Dois ex-alunos contam como é a intensa rotina de quem estudou Relações Internacionais

Raphael Camargo — O MULTITAREFAS

De Onde? São Paulo
Idade: 24 anos
Formação: 2011
O que faz: trabalha na assessoria especial para assuntos internacionais do governo do Estado de são paulo, responsável por projetos de cooperação internacional

Horas antes do encontro com a Revista FAAP, no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo, Raphael havia pegado uma van para uma visita técnica na zona leste, mas teve de dar meia-volta porque a missão foi cancelada. Isso após dormir algumas poucas horas – na noite anterior, ele tinha acabado de chegar de uma viagem à Bahia. Nada a que não esteja habituado. Já na faculdade começou a se acostumar com a rotina intensa. “Fui coordenador do Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (Eneri), que reuniu 2 mil pessoas em Brasília. Por um ano, chegava na FAAP às 9h e só saía às 22h30. Ia pra Brasília toda hora, conversava com embaixadores, ministros, jornalistas. Montei desde a logística até o conteúdo do evento.”

Ao lado da colega de trabalho Ana Paula Rangel, Raphael participa do 7º Fórum Urbano Mundial, organizado pelo ONU-Habitat em Medellín, 
na Colômbia, em abril de 2014 (Arquivo Pessoal)

A experiência serviu também para que ele descobrisse do que gosta. Apesar de ter trabalhado com comércio exterior, a área governamental lhe pareceu mais atrativa: “Queria algo que tivesse uma entrega social”. Depois de passar pela Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano em 2013, Raphael entrou para a equipe da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Governo do Estado de São Paulo. Seu dia a dia é dedicado à discussão de projetos de habitação, transporte e desenvolvimento metropolitano. “Me divido entre acompanhar e propor projetos, fazer reuniões com parceiros internacionais e viajar em busca de boas práticas nessas áreas.”

Até hoje, uma de suas experiências mais marcantes foi a viagem no ano passado a Hyderabad, na Índia, para um evento que discute diferentes formas de governança metropolitana. Sua função era participar de reuniões com representantes da ONU, do Banco Mundial e organizar agendas. 
Tudo isso em meio a um fuso horário de 8 horas e meia e costumes diferentes de trabalho, alimentação, comunicação. Foi um desafio de adaptação. “Nessa vida de relações internacionais, o contraste está sempre presente e você precisa aprender a assimilar de um jeito rápido. Estar em contato com diferentes mundos é gratificante e enriquecedor. Mas, às vezes, é preciso amenizar as externalidades para poder focar no trabalho,” diz.

Dica de internacionalista
Para quem pensa em seguir a carreira, Raphael recomenda “se jogar” em todas as possibilidades: participar de palestras, cursos, aulas magnas, voluntariado e manter contato com os professores. “Engajar-se em diversas situações pode trazer muitos benefícios, até para escolher para que lado você vai enveredar. Nunca me senti alienado nas posições que me coloquei durante esse tempo de trabalho e, com certeza, foi a faculdade que me deu essa bagagem”, garante.

Raphael em missão em Hyderabad, na Índia, 
em 2014, onde participou do 
11º Metropolis, encontro que discute governança metropolitana em diferentes cidades do mundo (Arquivo Pessoal)

José Castro — O ARTICULADOR

De onde? São Paulo
Idade: 29 anos
Formação: 2007
O que faz: trabalha no Bureau de Québec em São Paulo, que representa o governo da província canadense em assuntos de diplomacia, educação, cultura e política

Quem vê José Castro de terno e gravata, postura altiva, fala articulada, não imagina 
que ele já foi aluno mediano na escola. “Dava trabalho. Mas quando entrei na faculdade me encontrei”, lembra ele, que optou pelo curso 
de Relações Internacionais da FAAP depois de um intercâmbio. “Cheguei a prestar Direito, mas queria ter uma atuação mais internacional. Sempre tive perfil expansivo e comercial, 
então comecei a pesquisar os cursos de RI. 
O enfoque econômico da FAAP foi decisivo para minha escolha”, conta.

José, em palestra na Fiesp em 2009 para empresários brasileiros e canadenses, durante a missão do então ministro de Relações Internacionais do Québec, Pierre Arcand (Arquivo Pessoal)

Difícil também 
é acreditar que José tem só 29 anos. Aos 18, sentava com diretores de grandes empresas para convencê-los a fazer parte da Câmara de Comércio Brasil-China. Já passou por organizações como o Greenpeace e, ao todo, conta mais de 25 missões no exterior. Agora, acaba de assumir a direção do Bureau de Québec em São Paulo, onde está desde 2008. No cargo, responde pela coordenação das relações políticas, econômicas e institucionais e promoção do Québec no Brasil. José atribui o crescimento na carreira à vontade permanente de buscar desafios: “Já assumi tarefas que não tinham a ver com a minha formação, mas que foram essenciais para desenvolver habilidades que ajudaram a chegar onde cheguei”.

Segundo ele, uma dose de “cara de pau” também pode ajudar. “Se não tivesse pedido emprego no Greenpeace, eles não bateriam na porta da minha casa”, diz ele. “Vagas que têm bem a cara de RI não são anunciadas. Acredito muito na importância de estar no meio, exposto, sendo visto e vendo”, completa.

Primeira missão
Sua primeira missão foi um estágio na prefeitura de Saint Hyancinthe, no interior do Québec, no Canadá. “Eu era o homem de contato com a prefeitura de Cascavel, que tinha um acordo de troca de tecnologia e investimento com eles na época. Foi minha primeira experiência na área governamental, ligada também a negócios”, lembra.

Chegando ao Ministério de Economia no Québec, durante o inverno de 2008 (Arquivo Pessoal)

Além de ter se identificado com o trabalho, foi uma oportunidade de aprender francês. “Também tive um retorno pessoal fantástico. Morava sozinho e tinha de me virar com uma bolsa-auxílio de US$ 1 mil. Foi um bom aprendizado.” Nessa fase, passava a semana com os colegas de trabalho e, aos fins de semana, ia para Montreal: lá se hospedava em albergues e conheceu gente do mundo inteiro.

Escolha certa
Para José, uma das vantagens da multidisciplinaridade da carreira é que ela abre muitas possibilidades. “Para se dar bem nessa área, o profissional de RI tem que ser capaz de absorver uma quantidade enorme de informações e discernir o que serve para ele ou para a organização em que trabalha. 
É como participar de uma mesa de negociação bilateral com vários interesses 
em jogo”, diz. É essencial estar aberto a entender mais de um ponto de vista, defende José: “Por isso, a capacidade analítica desenvolvida durante o curso da FAAP foi muito importante para mim”.

Com a equipe do Escritório do Governo do Québec e a então ministra de Relações Internacionais do Québec, Monique Gagnon-Tremblay (ao centro), em 2011 (Arquivo Pessoal)

Ficar longe de casa e da família ou participar de um evento ou reunião fora do horário de trabalho, segundo ele, são alguns dos desafios diários da profissão. Para evitar problemas, José mantém uma mala de stand-by e algumas gravatas no escritório. “Essa é uma carreira dinâmica. É preciso estar atento às oportunidades e muito atualizado.”

Entenda melhor

Quem faz RI é…
Bacharel em Relações Internacionais ou internacionalista.

Como é o mercado?
A diplomacia é uma das áreas mais prestigiadas da carreira, mas há muitas outras opções. Setores internacionais de governos, embaixadas, consulados, organizações internacionais, câmaras de comércio, empresas do setor financeiro, consultorias, multinacionais, jornalis-mo e terceiro setor são algumas das possibilidades de mercado.

O curso de RI na FAAP
É multidisciplinar, baseado em três pilares: política, direito e ênfase em economia. Para reforçar a grade, a FAAP implementou em 2013 uma série de aulas complementares, que abordam temas como criatividade, técnicas de persuasão e debates. “Isso permite ao profissional dialogar de forma mais completa”, explica Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais.