Em sua 50ª edição, a Anual de Arte FAAP, que se tornou um dos eventos mais longevos do circuito artístico paulistano, mantém como tradição revelar artistas

Durante alguns dias do mês de setembro de 2018, várias das salas de um dos prédios da Fundação Armando Álvares Penteado foi aos poucos preenchendo seu espaço vazio com dezenas de obras de arte. Esse acontecimento, que faz parte das inscrições para a Anual de Arte FAAP e possibilitou a triagem, entre 113 peças e projetos, de 33 trabalhos que foram expostos no Salão Cultural do Museu de Arte Brasileira, aconteceu ano passado pela 50a vez.

A primeira edição da mostra ocorreu em 1964, antes mesmo da existência da Faculdade de Artes Plásticas, criada em 1967. Sua origem se deu associada com o curso de formação de professores de desenho e, antes de se tornar um dos eventos mais tradicionais no circuito de arte paulistano, sendo citado por veículos como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo como “manancial de novos nomes”, esteve marcada por um olhar mais acadêmico. “Os alunos participavam com trabalhos formatados, ainda eram acanhados do ponto de vista da expressão e invenção artísticas”, diz Carmela Gross, artista que frequentou a Fundação entre 1964 e 1969. “Mas logo depois a faculdade se ampliou e a Anual passou a outro patamar – os estudantes a usavam quase como um trampolim para serem vistos e os galeristas passavam por lá para ver quais seriam os novos talentos”, conta. A dinâmica que Carmela narra foi o que aconteceu, de certo modo, com a artista Ana Mazzei. Ela lembra a época que expôs na Anual como a primeira vez que teve seu trabalho citado por um colunista da Folha. “Foi muito importante porque percebi que se alguém havia comentado, era porque eu tinha algo a dizer”, explica Ana. “A Anual é como um debut, um início dentro do sistema de arte.”

Foto da artista plástica Marcela Tiboni, na vitrine de “processo” da mostra referente aos 10 anos do Programa de residência artística da FAAP, na Cité des Arts, e que integrou a edição comemorativa das 40 edições da Anual de Arte

A Anual era tudo, um reconhecimento mesmo, sinal de que se estava no caminho certo. Foi também a primeira vez que pus uma peça no museu. Significou muito para mim – Humberto Campana, designer

Nomes que hoje são referência no cenário da arte contemporânea, como Rodolpho Parigi, Marcelo Cidade, Lia Chaia, Rodrigo Sassi e Regina Parra, expuseram seus trabalhos, ainda como estudantes, no Salão Cultural do MAB-FAAP. Antes deles, também, quando a mostra não era restrita apenas às artes visuais, rumo que imprimiu em 1999, artistas importantes de outras áreas, como a atriz e figurinista Mira Haar e o designer Humberto Campana, tiveram passagem por ali. “Expus um biombo lindo que demorei quase seis meses para concluir”, lembra Campana. “A Anual era tudo, um reconhecimento mesmo, sinal de que se estava no caminho certo. Foi também a primeira vez que pus uma peça no museu. Significou muito para mim.”

Detalhe da vitrine de “processo” da mostra referente aos 10 anos do Programa de residência artística da FAAP, na Cité des Arts, e que integrou a edição comemorativa das 40 edições da Anual de Arte. Trabalho de Marco di Giorgi, o primeiro artista a participar do Programa 281

Para além da exposição, a Anual promove o diálogo entre os estudantes e seus pares, e com os profissionais do circuito como um todo, já que encontros com a comissão de seleção e de premiação – e também com artistas convidados – acontecem todos os anos. Nessas rodas de conversa, por exemplo, já estiveram os curadores Aracy Amaral e Adriano Pedrosa e artistas que vão de veteranos, como Luiz Paulo Baravelli e Regina Silveira, a expoentes mais jovens, caso de Anaisa Franco e Flavia Junqueira. Em um desses encontros, por exemplo, a fala da mineira Rivane Neuenschwander impactou a estudante Carolina Wan até hoje: “Ela disse que trabalharia bastante para poder dar aos filhos a oportunidade de conhecer arte, pensar arte, e fazer com ela suas próprias associações”.

Desenhos, de Carmela Gross, artista homenageada na 30ª Anual de Arte FAAP, em 1998

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O retorno

A artista plástica Flavia Junqueira conta sobre a residência artística ca Cité des Arts e a volta para a Anual de Arte FAAP

Obra da artista convidada Flávia Junqueira, “Le chemin parcouru avant de te rencontrer”: 23 colagens e montagens (fotografia, textos e impressões) emolduradas no mapa da cidade de Paris, na Anual de Arte FAAP 2011

Depois de duas tentativas frustradas, a artista Flavia Junqueira foi selecionada para participar da Anual de Arte FAAP com a série de fotografias Na Companhia dos objetos. Naquele ano, também, vendeu uma obra sua pela primeira vez. “Lembro que não sabia nem como dar preço, mas foi muito importante para mim porque foram minhas primeiras experiências fora do contexto de aluna. Pude conversar com curadores, críticos e colecionadores que atuavam de fato no mercado”, explica. Três anos depois, em 2011, já formada pela FAAP, Flavia expôs novamente na Anual como artista convidada, depois de ter participado da Programa residência artística da FAAP na Cité des Arts. O convênio, que é mantido pela Fundação desde 1997, já enviou para a capital francesa artistas como Dora Longo Bahia, Sandra Cinto e Thiago Honório. E, todos os anos, aqueles que retornam de Paris expõem o que desenvolveram durante o período de seis meses em que estiverem na França. Para Flavia, essa experiência de retorno, mesmo após formada, foi agregadora: “Aprendi muito. Ficamos horas dentro do museu pensando qual seria a melhor maneira de montagem, um processo de que não participei com os meus trabalhos anteriores”, lembra. Foi um momento diferente das primeiras anuais, quando você quer que a porta abra para sair correndo e ver como seu trabalho está montado e se você ganhou o prêmio ou não”, conta. Após cada exposição, ainda, uma das obras expostas por cada um dos dois artistas convidados é doada ao MAB-FAAP. “Foi a forma que encontramos de formar um acervo de arte contemporânea dentro de um museu que é fundamentalmente de arte moderna”, explica Marcos Moraes. “Assim fechamos um ciclo que interliga o Programa, o museu e a faculdade.”