Ao longo de quase meio século, o curso de design da FAAP já formou diversos alunos que despontaram no mercado, aplicando suas habilidades nas mais variadas e surpreendentes áreas - da gastroperformance ao design social

“Os que se encantam com a prática sem a ciência são como os timoneiros que entram no navio sem timão nem bússola, nunca tendo certeza do seu destino.” A frase, dita por Leonardo da Vinci, sintetiza a proposta da FAAP para os cursos de Design Gráfico e de Produto, que completa cinco décadas no próximo ano. “O aluno aprende a pensar de forma orientada à solução de problemas”, explica Fabio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas, que reúne os dois cursos de Design, entre outros. “Mas o fazer sem o conceito é um trabalho braçal. Por isso, oferecemos uma base conceitual forte, que começa com o aprendizado dos processos manuais.”

Essa base sólida se forma nos dois primeiros anos: neles, não há separação entre as áreas gráfica e de produto – só no 5º semestre o aluno opta por uma delas e passa, a partir daí, a desenvolver projetos específicos. “Nesse início, focamos a compreensão do processo do design como um todo e estimulamos a experimentação”, diz Milton Francisco Jr., coordenador do curso de Design. Durante esse período, os alunos aprendem técnicas tradicionais, como a impressão na pedra, na madeira, em metais, entre diferentes materiais, para que possam vivenciar a materialização do objeto e entender o processo todo. “Ter esses dois anos para experimentar faz toda a diferença. Assim dá para você descobrir de verdade o que quer fazer”, diz a Andrea Sacerdote, 21 anos, hoje no 6º semestre de Design Gráfico. “Sempre gostei de criação e de desenhar, mas eu não tinha conhecimento para fazer essa escolha no começo do curso.”

TRADIÇÃO

A FAAP foi uma das pioneiras a oferecer o curso de Design no Brasil, em 1967. De lá para cá, formou vários profissionais que vêm se destacando no mercado, como Fernando Prado e Paula Dib. “Foi essencial ter a opção de explorar as possibilidades das oficinas, que eram maravilhosas. Lá me apaixonei pela profissão antes de ter as disciplinas mais técnicas”, diz o premiado designer Fernando Prado, formado em 1995, diretor criativo da Lumini, que tem em sua estante as estatuetas do Red Dot Best of The Best, iF Gold, Good Design, Design Plus, German Design Award e Museu da Casa Brasileira.

Na faculdade com professores – profissionais de destaque no mercado – , e com os técnicos dos laboratórios, que me davam dicas preciosas de como materializar os objetos. O tempo todo eu era desafiada a desconstruir meu pensamento e a experimentar. Foram os melhores anos da minha vida – Paula Dib, designer social

Essa estrutura da FAAP é, de fato, sempre apontada pelos alunos como um dos maiores diferenciais da Fundação. Suas instalações abrigam seis oficinas superequipadas, como de xilogravura, serigrafia, cerâmica, metais e madeira, nas quais os alunos, com a ajuda de experientes técnicos, executam suas ideias e experimentam. “Visitei algumas faculdades que tinham oficinas, mas nenhuma se compara à FAAP. Ter uma fundição, que nos permite fazer moldes de produtos, é fantástico”, diz Lucas Balog, 23 anos, que está no 5º semestre de Design de Produto. “A infraestrutura aqui é realmente ímpar. Na oficina de marcenaria, por exemplo, consegui projetar uma bandeja que pode ser reproduzida em larga escala”, conta Ariel Cordoval, 22, aluno do 7º semestre de Design de Produto e um dos vencedores do concurso interno promovido pela fabricante de utensílios domésticos Rojemac.

Foi essencial ter a opção de explorar as possibilidades das oficinas, que eram maravilhosas. Lá me apaixonei pela profissão antes de ter as disciplinas mais técnicas – Fernando Prado, diretor criativo da Lumini

Graças a esse DNA do curso, voltado para a experimentação e para a solução de problemas, o estudante tem a oportunidade de desenvolver ao máximo sua potencialidade criativa, gerando uma reserva de conhecimento. “Em nossa proposta, em vez de pensar em disciplinas, priorizamos a formação do profissional para o mercado”, afirma Righetto. O ensino de design tradicional ainda se baseia nos conceitos da Bauhaus (escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda fundada em 1919, na Alemanha), que promove a inovação por melhoria, o aperfeiçoamento do que já existe. “Mas depois da revolução da qualidade de 1990, com a criação dos ISOS 9000, houve uma equiparação e os produtos passaram a ter mais ou menos a mesma qualidade e preço”, complementa o diretor. “Para haver diferenciação, passou a ser necessário inovar por ruptura, criar novas soluções e produtos que atendessem necessidades e desejos.” O fundador da Apple, Steve Jobs, exemplifica bem essa onda de inovação – ele revolucionou a maneira como as pessoas ouviam música com o iPod, criando um dispositivo que dispensava o uso da mídia (CDs).

Claus Lehmann

Esse movimento de mercado se refletiu na grade curricular a partir de 2000, com o fortalecimento da interdisciplinaridade – a cada semestre, o aluno é desafiado a usar o conhecimento de diversas disciplinas em um trabalho prático. Os alunos do 1º semestre, por exemplo, tiveram que criar jogos de tabuleiro, usando os conceitos de várias matérias para o trabalho da disciplina de Iniciação ao Projeto. Além dos jogos e da embalagem, eles fizeram um teaser em vídeo, um cartaz e registraram todo o processo. No grupo das alunas Marina Savaya, 27 anos, e Pamela Zehil, 20, a escolha foi por um jogo em que diferentes organizações criminosas disputavam territórios. No cartaz, um QR Code trazia as regras do jogo. Da impressão do tabuleiro às peças feitas em uma impressora 3-D, passando ,pelo roteiro do jogo, tudo foi pensado por elas. “Esse trabalho me ajudou a ter certeza de que o design é a profissão certa para mim e entendi que o campo de atuação da profissão é amplo”, diz Marina.

O aluno aprende a pensar de forma orientada à solução de problemas. Mas o fazer sem o conceito é um trabalho braçal. Por isso, oferecemos uma base conceitual forte, que começa com o aprendizado dos processos manuais – Fabio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas

Exercitando essa forma de pensar, o aluno consegue desbravar áreas que muitas vezes ainda não existem no mercado formal de trabalho. Exemplo disso é Simone Mattar, que começou a trabalhar com food design no fim da década de 80 no Brasil. Ela é uma das pioneiras na vertente e é uma referência mundial na gastroperformance, uma experiência gastronômica e artística que envolve comida, ambientação, música, artes cênicas, de forma a promover a reflexão. As atuações de Simone, na gastroperformance, Paula Dib, no design social, Fernando Prado, com o design de produtos para a iluminação, e Ana Naccarato, 22 anos, aluna do último semestre, que desenvolveu uma nova matéria-prima para substituir resinas feitas a partir do petróleo por uma substância biodegradável, usando como material a borra de café e o óleo de mamona, mostram como o curso da FAAP é abrangente, oferecendo um amplo leque de possibilidades de atuação no mercado.

POTENCIALIDADE MÁXIMA

Nesses quase 50 anos de vida, o curso de Design já passou por várias mudanças e atualizações curriculares para manter o pioneirismo. Além da interdisciplinaridade, conceitos como sustentabilidade, design social e o papel do design dentro das empresas também passaram a fazer parte da grade. A instituição se mantém também afinada com o mercado através de eventos, como a Semana do Design, que acontece todo ano e traz uma infinidade de workshops e palestras com profissionais de mercado. Na última edição, a FAAP recebeu Mario Fioretti, ex-diretor de Inovação da Whirlpool que tem no currículo mais de 1 milhão de produtos lançados, Ellen Lupton – curadora do National Design Museum, em Nova York – e o designer gráfico Michel Bouvet, famoso por seus cartazes (é dele o pôster lançado em comemoração ao bicentenário da Revolução Francesa).

O design que aprendi na FAAP era muito multidisciplinar e isso mexeu com a minha forma de pensar – Simone Mattar, ex-aluna e referência na Food Design

A FAAP também soma pontos ao ter no corpo docente professores que estão inseridos no mercado de trabalho. O próprio diretor Fabio Righetto – formado, inclusive, na FAAP – está à frente da Domus Industrial Design, que desenvolve uma variedade de produtos, que vão de óculos esportivos a máquinas de lavar inteligentes para distribuição no Brasil e no exterior. O professor de Design Gráfico Claudio Ferlauto, ex-colunista do jornal Estadão e um grande nome da tipografia, tem um estúdio de design. Já o professor Alexandre Jubran, premiado colorista e desenhista, contribuiu com a edição americana da Marvel do Demolidor, entre outros, e é autor de livros. “O fato de contarmos com professores que atuam no mercado e com técnicos experientes nos laboratórios, e de sermos desafiados a encontrar soluções inovadoras, nos permite experimentar o design em sua maior expressão”, diz Giovana Stefanelli, 19 anos, aluna do 3º semestre. “E isso é tudo!”

Claus Lehmann

PELO BEM DE TODOS

Graduada em 2000, Paula Dib sentiu na pele as transformações que o design passava com a mudança da inovação por melhoria para o modelo por ruptura. Lastreada pela sólida formação humanística e pela base de processos que acumulou na FAAP, ela abraçou o design social. “Na faculdade eu era monitora dos laboratórios e convivi com professores – profissionais de destaque no mercado – , e com os técnicos dos laboratórios, que me davam dicas preciosas de como materializar os objetos. O tempo todo eu era desafiada a desconstruir meu pensamento e a experimentar. Foram os melhores anos da minha vida”, diz Paula, vencedora em 2006 do Young Design Entrepreneurs of the Year, prêmio internacional do Consulado Britânico e homenageada do Prêmio Trip Transformadores, em 2013. Desde 2003 à frente do Trans.forma, Paula promove o resgate da cultura de diferentes regiões para alinhar habilidades locais a oportunidades de mercado de forma sustentável. Um exemplo disso foi seu trabalho no sertão do Cariri, no Ceará, região que tem cinco séculos de tradição em artigos de couro. A manufatura de sapateiros, transmitida de pai para filho, estava ameaçada pela produção industrial. Ao conhecer a comunidade, Paula apoiou a empresa Caboclo, que exportava sapatos de couro para a Europa, e pôde dar tempo de produção ao artesãos. Assim, em vez de agressivos tratamentos químicos, eles passaram a usar um método isento de cromo para curtimento do couro e adotaram pneus usados para fazer o solado. Atualmente, a Caboclo exporta esses produtos para países da Europa e Ásia. “Sou uma articuladora social”, define Paula.

TALENTO EXPORTAÇÃO

Famoso internacionalmente pela sua produção de cartazes e curador da Fête du Graphisme (Festival do Design Gráfico) de Paris, o designer francês Michel Bouvet ficou surpreso com a produção dos alunos da pós-graduação em Design Gráfico durante sua visita à FAAP em 2014 – ele já havia estado na Fundação em 2009 para inaugurar o curso da pós. Por conta da qualidade dos trabalhos, Michel indicou o curso para participar como convidado do mês da mostra de design gráfico Mois du Graphisme, na cidade de Échirolles, na França. A Fundação foi a única faculdade brasileira convidada a expor a produção de seus alunos na mostra, que ficou em exibição até 2015.

Participaram da exposição dez alunos da pós, com alguns convidados da graduação, que teve como tema Cidades da França. À FAAP coube representar Estrasburgo em cartazes, que foram desenvolvidos sob orientação do professor Carlos Perrone, coordenador do curso de pós em Design Gráfico. “Fiquei encantada com a oportunidade de expor o meu trabalho no exterior e ter essa referência em meu currículo. Isso, certamente, é algo que valoriza o profissional”, disse Gabriela Favre, aluna da pós-graduação.

COMIDA E ARTE

A artista plástica e designer Simone Mattar, formada pela FAAP em 1984, demorou mais de uma década para encontrar seu lugar no mercado. Quando começou a trabalhar com food design, no fim nos anos 80, no Brasil, era muito difícil definir seu trabalho, que não se encaixava no mercado formal. Suas experimentações, que aliavam o pensamento crítico da arte com a materialidade da comida, tendo como arcabouço o design, levou um tempo para serem assimiladas. “O design que aprendi na FAAP era muito multidisciplinar e isso mexeu com a minha forma de pensar”, conta Simone. “Meu trabalho é uma crítica a essa condição mercadológica que exclui o que não se encaixa.” No início de sua carreira, Simone começou a fazer esculturas com comida, que logo ganharam destaque de publicações brasileiras e internacionais. Tempos depois surgiram os convites para criar a identidade visual de restaurantes e de redes, como Barbacoa, América, Fogo de Chão. Depois, ela se reinventou com a gastroperformance, que se materializou com a exposição Como penso como, em 2013. Tratava-se de uma performance artística gastronômica, que envolvia música, iluminação, teatro e ingredientes brasileiros retrabalhados com técnicas desenvolvidas com a ajuda de uma engenheira que trabalhou na Nasa. Com mais de 20 exposições no currículo, para locais como o MoMA de Nova York, ela fez parte neste ano da exposição coletiva JustMad, em Madri, que tinha como tema o desastre de Chernobil, na Ucrânia. Para essa mostra, ela confeccionou uma impressionante nuvem radioativa feita de algodão-doce.