No ano em que o primeiro coworking do mundo completa sua primeira década, mais de 200 espaços movimentam a economia do Brasil com um modelo de trabalho colaborativo que compartilha espaços, ideias, sucesso e diversão

No lounge da Link2U, espaço de coworking na avenida Paulista, dois cartazes dão boas-vindas aos recém-chegados. Lê-se, em inglês, os dizeres “odeio divisórias de escritórios” e “trabalhar em casa é uma droga”. É muito provável que a pessoa que está por lá tenha escolhido aquele lugar por uma dessas razões. E por vários outros motivos que transcendem a ideia de meramente dividir um espaço físico em comum com profissionais de diferentes ramos.

Coworking é, na prática, muito mais do que compartilhamento de um espaço de trabalho. A ideia é reunir pessoas de diversas áreas em um escritório coletivo, com ambiente colaborativo, em que o resultado da interação entre essas pessoas incentive a geração de negócios e inspire novas ideias. Essa forma de trabalho, apesar de parecer nova, começou a despontar no início dos anos 90, com a preocupação em democratizar espaços de trabalho. Berlim sediou o primeiro hackerspace do mundo, um espaço que dava acesso gratuito à rede wi-fi. Em 1999, o designer de games e especialista em desenvolvimento de tecnologias de trabalho colaborativo Bernie de Koven, hoje com 73 anos, criou o termo coworking e, seis anos depois, surgia nos EUA a primeira estação de trabalho nesse formato. “Minhas pesquisas mostravam que pessoas de diferentes áreas e empresas, quando trabalhando no mesmo ambiente, eram mais produtivas”, diz o teórico, que atualmente lidera o Coworking Institute, nos EUA. Eric Messa, coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, complementa: “É um espaço que tem potencial para promover a inovação, pois incentiva o pensamento multidisciplinar e subverte o fluxo tradicional de trabalho”.

A interação entre os coworkers acontece de diferentes formas. Alguns escritórios desenvolvem redes sociais próprias para apresentar os coworkers uns aos outros e, assim, facilitar a troca de ideias entre eles – e a geração de novos negócios. O Impact Hub – primeiro coworking a surgir no Brasil, em 2007, uma franquia da empresa londrina que leva o mesmo nome – tem uma rede de contatos, por exemplo, que conecta seus membros a mais de 7 mil pessoas em 85 cidades do mundo. Menos organizados – e mais espontâneos –, os bate-papos na hora do café também se prestam a isso. “Alguns negócios surgiram de encontros no lanche da tarde, onde são servidos pipoca e gelatina para o pessoal”, explica Natália Ribeiro, 21 anos, que administra o coworking Plug de Pinheiros.

Além de negócios, acordos e permutas entre membros também acontecem com frequência nesses espaços. Fábio Spinardi, 38, proprietário do HILO – coworking dog friendly da Vila Madalena, em São Paulo –, fez um trato com uma das clientes da casa, que é assessora de imprensa: ela cuida da divulgação do coworking e tem desconto no plano mensal.

Esses espaços ainda podem acelerar startups hospedadas em seus escritórios compartilhados. Os sócios da Space 242, os administradores Jairo Zimberknopf, 31, e Rogério Janson, 41, por exemplo, ajudaram a estruturar a startup de programação Oficina do Código, uma ideia do desenvolvedor Jonas de Farias, 38, de criar uma empresa de back-end para dinamizar as linguagens de programação de sites. “Eu tenho o know-how técnico, mas não o conhecimento comercial”, explica Farias, que precisava de um modelo de negócio reformulado porque estava enfrentando problemas de gestão. Agora, os três são sócios.
O coworking também tem outro grande papel: servir de apoio para quem está dando os primeiros passos após a faculdade. “Quando nos formamos e saímos para um desafio empreendedor, perdemos a coletividade da faculdade e nos vemos pela primeira vez sozinhos. Os espaços de coworking entram pra suprir exatamente esse ponto da falta de coletividade no início dos empreendimentos”, diz Alessandra Andrade, coordenadora do Centro de Empreendedorismo FAAP.

Uma pesquisa recente do blog de tecnologia Movebla, um portal brasileiro de economia colaborativa, mostrou que mais de 60% dos frequentadores de coworking têm entre 21 e 36 anos. Mas não há limite de idade. O coach e engenheiro aposentado Frederico Feijó, 67, estava prestes a alugar um escritório próprio quando descobriu por acaso, pela internet, o que era coworking. Há dois anos na Link2U, Feijó tem colegas de diferentes gerações. “A diferença de idade chega a ser de pai para filho, mas os relacionamentos não começam apenas por interesses de negócios e sim por causa de afinidades pessoais.”

CUSTO-BENEFÍCIO

A primeira das vantagens de um espaço compartilhado é que o cliente não se compromete com um contrato de 36 meses de locação. Ele também deixa de pagar e de se preocupar com despesas mensais como luz, água, condomínio, internet, recepcionista, IPTU, entre outros gastos fixos de um escritório. No coworking paga-se por hora, dia, semana ou adere-se a planos mensais e até anuais. É o sistema de pay per use, isto é, usou, pagou – e, se não usar, a economia está feita.

Em São Paulo, o valor de uma posição móvel numa estação de coworking pode variar, em média, de R$ 45 a R$ 100 a diária, e de R$ 600 a R$ 1.300 o plano mensal, sem a contratação de serviços adicionais. “Se tivesse alugado um escritório, gastaria muito mais. Poupo pelo menos R$ 2.000 ao mês adotando o coworking”, diz Marcelo Cardenuto, 33, ex-aluno da FAAP e diretor da empresa australiana de inteligência mobile Skyfii no Brasil e na América do Sul (veja box à esq.). “Na hora de colocar na ponta do lápis, empresas com mais de 15 funcionários percebem que ainda é mais econômico estar aqui”, diz Vanessa Destro, ex-aluna da FAAP e uma das sócias do Lab 48. “O brasileiro reinventou o jeito de trabalhar e foi para o coworking.” (Veja box na pág. 85.)
Por outro lado, é comum profissionais autônomos que trabalham em casa hesitarem antes de apostar no coworking. Por uma razão bem concreta: é mais barato trabalhar em casa, via de regra. Porém, as oportunidades de trabalho em um escritório compartilhado são maiores. “A grande vantagem é o fluxo alto de pessoas nesses espaços. Seus projetos podem se multiplicar”, explica o administrador Jorge Wanderley, 23, com especialização em gestão financeira. E esse não é o único benefício.

O designer Alexandre Macedo, 36, ex-aluno da FAAP, foi um dos que trocaram o home office pelo coworking – e não se arrependeu. “Não me adaptei bem em trabalhar de casa. A questão da disciplina com horários e a separação entre o ambiente profissional e pessoal se tornou essencial para mim”, diz. Ele não só apostou nessa forma de trabalho como decidiu investir nisso. Macedo inaugurou neste ano o Conjunto 63, um escritório compartilhado num antigo imóvel da família na região central de São Paulo, onde ele trabalha como designer e administra esse novo modelo de negócio (veja box na pág. 88).

OS TEMÁTICOS
Faltam ainda estatísticas oficiais a respeito dessa forma de trabalho colaborativa, porém os indícios apontam para um crescimento. No mundo, hoje são 6 mil escritórios compartilhados de acordo com a Deskmag, revista alemã on-line especializada no assunto. Esse número deve dobrar até 2018, de acordo com uma pesquisa recente da consultoria americana Emergent Research.

Hoje, no Brasil, existem 238 espaços de coworking ativos, segundo censo realizado este ano pelo blog de economia criativa Ekonomio. Quase 30% desses locais ficam na cidade de São Paulo. A maioria deles surgiu no ano passado, quando se deu um boom no país. Só na capital paulista, em 2014 foram abertos 56 novos espaços – e foi aí que surgiram os primeiros locais temáticos, como o House of Food, o primeiro coworking para cozinheiros do país, criado pelo empreendedor Wolfgang Menke, 34, também proprietário do escritório House of Work e do coworking de educação House of Learning.

“É um laboratório para testar receitas e, para quem quer ganhar dinheiro, ver se o seu negócio funciona”, afirma o cozinheiro Bruno Alves, 32, da Kod Burgers Artesanais, que fechou as portas da sua hamburgueria recentemente, mas cozinha na House of Food quinzenalmente. Enquanto isso, no segundo andar da casa, o confeiteiro Lucca Guilger, 26, aluga a segunda cozinha do coworking para o seu ateliê de doces. “Fechei um plano anual. Estar aqui é a melhor alternativa para o momento da minha carreira”, diz o chef.

O empreendedor Wolfgang Menke vai inaugurar neste mês a quarta unidade temática do que chama de vila colaborativa. É o House of Bubble, uma lavanderia comunitária focada em compartilhamento de lifestyle e moda. Após lavar a roupa, o usuário pode revender a peça no bazar da casa, que também vai contar com uma sala comunitária de coworking.

As mães paulistanas também ganharam um espaço preparado para receber seus bebês. A tradutora Carina Lucindo, 35, mãe de Brigitte, 7, e Clara, 10 meses, inaugurou em fevereiro deste ano a Casa de Viver, dedicada às mães. “Recebemos de bebês até crianças com mais de 3 anos, que ficam aqui no contraturno da escola”, diz Carina. No andar térreo da casa, as mães trabalham em mesas comunitárias enquanto os pequenos ficam no primeiro andar, numa área exclusiva e com duas cuidadoras. “Um dos maiores benefícios daqui é a amamentação prolongada. As nove coworkers da casa estão amamentando seus bebês”, conta a tradutora.

O FUTURO

Nem os proprietários dos espaços (ou founders, como são chamados) mais antigos do país sabem a resposta certa sobre o futuro do coworking. João Pacheco, founder da Plug, aposta em espaços maiores. “Em lugares mais espaçoso, as chances de troca aumentam, e sem troca o coworking não existe”, diz o administrador, que também acredita na tematização dos espaços. Ao lado do sócio Bruno Freitas, ele está desenvolvendo um projeto de escritório compartilhado com foco em moda. Danilo Salgueiro, do Lab 48 – também ex-aluno da FAAP –, mira em espaços de “co-living” e prepara o lançamento daquilo que chamou de “shopping de inovação”, um espaço com infraestrutura de coworking e opções de entretenimento, alimentação e bem-estar.
Já a publicitária Fernanda Nudelman, 34, pioneira na divulgação do coworking no país, prefere a pluralidade. “Lugares temáticos devem funcionar como referencial, mas nunca com exclusividade”, afirma. O americano Bernie de Koven concorda: “Homogeneizar espaços acaba com a troca entre as áreas e pode impactar nas parcerias profissionais”.

O que os founders e especialistas não discordam é no que diz respeito a um ingrediente essencial para os ambientes funcionarem: o clima descontraído. “Relaciono o jogo com o coworking. As pessoas podem mudar regras, sair e voltar quando quiserem. Mas os jogadores são mais importantes do que o jogo, assim como as pessoas são mais importantes do que o espaço”, diz Bernie.

Entre os dez motivos listados na parede do Impact Hub para você virar membro daquele espaço, estão razões como “espaços inspiradores”, “comunidade vibrante”, “conteúdo relevante” e “a gente se diverte”. Ao que tudo indica, essa é a única regra do jogo.