Quando criança, Paulo Nigro já fazia reciclagem pelas ruas do bairro. Formado em Engenharia Mecânica na FAAP e CEO da InterCement, ele se tornou um executivo obcecado pelo equilíbrio ambiental

Com gestos suaves e uma calma inabalável, realçada pela postura vigorosa e saudável de quem pratica esportes desde a infância, Paulo Nigro explica como um graduado em engenharia mecânica pela FAAP se transformou em um executivo com perfil de vendas obcecado pela responsabilidade ambiental. O CEO da InterCement, no momento da entrevista ainda presidente do laboratório farmacêutico Aché, aparenta pelo menos uma década a menos que seus 54 anos.

Aos 18 anos, vindo do ensino profissionalizante, foi pedir bolsa em um cursinho universitário. Ouviu como resposta que, se trouxesse outros dez alunos da escola técnica, poderia estudar de graça. “Perguntei: e se eu conseguir 20? Ganho a bolsa mais o valor de uma mensalidade em dinheiro?” Com um acordo para o desconto de 10% para quem citasse seu nome, indicou 54 novas matrículas e comprou seu primeiro Fusca com a comissão. O dono do cursinho, claro, o contratou para promover sua escola por toda a cidade.

Com Ricardo Voltolini, diretor da consultoria Ideia Sustentável, no 3º encontro anual da Plataforma Liderança Sustentável, no Teatro Cultura Artística, em 2013 (Érico Hiller e Bia Ferrer)

Mesmo com o sucesso e um bom salário logo nesse seu primeiro emprego, Nigro ainda achava que seu negócio era a engenharia. Aprovado na FAAP em 1979, largou o emprego no cursinho e começou um estágio na Philips. Certo dia, enquanto estava circulando pela FAAP num intervalo de aula, notou que uma lanchonete dentro do campus deixara o ponto, e resolveu alugar junto com um amigo uma máquina de café expresso – novidade na época. Venderam 2.500 cafezinhos em um único dia, e tiveram que alugar outra máquina. “Eu abria o café às 6 da manhã, ia para o trabalho, voltava para assistir às aulas da faculdade, fechava o café e seguia para o intensivo de inglês. Chegava em casa uma da manhã, já pensando em acordar quatro horas depois para começar tudo de novo.”

Sou um generalista no sentido de me cercar de pessoas que são muito melhores do que eu em suas especialidades – Paulo Nigro

A carreira de engenheiro mecânico ficou de vez para trás quando um colega do curso de inglês, diretor da indústria química e fabri-cante de gases sueca Aga, praticamente o obrigou a assumir sua área comercial. “Ele me dizia: ‘Você não é de fábrica, você tem que vender, vem trabalhar comigo’. Estava certo. O que gosto mesmo de fazer até hoje é vender.” Cinco anos depois, entrou na Tetra Pak para ser gerente regional de vendas. Chegou a vice-presidente da divisão de embalagens no Brasil, e em 1998 assumia a direção da unidade no Canadá. Foi também diretor-presidente na Itália, onde acabou eleito o melhor líder entre todas as operações do grupo no mundo em 2001.

O TALENTO DOS OUTROS

Apesar das mudanças de rumo, Paulo Nigro continua a carregar ensinamentos da faculdade. Para ele, a característica multidisciplinar do curso de engenharia da FAAP permitiu uma formação mais generalista, focada também na gestão, no olhar dos sistemas como um todo. “Sou um generalista no sentido de me cercar de pessoas que são muito melhores do que eu em suas especialidades”, diz. O engenheiro José Medina Gastim, amigo desde os tempos da graduação, lembra que a turma de estudantes encabeçada por Nigro tinha talentos em cada área. “Um era habilidoso no desenho, outro no cálculo. O Paulo sempre foi craque no contato pessoal, como aglutinador, tanto que foi eleito nosso representante de classe.”

Como líder, ele refuta qualquer sensação de conquista ou satisfação em estar à frente das pessoas. “Não tenho um prazer especial em liderar. A minha realização é melhorar os processos, defender causas justas. Logo percebi que a melhor maneira de fazer isso é assumindo cargos diretivos, para ter voz – e dar voz aos outros – nas decisões.” No tempo que esteve à frente do Aché, um gigante farmacêutico com lucro líquido de R$ 471 milhões em 2014, ele democratizou algumas práticas. Na elaboração do planejamento estratégico para 2030, convidou 70 funcionários em nível de gerência para colaborar. Antes, o planejamento era restrito a um pequeno grupo de diretores.

Paulo sempre foi craque no contato pessoal, tanto que foi eleito nosso representante de classe – José Gastim, engenheiro e ex-colega de Nigro

Mas será possível manter a prioridade da causa ambiental – um de seus maiores objetivos – em um setor completamente diferente, com novos cenários e personagens, depois de duas décadas no ramo das embalagens de alimentos, onde abraçou mais que nunca o
lema de sustentabilidade? Para o novo presidente, a escolha por fugir da sua zona de
conforto foi rejuvenescedora. Nos primeiros 45 dias de contrato, deixou o terno no armário e visitou anonimamente médicos e farmácias de várias regiões do país. Conversou com funcionários, institutos, consultorias e até concorrentes, em um processo de imersão que o fez sentir-se aluno novamente. “O aprendizado energiza o ser humano, faz o cérebro funcionar mais rápido. Estou todos os dias aprendendo um novo nome: desloratadina, tadalafila… sem falar nas questões regulatórias da indústria farmacêutica, de uma complexidade que nunca tinha visto.”

Minha realização é melhorar os processos. a melhor maneira de fazer isso é assumindo cargos diretivos, para ter voz e dar voz aos outros – Paulo Nigro

Pai de três filhas com idade entre 26 e 29 anos, Nigro prevê uma aposentadoria corporativa que o permita retomar a FAAP, dessa vez como professor de pós-graduação – cargo que já ocupou entre 2011 e 2013, e que teve de abandonar por falta de tempo. “Construir algo coletivamente é a minha gasolina. Enquanto tiver fogo, vou dar muito trabalho para essa rapaziada nova que está chegando aí.”

INFÂNCIA RECICLADA
De capacete, acompanhado pelo pai, o pequeno Paulo Nigro olhava fascinado os operários instalarem a parte elétrica de um edifício em construção em São Paulo. Seu Romeu, então corretor de imóveis, pegou alguns restos de fios de cobre espalhados pelo chão e disse ao filho: “Se você juntar um monte desses fios, podemos fundir, separar do plástico e vender no ferro-velho”. Foi o primeiro dinheiro que Nigro ganhou na vida, o suficiente para animá-lo a começar a coletar garrafas de vidro e jornais nos prédios da vizinhança em Santana, zona norte da cidade, vendendo aos carroceiros do bairro.

Levaria algumas décadas para ele perceber que aquilo já era reciclagem, um tema que o destino iria lhe propor outras vezes. Em 1998, uma semana após assumir a unidade canadense da indústria de embalagens Tetra Pak, recebeu uma intimação da autoridade responsável pelos resíduos sólidos em Montreal, irritada com a falta de destinação para 19 containers de embalagens usadas que mofavam no depósito municipal havia dois anos. “Eu, que mal entendia o sotaque quebecois, fui informado que em uma semana os containers seriam entregues no meu escritório, no 45º andar de uma torre de cristal.” A carga teve de ser enviada para uma usina de reciclagem na Suécia, um embaraço que Nigro prometeu jamais repetir.

Paulo Nigro em palestra sobre sustentabilidade na 38ª Semana de Administração na FAAP, em 2009, quando era presidente da Tetra Pak no Brasil (FAAP)

Quando deixou o comando das operações da Tetra Pak nas Américas, no final de 2014, a empresa havia se tornado um case de sustentabilidade empresarial, com um ciclo completo de responsabilidades que vai desde a produção em florestas renováveis até o apoio a cooperativas de catadores de papel. “No Brasil, o Paulo foi um dos protagonistas na articulação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, uma lei que estava morta no Congresso havia quase 20 anos, e que só seria sancionada em 2010 graças ao seu empenho pessoal”, diz Ricardo Voltolini, diretor da consultoria Ideia Sustentável. Até o governo do Canadá o chamou novamente para conversar – dessa vez, convidando o estrangeiro para compor o conselho de resíduos sólidos do país.

TRÊS CONSELHOS (E UM PENSAMENTO) PARA LIDERANÇAS SUSTENTÁVEIS

Nalata

1_ Seja lá o que você faça, procure encontrar uma forma melhor do ponto de vista social e ambiental. Aja sempre de acordo com o que você acredita.

2_ Aplique os conceitos de sustentabilidade de maneira educativa, não punitiva, incentive os que estão ao seu redor a tomarem as decisões corretas.

3_ Escolha uma causa para se engajar. Na universidade de Princeton, nos EUA, 90% dos estudantes que se formam já trabalharam em alguma ONG.

“Não acredito que hoje uma empresa possa ser perene se estiver calcada apenas no pilar econômico. A sustentabilidade de uma empresa passa pelo lucro, mas, se ela não gerar benefícios sociais, ambientais e culturais de volta para a sociedade que compra seus produtos, estará morta em dez ou 15 anos. Quem não estiver preparado dificilmente será escolhido. Imagine o consumidor com um aplicativo que compara a pegada de carbono dos produtos que estão na gôndola via código QR. Essa transparência virá de forma violenta, então a hora de se preparar é agora.”