peixonauta e O show da Luna!.

Turma do novo curso de Animação, na Oficina de Modelagem de Argila

Cerca de 80% da animação produzida no Brasil vem de São Paulo. “Fazia todo sentido criar o primeiro bacharelado da área no estado”, diz Eliseu. “Em meados dos anos 90, fui chamado para criar uma série de animação para a TV, mas não consegui formar a equipe nem para o piloto. Desde aquela época ficou claro que precisávamos formar jovens animadores. Com o crescimento do mercado, essa tarefa se tornou urgente”, afirma.

O coordenador conta que o curso formará animadores para várias plataformas (não só cinema e TV, mas também games e publicidade, entre outros) e em diversas especialidades – do desenho à mão ao digital, do stop motion ao que ele chama de “técnica exclusiva”, desenvolvida individualmente pelo aluno, com a liberdade artística que a animação proporciona. Já no primeiro mês de curso, os alunos das três primeiras turmas tiveram aulas de segurança para trabalharem nos laboratórios de madeira, metal e argila.

Para Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing, o bacharelado de Animação vai se aproveitar do conhecimento acumulado em outras áreas da FAAP, da Engenharia às Artes Plásticas, e combinar disciplinas e tecnologias específicas com a forte base humanística e teórica pela qual a FACOM se notabiliza. “No primeiro mês de aula, deu para perceber que as turmas de Animação têm características próprias, como um repertório forte em áreas como séries de TV, quadrinhos e games. Na apresentação da faculdade aos novos alunos, eles já estavam muito unidos e, com o perdão do trocadilho, muito animados. Acho que eles vão ajudar a arejar a FACOM.”

Luciana Rodrigues, que dá aulas de Argumento em Cinema e de Criação de Histórias em Animação, enxergou outro diferencial nos novos alunos: “Eles se sentem responsáveis pela criação do curso, querem ajudar a construí-lo desde o princípio ao lado dos professores, coordenadores e da instituição”. Ela diz que a expertise desenvolvida nas aulas de animação dentro do curso de Cinema também serão fundamentais para a construção do novo bacharelado. “Nos últimos anos, muitos alunos de Cinema brilharam com TCCs de animação”, conta.

Um deles é Caya Ryuchi, que realizou como TCC o curta-metragem O coração de príncipe, ganhador dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Direção de arte no Festival de Gramado, em 2014. Ela diz que o apoio da Fundação foi fundamental para a realização e o alcance do filme e deu alguns conselhos para os jovens alunos de animação: “Use o máximo da sua imaginação em cada trabalho e mantenha sua mente aberta para aprender novas técnicas. Elas vão te ajudar muito. Jamais desista, mesmo quando você estiver noites sem dormir, pois o produto final vai valer a pena”. Hoje, Caya estuda Animação no Seneca College, de Toronto (Canadá), uma das escolas mais prestigiadas da área na América do Norte, e sonha com o dia que irá conseguir aquilo que escapou por pouco a O menino e o mundo: “Meu objetivo é trabalhar em um dos grandes estúdios no futuro e, quem sabe, ganhar o Oscar”.

O professor Eliseu Lopes Filho, coordenador do novo curso da FAAP

SAIBA MAIS SOBRE QUEM ESTÁ POR TRÁS DESTE NOVO CURSO

O primeiro bacharelado de Animação de São Paulo e de uma faculdade privada no Brasil é uma vitória coletiva da FAAP. Mas todos os envolvidos reconhecem que Eliseu Lopes Filho foi um nome essencial nessa conquista. “Sem ele, esse curso não existiria”, afirma a professora Luciana Rodrigues. “Ninguém na Fundação entende tanto do assunto. Ele é completamente apaixonado por animação”, completa Rubens Fernandes Junior, diretor da FACOM.

Eliseu formou-se em Cinema na FAAP em 1982, com o desejo de trabalhar com 
efeitos especiais – paixão despertada pelo primeiro Star Wars (1977). Nos anos seguintes, tornou-se produtor, diretor e montador de animações para publicidade, com centenas de comerciais para grandes marcas, e professor na instituição.

No ano de 2000, seguindo um conselho do poeta e professor Décio Pignatari, decidiu deixar a produtora e dedicar-se somente ao ensino, como professor de Animação do curso de Cinema – função que manteve neste ano, mesmo depois de assumir a coordenação do novo bacharelado. “A criação do curso de Animação da FAAP é a realização de um sonho e será meu grande legado.”