Aluna de Jornalismo, Cecilia Young analisa a série The Politician, a nova produção da Netflix, que estreia amanhã

O que há de cativante sobre as séries de high school americanas é que, apesar de elas nos parecerem fora do real, são, ao mesmo tempo, muito interessantes. Nelas, sempre encontramos a cheerleader, o nerd, o jock, e tantas outras personalidades estereotipadas, que muitas vezes estão longe de existir em na realidade brasileira. The Politician, contudo, rompe com esse modelo ao qual estamos acostumados. A trama faz paralelos com os absurdos políticos que vivemos hoje e com o life style de uma classe média alta muito semelhante à que conhecemos, aproximando-se muito do mundo ao nosso redor.

A nova série da Netflix – criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan (famosos por seus trabalhos em sucessos como Glee , American Horror Story e American Crime Story) – conta a história de Payton Hobart (Ben Platt), um estudante do terceiro ano no Saint Sebastian High School (um colégio de elite fictício na Califórnia) que sonha em ser presidente dos Estados Unidos desde os 7 anos de idade. Depois de muito ler sobre os líderes norte-americanos do passado, Payton percebe que, antes de mais nada, precisa se tornar presidente do corpo estudantil. O cargo, que não existe no Brasil, é um tipo de representante geral dos estudantes, sendo escolhido por uma disputada eleição.

O primeiro episódio é focado neste grande sonho do personagem, e no que ele está disposto a fazer para alcançá-lo. Com dois “consultores de imprensa”, uma namorada à la primeira dama e um adversário carismático, a proposta não é ser apenas mais uma série de high school, mas uma sátira às tramas do mundo político – que hoje parecem mais entretenimento do que qualquer outra coisa.

Ao som da música “Chicago”, de Sufjan Stevens, a abertura da série demonstra esse aspecto de Payton de forma muito interessante. Aquilo que a princípio nos parece uma caixa de madeira começa a ser recheado de forma organizada com diversos objetos significativos de uma suposta trajetória de sucesso: medalhas, diplomas, cheques, livros biográficos, etc., até a composição revelar ser, na verdade, o corpo de Payton, ganhando ao final um coração e sendo “banhado de vida”.

Poster promocional da série. (Foto: Netflix)

A abertura é o bastante para nos indicar o tom de crítica irônica que devemos esperar da história, formando a figura política como uma criação artificial – quase um boneco falante –, visão que se intensifica com a atuação dos personagens James (Theo Germaine) e McAfee (Laura Dreyfuss), responsáveis pela estratégia de marketing da “persona presidencial” de Payton. Marqueteiros típicos, em todas as cenas que participam, percebemos um estilo rápido de diálogos cortantes, criados à base de one-liners, já muito (bem) usados pelos roteiristas desde Glee. A dupla de estrategistas, juntamente com a namorada de Payton, Alice (Julia Schlaepfer), tenta moldar o adolescente em um candidato mais amigável e atraente aos olhos do público.

Do outro lado, há o vice-capitão do time de lacrosse do colégio, River Barkley (David Corenswet), que é persuadido por sua ambiciosa namorada Astrid (Lucy Boynton) a disputar a presidência com Payton. Passamos então a acompanhar essas duas equipes completamente antagônicas, que fazem de tudo para transformar a imagem de seus candidatos em ícones de presidentes ideais. Uma das apostas é no conceito de inclusão social, através da escolha seus vice-presidentes: River e Astrid fazem uma parceria com Skye (Rahne Jones), uma ativista negra que faz parte da comunidade LGBTQ+. Payton reage, trazendo para sua campanha Infinity Jackson (Zoey Deutch), uma adolescente com câncer, mas que tem uma vivacidade e esperança sem iguais – o que faz dela uma figura extremamente amável  –, além da avó da garota, Dusty (Jessica Lange), que se vale da doença e do genuíno espírito positivo da neta para conseguir diversos favores na comunidade. A dinâmica das duas acaba sendo um dos aspectos mais envolventes do piloto da série, variando entre momentos angustiantes e situações absolutamente hilárias.

Figurino exposto no evento de The Politician, que aconteceu em São Paulo no dia 12 de setembro. (Foto: Helena Yoshioka)

Outra característica do universo político abordada no episódio inicial é o tradicional debate entre os candidatos, que se realiza no teatro da escola. Nele, Payton promete garantir oportunidades a todos os estudantes, através de um discurso extenso e bem elaborado. River, por sua vez, faz uma declaração mais “espontânea”, não demonstrando interesse pela vida escolar em si e seguindo um tom de “confissão pessoal”. Essa diferença, fruto da preparação prévia dos dois candidatos, revela-se um paralelo direto com as disputas presidenciais dos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em que o carisma populista de um candidato e seu “jeito” de se relacionar com os eleitores são muitas vezes o fator decisivo, ainda que o concorrente não seja o mais qualificado.

Do outro lado, há o vice-capitão do time de lacrosse do colégio, River Barkley (David Corenswet), que é persuadido por sua ambiciosa namorada Astrid (Lucy Boynton) a disputar a presidência com Payton. Passamos então a acompanhar essas duas equipes completamente antagônicas, que fazem de tudo para transformar a imagem de seus candidatos em ícones de presidentes ideais. Uma das apostas é no conceito de inclusão social, através da escolha seus vice-presidentes: River e Astrid fazem uma parceria com Skye (Rahne Jones), uma ativista negra que faz parte da comunidade LGBTQ+. Payton reage, trazendo para sua campanha Infinity Jackson (Zoey Deutch), uma adolescente com câncer, mas que tem uma vivacidade e esperança sem iguais – o que faz dela uma figura extremamente amável  –, além da avó da garota, Dusty (Jessica Lange), que se vale da doença e do genuíno espírito positivo da neta para conseguir diversos favores na comunidade. A dinâmica das duas acaba sendo um dos aspectos mais envolventes do piloto da série, variando entre momentos angustiantes e situações absolutamente hilárias.

Outra característica do universo político abordada no episódio inicial é o tradicional debate entre os candidatos, que se realiza no teatro da escola. Nele, Payton promete garantir oportunidades a todos os estudantes, através de um discurso extenso e bem elaborado. River, por sua vez, faz uma declaração mais “espontânea”, não demonstrando interesse pela vida escolar em si e seguindo um tom de “confissão pessoal”. Essa diferença, fruto da preparação prévia dos dois candidatos, revela-se um paralelo direto com as disputas presidenciais dos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em que o carisma populista de um candidato e seu “jeito” de se relacionar com os eleitores são muitas vezes o fator decisivo, ainda que o concorrente não seja o mais qualificado.

Atores da série, Zoey Deutch e Ben Platt, no screening especial do piloto em São Paulo, no dia 2 de setembro. (Foto: Helena Yoshioka)

O que a série consegue fazer com extrema competência, em sua narrativa de crescente suspense, é tornar um mero embate escolar em um problema eletrizante – e isso acontece de forma tão precisa e desenvolta que nem questionamos a seriedade, ou mesmo a verossimilhança, das situações. Este talvez seja o charme especial de The Politician: fazer com que simples eleições escolares pareçam ser a coisa mais importante do mundo. Ao mesmo tempo, a série é capaz de transformar personagens que normalmente seriam detestáveis em personalidades de alta conectividade com o público. Chegamos ao final do piloto percebendo que nenhuma daquelas pessoas é íntegra ou justa, mas não é o que esperamos delas. Fazem parte da elite social de Santa Barbara, na Califórnia, e sabem muito bem como utilizar seus privilégios – chama a atenção, por exemplo, a mãe de Payton, Georgina Hobart (Gwyneth Paltrow), comentar em certo momento que pagou caro para seus dois filhos mais velhos entrarem na faculdade, numa sátira ao recente escândalo de fraude, em foi descoberto que vários membros da alta sociedade norte-americana estavam subornando universidades para facilitar a admissão de seus filhos.

Os roteiristas vão desvendando os personagens lentamente, mostrando-os cada vez mais perversos, acabando por humanizá-los. Eles vestem peças de grife dos pés à cabeça, têm a maquiagem e o cabelo impecáveis, porque esses são os valores do mundo atua l. E podem não ter as melhores intenções, o que parece ser a regra .  Os protagonistas vão se revelando mimados, convencidos e oportunistas, mas em vez de isso nos afastar da trama, nos atrai ainda mais. É inevitável torcer para Payton, assim como é impossível não rir quando Dusty utiliza a tragédia de sua neta para seu proveito pessoal. A exata mistura de drama e comédia da série faz com o espectador entenda melhor como chegamos a esse ponto[LT7] , e se relacione com as dores e lutas dos personagens. Gostar do vilão foi sempre mais interessante do que torcer para o herói – e The Politician é um perfeito exemplo disso.

A série, que sai na plataforma da Netflix no dia 27 de setembro, é o melhor trabalho do trio Murphy, Falchuk e Brennan. Valendo-se dos acertos de suas outras produções – a comédia dramática de Glee, o sarcasmo de American Horror Story, e a facticidade de American Crime Story –, os criadores conseguem criar uma série agradavelmente crítica e irônica, com um elenco excelente e uma temática pertinente.

Confira o trailer da série aqui.