Na contramão da produção industrial e da massificação, o handmade nunca foi tão valorizado. O artesanal deixou de ser uma prática das vovós – ou coisa de gente hippie – e hoje se mostra um empreendimento de sucesso

Pranchas personalizadas, cerveja fabricada em pequena escala e bicicletas restauradas a dedo. Na contramão da industrialização excessiva, muita gente vem unindo suas paixões – seja por fazer bebida em casa, seja por surfar ou consertar bikes – para criar negócios com propósito, que se tornam lucrativos e meio de vida. Essas empresas refl etem dois movimentos atuais: o empreendedorismo e o retorno ao artesanal. “Quando se resgata um fazer artesanal, valoriza-se o trabalho humano, não industrializado. Um produto assim tem valor não só agregado, mas reconhecido e, por extensão, um valor monetário mais alto. É a valorização da subjetividade, do que o ser humano tem de único”, afirma João Braga, professor de História da Moda da FAAP. “Estamos na ‘Era dos Fazedores’, as pessoas estão colocando a mão na massa. A vontade de empreender também vem daí”, completa Jean Rosier, consultor de processos criativos para grandes marcas e professor de Empreendedorismo Criativo na escola de cursos livres Perestroika, em Porto Alegre (RS).

O mercado vem recebendo bem os produtos que apelam para a exclusividade e a fabricação com esmero. “Os consumidores querem fugir daquilo que é óbvio e até opulento para seguir por uma direção mais abstrata. Trata-se mais da história, do tempo gasto, do sentimento daquele produto”, afirma Beatriz Modolin, gerente de contas e pesquisadora para o Brasil da agência internacional de tendências WGSN. Em um estudo publicado no jornal da Associação Americana de Marketing, os pesquisadores distribuíram aos participantes uma lista de itens – de canecas de cerâmica a bolsas de couro e produtos de papelaria – industrializados. Depois, mostraram imagens de equivalentes feitos à mão e pediram que as pessoas escolhessem um presente para uma pessoa querida. A maioria elegeu objetos artesanais e ainda pagaria até 17% mais caro por eles. “Produtos feitos à mão parecem transmitir o amor do artesão por aquilo que faz, e os consumidores acreditam que os artigos estão imbuídos disso”, afirmam os autores do estudo, pesquisadores como Martin Schreier, da Universidade de Viena.

O crescimento de comunidades on-line que vendem itens artesanais também mostra que há cada vez mais espaço para esses objetos. O Etsy.com, maior site do gênero, com 1,5 milhão de pessoas expondo de móveis e roupas a produtos vintage, movimentou US$ 1,93 bilhão em vendas em 2014. Sites de financiamento coletivo como o Kikstarter.com, líder da categoria, também mostram que o artesanal veio para fi car: 20% do dinheiro arrecadado em 2014 em suas campanhas foi para produtos handmade – uma fábrica artesanal de salada de batatas chegou a conseguir US$ 55 mil.

A designer de sapatos Juliana Bicudo planejou cuidadosamente o novo empreendimento: “Gosto de saber onde estou pisando, pensar em cada passo.”

Mas, afinal, o que explica a emergência dos produtos feitos à mão – ir na direção oposta à industrialização, ter peças únicas, valorizar tradições? O que faz uma pessoa pagar R$ 20 em uma cerveja artesanal ou aguardar mais de 30 dias para ter uma bolsa feita sob encomenda? Para o professor João Braga, as pessoas querem resgatar algo perdido em nossa sociedade. “O mundo contemporâneo está muito mecanizado, mais do que isso, muito informatizado. Há benefícios? Sim. Porém, falta-nos uma certa alma, alguma coisa que é da condição humana”, afirma. A emergência dos fazeres manuais também tem a ver com o desejo por tradição. “O artesanal implica algo que vem do passado. Valorizamos por ser uma habilidade transmitida de geração em geração e perdida no mundo contemporâneo, onde a massificação é atônica”, afirma Amnon Armoni, especialista em marketing de luxo e professor de Moda e do MBA de Gestão do Luxo da FAAP, curso pioneiro lançado pela Fundação em 2004 .

Visionários

Na vanguarda do clássico e da inovação, a FAAP vem oferecendo há dois anos cursos livres que ensinam a arte do manual. Um deles é o Joalheria – Ateliê de Ourivesaria, no qual a professora Camila Rossi mostra como talhar metais e criar peças manuais.

Colocar a mão na massa também é uma das propostas de Marcenaria: Design e Construção de Móveis. Após duas aulas teóricas, o professor de Desenho Industrial Edison Barone propõe que os alunos fabriquem um banco. Depois, vão partir para um projeto pessoal, um móvel à escolha. Os fazeres artesanais, para ele, estão mesmo sendo revalorizados. “Hoje as pessoas fazem um trabalho muito intelectual, no computador. Sinto que há uma necessidade de realizar algo físico. E a marcenaria tem esse apelo”, afirma.

O arquiteto e designer Carlos Motta, professor de projeto de Desenho Industrial na FAAP de 2001 a 2004, foi visionário ao perceber na década 70 que o trabalho manual poderia ser um grande negócio. Depois de formado, rumou para Santa Cruz, na Califórnia, atrás do surf e de um curso de marcenaria. “Sempre gostei de madeira. Fazia estilingue, carrinho de rolimã, casinha de cachorro. Era uma coisa muito minha, íntima, de prazer”, afirma.

De volta a São Paulo, alugou um galpão na Vila Madalena e escreveu com spray na porta: “Carlos Motta, Arquitetura e Marcenaria”. Desde então, lá se foram quatro décadas de trabalho com madeira sustentável e de uma empresa que divide o lucro com os funcionários e tem representantes em cidades como Nova York, Los Angeles e Londres. Para chegar até aqui, houve muito trabalho – esculpido pela paciência. “As coisas têm um tempo, que não é o tempo da tecnologia de hoje. Não adianta ter pressa”, diz. Outro conselho para quem pretende começar um negócio artesanal hoje é não ficar só no conceito. “Use as mãos, vá para o tridimensional. É aí que você aprimora, sofistica e dá inteligência para o seu projeto.”

Nos tempos de estudante de Artes Plásticas na FAAP, Roni Hirsch vivia enfurnado nas oficinas da faculdade. “Sempre fui um cara mão na massa, gosto de mexer com tintas e materiais”, conta. Dono de seu estúdio desde 2006, Roni faz cenários para lojas e estandes de marcas como Vicunha, Arezzo e Motorola. No Butantã, em São Paulo, ele ainda mantém sua marca de móveis feitos com restos de cenografia, a Reset, o projeto de mobiliário infantil para espaços públicos Erê Lab, e um coworking equipado com marcenaria, ateliê e ferramentas de serralheira, onde trabalham cerca de 30 pessoas ligadas à indústria criativa. “Gosto do teste antes de qualquer coisa. É ver se a tinta está mais ou menos aguada antes de pintar”, afirma Roni. “Você tem que testar o seu negócio antes de abrir uma empresa e burocratizar sua vida”, pondera.

O arquiteto e cenógrafo Roni Hirsch trabalha em seu atelier, no Butantã, em Sao Paulo, em 15 de setembro de 2015.. (Foto: Na Lata)

Faça o que ama

Foi o que fez Gregório Motta, o segundo dos quatro filhos de Carlos Motta, que herdou do pai não apenas lições dos fazeres à mão, mas também a paixão pelo surf. Sua marca de pranchas, a Aerofish, tem 25 modelos-base do produto. “Dentro desse formato, podemos mudar o bico, o tipo de rabeta, escolher a cor, o acabamento”, diz.

Tudo começou pelo amor ao hobby. “Quem surfa tem um elo grande com a prancha. Fazer uma com as próprias mãos é como sair na noite com um vestido que você fez e as pessoas acharem bacana”, diz. Gregório começou a trabalhar em um ateliê de pranchas, na Lapa, em São Paulo. Percebeu que vários dos processos e ferramentas eram similares aos da marcenaria e decidiu fazer uma prancha sozinho. Os amigos viram e logo começaram as encomendas. “Pagar as continhas com aquela grana foi me dando vontade de produzir mais”, diz.

Com o aumento da demanda, algumas etapas da fabricação foram terceirizadas, mas nada deixou de ter o toque do dono. “Já saíram 5 mil pranchas daqui e botei a mão em todas”, diz. O fato de os clientes falarem diretamente com Gregório é outro chamariz. “As pessoas se sentem como quando vão a um alfaiate fazer um terno”, afirma. Gregório costuma dizer que a Aerofish veio de dentro da água para fora. Ele já era apaixonado por surf, começou a fazer pranchas por gosto. “Às vezes as pessoas invertem o caminho. Pensam numa ideia e vão atrás de fazê-la. Mas você tem que respirar aquilo”, diz.

Começar um negócio fazendo o que ama já pode ser meio caminho andado. “É o que os empreendedores de sucesso têm em comum”, diz Jean Rosier. Para ele, quem quer iniciar uma empresa hoje tem que procurar seu verdadeiro propósito – esse seria o melhor jeito de se manter firme diante das adversidades. O conselho é: “Encontre o que te motiva. Pergunte-se quais são suas paixões, o que você pagaria para fazer o resto da vida, e o que conseguiria transformar em renda”. Ex-alunos de Administração da FAAP, Henrique Alarcon, Marcelo Maaz e Ricardo Rovella firmaram a amizade na mesa de um bar e a fermentaram dividindo um hobby: fabricar cerveja em casa. Compraram um kit, que vem com duas panelas de inox e um fermentador, e, assim, faziam 20 litros por vez. O que deu o caminho de negócio foi o trabalho de conclusão de curso na FAAP, no fi m de 2014. Eles fizeram o projeto de uma cervejaria artesanal, a Freaktion (fusão de freak, bizarro, e friction, fricção, o objetivo é causar uma fricção no mercado), que lançará no fi m do ano seus dois primeiros rótulos. “A maior certeza que tínhamos era a vontade de empreender, e a maior paixão em comum era a cerveja. A contribuição do TCC foi estudar o setor como negócio, e não mais como hobby”, conta Henrique. Embora já existam cerca de 400 marcas de cervejas artesanais no Brasil, o trio acredita que há espaço para crescer. “Nos EUA, as microcervejarias [que produzem até 300 mil litros por mês] ocupam 12% do mercado. Aqui ainda é menos de 1%”, afirma Henrique.

Fazendo e planejando

Assim como os cervejeiros, a designer de sapatos Juliana Bicudo também estudou bem o negócio e planejou tudo antes de abrir sua loja própria, na Vila Madalena, em São Paulo. Formada em Arquitetura, Juliana trabalhava em uma consultoria de planejamento urbano e tinha uma vida estável de escritório. Porém, o lado criativo falou mais alto. Em paralelo ao emprego, ela se inscreveu em um curso de design de sapatos. No final, tirou férias e, na volta, resolveu pedir demissão e investir no desenho de calçados feitos à mão, em conjunto com artesãos parceiros, somente com matérias-primas naturais. “Peguei os desenhos que tinha feito no curso, fiz uma pequena produção e montei um bazar de fim de ano em casa para as amigas”, conta. As edições se repetiram e Juliana passou a participar de outros bazares na cidade. Para ajudar na transição de carreira, por dois anos, ela contou com uma coaching. Uma vez por semana tinham um encontro, era uma espécie de terapia para o novo negócio. “Falávamos desde como encontrar fornecedores até sobre qual era meu público”, diz. Quando resolveu abrir a loja, em 2010, um amigo a ajudou com um plano de negócios. “Gosto de saber onde estou pisando, pensar em cada passo”, afirma. E que belos passos, visto o frisson que se tornaram seus sapatos.

Mas nem para todos os empreendedores que apostam no trabalho manual é tudo pensando antes. O caminho de Rodrigo Villas, por exemplo, foi ao contrário. Ele nunca teve um plano de negócios. Primeiro fez, para depois planejar. É um pouco a ideia de trocar o pneu com o carro andando. Ou, no caso, com a bicicleta andando. Rodrigo é dono de um estúdio de restauro de bikes em Pinheiros, São Paulo. Editor de arte de revistas, ele estava desempregado. Tinha vontade de mudar a cor de sua bicicleta velha. Começou a lixar, preparar o quadro para pintura e acabou restaurando-a. Daí apareceram várias pessoas querendo algo parecido. “Foi batata, comecei a passar o dia todo fazendo o que fazia quando moleque: mexendo em bicicletas”, diz.

Rodrigo Villas trocou as revistas pelo restauro de bikes: “Comecei a passar o dia todo fazendo o que fazia quando moleque: mexendo em bicicletas”

Hoje, além de restaurar bikes antigas – cobrando de R$ 1.500 a R$ 3.000, na média –, ele também customiza os veículos para empresas que querem sair por aí pedalando e vendendo seus produtos. A sorveteria Frida&Mina, em Pinheiros, foi a primeira cliente. Depois vieram outros. Em sua vida de empreendedor, Rodrigo aprendeu através dos perrengues. “Teve mês que tive que sair de carro pra lá e pra cá carregando coisas devido a atrasos. Gastei uma grana preta com gasolina”, diz. Agora, ele já começou a criar uma certa linha de produção, para a empresa ficar mais eficiente.

Segundo o consultor Jean Rosier, é uma tendência no empreendedorismo criativo que essas pequenas empresas, focadas em nichos, funcionem de uma maneira bem mão na massa, primeiro partindo para a ação, para depois planejar, ou fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. “É a lógica do protótipo. Não preciso ter um produto pronto para colocar na rua”, afirma. Vem muito de sites e aplicativos, que são lançados em versão beta e vão se aperfeiçoando de acordo com o retorno dos usuários. “Isso já é estar aberto, contar com o universo colaborativo, deixar as pessoas usarem, se apropriarem daquele produto ou serviço e, a partir disso, ir ajustando”, afirma. Quando passou pelas dificuldades, Rodrigo manteve-se firme acima de tudo por ter uma conexão com aquilo que faz. Aliás, ele acredita que é essa ligação emocional com o universo das bikes que também atrai os clientes. “Bicicletas como a Ceci e a Caloi 10, por exemplo, muitos de nós conhecemos desde que nascemos. No fundo, as pessoas têm esse apego com a própria história”, afirma.

O artesanal, de certa forma, é um resgate da história humana. São fazeres que perpassaram os tempos e que agora, justo na era da conectividade, quando o mundo parece correr, em vez de andar, vêm sendo revalorizados. É o que o professor de Economia da Universidade de Harvard Ryan Raffaelli chamou de paradoxo da inovação disruptiva: quanto mais inovações como a internet surgem para impulsionar a produtividade da economia, mais espaço haverá para indústrias old-fashion – que focam na qualidade em vez de quantidade, na herança em vez da novidade.