Diretor do curso de Economia da FAAP por 12 anos, Rubens Ricupero levou para o ambiente acadêmico sua experiência e seu conhecimento de vida pública como ministro e embaixador

Muito atuante nas atividades acadêmicas, Rubens Ricupero – que foi embaixador do Brasil em Washington, Roma e Genebra, e ministro da Fazenda durante a implantação do Plano Real – contribuiu diretamente para que se instalasse uma maior sinergia entre os cursos oferecidos na Economia da FAAP: Ciências Econômicas e Relações Internacionais. Ele foi diretor do curso de Economia por doze anos. “Nosso desafio é formar profissionais com uma visão global. Temos que preparar nossos alunos para o mundo”, defende, com fala gentil e pausada, porém firme, típica de um experiente diplomata.

Com o networking que construiu em 50 anos de carreira, desde que assumiu a direção do curso de Economia, conseguiu facilitar o intercâmbio de pensadores e líderes mundiais com a FAAP, recomendar alunos para estágios no exterior e repassar, em palestras e seminários, informações privilegiadas que recolhe em reuniões com líderes da economia e da política internacional, para as quais é constantemente convidado.

Antes de ingressar na FAAP, de 1995 a 2004, foi secretário-geral da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development), braço da ONU para promover o desenvolvimento dos países pobres. Também atuou expressivamente em Brasília, desde que se voluntariou, em 1961, para ser transferido para a então recém-inaugurada capital do país. Após assumir postos em consulados em Viena, Buenos Aires, Quito e Washignton, foi assessor internacional do presidente eleito Trancredo Neves e assessor especial do presidente José Sarney. No governo Itamar Franco, foi ministro do Meio Ambiente e da Amazônia e sucessor de Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, de março a setembro de 1994, durante a implantação do Plano Real.

As pessoas precisam adquirir o gosto pela leitura. Sem leitura não há educação que possa ter bons resultados

Casado há 54 anos com a pedagoga Marisa Ricupero, com quatro filhos e três netas, ele nasceu no bairro do Brás em 1937, em uma família de imigrantes italianos sem posses. Um filho de serralheiro que conquistou altos postos na carreira diplomática. Hoje, aos 78 anos, se empenha em passar adiante esse “sonho brasileiro” de ascensão social e cultural. Por isso, demonstra encarar a direção do curso de Economia e a presidência do Instituto Fernand Braudel, que promove ações educacionais, como uma missão tão fundamental quanto a dos anos em que atuou nas Nações Unidas.

Como a vida pública o ajudou como professor?
Me deu maior compreensão dos problemas brasileiros, como a questão racial. Sou a favor das cotas, porque de alguma forma precisamos corrigir a injustiça histórica.

Quais são os principais desafios na formação em Economia e em R.I. hoje?
A grande transformação da nossa era é a globalização. Nenhuma pessoa pode viver mais como se o mundo não existisse. Hoje, estudantes de qualquer área sentem que o limite não é mais o país. Temos que prepará-los para o mundo.

As escolas deveriam criar no aluno duas capacidades: primeiro, de pensar por si próprio; e segundo, de se exprimir de maneira clara, objetiva e correta

O que mudou desde que assumiu a direção do curso de Economia?
Vejo uma grande renovação. Quando cheguei já existiam os cursos de Ciências Econômicas e de Relações Internacionais, mas caminhavam separados. Nós procuramos explorar a sinergia. Hoje, o primeiro tem uma dose grande de conteúdo sobre globalização, e o curso de R.I. tem mais economia. Essa visão está de acordo com a internacionalização da FAAP, que atrai mais estudantes de outros países e envia nossos alunos ao exterior.

Como preparar alunos para atuar no mundo?
Com debates sobre o que está acontecendo agora no Oriente Médio, viagens de estudos [a próxima será para o Irã], trazendo pensadores e líderes para dar seminários. O nosso grande esforço é a criação de uma mentalidade global. E temos sido recompensados porque nossos alunos formados já se destacam em trabalhos no exterior. Agora estamos fechando um convênio com o consulado do Brasil em Genebra, por exemplo, para os alunos estagiarem por lá. A embaixadora Maria Nazaré Farani me procurou depois que uma aluna nossa fez um estágio voluntário lá.

O seu networking tem repercussão na faculdade?
Muitas vezes uso minhas relações pessoais para recomendar alunos para estágio no exterior, para trazer pensadores ilustres para uma palestra na FAAP, por exemplo. Tenho uma grande ajuda do embaixador Sergio Amaral, que dirige o Centro de Estudos Americanos da faculdade.

O que pensa sobre a educação no Brasil?
O problema central é melhorar a qualidade. Ninguém consegue compreender o Brasil de hoje se não lembrar que o país entrou no século 20 com um índice de analfabetos de 85% da população, enquanto os países avançados já tinham um nível de analfabetismo muito baixo. Nós começamos com um retardamento enorme. Em um primeiro momento, tivemos de dar prioridade à universalização da escola fundamental, coisa que só se atingiu há poucos anos, no final do governo Fernando Henrique. Até hoje lutamos com o problema da qualidade.

Como se aumenta a qualidade?
A educação precisa se tornar uma questão obsessiva, como aconteceu com a desigualdade. Os governos do Lula e da Dilma deram muita ênfase ao combate à desigualdade. Estamos longe de um estágio satisfatório, mas pelo menos hoje temos programas como o Bolsa Família. Com a educação deveria acontecer o mesmo. Quase todo mundo no Brasil já descobriu que a educação é um problema central. Ainda não conseguimos encontrar fórmulas de êxito. Porém, há um esforço inegável dos governos para melhorar o ensino. O problema da educação passa também pela modernização dos métodos de ensino. Professores brasileiros, em sua formação, não aprendem técnicas para promover interação, leituras e debates.

O que deveria mudar no método de ensino brasileiro?
Falta tornar o currículo menos enciclopédico e mais centrado no essencial. As escolas deveriam criar no aluno duas capacidades básicas: primeiro, de pensar por si próprio; e segundo, de se exprimir verbalmente e por escrito de maneira clara, objetiva e correta. Temos de ensinar as crianças a falar e a escrever. Tenho dito aos nossos alunos que saber se expressar de forma clara é meio caminho andado. Infelizmente a maioria não sabe. As pessoas precisam adquirir o gosto pela leitura. Sem leitura não há educação que possa ter bons resultados.


O que o senhor ainda quer fazer na educação?
Gostaria de ter participado de um projeto de curso secundário, porque é na adolescência que se pode formar e abrir a cabeça das pessoas. Por isso, eu me interesso muito pela experiência que o professor Henrique Vailati Neto está fazendo [no Colégio FAAP de Ensino Médio]. Para mim já é um pouco tarde. Mas não desisti da ideia de montar um laboratório de redação para ensinar os estudantes a se exprimir melhor.

LADO A LADO

O vice-diretor Luiz Alberto de Souza Aranha Machado trabalha há dez anos com o embaixador, à frente do curso de Economia da FAAP

“A respeitabilidade internacional que o embaixador tem, além da cultura geral e sua capacidade de argumentação, é impressionante. E com uma vantagem: ele é muito simples. Recebe convites para eventos com os líderes mais influentes do mundo e, quando volta dessas viagens, adora conversar com os alunos. O que é um grande benefício para a faculdade, porque ele chega com informações importantes, que ainda não foram veiculadas pela imprensa. Na aula inaugural deste ano, por exemplo, a análise que fez do que ele chama de ‘islamização da agenda’ foi espetacular.”

CINCO FUNDAMENTOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

1_ Interesse pela diversidade cultural

2_ Capacidade de se colocar na posição do diferente

3_ Não querer levar vantagem em tudo

4_ Defender as posições da parte que representa com transparência

5_ Em conflitos – entre países, empresas ou indivíduos –, buscar a moderação

CINCO HABILIDADES DO BOM ECONOMISTA

1_ Consciência de que a economia deve estar subordinada aos valores éticos

2_ Compreensão de que a economia não é um fim em si mesma

3_ Capacidade de análise dos mercados

4_ Conhecimento de história, sociologia e psicologia social

5_ Criatividade em negócios e em gestão

PARA SER GRANDE

OS AUTORES QUE O EMBAIXADOR RECOMENDA… 

Na infância_ Monteiro Lobato.

Na adolescência_ Julio Verne, Robert L. Stevenson, Charles Dickens, Mark Twain e a autobiografia de Benjamin Franklin.

Na juventude_ Eça de Queiroz, Machado de Assis, Alceu de Amoroso Lima, Tristão de Ataíde; Guimarães Rosa e San Tiago Dantas; os poetas Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral (que foi seu amigo), e o italiano Giacomo Leopardi; os concretistas, sobretudo os irmãos Haroldo e Augusto de Campos; os norte-americanos Ezra Pound, e.e.cummings, William Carlos Williams; o anglo-americano T.S. Eliot e o irlandês W. Yeats; os franceses Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Guillaume Appolinaire, Fernand Braudel, Jacques Le Goff e Georges Duby; os filósofos existencialistas, como Albert Camus; os russos Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov.

Na maturidade_ Balzac e Thomas Mann; os italianos Leonardo Sciascia, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Primo Levi, Natalia Ginzburg; o poeta Charles Péguy; o filósofo Jacques Maritain; o romancista Georges Bernanos e os grandes teólogos.

… E OS FILMES QUE INDICA

• Documentários sobre a história brasileira: Os anos JK, de Sílvio Tendler; Jânio em 24 Quadros; e o recente Getúlio.

• Filmes estrangeiros: Inside Job, sobre a crise financeira; No, sobre o plebiscito chileno; e Network, sobre o poder de manipulação da TV e a globalização.

“Utilizei sempre filmes e documentários nos tempos em que ensinava Relações Internacionais e História Diplomática. Hoje, institucionalizamos a prática. Oferecemos cursos com exibição de filmes seguidos por debates. Ocorrem à tarde e são abertos a estudantes de outros cursos da FAAP.”

LINHA DO TEMPO

1961 – Iniciou a carreira diplomática no Rio de Janeiro, depois foi transferido para Brasília, Viena, Buenos Aires, Quito e Washington.

1984 a 1985 – Foi assessor internacional do presidente eleito Tancredo Neves.

1985 – Assumiu o cargo de subchefe da Casa Civil.

1985 a 1987 – Foi assessor especial do presidente José Sarney.

1987 a 1991 – Assumiu a Embaixada do Brasil em Genebra.

1992 – Presidiu a Comissão de Finanças da Eco 92, Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

1991 a 1993 – Assumiu a Embaixada do Brasil em Washington.

1993 a 1994 – Ocupou o cargo de ministro do Meio Ambiente e da Amazônia, no governo Itamar Franco.

1994 – Foi sucessor de Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, durante a implantação do Plano Real.

1995 – Assumiu a Embaixada do Brasil em Roma.

1995 a 2004 – Foi secretário-geral da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) e subsecretário-geral da ONU.

2005 a 2015 – Assumiu a diretoria do curso de Economia da FAAP, além de presidir o Instituto Fernand Braudel.