Desde 2012, a FAAP abriga um pedaço da China no seu campus em São Paulo. Agora, o Instituto Confúcio chega também às suas instalações em Ribeirão Preto

Entregar um cartão de visita na China é praticamente uma cerimônia. O portador o carrega com as duas mãos, com a face onde está escrito seu nome voltada para quem recebe. Lá o cartão não é apenas um papel, mas uma representação da pessoa: é intolerável não ter um ao ser apresentado. Essa é apenas uma entre tantas diferenças culturais que se pode aprender no Instituto Confúcio, uma das principais instituições chinesas para a difusão da língua e cultura.

A FAAP abriga desde julho de 2012 uma das poucas unidades do mundo direcionadas para a área de negócios em parceria com a UIBE, a University of International Business and Economics de Pequim.“Uma das coisas que os empresários mais se ressentem é de um melhor conhecimento sobre uma sociedade que é muito diferente”, afirma Sergio Amaral, presidente emérito do Conselho Empresarial Brasil-China e diretor do Centro de Estudos Americanos da FAAP. “Então, ter um Instituto Confúcio voltado para a área dos negócios é uma contribuição para um melhor entrosamento empresarial entre os dois países.” Unidades do Confúcio estão espalhadas por mais de 460 universidades em 123 países do mundo. Cada um deles é uma parceria entre o HANBAN (abreviatura em chinês para Escritório Nacional da China para o Ensino da Língua Chinesa como Língua Estrangeira, que dá suporte financeiro e metodológico), uma universidade chinesa e outra do país que sediará o Instituto.

 

Alunos durante aula de recorte de papel durante missão à China em 2014

“O operário que quer fazer o seu trabalho bem deve começar por afiar os seus instrumentos.” Esse é um dos famosos provérbios de Confúcio, o filósofo chinês que influencia a cultura e a filosofia do país até os dias de hoje. Seguindo as palavras do histórico pensador, os alunos buscam afiar o conhecimento na cultura e no mandarim para ficar mais à vontade com o comportamento e as tradições chinesas nos negócios.

“É sempre bom estudar. Digo isso até pela nossa experiência de negociações montando o Instituto Confúcio”, afirma Lourdes Zilberberg, diretora local do Instituto e também diretora de internacionalização da FAAP. “Há uma forma de receber o estrangeiro que não é o mesmo comportamento que nós temos aqui. Mas o fato de eles serem amáveis não quer dizer que não serão duros na hora da negociação.”

 

Foto do ensaio de Lívia Aquino: chineses no bairro muçulmano Xi’an, em Pequim

O campus de São Paulo já tem cerca de 60 alunos matriculados em seus cursos, e a unidade de Ribeirão Preto, inaugurada em fevereiro, já conta com 14 – até o fim do ano, as duas unidades devem receber 100 interessados. O curso principal é o de mandarim, mas há seminários sobre economia e negócios na China, além de aulas gratuitas sobre cultura, caligrafia e gastronomia. Este ano a FAAP irá levar novamente alguns estudantes para uma imersão na cultura da China. Os alunos bancam só a passagem, já que a hospedagem e as aulas são fornecidas pelo HANBAN e pela UIBE. “Hoje em dia, é importante reconhecer que a China é o principal parceiro comercial do Brasil”, afirma Lourdes. “Se você tiver a condição de formar pessoas na língua e na cultura chinesa, ainda mais para negócios, estará criando uma nova classe em condições de ajudar as empresas e as relações bilaterais entre os dois países. E isso sim é vanguarda.”

Grupo de alunos do Instituto em frente ao Estádio Olímpico de Pequim, em viagem realizada em 2014

Além da muralha
O Ex-embaixador Sergio Amaral, hoje presidente emérito do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), teve papel fundamental na vinda do Instituto Confúcio à FAAP

Como foi trazer o Instituto para o Brasil?
A maioria dos empresários do CEBC dizia que precisávamos de um maior entrosamento entre os dois países e de mais conhecimento, porque as culturas são muito diferentes. A ideia da FAAP de contribuir nessa aproximação foi bem recebida. Visitamos a universidade UIBE na China e o HANBAN aprovou nosso projeto de um Confúcio voltado para negócios.

A FAAP adaptou o modelo para a realidade brasileira?
Isso é que faz o êxito do ensino. Porque não se trata de ter um corpo estranho incrustado numa universidade brasileira. Também há estudantes chineses que vêm aqui estudar nossa língua e cultura. Tudo isso torna essa experiência muito interessante a todos os alunos.

Que impacto essa iniciativa pode ter nas relações entre Brasil e China?
As empresas brasileiras e chinesas se aproximaram muito. A FAAP dá cursos de português para funcionários do Banco da China e também treinamento da cultura de negócios para corporações brasileiras.

GRANDE ENCONTRO

Além dos alunos do Instituto Confúcio, a missão para a China em 2014 foi acompanhada pelo olhar das fotógrafas Lívia Aquino, coordenadora da Pós-Graduação em Fotografia da FAAP, e Elisete Borim, aluna da pós. Algumas das imagens que ilustram a matéria foram registradas nessa visita. “Cada uma de nós desenvolveu um trabalho muito diferente, baseado na experiência que temos como artistas”, conta Lívia. “Para mim foi uma vivência muito intensa, e o resultado do meu trabalho fala justamente disso, do quanto estar em um lugar como esse provoca um encontro.” Elisete completa: “A quantidade de arranha-céus em construção foi o que mais me surpreendeu”.

DO OUTRO LADO DO MUNDO

ALUNOS FALAM SOBRE À CHINA EM 2014

Victoria Fontes Rodrigues

“A missão pra China foi uma experiência incrível! Amadureci muito e derrubei vários preconceitos.” A empolgação de Victoria Fontes Rodrigues é evidente quando fala da visita que fez ao país asiático aos 18 anos, promovida pelo Instituto Confúcio, no ano passado. A estudante, que atualmente cursa o 3o semestre de Relações Internacionais na FAAP, procurou aprender mandarim para conseguir uma vantagem em sua área de atuação. “Quando vou em algum processo seletivo ou conto a alguém que estudo chinês, a pessoa logo se espanta e acha muito legal”, explica Victoria. “Afinal, é muito difícil encontrar pessoas que estudam a língua e isso é um diferencial profissional muito grande.” Entre tantas surpresas e descobertas na viagem, o que chamou mais a atenção foi o carinho dos chineses pelos brasileiros. Sair com uma camisa do Brasil era se preparar para um batalhão de simpáticos paparazzi. “Parecíamos celebridade lá.”

Carlos Bacchi

Assim que começou a estudar Relações Internacionais na FAAP, Carlos Bacchi se interessou em aprender mandarim no Instituto Confúcio. Mesmo após ter largado o curso para fazer a graduação em Publicidade e Propaganda, a decisão se mostrou ainda mais acertada. Bacchi trabalha em uma empresa de e-marketing baseada em Hong Kong. “Desde criança tinha interesse na cultura chinesa”, afirma. “Como trabalho em uma empresa da China, esse aprendizado contribui muito, seja no ambiente de trabalho ou em entrevistas de emprego.” Quando surgiu a chance de fazer uma imersão na cultura que já admirava, o aluno, de então 18 anos, abraçou a oportunidade. “Estudar chinês na China foi uma experiência gratificante.” E completa: “A receptividade do povo chinês me agradou muito, assim como a culinária”. Gostou tanto que se arriscou em iguarias como espetinhos de gafanhoto e de cavalo-marinho. Na área de gastronomia, ele já está no curso avançado.