Há sete anos, o cinesta alemão Wim Wenders veio à FAAP para falar de sua paixão pelos filmes e do futuro do cinema

O burburinho era grande no Auditório 1, apinhado por mais de 350 alunos e professores ansiosos pela abertura das cortinas vermelhas. Nem parecia que tudo havia sido arranjado de improviso, pouco antes, quando Wim Wenders resolveu, assim que aterrissou em São Paulo, aceitar o convite da FAAP. Naquela manhã de outubro de 2008, o cineasta alemão – celebrado por trabalhos como Paris, Texas, Asas do desejo e o recente documentário O sal da Terra, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, que concorreu ao Oscar 2015 – foi direto do aeroporto para o campus. Por quase 2 horas, inabalável, conversou com a plateia sobre sua paixão pelo cinema, suas convicções e seus heróis.

À época fascinado pelas transformações que a era digital impunha à indústria do cinema, em sua fala o diretor comemorou a liberdade oferecida pelo novo formato. “Quanto mais dinheiro se tem para um filme, menos se pode fazer com ele, já que há um fantasma corporativo ditando regras”, disse Wenders, por trás de uma vasta cabeleira grisalha. “Se o filme custar quase nada, você pode dizer o que quiser. O desafio hoje é falar o máximo possível sem gastar fortunas”, afirmou.

“Foi uma surpresa”, lembra o professor Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing, ao falar do telefonema de Leon Cakoff, fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, então em sua 32ª edição. “Cakoff tinha convencido Wenders, que só ficaria um dia e meio na cidade, a dar uma passada na FAAP para um encontro com os estudantes. Rapidamente organizamos nossa sala de cinema e avisamos os alunos da visita.”

A parceria da FAAP com a Mostra Internacional se mantém desde 2003, com palestras, master classes e workshops ministrados por cineastas, atores e outros convidados do festival. Naquele ano, Wenders recebeu carta branca para incluir na programação os filmes que quisesse, entre eles clássicos de Yasujiro Ozu e François Truffaut, e ganhou o Troféu Humanidade, prêmio concedido pela organização do evento. Além disso, ele rodou em tempo recorde um curta-metragem documental para Mundo invisível, longa produzido pela Mostra.

Quanto mais dinheiro se tem para um filme, menos se pode fazer com ele, já que há um fantasma corporativo ditando regras — Wim Wenders

Durante sua passagem pelo campus, o alemão autografou os pôsteres de seus filmes no acervo da Filmoteca, composto de mais de 7 mil cartazes. “Foi emocionante”, afirma Maximo Barro, curador da Filmoteca.

Respondendo com paciência e atenção às perguntas dos alunos, Wenders ainda abordou a naturalidade dos erros (“o filme perfeito é chato”), a importância do trabalho em equipe (“o prazer e a beleza do cinema está em compartilhá-lo”) e o futuro incerto da indústria cinematográfica, sobre o qual nutria ao menos uma esperança. “Mesmo com todas as mudanças, tomara que possamos continuar pelo maior tempo possível vendo filmes como se deve: em uma sala escura, sentado na poltrona, junto com outras dezenas de pessoas.”