Movida a desafios, ela cresceu profissionalmente em empresas como Ambev, Microsoft e Twitter. Dona de uma constante vontade de ir além, ela não só é a atual diretora de negócios do Facebook, mas também mãe de quatro meninas para as quais se dedica intensamente

“O que mais é possível, Gabriela?”, essa foi a última pergunta feita à Diretora de Negócios do Facebook Brasil, depois de duas horas de conversa. Isso porque, aos 39 anos, a executiva já realizou uma lista grande de sonhos e metas – muito mais do que tinha em mente quando se formou em Administração na FAAP, em 2001.

Gabriela recebeu a reportagem da revista em uma sala da empresa, na avenida Faria Lima, em São Paulo. É para lá que ela segue todos os dias de manhã, para liderar um time de 11 pessoas e interagir, diariamente, com clientes como Magazine Luiza, Casas Bahia e Pão de Açúcar.

Sua fisionomia era leve: a paulistana tinha acabado de retornar da África do Sul, onde passou férias com a família: o marido, Luiz Renato Comazzetto, e as quatro filhas: Luana, 12 anos, Giovana, 9, Maria Eduarda, 6 – e Rafaela, 15, sua enteada, que considera filha. “Essa viagem foi de férias, mas viajo muito a trabalho. Quando cai nas férias das meninas, elas vão comigo. As quatro!”, conta a executiva, que já levou as filhas para Singapura, Tailândia e Estados Unidos. “Quando elas estão comigo, consigo focar ainda mais no trabalho. À noite, passeamos. Mostro a cidade, a cultura. Minha mãe me ajuda muito. Graças a ela, pude ter quatro filhas.”

 

Gabriela com os amigos de FAAP, Leticia, Gustavo e Felipe, anos depois de formados

O que mais impressiona ao aprofundar a conversa com Gabriela é constatar que ela realizou muito até esses 39 de sua vida. Conquistou um cargo alto em uma das empresas mais cobiçadas do mundo e parece ter aprendido a equilibrar a vida profissional com a pessoal, para ela tão importante, sem muita complicação. “Quando a gente quer, consegue equilibrar tudo. Acho que a primeira coisa para ter uma família grande, e conseguir ter um cargo relevante, é ter um bom senso de organização. Minha vida pessoal é muito organizada”, explica.

 

Em família: Gabriela, ao lado do marido, Luiz Renato, e das quatro filhas: Rafaela, Luana, Giovana e Maria Eduarda

Quando a gente quer, consegue equilibrar tudo. Acho que a primeira coisa para ter uma família grande, e conseguir ter um cargo relevante, é ter um bom senso de organização. Minha vida pessoal é muito organizada.

Gabriela entrou no curso de Administração na FAAP em 1998, aos 18, depois de ter terminado o ensino fundamental na escola Nossa Senhora Aparecida, em Moema, e de ter ficado em dúvida entre cursar Jornalismo, Direito ou Administração. Acabou escolhendo a FAAP por tudo que já tinha ouvido sobre a Fundação e sobre o curso que escolheu. “Saí da bolha em que vivia, em Moema, com amigos da mesma escola. E tive que aprender a lidar com outras culturas e gente muito diferente. Passei algumas dificuldades e fui tendo que me adaptar e lidar com limitações, por exemplo não falar várias línguas nem ter viajado para muitos países”, reflete.

 

Com os cachorros, Tapioca e Sushi

Logo no primeiro semestre, algo que um professor disse “despertou” a mulher determinada que se apresentaria nos anos seguintes. Foi Tharcísio Bierrenbah, que ministrava as disciplinas de Economia Brasileira e Mercado Financeiro. “Ele me chamou e falou: ‘Gabriela, nunca queira estar na média, pois quem está na média é medíocre. Se esforce para ser diferente’”, lembra Gabriela. “Aquilo mexeu tão profundamente comigo que hoje falo isso para as minhas filhas e vivo repetindo para todos que trabalham comigo. Foi um estalo: preciso construir algo que ninguém está construindo.”

Em seguida, Tharcísio convidou Gabriela para ser monitora da sala. “Sempre escolhi o melhor aluno de cada turma”, lembra o professor, que trabalhou na FAAP por mais de 35 anos e hoje está aposentado, vivendo nos Estados Unidos. “A Gabriela tinha um conjunto raro de qualidades, inteligência e força de vontade. Além de seriedade e de ser uma pessoa muito educada”, recorda o ex-professor. “Ela sempre foi muito além de média, e eu fico feliz em saber que um grãozinho que plantei ficou.”

Durante toda a faculdade, Gabriela, então, foi monitora de mercado financeiro. Uma vez por semana, ficava na FAAP o dia todo. Tirava dúvida dos alunos mais novos que ela. Os ajudava com trabalhos e correções de exercícios. “Algo que me tirou do lugar-comum e me fazia querer ser uma aluna excelente. Foi transformador”, lembra.

Infinitas possibilidades

A executiva cresceu em uma família de classe média estruturada, com pai e mãe casados e uma irmã mais nova. Tem na mãe um grande exemplo. “Quando era criança, poucas mães de amigos trabalhavam. E minha mãe sempre trabalhou muito. Era professora de educação física e eu tive nela um exemplo de mulher independente”, conta Gabriela, lembrando que o pai era a pessoa que estudava com ela, quando precisava de uma ajuda. E que ambos pediram que ela, o quanto antes, conseguisse um trabalho, para ajudá-los a pagar as despesas da faculdade.

Depois de participar de um processo seletivo, Gabriela agarrou a primeira oportunidade: atendimento ao cliente no Itaú Seguros. Ela conta que esse trabalho lhe deu uma boa base de empatia e paciência. “Aprendi a respirar e a buscar soluções rápidas e eficazes para as pessoas, quase sempre muito aflitas, que estavam do outro lado.” Depois de um ano, saiu da seguradora para procurar algo na sua área.

Sigo não querendo estar na média. E procuro passar isso para as minhas filhas e para todos que convivem comigo

Era 1999 e Gabriela viu, no mural da faculdade, um programa de estágio no fulano.com.br. O site foi um dos primeiros do Brasil a apostar em entretenimento –  ficou famoso pelos desafios de perguntas com distribuição de prêmios. Depois de ter feito bicos em outros lugares – até na loja de lingerie de um amigo –, Gabriela conseguiu um estágio na área de vendas do site.

Fazia do café até as apresentações para os clientes. Tornou-se executiva de vendas e permaneceu por dois anos e pouco na startup, onde respondia para a executiva Ana Moisés, hoje diretora de Latam no Linkedin e com quem viria a trabalhar adiante, na Microsoft (leia depoimento de Ana no box da pág. 45). Depois de quase dois anos no Fulano, Gabriela já era uma das poucas executivas brasileiras com habilidade no mercado digital.

A fim de dar um próximo passo e de encarar algo maior, ela decidiu pleitear uma vaga na Ambev. Entrou no processo seletivo da companhia, e passou. Era 2002 e Gabriela começou como supervisora de vendas. Foram quase cinco anos de Ambev. “Aprendi muito. Vivi a coisa da disciplina intensamente. Desde horários muito rigorosos a serem cumpridos até a responsabilidade de ser a dona do meu negócio e ter que gerenciar não só a logística e um time enorme, mas um faturamento gigantesco”, explica ela – uma das primeiras mulheres a se destacar na área de vendas, predominantemente masculina, da empresa. “Eu era nova, tinha toda a energia possível.”

A executiva se emociona ao lembrar do período em que gerenciou uma revenda na zona leste da cidade. “Saía às 5 horas de casa para fazer, às 7 horas em ponto, a reunião matinal com o time todo. Às 6h30 preparava e analisava o material e decidia como operaríamos naquele dia.” Tudo isso acontecia em uma revendedora “no fundão da zona leste”, onde a paulistana vivenciou situações até então desconhecidas. “Crianças no meio da rua, pessoas com problema de saúde, tiroteios. Realidades que me fizeram crescer muito.”

Mais adiante, Gabriela foi promovida e se tornou gerente de vendas. Nessa época, sua vida era 100% trabalho. “Sentia a Ambev correndo nas veias, era algo genuíno, visceral”, conta. Conheceu o marido, Luiz Renato, na empresa. Os dois trabalharam juntos por oito meses, se tornaram amigos, até que ele mudou de empresa, e eles começaram a namorar. Em 2004, casaram-se. “Ganhei um marido e uma filha de 1 ano”, diz Gabriela, se referindo à primeira filha de Renato, com muito carinho. Logo depois, engravidou. E, quando sua primeira filha nasceu, a conta de tantas horas trabalhando chegou, e ela começou a repensar o rumo de sua carreira. “Eu não tinha tido filha pra outra pessoa cuidar. Ela virou minha prioridade. Precisava conseguir equilibrar isso.”

Gabriela então retomou contato com a antiga chefe do Fulano, agora na Microsoft. Em maio de 2006, quando sua filha tinha 10 meses, passou em um processo seletivo e entrou na transnacional de softwares como executiva de vendas. Se adaptou bem à nova rotina – mais leve em termos de carga horária. “Como eu vinha de uma empresa onde números e metas são muito importantes, fui muito bem na Microsoft, ganhei um monte de prêmios.”

A fé da Gabi em si mesma e sua capacidade de trabalho são a prova de que, para quem quer, tudo é possível – Ana Moisés, diretora do Linkedin e primeira chefe da Gabriela

Depois de três meses na nova casa, tornou-se supervisora dos gerentes de contas. Não só assumiu um novo cargo de chefia, como também criou um back office global na companhia – isso trouxe a ela ainda mais prestígio.

Foram nove anos de crescimento constante na Microsoft. “Uma empresa incrível, que capacita demais os funcionários e é muito humana. Mas chegou o momento em que precisava priorizar a minha carreira e fazer um movimento que me desse o crescimento que desejava.” Gabriela decidiu, então, se movimentar novamente. Era 2015, e ela foi conversar com o pessoal do Twitter. Facilmente migrou para lá, movida pelo desejo de trabalhar numa empresa onde responderia para uma chefe americana, que vivia em Singapura. “Um outro aprendizado, uma outra autonomia, uma outra cultura. Precisei desenvolver uma forma ainda mais clara e rápida de raciocinar e de me reportar”, diz.

Depois de um ano e meio na empresa que fez bilhões em seu sistema de 140 caracteres, Gabriela foi ouvir uma proposta do Facebook, com quem já conversava havia alguns anos. “Foi irrecusável”, ela conta, cheia de brilho. “Vim para liderar a área de vendas de varejo, travel, e-commerce e education. Cuido de grandes contas.” Na cartela de seus 65 clientes, estão players como Magazine Luiza, Amazon, NetShoes, Grupo Pão de Açúcar, Ponto Frio, Casas Bahia, EducaMais, FGV, Estácio, Uber, 99 Taxi e GOL Linhas Aéreas.

Para dar conta – e ir além – das expectativas dos gigantes acima, Gabriela tem ao seu lado um time de pessoas com diferentes potências. “Componho meu time com perfis que se complementam. Pessoas que tenham resiliência, porque recebemos muitos ‘nãos’, e uma imensa capacidade de se abrir para o novo, conhecer e testar o tempo todo.”

Mãe Presente

Para dar conta de tanto movimento sem sucumbir, física, mental e emocionalmente, Gabriela tem uma rotina guiada pela disciplina. Acorda às 7h40. Duas vezes por semana, vai à academia. Toma café com as filhas. Chega ao trabalho às 9 horas. E sai, no máximo, às 19 horas, sem pestanejar. “Faço questão de sair nesse horário e cobro meu time para que saia também. Sei como é importante ter vida fora do trabalho”, diz, incisiva. “Janto com as crianças, dou banho e coloco para dormir.”

Na casa de Gabriela, todas as meninas têm iPhone, com contas sincronizadas à dela. Então para qualquer aplicativo que as crianças queiram baixar, aparecem notificações no celular da mãe. “Eu analiso e pergunto por que querem tal app. E outra regra é: tenho que ter livre acesso ao celular delas. Sem invadir, mas monitorando. A tecnologia é um desafio e exige presença”, afirma. Celular na mesa, nem pensar – nem mesmo o dela. “Essa desculpa de ‘ah, eu estava trabalhando’ não serve para mim. Eu quero participar da vida das minhas filhas.”

Definitivamente, Gabriela não está na média. E o que ouviu do professor Tharcísio, aos 18 anos, no primeiro semestre da faculdade, segue sendo um norte em sua vida. “Sigo não querendo estar na média. E procuro passar isso para as minhas filhas e para todos que convivem comigo.” O que mais é possível, Gabriela?

DNA DO SUCESSO
GABRIELA ELEGE AS QUALIDADES FUNDAMENTAIS PARA SE TER SUCESSO NO MERCADO DIGITAL (E EM QUALQUER OUTRO)

1. FOCO E DISCIPLINA_
“São ingredientes fundamentais para que qualquer trabalho seja realmente bem-sucedido. Sem foco e sem disciplina dificilmente alguém se destaca da média.”

2. HONESTIDADE_
“Tudo que construímos na nossa vida é baseado em nossa verdade. A solidez da sua base vai depender do quão honesto, verdadeiro e íntegro, você é. Do quanto sua vida está de fato baseada em seus valores.”

3. EMPATIA_
“Ser capaz de ouvir e perceber o outro realmente, e não estar focado somente em si mesmo. Cultivar pessoas. Se deixar transformar pelas pessoas. Impactá-las positivamente.”

SEMPRE GABRIELA
DOIS AMIGOS DE FAAP CONTAM AS MEMÓRIAS MAIS MARCANTES SOBRE A EXECUTIVA

“Nunca vou esquecer a primeira vez que vi a Gabi. As aulas já tinham começado e ela chega: torrada de sol, de chinelo, voltando da Bahia. Ela era a mais moleca e espontânea. No fim, foi a primeira a se casar, a ter filhos, a despontar profissionalmente. Lembro dos olhos dela brilhando quando entrou no primeiro negócio digital. Sua grande competência foi encontrar um caminho profissional que a possibilitasse viver o trabalho e a família intensamente e com equilíbrio.”

FELIPE MACHADO, advogado

“Sabe aquela pessoa espontânea que nunca faz média com ninguém e é sempre autêntica? A Gabi é assim. Sempre deixou claro o que pensava e para onde queria ir. Nunca tivemos dúvida do potencial que tinha – e ver onde ela está hoje é motivo de orgulho. Essa determinação e obstinação por desafios são marcantes nela. A possibilidade de não dar certo não parece existir. Por isso ela vai tão longe!”

GUSTAVO SARTI, empresário

PARA ELA, TUDO É POSSÍVEL

“Conheci a Gabriela quando ela tinha uns 19 anos e havia sido aprovada para um estágio no fulano.com.br [um dos primeiros sites de entretenimento da internet brasileira]. Ela não tinha experiência alguma. Antes do estágio, ela tinha trabalhado ajudando um amigo que tinha uma loja de lingerie na Lapa, convencendo pessoas a entrarem na loja. Fiquei muito brava com o dono do Fulano por ele ter escolhido alguém para trabalhar comigo sem experiência alguma. Depois de ignorá-la completamente por uma semana, resolvi dar uma chance. Passei a dar a ela as missões mais impossíveis. Ela vencia uma a uma, sempre alegre e pronta para a próxima. Ganhou minha confiança e logo tinha se tornado meu braço direito. Quando a levei para a Microsoft, sabia que seria bem-sucedida, fosse qual fosse o desafio ou o tamanho da posição: ela sairia vencedora. A fé da Gabi em si mesma e sua capacidade de trabalho são a prova de que, para quem quer, tudo é possível.”

ANA MOISÉS, hoje diretora da área de soluções de marketing do Linkedin para a América Latina e primeira chefe da Gabriela